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Blog do Celso Frateschi

10/09/2008

Ontem estreamos Tio Vânia no festival Porto Alegre em Cena no Teatro da CIEE.  Um teatro completamente diferente do nosso Ágora Teatro. Sylvia Moreira praticamente refez o cenário para manter o mesmo conceito. Foi como se nos ensaios tivéssemos esculpido nosso espetáculo em madrepérola e agora para a estréia teríamos uma pedra de granito para molda-lo. Claro que conseguir o mesmo efeito seria impossível. A questão passou a ser como construir a comunicação em condições tão diferentes. O trabalho de todos da equipe foi duro, mas creio que conseguimos um bom resultado se o medirmos pela reação do público que lotou o teatro. Esse foi o motivo de não escrever esses dias no blog.

Ficaremos mais dois dias em Porto Alegre e depois trataremos de recriar o nosso “camafeu” para estrearmos dia 19 no nosso querido Agora, onde ficaremos em temporada até o final do ano.

Espero que o espetáculo tenha vida longa para podermos depois viajar para São José do Rio Preto e também por outras cidades, mas isso ainda é cedo para programarmos. Diferentemente de países da Europa, onde os artistas programam suas temporadas por mais de dois anos, aqui no Brasil isso ainda é muito difícil. Eu mesmo, logo terei de me desligar da equipe e voltar para a Funarte para tentar ajudar a resolver problemas estruturais do fazer artístico em nosso país. Confesso que não é um trabalho fácil, pois são muitos interesses em jogo e não é simples construir um projeto coletivo para as artes em nosso país. O exemplo mais recente disso é a reação muito violenta de produtores e músicos cariocas ante as mudanças que a Funarte está realizando no projeto Pixinguinha.

Os objetivos do projeto desde a sua origem foram o de divulgar novos artistas ainda não incorporados pelo mercado através de diálogos musicais entre os mesmos e de divulgar a música popular brasileira fora do eixo Rio – São Paulo.

Há 30 anos, com alguns anos de interrupção do governo Collor aos Governos FHC, foi assim que o projeto se caracterizou. Ao retomar o projeto no inicio da gestão Gilberto Gil, optou-se pela ampliação das caravanas. Na comemoração dos 30 anos do Pixinguinha foi contratado um dos “pais” do projeto como curador, Hermínio Bello de Carvalho, que o estruturou com total apoio da Funarte.

A avaliação do projeto, infelizmente revela uma quase total ineficácia e ineficiência se tivermos em conta os objetivos propostos. Os moldes em que o projeto era realizado, os mesmos de há trinta anos, revelou-se totalmente anacrônico e desproporcionalmente custoso. O ingresso de cada cidadão que assistiu aos espetáculos do projeto custou  à Funarte aproximadamente R$ 40,00, sem contar os custos que ficaram por conta dos parceiros locais, o que aumenta significativamente o preço per capita.

Estranhamos e lamentamos a virulência das declarações publicadas pelo Globo, mas não dá pra ser leviano e manter uma estrutura que se por um lado beneficia um pequeno grupo de músicos e produtores cariocas, prejudica pela sua estrutura anacrônica, a execução de seus próprios objetivos de origem, quais sejam, a oportunidade para novos talentos e a circulação dessa produçao. Sabemos da afetividade que grande parte dos músicos que participaram do projeto, nutre por ele. Mas a política pública não pode e não deve se guiar por esse tipo de critérios. Se o objetivo é revelar novos músicos e ampliar a descentralização das atividades musicais, decididamente a estrutura do Pixinguinha precisava ser mudada e adequada às características da atual produção cultural do país. Na área da música, novas tecnologias e novas mídias estão transformando toda a produção, a difusão e a fruição artística. Acorrentarmos nossos paradigmas às antigas caravanas é um despropósito.
Estranhamos o fato de músicos que transformaram e enriqueceram a nossa produção artística mudando nossa forma de ver o mundo, se prendam agora a padrões tão ultrapassados negando qualquer possibilidade de mudança. na estrutura do projeto por razões tão frágeis como as reportadas na matéria.

Parece-nos evidente que as mudanças propostas, tendem a eliminar o paternalismo estatal absurdo herdado do período militar e dominante na estrutura do antigo Pixinguinha. Parece-nos bem mais republicano envolver a produção do conjunto dos estados brasileiros ao invés de apenas a produção eixo Rio – São Paulo com a concessão de uma ou outra exceção. Parece-nos igualmente mais correto o Estado fomentar a produção e não realiza-la. Parece-nos igualmente mais correto procurar estimular toda uma cadeia produtiva do que realizar shows para platéias vazias para simplesmente manter uma tradição cultuada apenas por aqueles que dela se beneficiam.

Manter o Projeto Pixinguinha significa transforma-lo estruturalmente. Traição seria mante-lo no mesmo formato que o originou.

Hoje a tarde participarei de uma mesa de debates aqui em Porto Alegre que discutirá os Festivais de teatro.

Os festivais de teatro são quase tão antigos quanto o teatro. Era nos festivais que os gregos se reuniam em gigantescas assembléias para assistirem as tragédias que os revelavam e os aperfeiçoavam nas suas relações. Para os gregos, o festival era uma grande experiência cívica e estética. Desde então não se inventou nada mais eficaz para a difusão do teatro. Talvez por seu caráter essencialmente democrático, (o teatro foi a maior expressão artística da democracia grega), os festivais, por reunirem durante um tempo concentrado vários espetáculos, revelam uma multiplicidade de visões e leituras estéticas que ampliam a nossa percepção. Aqui em Porto Alegre, o Luciano Alabarse, coordenador geral do Festival, comemora a sua décima quinta edição com a certeza que os festivais continuam sendo uma festa cívica e estética que envolve toda a cidade entrando em contato com o que de melhor se produz em teatro no mundo todo.

 

Postado por: Bravo Online | 11/09/2008 - 18:11
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Agosto 2008

Férias na Funarte. Afastei a perspectiva de uma viagem de descanso por uma opção que se bem mais trabalhosa por um lado, por outro confesso que no meu caso é bem mais prazerosa.


Aproveito minhas férias para reciclar a minha alma voltando à minha profissão que é o teatro. Começo a dirigir TIO VANIA, uma das peças mais lindas e mais instigantes da dramaturgia universal. É a terceira vez que visito este texto de Tchecov. Parece que a cada momento da minha vida ele se apresenta com novas provocações que calam cada vez mais fundo. Cada vez que me envolvo com a peça reforço a minha convicção de que não existe nada mais revolucionário que a beleza. E a beleza de Tchecov é essencial, não admite penduricalhos, nada me parece supérfluo.


A minha parceria com Sylvia Moreira na arte do espetáculo, se esmera em cada detalhe do cenário, do figurino e de cada objeto de cena. Consegui reunir uma equipe de excelentes atores e atrizes plenamente envolvidos na construção do espetáculo. O mergulho é total e absoluto, o que quase me impediu de aceitar de assumir esse compromisso com o blog.

 
Durante esse mês vamos conversar sobre vários assuntos: teatro, política cultural, Funarte e o que mais aparecer. Espero que esse espaço seja útil e prazeroso.


Começo colocando algumas idéias que movem essa montagem do Tio Vânia que estréia dia 09 de setembro no Porto Alegre Em Cena e dia 19 no Agora Teatro.

  

Quando sai da secretaria municipal de cultura montamos O SONHO DE UM HOMEM RIDÍCULO de Dostoievski. Nessa ocasião escrevi que há momentos na vida em que se acumulam sobre as nossas verdades, o pó dos tempos. A verdade se solidifica e perde o brilho, o que nos movia adiante passa a nos paralisar e o pó umedecido pelos lamentos, seca numa triste argamassa de certezas que nos petrifica. Romper a estagnação é tarefa dos artistas. Foi esta busca que trouxe  a provocação de Dostoievski. Não possuo as suas crenças, mas desejo a sua inquietação. Busco no seu sonho, ridículo como todos os sonhos, aquilo que rejuvenesce e religa a velhice do contemporâneo ao imaginário da infância da humanidade. Talvez, mais do nunca, necessitemos de um projeto ridículo de nos entendermos como um todo. Talvez ainda sejamos ridículos o suficiente para crer em algumas criações da humanidade como a ética e a estética. Talvez a beleza, mesmo que ridícula, ainda possua algum sentido. Quem sabe as coisas são como são porque as forjamos assim e não por que são inevitáveis e por isso valha pena o ridículo de tentar transforma-las?


Agora é Tchecov que nos provoca com o bom humor desiludido e a crueza dos que amam a humanidade. Sem obviedades, sem penduricalhos de linguagem, com a frieza de um cirurgião, Tchecov constrói seus diálogos revelando a complexidade do homem contemporâneo que se forjava nos finais do século XIX. Buscava a síntese na construção de um teatro sem adjetivos.

Hoje creio que seja possível e necessária a busca de um teatro sem adjetivos. Um teatro que afirme negando e vice-versa, mas totalmente despreocupado com a negação e com a auto-afirmação. Que renda todos os créditos aos nossos mestres traindo-os, amável e respeitosamente que é a forma mais elevada de homenagem que um artista pode prestar ao outro.


Um teatro sem legendas que respeite a criatividade e a inteligência da platéia, que evite a soberba preguiça de que tudo já foi feito e se lance sem rede de proteção na aventura do desconhecido. Que não se limite e nem se intimide com as aparências. Que assuma o homem como seu trabalho. Que perceba que cada época se produz e que o artista se produz ativa, crítica, arriscada e prazerosamente!


Um teatro sem adjetivos.

Apenas uma experiência única e vital de prazer intenso e diferenciado será capaz de levar o cidadão à plenitude do ato teatral.


A indústria da violência tem na TV quem mais se beneficia. O medo de sair às ruas prende as pessoas dentro de suas casas onde reina a TV e a teledramaturgia que realimenta o medo e o apazigua. Este ciclo emburrecedor está longe do fim. Neste embate, o teatro é apenas um bisturi contra mísseis atômicos trans-oceânicos numa guerra injusta e interminável. A missão da gente de teatro é também ética ao recuperar permanentemente a magia inerente à sua arte.   O teatro sem adjetivos necessita ser recuperado e para isso precisa mudar reinventando a sua necessidade voltando à sua essencialidade de prazer e conhecimento, mas visando o terceiro milênio. Necessariamente para poucos é nossa responsabilidade qualificar ética e esteticamente nossos espetáculos. Um bisturi é mais eficiente que um míssil quando atinge cirurgicamente.


TIO VANIA é agora o nosso bisturi. 

 

Postado por: Bravo Online | 02/09/2008 - 13:52
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  • Blog do Celso Frateschi

    O ator e diretor escreve sobre os bastidores de sua nova produção, Tio Vânia, de Tchekov

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