
Revista BRAVO! | Julho/2008
POR GISELE KATO
Entre as tantas exposições que hoje pegam carona no centenário
da imigração
japonesa no Brasil e se empenham em listar os ecos de uma cultura na outra,
a coletiva em cartaz na Pinacoteca do Estado de São Paulo abre
mão dos quase irresistíveis recursos cenográficos.
As 50 telas, desenhos e esculturas destacados do acervo da instituição
pela curadora Ana Paula Nascimento distribuem- se com sobriedade pelas
salas do museu. Não espere encontrar por lá as tradicionais
luminárias de papel, tão comuns na maioria das mostras exibidas
na cidade neste ano. Nem por isso o extenso conjunto, que começa
nos anos 30 e segue até a atualidade, deixa de retratar o espírito
oriental. Aliás, o grande atrativo da coletiva é justamente
perceber essa sensibilidade comum aos artistas, apesar de poéticas
e estilos tão diversos.
A seleção pontua três principais momentos da colaboração nipônica na produção artística nacional. O panorama se inicia com os primeiros nomes ligados à Seibi-kai, organização fundada em 1935 para estimular a criação entre os imigrantes. Com propostas próximas ao do Grupo Santa Helena, que reunia na mesma época artistas como Francisco Rebolo, Fulvio Pennacchi e Aldo Bonadei, os integrantes do Seibi costumavam sair nos fins de semana, quando pintavam ao ar livre. São dessa época as telas de Tomoo Handa, Shigeto Tanaka e Yoshiya Takaoka. Juntos, eles investiam no apuro técnico e recuperavam o gosto pelo fazer pictórico.
No segundo núcleo da exposição, estão os representantes do abstracionismo. Mais conhecidos do grande público, artistas consagrados como Manabu Mabe, Tomie Ohtake e Flávio- Shiró despontaram nas décadas de 1950 e 1960 com uma linguagem até hoje bastante associada à estética japonesa. Em contato com as obras abstratas que finalmente repercutiam no Brasil por meio da recém-lançada Bienal de São Paulo, essa geração soube reduzir os elementos da composição ao essencial, alcançando um resultado forte e cheio de identidade. Sua consolidação definitiva veio em 1959, ano em que Mabe, japonês da província de Kumamoto, levou para casa o prêmio de melhor pintor nacional da 5ª bienal paulistana.
Nipo-Brasileiros no Acervo da Pinacoteca se encerra com os nomes contemporâneos, de descendentes que, mesmo com uma certidão de nascimento em português, se mantêm ainda claramente ligados aos princípios de seus antepassados. Ayao Okamoto, Roberto Okinaka, Futoshi Yoshizawa e James Kudo exploram os mais diversos suportes. O jovem paulista Kudo, por exemplo, apresentou no início do ano, na Galeria Deco, também em São Paulo, uma série de desenhos feitos sobre lâmpadas vermelhas. Foi um sucesso. Muitas das obras expostas agora na Pinacoteca foram doadas ao museu por colecionadores particulares neste ano, justamente por causa da efeméride. Ou seja, há peças inéditas na mostra. Postas lado a lado, apesar da evidente pluralidade, elas compartilham um sentimento: a incansável busca de seus autores por um lugar numa terra tão diferente e tão distante.
ONDE E QUANDO
Nipo-Brasileiros no Acervo da Pinacoteca.
Pinacoteca do Estado (praça da Luz, 2, Luz, São Paulo, SP,
tel. 0++/11/3324- 1000). 3ª a dom., das 10h às 18h. R$ 4.
Grátis aos sábados. Até dia 27.