
Revista BRAVO! | Julho/2008
POR OKKY DE SOUZA COM REPORTAGEM de Marcio Orsolini
Projetos de arquitetura, independentemente da qualidade estética, costumam ter sua importância determinada pelas alterações que promovem no ambiente em que são erguidos. O Museu Guggenheim de Bilbao, na Espanha, colocou essa cidade industrial cinza e sem graça na rota internacional do turismo. Nos chamados Tigres Asiáticos, uma série de prédios muito altos e extravagantes, construídos recentemente, serve para mostrar ao mundo a exuberância econômica desses países e, assim, atrair mais investidores. Nessa linha da arquitetura destinada a influir na vida da cidade, o projeto mais espetacular da atualidade pertence ao arquiteto americano Daniel Libeskind. Ele é o chefeda equipe responsável pelo projeto Marco Zero, que irá erguer uma série de edificações no local de Nova York onde as torres gêmeas do World Trade Center foram destruídas pelos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. O novo Marco Zero, que deverá estar pronto em 2012, inclui uma torre de 540 metros (150 a mais que o Pão de Açúcar) que será o prédio mais alto do mundo. Inclui também um memorial às vítimas dos atentados, um museu e quatro edifícios de escritórios. Já nascerá na condição de um dos principais e mais concorridos pontos turísticos do mundo.
Poucos arquitetos seriam tão adequados para pilotar um projeto que cala fundo nos brios de um povo — no caso, o americano — quanto Daniel Libeskind. Embora figure entre as estrelas que se dedicam aos prédios-escultura, em cujas fachadas os arquitetos materializam suas fantasias artísticas, Libeskind prega que todo projeto tem que ter um significado que não se resume às formas e espaços. A boa arquitetura, para ele, é aquela que, além de beleza, funcionalidade e impacto, abriga uma metáfora. A melhor tradução desse credo, em suas obras, é o Museu Judaico de Berlim, inaugurado em 2001. O prédio estreito do museu, que serpenteia em ângulos fechados em meio a um jardim, evoca orgulho, mas ao mesmo tempo procura fazer com que o visitante relembre o Holocausto e reflita sobre o horror da perda, da ausência e da solidão. “A memória é a chave da arquitetura. Sem ela, não temos futuro”, disse Libeskind, em entrevista exclusiva, ao repórter Marcio Orsolini, de BRAVO!. “Para realizar o Museu Judaico de Berlim e o Marco Zero de Nova York, não precisei pesquisar em bibliotecas, porque eles são parte da minha vida. Eu freqüentava a escola quando as torres gêmeas foram construídas e, claro, conheço Berlim porque grande parte da minha família foi exterminada no Holocausto. São projetos aos quais respondo de uma maneira pessoal, visceral, emocional”, disse ele. Libeskind também assina o projeto do Museu Judaico Contemporâneo, inaugurado em junho deste ano em São Francisco, na Califórnia.
Libeskind nasceu na Polônia, em 1946, filho de pais sobreviventes do Holocausto. Sua família migrou para Israel e, mais tarde, para Nova York. Seu pai era gráfico, e sua mãe, ainda na Polônia, tinha uma pequena oficina de costura da qual ele não tem boas recordações. Vigorava o regime comunista naquele país e com freqüência a polícia visitava a oficina de sua mãe. “Os policiais diziam que ela era uma inimiga do regime porque trabalhava na iniciativa privada”, ele se recorda. Hoje, Libeskind se recusa a realizar projetos para países que vivem sob regimes totalitários, como China, Rússia e algumas nações árabes, hoje um mercado efervescente para os arquitetos mais conhecidos do mundo.
Já em Nova York, Libeskind se naturalizou americano e, formado, tornou-se professor em escolas de arquitetura. Só no fim dos anos 80 ele iniciou carreira como arquiteto. Hoje, seu escritório emprega mais de cem pessoas em Nova York, Zurique e Milão. O projeto do Marco Zero é a coroação de sua carreira porque, além de tudo, simboliza uma mudança cultural ocorrida nos Estados Unidos. Após a comoção nacional que se instalou no país depois dos atentados de 11 de setembro, houve um freio na construção de novos arranha-céus nas grandes cidades americanas. Subitamente, esses prédios imensos se tornaram um pouco assustadores. Nos últimos anos, na esteira do renovado orgulho americano, a construção de arranha-céus foi retomada com força total. Esse movimento acabou por consagrar arquitetos que, como Libeskind, constroem prédios exóticos, que divertem o olhar e alteram radicalmente a paisagem urbana. Fazem parte dessa turma nomes como Frank Gehry, Rem Kool haas e Jean Nouvel.
A Libeskind e aos demais adeptos dos prédios-escultura cabe ainda o mérito de colocar por terra o pós-modernismo, a hedionda tendência que dominou a arquitetura no fim do século 20. O movimento pregava o fim das caixas de vidro do modernismo, as “máquinas de morar”, na definição de Le Corbusier, mas oferecia em troca monstruosidades que misturavam vários estilos do passado, principalmente o neoclássico. Os prédios-escultura também causam horror em muitos adeptos de uma arquitetura mais sóbria e tradicional, mas há neles tanto arrojo e romantismo que é impossível não admirar a imaginação de seus criadores. Essa liberdade de expressão radical do traço vem se firmando como a tendência dominante da arquitetura neste começo de século, e Daniel Libeskind é um de seus mentores mais talentosos.
ONDE E QUANDO
Palestra de Daniel Libeskind no ciclo Fronteiras do Pensamento. No Salão
de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, dia 21 de julho,
às 19h30. www.fronteirasdopensamento.com.br.