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Blog do Domingos de Oliveira

Memórias

Conheci Joaquim Assis nas contendas contra o catedrático todo-poderoso de Física.

Quando o conheci fiquei tão entusiasmado, foi amor a primeira vista, e chamei todos os Castelas e o apresentei para os demais amigos também. Ele assustava a primeira vista, por conta de um certo defeito de nascença, uma testa diferente das testas comuns. Mas não tinha conhecido antes nunca ninguém tão inteligente. Vocação para matemática e para sabedorias de modo geral. A estranheza logo desaparecia diante do seu pensamento original e da sua música. Quando o Joaquim tocava violão tudo parava. Era uma voz e um estilo totalmente influenciados por Dorival Caymmi e por vezes tão bom quanto. Hoje em dia Joaquim esqueceu todas essas músicas. Eram pelo menos dez, vinte. Não sabe mais cantar, não lembra a letra. De modo que o único que ainda lembra sou eu. A única testemunha, como no caso de um roteiro de Ziembinski que ninguém conhece porque ele narrou só para mim. Mas isso é outra estória. Joaquim cantava assim:

 

“esse amor feito de raiva

é o que eu tenho pra te dar

em troca do teu carinho

em troca do teu olhar

gosto do jeito vadio

que você tem pra me enganar

muito mais do que você

o meu sorriso mais puro

fingindo que não percebo

procurando acreditar...

Você pensa que eu me zango

quando fico sem falar

olhando pro fim da rua

onde a noite é mais escura

mesmo em noite de luar”

 

Ou senão

 

“Esqueça por favor

até meu nome

esqueça e me abandone

que é bem melhor assim

esqueça que eu era tão diferente

e na vida só a gente

importava para mim

nada mais disso interessa

tudo passou tão depressa

você nunca vai lembrar

daquele amor diferente

(...) só a gente

fez o nosso se acabar”

 

Ou ainda

 

“Você dá bola demais

por isso papai não lhe quer

(bis)

tudo o que é demais enjoa

até mulher

vai chorar no ombro do outro

o culpado não fui eu

 

quem botou Mateus no mundo

que embale o Mateus

(bis)”

 

Uma das razões por que Joaquim renegou essas músicas foi por que continuou estudando música e hoje é um excelente regente desconhecido de um coro desconhecido (Avareté) que ele mantém há 20 anos. Mas descubro aqui que a estória que tenho com Joaquim é longa, afinal ele acabou casando com minha primeira mulher, Eliana. Se eu começar a falar dele interrompo os Castelas.

 

 

Dino Menaché, casado com Lolita Puentes era judeu daqueles que não vai à sinagoga mas tem a tradição, o formato e o jeito judaico. Sempre amei os judeus, eu. Talvez porque eu fui arrancado da minha carteira de colégio aos 9 anos de idade e trazido para dento do cinema do colégio para assistir às cenas da entrada dos americanos no campo de concentração de Austwich. Eram centenas de corpos mortos, magros e brancos, sendo arrastados por um trator e sendo jogados dentro de uma cova imensa, uns por cima dos outros. Acho que foi uma ordem do governo Getúlio Vargas, não sei, ou mesmo uma ordem Norte Americana de mostrar o holocausto e todo o seu horror para traumatizar as crianças. Entendo. Esses tapas na cara são bons para a consciência. Sei que minha reação ao anti-semitismo transformou-se em amor e admiração pelos judeus. Tive muitos amigos judeus a vida inteira. Gosto da idade daquela raça, de sua cultura e sua inegável vocação para a inteligência e para a arte. A maioria dos grandes artistas e intelectuais importantes do século XX são judeus. Essa história longa e sem pátria. De Moisés, passando por Cristo até Freud e muito além dão a qualquer vagabundo judeu uma dignidade rara comparada à nossa , do paraíso tropical.

Dino queria ser escritor. Mas ele começou a ganhar dinheiro, ganhou, foi o único dos Castelas que ficou rico, e hoje é um colecionador de estatuetas de Art Déco dos maiores do mundo. E continua querendo ser escritor. Também há muito o que contar, somos amigos até hoje, portanto fazem 60 anos que somos amigos. Tento retratá-lo, se bem que longinquamente, no personagem de Paulo José no meu filme “Juventude”. Porém ainda há muito o que contar desta figura notável, o B. B. Menaché.

Loli na intimidade, Lolita de batismo, tinha pais uruguaios. Dona Lolita, muito simpática, e ele, não me lembro agora o nome, uma figuraça que seria um cantor de tango se o Uruguai fosse a Argentina. Lembrei-me. Era o Fuentes. A família era pobre e Dino acabou por sustentar a todos. O casal chamava a atenção por sua humanidade e pelo amor que nutriam um pelo outro. Dino pegou a Lolita deles. Com quem teve filhos, constituiu família. Loli é até hoje uma doce criatura. Caracterizada por uma visão de mundo generosa, que certamente herdou dos pais. Porém a vejo pouco. É psicanalista, mas largou a psicanálise há muito tempo, mora fora do Rio.

Paulo Schwinger. Era alto e ruivo. O grosso da turma. Educadíssimo, porém grosso, não temos amigos assim? Que se comprazem e orgulham de uma certa dureza de caráter aprendida com a vida dura dos pais. Paulo também era judeu. Anda por aí, mas não o vejo. E acabou casando com a Flavia. Que era a mais mulher dessas adolescentes Castelas. Flavia tinha uma mãe muito forte que escrevia livros sobre os animais. E que tinha cobras e sapos de estimação em casa, pleno apartamento de Copacabana, um verdadeiro terror. Flavia era intensa e impulsiva, nós todos éramos apaixonados por ela. Ciumenta como o cão, exigia dos amigos não apenas amizade, mas também honestidade e princípios. Poucos anos depois ela entraria para a luta armada contra a ditadura. E passaria alguns anos presa. Mas era tão hábil no trato que não chegou a sofrer torturas. Outro dia pedi que ela fizesse um depoimento para uma câmera contando sua vida. Ela fez. Ela viveu em vários países do mundo, em Quênia, na Austrália, em Londres, com vários maridos. Voltou pro Rio já idosa e com um câncer incurável. Que ela curou com grande facilidade. Não é fácil, a Flavia. Entre o primeiro e o segundo marido, tivemos um caso. Fugaz, porém apaixonado. O final eu não esqueço. Eu costumava nesse tempo ter várias namoradas. Não queria me prender a ninguém, dizia que o Don Juanismo era um sentimento cristão, e outras galinhagens assim. Flavia tinha ido naquele fim de semana a São Paulo, era segunda feira e eu esperava a sua chegada semi nu na cama, esperando ansiosamente. Nosso sexo era bom. Quando ela bateu à porta, eu gritei: “entra!”. Ela entrou, mas não passou do umbral da porta para o quarto. E disse: “eu só vim pra te dizer que eu conheci alguém nesse fim de semana, que é o homem da minha vida. E que estou voltando para São Paulo para ficar com ele.” E foi embora sem dizer mais nada. Ensinando-me assim o que é a decepção. Eu cheguei a gostar muito da Flavia. Mas nunca tivemos uma real chance. Personalidades diferentes.

 

Os Castelas representavam a nobilitude da adolescência. De alguma forma, nessa fase é que a vida começa a mostrar sua inflexibilidade, somos todos um pouco reis, príncipes, princesas ou rainhas. Num mundo ideal e colorido onde a moral é soberana e as promessas infinitas. Na verdade, são os hormônios.                 

 

Postado por: Domingos Oliveira | 02/07/2009 - 14:48
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Memória

Onde é que eu estava?

Entre os 20 e 25, na faculdade de engenharia. Grandes salas, corredores, tetos altos e janelas largas. Muita gente burra passeando, andando de um lado para o outro. Chamo de burrice o seguinte: a falta de humildade, de amor ao próximo e de uma noção clara da morte. Pessoas que não vêem o mistério que as cerca, o que é realmente de uma cegueira implacável. Porém a vida está em todos os lugares, até na ENE (Escola Nacional de Engenharia). No Largo de São Francisco, chamado assim por causa da igreja velha que tem lá, onde de vez em quando eu entrava (naquele tempo eu era jovem e me incomodava o fato de Deus não existir).

Dos meus cinco anos na faculdade, lembro muito pouco. A falta de transcendência daquela gente. Sua objetividade doentia. Seu espírito de competição constante, essas coisas me davam angústia, me tiravam o ar. Não posso dizer que tenha sido bom aluno. No terceiro ano da escola, eu já não estudava mais. O mínimo para passar de ano. Cinicamente. Tinha me interessado por física, meu amigo Joaquim por matemática, e como éramos rapazinhos que estavam na idade de ganhar seu próprio dinheiro, abrimos um “cursinho” de vestibular na Av. Copacabana, quase esquina com Constante Ramos. O curso teve quatro alunos e apenas um ano de vida. Passaram os quatro, porém nós desistimos do business. Essa minha estória com meu amigo Joaquim Assis, que ontem fez 75 anos, com quem convivo até hoje, é uma estória muito bela que tenho de contar num capítulo à parte.

Há uns vinte anos atrás, fui ao cinema com Priscilla e de repente vejo de longe uma cara conhecida. Era o Dias, o melhor aluno da escola de engenharia, na minha turma e em qualquer outra. O Dias era brilhante, genial. Tirava dez em todas as provas. Parecia uma vocação para aquilo. O Dias era intocável, para a gente admirar de longe. Agora não, ali quando a luz do cinema acendeu, era um senhor de 50 anos como eu, um pouquinho mais barrigudo, que vinha sorridente na minha direção. Apertamos a mão e ele disse com um olhar arguto que adorava os meus filmes, que precisávamos jantar juntos, essas coisas que se diz. Eu hesitei em fazer a pergunta, porém respirando fundo falei: “E você, Dias, fez o quê?” Ele respondeu com um sorriso: “A ponte Rio-Niterói”. Ele tinha sido autor do projeto e um dos principais responsáveis pela produção. Ou seja, era também um artista. Nunca mais vi o Dias. Perdi o cartão.

Nos tempos da faculdade, eu estava realmente envolvido com o assunto que me envolve sempre: o amor.

Reuníamos sempre na casa de meu amigo Dino Menaché, ou na casa de um de nós, os mesmos seis: os Castelas. Flavia Lobo, casada com Paulo Schwinger; Dino, judeu inveterado cujo verdadeiro nome é Baruh Bernardo Menaché, casado com a filha de uruguaios, a Loli; Eu, casado com Eliana Palafiel, por quem todos tinham se apaixonado mas que ficara comigo. Por que quando amo, sempre fui indestrutível. Foi Flavia que chamou o grupo de Castelas. Não sei por que. Era um título de nobreza, sinal de especialidade e excelência. Um grupo fechado no qual, para entrar, era preciso passar por muitas provas, etc. Não sei descrever aquele clima. Mas creio que é comum entre os adolescentes, os que começam a vida. Considerarem-se especiais. Para que o leitor tenha uma ideia da unidade dos Castelas, conto o “7 de abril”. Numa determinada festa na casa do Dino (ele sempre dava festas quando os pais iam viajar) juntos, numa janela olhando para Copacabana (naquele tempo só tinham edifícios baixos), tivemos a clara noção da fugacidade do nosso encontro. Não ficaríamos juntos para sempre, conforme desejávamos. A vida cruelmente nos separaria. Então juramos solenemente que, acontecesse o que acontecesse, íamos nos reunir naquele dia do ano, todos os anos, no bar do alto do hotel Miramar. Foi um juramento solene. E essa reunião ocorreu durante quase dez anos, com brindes, lágrimas e atas. Sim, atas. Tomávamos notas do que tínhamos vivido no ano anterior, dos desejos para os próximos, dos medos e dos amores. Meu amigo Dino tem até hoje essas atas. Vou tentar conseguir isso. E trago aqui, ou transformo em uma peça de teatro.

A vingança do artista é a sua obra.

Houve Setes de abril com muita gente, namorados, agregados e os Castelas. E na reunião final foi só o Dino com a Lolita. Tomaram um drinque triste, escreveram a ata sozinhos, dando por terminada aquela tradição. Os Castelas.

Os hábitos dos Castelas em seus encontros semanais eram sempre voltados para o sexo. Não que fizéssemos em grupo, porém ao contrário, pelo desejo de fazê-lo. Éramos todos certinhos. Quero dizer, reprimidíssimos sexualmente. E cheios de culpa das mais variadas espécies. Assim sendo, jogávamos muito o jogo da verdade, provocando brigas passageiras porém homéricas e chegamos a jogar o streap poker, no qual o perdedor, como se sabe, vai tirando as peças das roupas na medida em que perde. Mas foi o máximo de libertinagem que os Castelas foram capazes.

Um dia, bem depois, tive um caso de amor com a Flavia. Entre meu segundo e terceiro casamento.

Mas a estória dos Castelas é outro livro, outra vida, outra postagem.

 

Postado por: Domingos Oliveira | 26/06/2009 - 17:49
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Na íntegra ou nada

           Assunto: Cinema e Teatro

         

NÃO SE FALA EM OUTRA COISA NOS SEGUNDOS CADERNOS QUE NÃO SEJA A MODIFICAÇÃO DA LEI ROUANET NO CINEMA E O QUE SE PODE FAZER POR ESTA ABANDONADA E DESPREZADA ARTE MILENAR CHAMADA TEATRO. É A JANDIRA E O FUNDO E A ANCINE E A FUNARJ E O MINC E O JUCA E A ADRIANA E A OS E A DESCENTRALIZAÇÃO. E TODOS CADA VEZ COM MAIS CENTIMETRAGEM NOS JORNAIS. É REALMENTE SENSACIONAL. MAS TAMBÉM É DITO QUE RIO E SÃO PAULO NÃO DEVEM SE PREOCUPAR QUE NADA LHES FALTARÁ. PORÉM NO PONTO PRINCIPAL NINGUÉM FALA. NO ESSENCIAL NINGUÉM FALA. NO CONSEQÜENTE NINGUÉM FALA. NAQUILO QUE PODERIA FAZER DO CINEMA E DO TEATRO CARIOCA EM CURTO PRAZO, UM DOS MELHORES DO MUNDO, NINGUÉM FALA.  ENTÃO, FALO EU. VIVEMOS UM TEMPO DE RECESSO DA CONSCIÊNCIA CRÍTICA E COMO TODA A CONSCIÊNCIA CRÍTICA, PORTANTO RADICAL, DIGO O QUE PENSO NESTE BREVE ARTIGO. MEU OFICIO É DIZER O QUE PENSO.

 

QUANTO AO TEATRO NO RIO DE JANEIRO, SOMENTE HÁ UMA COISA A FAZER! DISTRIBUIR URGENTEMENTE OS TEATROS MUNICIPAIS, ESTADUAIS E FEDERAIS ENTRE DIVERSOS DIRETORES DE TEATRO. COM VERBA PARA MANUTENÇÃO E PARA PARTE NÃO COOPERATIVÁVEL DA PRODUÇÃO ANUAL. COMO ROMA NÃO É FEITA EM UM DIA, O PRAZO DESSA CONCESSÃO TERIA DE SER NO MÍNIMO DE DOIS ANOS. ESTES DIRETORES DE TEATRO, TERIAM, COMO NÃO PODERIA DEIXAR DE SER, LIBERDADE TOTAL. E DE PROGRAMAÇÃO.DEPOIS SEU TRABALHO SERIA AVALIADO, SENDO ELE TROCADO OU NÃO. É PRECISO AO MESMO TEMPO ESCLARECER DE UMA VEZ POR TODAS QUE A CONCORRÊNCIA PÚBLICA É UM DESCALABRO COMPROVADO NA PRÁTICA. COM APARÊNCIA DEMOCRÁTICA, CONSTITUI UM PROCESSO DE ESTILHAÇAMENTO DO MOVIMENTO TEATRAL E DE BAIXA PRODUTIVIDADE. PODENDO SER DITO NO MÍNIMO MESMO, NA INVENÇÃO SINISTRA DOS ‘’GESTORES DA REDE’’. QUEM NÃO CONCORDAR COM ISSO, NÃO ENTENDE DE TEATRO. OU ESTÁ MAL INTENCIONADO. ESSA MÁ INTENÇÃO NÃO ENVOLVE CORRUPÇÃO, O DINHEIRO É POUCO PARA ISSO,E SIM VAIDADE. DESEJO BARATO DE MANTER A MÃO FECHADA, RETER O PODER, TER MAIS PRESTÍGIO, BAJULADORES, ETC. A POLÍTICA DE ENTREGAR O TEATRO AOS DIRETORES É CONSEQÜENTE, PRODUTIVA E TRANSFORMARIA O RIO DE JANEIRO NUM PÓLO TEATRAL DE NÍVEL INTERNACIONAL.  ESSE GRUPO DE DIRETORES, SOBERANOS EM SEUS FEUDOS, DEVEM EVIDENTEMENTE TER UM COMPROVADO PASSADO DE REALIZAÇÕES IMPORTANTES. E UM NATURAL PODER DE AGREGAÇÃO. E ALÉM DISSO DEVEM REPRESENTAR CLARAMENTE, CADA UM DELES, UMA TENDÊNCIA DO TEATRO CARIOCA(TEATRO REVISTA, VANGUARDA, BESTEIROL, STAND UP, TEATRO ERUDITO, COMÉDIA DE COSTUME, TEATRO POLÍTICO, FILOSÓFICO, ETC). DEVEM CADA UM DELES, SABER DA IMPORTÂNCIA SOCIAL DO TEATRO.E SABER QUE ESTÃO LIDANDO COM O DINHEIRO PÚBLICO. ASSIM CADA DIRETOR REUNIRÁ NATURALMENTE OS SEUS COMPANHEIROS DE TENDÊNCIA, DANDO VOZ E ESPAÇO A ELES. E TODOS SERIAM AQUINHOADOS NUMA MEDIDA ADEQUADA AO MERCADO. ESSES SENHORES DE FEUDOS CERTAMENTE REALIZARIAM UMA CRUZADA DIGNA NA ARTE DO TEATRO. ISTO É TUDO, NÃO IMPORTA O NOME DA LEI.E O RESTO É SILÊNCIO. ATUALMENTE, PARA CONSEGUIR UM PATROCÍNIO, É PRECISO PASSAR POR TANTA BUROCRACIA E CONTROLE QUE OS ARTISTAS SENTEM-SE COMO UNS BANDOLEIROS MEXICANOS, TAL A DESCONFIANÇA. POUCAS COISAS SÃO PIORES E MENOS PRODUTIVAS QUE A FALSA DEMOCRACIA. PODEMOS GARANTIR COMO DADO INICIAL, QUE O NÚMERO DE TEATROS OFICIAIS É FRANCAMENTE MAIOR QUE O NÚMERO DE TENDÊNCIAS TEATRAIS, DE MODO QUE A ESTRATÉGIA ACIMA NÃO TEM POSSIBILIDADE DE FALHAR. JÁ FOI PROVADA COM SUCESSO EM OUTROS LUGARES E ATÉ AQUI. É PRECISO TER CONFIANÇA E RESPEITO NOS ARTISTAS VERDADEIROS E AGREGADORES. SABER QUE SÃO O OPOSTO DA IRRESPONSABILIDADE. SÃO ELES QUE FAZEM E ENTENDEM A ARTE. E SEM A ARTE NÃO HÁ SALVAÇÃO.

 

QUANTO AO CINEMA, DEVEM SER ELEITOS PROPORCIONALMENTE A POPULAÇÃO DO ESTADO, DIRETORES. DE COMPROVADA QUALIDADE ARTÍSTICA EM SEU CURRÍCULO ANTERIOR. ARTISTAS ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA QUE RECEBERÃO OS PATROCÍNIOS DISPONIVÉIS. ESCLARECEMOS QUE ISSO NÃO EXCLUI OS PRIMEIROS FILMES DE DIRETORES, COM PASSADO E TALENTO. AO CONTRÁRIO, DEVEM SER ESPECIALMENTE PROTEGIDOS, POSTO QUE COMEÇAR É DIFÍCIL. ESTA IMPORTANTE E DECISIVA SELEÇÃO DE QUEM GANHA O PATROCINIO DEVE SER FEITO POR UMA COMISSÃO NUMEROSA, CONSTITUÍDA INTEIRAMENTE POR ARTISTAS DA ÁREA, PODENDO EVENTUALMENTE CONTER BUROCRATAS OU REPRESENTANTES DO GOVERNO, DE NOTÓRIOS SABER. É IMPORTANTE DIZER QUE NÃO ACREDITO QUE ESTA LISTA DE ESCOLHIDOS ULTRAPASSE EM TODO PAÍS MAIS DE VINTE E CINCO OU TRINTA NOMES. OS PROJETOS DESTES ARTISTAS MAIORES DEVEM SER DECIDIDAMENTE APOIADOS POR TODAS AS ANCINES E MINCS EXISTENTES, SOMENTE ASSIM ELES ESTARIAM CUMPRINDO A SUA MISSÃO. É PRECISO DERRUBAR O MITO QUE CINEMA É INDÚSTRIA. RELATIVIZAR A IMPORTÂNCIA DOS PRODUTORES, COM EXCEÇÃO DAQUELES QUE PENSAM CINEMA COMO ARTE. CINEMA BRASILEIRO NÃO É INDÚSTRIA, É ARTE. SOMENTE ACREDITANDO NESTE CAMINHO, PODEREMOS ABRIR UM ROMBO NA CORTINA DE FERRO DO MERCADO EXTERIOR.

 

 O BRASIL É UM PAÍS DE ARTISTAS. SER BRASILEIRO É SER ARTISTA. É PRECISO MUITA ARTE PARA QUE UM BRASILEIRO MANTENHA-SE DIGNO E HONESTO, COM O CAOS MORAL QUE NOS CERCA. ISSO É TUDO QUE TENHO A DIZER E DISSE. SE POR VENTURA, EM ALGUM MOMENTO, ALGUM DOS SENHORES ME VIREM FALANDO OUTRA COISA, SAIBAM QUE ESTAREI MENTINDO. PROVAVELMENTE, QUERENDO LEVAR VANTAGENS PESSOAIS OU TEMENDO A VINGANÇA DOS PODEROSOS. NÃO FORAM OS PARTIDOS, NEM AS IDEOLOGIAS, NEM AS NAÇÕES OU IMPÉRIOS, NEM OS CANHÕES,NEM OS TRATADOS QUE ESCREVERAM O LIVRO DA HISTÓRIA. LÁ O QUE SE LÊ É O NOME DOS HOMENS.

 

RIO DE JANEIRO, 17 DE JUNHO DE 2009.

 

 

DOMINGOS OLIVEIRA

 

P.S: Sei que minhas idéias encontrarão oposição dos gregos, troianos, espartanos, democratas e republicanos nos próximos vinte anos. A busca da utopia é um método de trabalho.

 

 

Postado por: Domingos Oliveira | 18/06/2009 - 14:31
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Clift

Vejo filmes. E comento rápido. “Freud Além da Alma” de John Houston. Não tem em lugar nenhum, arranjei em cópia pirata. O filme é de 62. O roteiro inicial foi escrito por Sartre e negado pelos produtores. Pode talvez ser encontrado num sebo. O roteiro final obedece ao cinema industrial e o filme não é grandes coisas. Porém contém momentos grandes. Montgomery Clift, grande figura. Ele tinha uma cara só. De um menino assustado, perplexo, prestes a ter uma grande revelação. Com essa única cara conquistou multidões e foi figura relevante na fantasia da minha geração com “A Herdeira” e “Um Lugar ao Sol”, filmes inesquecíveis. O Monty era parecido com o Joaquim Pedro de Andrade, que por sua vez parece John Cassavetes. Ou seja, irresistível. Homossexual conhecido, irritou o machão John Wayne, que se mantinha afastado dele durante todas as filmagens de “Rio Bravo”. Na “Herdeira” de William Wyler, um dos filmes de amor mais sensacionais que já foram feitos, é impecável. E “Um Lugar ao Sol” de George Stevens, levantava questões éticas que confundiram toda a minha geração. Além de ter deixado o mais belo beijo da história do cinema americano.

Em “Freud”, depois do acidente de automóvel que sofreu, estava louco e autodestrutivo. Marilyn Monroe disse: “ele é a única pessoa que conheço pior do que eu”. Foi expulso pela Universal antes do fim do filme, que acabou de qualquer jeito. No entanto, é muito interessante o Freud que ele faz. Vale a pena rever. Os olhos muito abertos, muito assustado com a sua descoberta sobre a alma humana, muito intenso, triste. Dá uma dimensão de fragilidade ao Freud muito pertinente. O filme tem pelo menos uma boa cena. Cena final, onde Freud declina sua teoria sobre a hegemonia do sexo na vida humana, sendo execrado por seus pares na academia. Uma curta cena feita com grande intensidade sobre alguém incapaz de defender seu ponto de vista até as derradeiras conseqüências.

 

 

Continua a discussão sobre quem manda no Teatro Municipal e nos teatros públicos de modo geral. Agora inventaram uma tal de OS, que vai mandar e desmandar, com a presença majoritária de membros do governo, o que pode ser um horror. Mas parece ser um meio de captar dinheiro mais fácil. Bem, não cabe desenvolver aqui, mas o teatro continua sendo absolutamente desprezado e considerado sem importância. Claro, é o último reduto da consciência crítica. E toda consciência é crítica. Não cabe desenvolver esse assunto chatíssimo aqui, no final eles vão mesmo fazer o que quiserem. E a gente vai ter de se defender dentro disso. Destaco apenas duas questões absurdas.

Que todas as pessoas inteligentes sabem que todas as pessoas que estão no poder desconhecem e combatem. Questões óbvias, irritantemente claras, que as políticas governamentais combatem. Não há dúvidas sobre esse ponto. Nem discussão possível para seus oponentes. Que ou são burros, ou mal intencionados.

1.  A cessão dos espaços públicos. Os teatros públicos têm que ser dados, com verba de manutenção e de produção, para os diretores de teatro, com plenos poderes de decisão. Um teatro não é um bordel. Nem uma loja. É uma casa para o artista. Um mar. E tem que ser cuidado como tal. Helena Severo, que depois se perdeu nas tentações da política, a certa altura fez isso. Baseada em exemplos internacionais. Deu os teatros por prazos longos a diretores das mais variáveis tendências. Praticamente todas que havia no mercado. Foi muito atacada, porque com isso tinha negado a concorrência pública, prática usada até então. E também atualmente. Acontece que a concorrência pública, a licitação, é um dos muitos monstrengos da democracia. A democracia é o melhor sistema, mas a primeira coisa que teremos de saber sobre ela é que tem muitos defeitos. A licitação pública dos teatros, na prática, funcionava e funciona negativamente. Dando aos teatros uma rotatividade excessiva, faz com que eles percam a cara e a personalidade. Como não existem vínculos sérios com ninguém, os produtores concorrentes trocavam os teatros do governo pela primeira oportunidade mais vantajosa. De modo que os teatros eram sempre ocupados por esses segundos e terceiros lugares da licitação pública, perdendo assim os melhores espetáculos. Os defensores desse tipo de concorrência alegam indignados até hoje que os teatros não podem se transformar em Feudos de diretores. Isto é uma desinformação crassa. Que destrói o teatro carioca. Não existem mais de oito ou dez tendências teatrais numa cidade como o Rio de Janeiro. Ao entregar os teatros a esses representantes dessas tendências, o Governo está realmente juntando os partidários da citada tendência num lugar só. Multiplicando, portanto, a sua força e importância. Não fica ninguém por fora.

Ocupei o Teatro Planetário, uma salinha com 160 lugares que transformei num point obrigatório da intelectualidade carioca. Meu Feudo era extremamente produtivo. E produzia cerca de três peças por ano com a verba de uma peça normal, cooperativando os atores. Para resumir, fiz nos cinco anos 131 eventos culturais com alta taxa de ocupação. Eu conhecia o porteiro, depois de algum tempo conhecia aquele espaço como conheço a minha casa. E atenção: Como não posso fazer tudo, distribuí o espaço para espetáculos que me agradavam e faziam coerência com os meus. Dos 47 espetáculos teatrais ocorridos nesse período, apenas 13 levam minha assinatura. Portanto, 28% das montagens. O que poderia ser mais democrático? Mas os comunistas empedernidos, os saudosistas, não revisionistas, têm adoração para a concorrência pública.

 

2. No cinema é preciso haver o apoio para o filme feito com recursos próprios, sem patrocínio. Isto é claro como a mais clara água. No entanto, esse tipo de filme é execrado por todas as Ancines da vida e não merecem patrocínio. O dinheiro só é dado se você não começou a filmar. O absurdo chega a esse ponto. É de arrepiar os cabelos. O apoio à iniciativa privada, a quem tira o dinheiro do bolso e arrisca, no agrado do público, evidentemente tem de ser protegido, se seu produto for bom. Sem esse tipo de apoio o cinema permanecerá para sempre esmagado contra o muro da mediocridade. Fazendo a união indecente dos dois conceitos: mediocridade e rentabilidade dos filmes.

Concluindo: Vivemos em terra de cegos onde nem as montanhas altas têm vistas.

A despeito desses absurdos básicos, práticos, dos quais ninguém mais quer falar, continuaremos nós, os artistas, a fazer filmes e peças. Com o cinismo e perseverança saberemos nos imiscuir nos meandros de qualquer filha da puta de uma Lei e, lá dentro, arranjar dinheiro para continuar nossa missão, nobre missão, fazer a arte.

 

 

MEMÓRIA.

 

Tenho 23 anos. Acabo de fazer a última prova do último ano daquela maldita escola de engenharia. Entrego a prova, saio a passos largos, desço as escadarias com a indizível alegria, depois saio pela porta diante do Largo de São Francisco e desço com a dignidade dos meus vinte e três anos os degraus da faculdade. Avanço firme para a frente. Nunca mais, entendam bem, nunca mais eu voltaria lá. Os cinco anos de engenharia foram de quase verdadeiro horror para mim. Não tenho espírito engenheiro. Engenheiro mexe com realidades, concretos, vigas, válvulas. E são tão duros e funcionais quanto essas coisas. Em geral, imbecis que a partir do segundo ano de escola adotam a linguagem técnica para ser usado num papo mais coloquial. Com a finalidade precípua de fazer de idiota os estudantes mais jovens, que não entendem a metade das palavras. No curso do vestibular, ainda gostei. É muito excitante essa concorrência dos jovens para entrar no mundo adulto. Além de que nesse tempo tive meu primeiro surto de paixão pela lógica. Que até hoje continuo a achar “o melhor modo de atingir a verdadeira loucura”. Gostava de matemática, principalmente de física. Em geometria descritiva dava um banho. Também na mecânica, nas derivadas e nas integrais. E o prazer orgásmico quando entendi a síntese Newtoniana e a teoria dos limites. Entrando para a faculdade aos 18 anos, tudo mudou. Iniciando com um ritual do trote, estúpida prática existente até hoje, reveladora do sadismo inerente às sociedades competitivas. Consegui escapar disso quase completamente. Faltando os três primeiros dias de aula. Mas assim mesmo, no quarto, fui posto para andar na rua vestido de mulher se não me engano, com a cara branca de talco. Assim a escola, a famosa ENE, recebia seus alunos. E estava certo. Era um bom trailer do que iria ser encontrado lá dentro. Logo descobri que não tinha talento para o desenho técnico nem para o modo superficial como as coisas eram ensinadas ali. Mas na aula de física, principalmente, eu queria bater no catedrático. O famoso Nunes, dono das estacas Frank. Milionário. Ele ensinava tudo errado, era burro como uma porta. No primeiro ano, quando eu conheci Joaquim Assis. Foi numa aula do Nunes sobre plano inclinado. Eu e mais um rapaz, repetente da última fila, discordávamos do catedrático quanto às leis do plano inclinado. E discutíamos com ele. Logo nos unimos, foi um dos meus grandes amigos, amizade que perdura até hoje, envolvendo muitas aventuras, e tornamos um inferno a vida do Nunes. Ele começava um assunto, nós discordávamos e não deixávamos ele continuar. E, como estudávamos muito, tínhamos sempre a razão. Na contrapartida desse drama universitário, havia um outro professor que adorávamos. Wilmar. Wilmar era uma espécie de filósofo da matemática e da física e calava alto nas nossas pretensões transcendentes. E era um professor desprezado pela reitoria composta pelos Nunes da vida. Quantas vezes nós visitamos o Wilmar em laboratórios desertos ou salas escuras pra que ele nos falasse das ciências e, particularmente, da teoria dos números. Foi com Wilmar que aprendi, por exemplo, que o número 3 é simplesmente um signo do que há de comum entre três árvores, três carros, três dedos, três nuvens... A coisa com o Nunes acabou de modo drástico. Sem que eu nem Joaquim soubéssemos, nossos pais foram chamados à Reitoria para que o Nunes lhes comunicasse que seus filhos eram perigosos e subversivos. Minha mãe ficou preocupada. E era um prato para um adolescente ser obrigado a fazer engenharia por causa da mãe. Que chorava, desesperada, apoiada na calma e sapiência de meu pai, que “filho dela tinha que ser formado, botar anel no dedo”. E, principalmente, mais que tudo, ter direito a prisão especial.

E assim foram se passando os anos dentro da escola. Subindo aquelas escadas, descendo aquelas escadas. Continuo numa próxima postagem.

 

Postado por: Domingos Oliveira | 17/06/2009 - 15:24
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debates, fracasso/sucesso, biografia

DEBATE

 

Esta é uma investida contra uma sagrada instituição: O Debate. Antigamente então, quando todo mundo era de esquerda, o debate sobre as peças, depois das peças, era comum. Também o debate sobre assuntos variados era uma das resistências à ditadura mais usadas e consagradas. Nenhuma iniciativa era realmente prestigiada se não houvesse debate. No Partido Comunista tudo era debatido. Nas instituições democráticas de modo geral, também debatidíssimo. A PLENÁRIA, conjunto de pessoas que debatem, deveria ser soberana e insuspeitável, sendo as decisões desta tomadas como insuspeitáveis e soberanas.

Até hoje, depois de revelada a fraqueza da prática, o DEBATE ainda é muito respeitado. Como o símbolo da participação social.

Pois bem.

O debate é uma besteira. Tentarei explicar como funcionam. Em qualquer nível e a despeito do assunto. Em geral, uma mesa propõe a discussão. Essa mesa é eleita pela Plenária, onde já vem designada pelos organizadores do Debate. A mesa fala seus argumentos sobre o assunto, cada membro tentando ser mais brilhante que o outro. Aí a palavra é entregue ao público. A vaidade sempre guia a Plenária. Esta, sobre rígidas regras, que é para não virar bagunça (tempo, ordem de quem fala, etc). Em princípio, convenhamos, as pessoas tem pouco a dizer. Ou melhor, não estão afim de dizer nada. E sim de fazer boa figura no debate. Em geral, são pessoas muito solitárias, tanto que não tinham nada melhor pra fazer que apareceram ao debate. Aí começa o desfile do besteirol.

Com uma ou outra frase interessante, os discursos vão sucedendo e logo se polarizam. Logo as pessoas do debate esquecem que são contra a ditadura ou outra coisa qualquer, não importa o assunto. Vão ficando um contra o outro. A denúncia daquilo que já está há muito denunciado é a paixão do debate. Pessoas que concordam discutem eloqüentemente, tentando ver quem faz mais sucesso. Quem ganha o debate. Nos primeiros momentos é esquecido o motivo que gerou o debate. É nesse momento que surge O Chato.

O Chato quer contar a sua vida. Falar longamente. Dizer que vai fazer uma pergunta e desenvolver uma cartilha enorme, autobiográfica, da qual ele é sempre a vítima principal. É muito difícil convencer o Chato de que não é o momento de narrar a sua medíocre biografia. Em geral, só quem enfrenta o Chato é o tipo derrotista. Que defende um ponto de vista que é tudo culpa do macro. E que os plenários presentes são burros e não estão vendo isso. Que, enquanto não resolverem a Educação, a Saúde, a Reforma Agrária, o Sistema Social, nada pode ser feito. E aí o debate realmente começa a tender fortemente para o desespero, desespero esse que a mesa tenta resolver com uma votação, que em geral é totalmente estúpida, posto que feita com apenas aqueles poucos que tiveram saco de ficar até o fim do debate. Essa minoria se denomina maioria e vota. Na verdade são representantes da maioria, que saiu para jantar ou para uma foda programada. E a maioria, de Ibsen a Nelson Rodrigues, é burra.

Seria uma bela comédia, o debate. Se não tivesse seu quê de trágico provindo da constatação da impotência quanto ao problema social e, mais que isso, da difícil e improvável comunicação humana.

Não compareça nunca a um debate! Tenha sempre algo melhor para fazer. E se for, traga no bolso seu senso de humor.

Não é para sempre, em geral estipulam a hora de terminar. Além de que, no meio você pode ir embora.       

 

FRACASSO E SUCESSO

Tenho três peças em cartaz. As três apoiadas pelos amigos, inteligência e crítica, de modo geral. Algumas em fim de temporada. Das dez melhores peças da “vejinha”, três são minhas. A Vejinha Rio é um bom catálogo de programas, embora sua “mãe”, a Revista Veja, seja uma das piores do mundo.

Dessas três peças, uma é um fracasso, outra se agüenta mal e mal, a outra é um sucesso.

A primeira é uma peça política, “Confronto”. O espetáculo está direitinho, porém o assunto sofre forte rejeição da platéia. E o boca a boca não se efetua. Quem quer ouvir falar de problemas sociais, em seu momento de lazer? Todo mundo já sabe que a política é uma pizza. Pizza por pizza, é melhor ir comer uma na Capricciosa. A rejeição pela peça política é geral. No cinema o tema ainda se agüenta se for muito bem feito com o Wagner Moura ou o Selton Mello. Cinema tem balas arrebentando peitos, sangues espalhados por todo lugar. Portanto, desafoga a violência, enfim, tem suas vantagens. No teatro, será necessário pensar no assunto. E disso, o espectador foge como o diabo da cruz. Não os jovens, os jovens, os estudantes, os caráteres em formação gostam muito do humanismo que as boas peças políticas contém. Eles são o público alvo. De modo que afirmo aqui: A peça política tem que ser “Projeto Escola”.

A Secretaria de Cultura e Educação tem a obrigação de patrociná-las e oferecê-las de graça aos jovens. Mas atualmente nada é como deve ser. O meu “Confronto” saiu de cartaz ontem, dia 14 de junho. Fracasso. Talvez vá para outro lugar, talvez não vá.

Outra peça, o “Apocalipse Segundo Domingos Oliveira”, não é política, é filosófica. Filosofia existencial. É complicada, sofisticada, porém muito engraçada. Além de que é representada por um entusiasmadíssimo grupo chamado Grupo Fúria. São mais de 40 atores e atrizes! Que sempre levam muitos convidados, que os jovens tem amigos, e obrigam até mãe e pai pagarem ingresso. De modo que esta não é um fracasso. Agüenta-se. Saiu do Teatro Laura Alvim, foi pro Teatro dos 4, e recusa-se a parar. Estão tentando o Canecão. Sem terem absolutamente gabarito para pegar teatro tão grande. Mas pode ser dito que é quase sucesso. A juventude, particularmente furiosa, faz milagres.

A terceira é “Todo Mundo Tem Problemas Sexuais”. Essa tem um assunto que realmente interessa ao público. Sexo. E os atores são magníficos, liderados pelo genial Pedro Cardoso. Embora em cartaz no distante Norte Shopping, não é preciso perguntar qual a bilheteria de hoje: é de 500 pessoas, lotação do teatro.

Quero apenas comentar que o sucesso é, nos dias que correm, uma faixa muito estreita. Tanto no teatro quanto no cinema. O assunto tem que interessar diretamente às pessoas, isto é, tem que ser sexo ou dinheiro. Além disso, raríssimas exceções, tem que ter ator da globo. Outros tipos de espetáculo teriam de ser valorizados pelos governos, que eles também tem dinheiro. Caso contrário, é esta desolação.

O artista? Não deve esmorecer. Deve fazer com dinheiro ou sem dinheiro. Na arte, o milagre não é proibido. E uma real obra de arte subverte valores e pode até dar certo. Já aconteceu muitas vezes. Em cada temporada tem um.

Afinal, tudo o que chegou ao meu conhecimento, chegou porque deu dinheiro. Kafka, Shakespeare, Dostoievski, são encontrados em toda banca de jornal. A boa arte mais cedo ou mais tarde alcança sua glória, que é a banca de jornal. Enquanto não o faz, preconizemos inutilmente a criação de um Ministério da Arte. Ao qual está subordinado o Ministério da Cultura...           

 

DADOS DA BIOGRAFIA

Esse blog promete, no seu cabeçalho, conter uma parte denominada às memórias que contaria a biografia desde o momento em que nasci. Até o “Atualidades”, segunda parte do blog. As atualidades tem tomado conta, não deixando tempo para a biografia, onde já estou com uns vinte e poucos anos. Prometo continuar a tarefa, porém quem quiser ler até os vinte anos, pode fazê-lo neste blog ou no

www.dodomingosoliveira.blogspot.com

É meu trabalho detetivesco tentando, através das poucas pistas que disponho, descobrir quem sou.

 

Postado por: Domingos Oliveira | 15/06/2009 - 10:49
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Woody Allen

Um dos maiores prazeres de minha vida é quando o jornal anuncia um novo filme de Woody Allen. Meu coração bate, sabe que vai encontrar uma alma tão romântica quanto a minha. Não resisto. Estou sempre na pré estréia. Que, por falar nisso, nunca está lotada, como eu sempre imagino que estará. W.A. não é um sucesso de bilheteria em praticamente nenhum lugar no mundo. Sua platéia não inclui os burros. E os inteligentes são poucos.

Woody Allen é quem pensa melhor o mundo moderno. Quando quero compará-lo, lembro de Dostoievski e Brecht. Allen é uma junção impossível desses dois estilos. De Dostoievski, a noção de que o homem é imprevisível, surpreendente. Algo inimaginável. E de Brecht, a certeza de que o paradoxo é o melhor campo de ação para o escritor. É sobre o paradoxo da condição humana que Allen todo o tempo fala.

Para mim, ele é um caso particular. Ele faz um cinema igualzinho o que eu faço. Não na forma, a dele é infinitamente melhor. Mas na linguagem e no conteúdo. Penso tramas de Woody Allen antes que ele tenha pensado. Além disso, conheço todas as música que ele usa. W.A. fazia “Pussycat” ao mesmo tempo em que eu rodava “Todas as Mulheres do Mundo”, que poderia perfeitamente ser um filme dele.

“Sonhos de um Sedutor” (“Play it again, Sam”), 1972, que não é dele, mas é tipicamente dele, poderia ter sido feito ontem. Depois deste, que o consagra como ator, vem uma série de filmes menores, comédias mais convencionais. São as chanchadas do cinema americano. A partir de Annie Hall ele define seu estilo e faz 15 filmes, cada um melhor que o outro, até chegar à matéria deste artigo, o intenso “Maridos e Esposas”, em 1992. Até hoje são cerca de 45 filmes, cada um melhor que o outro. Quem não gosta de Woody Allen está doente do pé.

Cabe observar que o artista já tinha passado por pelo menos quatro inegáveis obras primas (“Zelig”, 1983, onde a realidade é uma ficção; “Broadway Danny Rose”, 1984, que marca segundo penso, o auge de sua paixão por Mia Farrow; “The Purple Rose of Cairo”, 1985, um dos prediletos do autor, um clássico; e “Crimes and Misdemeanors”, 1989, um violento comentário sobre a impunidade, tema ao qual ele retornaria em seus mais recentes filmes ingleses.) Nesta mesma fase, incluem-se suas duas obras “sérias” (“Interiors”, 1978, melhor filme de Bergman e “September”, 1987, onde demonstra que o cinema não precisa de exteriores). A fase 83-89, entre 48 e 54 anos, contem cinco dos filmes citados. Observamos que Woody conheceu Mia Farrow, ex gatinha de Sinatra, por volta de 83. Um homem é aquilo que as mulheres que ele ama fazem dele.

Gostaria de poder dizer que o assunto desse artigo, “Maridos e Esposas”, é o início de uma nova fase do gênio Allen, seria talvez um exagero, mas me parece evidente nesse filme o prenúncio de sua atração pelas moças bem jovens, a escandalosamente sedutora Juliette Lewis. Teenager sex symbol. Nos três anos seguintes, ele faria dois de seus melhores filmes: “Bullets Over Broadway”, o melhor filme de Bertold Brecht, “Mighty Aphrodite”, a reiteração da atração pelas jovens (Mira Sorvino).

Mas deixemos a vida do homem em paz e estudemos a obra, que sempre conta mais que o homem.

“Maridos e Esposas”. Um dos maiores de Woody Allen. A primeira atenção é chamada pelo desrespeito ao “rigor técnico”, câmera na mão e ideia na cabeça, como no cinema novo. Talvez para contar a instabilidade dos casados: Ele com Mia Farrow, Judy Davis com Sydney Pollack, também diretor e figura humana de alto gabarito. Não deveria ser necessário, para falar de um filme, contar a sua estória. Mas no caso de Allen, a dramaturgia é a alma dos filmes. “A partir do roteiro, são tudo perdas”, diz ele. O que ele tem que os outros não tem? Uma capacidade espantosa de reduzir as cenas ao mínimo necessário para contar a estória. E sempre filmá-las de um modo inesperado. Ou seja, uma soberba inteligência voltada para a dramaturgia. Filho direto de Moliére, lanço aqui essa tese.

A maior parte, senão todos os filmes de Woody Allen se baseiam no gag básico de Moliére. No qual eles falam do acaso, esse deus brincalhão. O gag é o seguinte: O autor, cúmplice da platéia, revela para ela e não para os personagens, um grande segredo. A platéia ri do fato de saber mais que eles. Assim é na maioria das peças de Moliére e nos filmes de Woody. Confiram isso.

“Maridos e Esposas” tem como principal aliado sua básica previsibilidade. Dois casais de amigos. Na primeira cena, um deles anuncia que vai se separar (Pollack e Davis) para os atônitos e casadíssimos Farrow e Allen. Sabemos, espectadores, as conseqüências naturais. A ideia da separação contaminará os casados, que se separarão também. No final o casal que se separou volta e os casados permanecem separados. Isto é uma trama clássica que qualquer escritorzinho de novela pode bolar. Porém o desenvolvimento do filme é que denota o gênio do cineasta. Existem dois tipos de roteiristas. Os que partem de uma boa estória e aqueles mais comuns que partem de personagens. Woody Allen tem sempre uma estória ótima na qual enfia, sem trair a narrativa, personagens complexos e raros. Um professor de literatura que acha que a literatura não pode ser ensinada: W.A. Uma mulher descrita como a passivo-agressiva: Mia Farrow. Um homem telúrico mas que no fundo precisa de um lar: Sydney Pollack. Uma histérica e inibida que volta para o ex-marido depois de vivências sexuais mal sucedidas: Judy Davis. O romance de Farrow dá certo e o dele... o protagonista de quem se ri, dá errado. O filme todo é contado a partir dos personagens dando uma entrevista. Não se sabe a quem. Tudo isso é muito engraçado e de uma tristeza indizível. Mas o filme não é bom por nada disso. E sim por outros motivos: É que de vez em quando Allen alça numa escala mágica e toca a membrana do útero do mistério. E as estrelas brilham! É como em Shakespeare. Você vai lendo a estória e de repente aparece um verso que te põe desacordado de tanta beleza. Um filme vale, assim como a vida, pelos seus momentos inesquecíveis. O resto é o trabalho, a humana lida.

Voltando ao filme, sabendo que com sua idade não vai ter sucesso no seu romance com a jovem Lewis, beija-a ardentemente sob o fragor dos relâmpagos de uma tempestade. O primeiro e último beijo. Antes, Lewis, sem cair do charme, perde os originais do romance que ele escrevia, o que significa para um escritor uma facada nas costas. O telúrico Pollack briga com a namorada burra aos socos, coisa avessa ao seu feitio, e invade a sua antiga casa, tendo de conversar com o namorado de sua ex esposa, educadíssimo e nu. E mais uma dúzia de momentos assim, românticos, inesquecíveis e simbolicamente significativos. Que causam a gargalhada, elevam a alma e resultam num sorriso triste.

Este é o destino do gênio W.A. Criar situações que nos explicam o que a vida é: misteriosa, comovente, maior que tudo.

Esse tipo de cena, ao contrário da trama, é absolutamente imprevisível. Acontece quando deus (seja lá isso o que for), toca delicadamente a cabeça do autor. E embora Woody Allen, em seu recente livro de entrevistas, afirme que não é um cineasta importante, que nunca fez filmes sobre assuntos relevantes, que é apenas um comediante do Bronx bem sucedido, é evidente que deus, seja lá isso o que for, gosta de tocar sua cabeça semi calva.

 

Postado por: Domingos Oliveira | 05/06/2009 - 16:41
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continuação sobre o tempo

O homem no Tempo

 A vocação do homem para a eternidade, ou seja, para ser companheiro do tempo, é o grande mistério da natureza humana. Como a natureza pôde colocar no homem tal desejo de imortalidade e ao mesmo tempo fazê-los mortais? Esse é o mais revoltante mistério da condição humana. Será que a natureza é sádica? Ou será que existe um erro nisso tudo? Um erro de visão? Talvez não dependamos tanto do tempo, e nem sejamos mortais: estamos mortais, mas talvez um dia não seremos. A própria ciência encarna a fantasia humana: ela está nos levando a tempos de vida muito maiores. Eu faço setenta e três anos em setembro, é incrível isso, eu já devia estar morto há muito tempo. Homens de setenta a oitenta anos são cadáveres adiados.

Deve ser dito que o pequeno tempo humano não, em geral não muda as personalidades. Não tem psicanálise que mude os problemas básicos das pessoas. A psicanálise ajuda bem a conviver com isso, mas não muda. Transforma os problemas neuróticos em problemas existenciais. É tudo o que ela pode fazer, disse o próprio Freud. Em mim, não mudam o meu gosto pelas mulheres, pela psicologia feminina, o meu amor pela arte, e uma irresponsabilidade essencial. Não agüento a realidade, eu tenho de fugir dela. O homem normal é exatamente aquele que foge da realidade; quem enfrenta é o louco. E o meu modo de escapar da realidade é criar: eu sou um artista. Eu adoro criar, e não consigo ver nenhuma diferença entre o lazer e o trabalho. Ao contrário, o trabalho realmente me diverte. As melhores relações que eu tive na minha vida, os melhores amores, são ligados a situações no trabalho.

    Sim, escrever leva muito mais tempo, é um processo que cada um tem o seu. O meu processo de escrever sempre começa da mesma maneira: uma estória, personagem ou clima na cabeça, que você tem necessidade de externar. O artista é isso: todo mundo tem a sua visão de mundo, mas ele é o cara que cisma que a visão dele tem que ser comunicada aos outros, acha que pode ser bom para os outros. Ele cisma isso.

O mais idiota dos homens, o mais tolo, tem alguma coisa importante para me ensinar. Sempre me dei bem com os jovens por causa disso, porque não consigo ver diferença de idade. As minhas netas, de cinco, sete anos, têm coisas muito importantes para me ensinar.

O homem é um ser gregário, em princípio, a não ser que dêem muita porrada nele. As Artes, particularmente as cênicas, são reproduções das noites ancestrais, em que os homens se reuniam em torno da fogueira e contavam uns para os outros, sem palavras ainda, com grunhidos ou gestos, suas experiências sobre “o mistério do mundo”. O mundo é misterioso.

E descendo os degraus da filosofia, o tempo passa como um rato na sala. Nojento, escorregadio, é impossível fazê-lo parar. Ou mesmo destruí-lo com uma paulada. O tempo passa como um rato na sala e nos coloca dementes diante do muro intransponível da morte.

Eu e o tempo

Você fica mais experiente com o passar do tempo. E assim consegue harmonizar melhor o seu desejo com a sua vontade. Também desenvolve certas capacidades úteis como, por exemplo, conhecer melhor o outro. Eu, atualmente, não preciso de mais de cinco minutos para que eu tenha uma idéia bem concreta de quem o outro é. A gente olha e vê. Penso que é absolutamente indigno e desonesto louvar a velhice. Perde muito mais do que você ganha. Vai diminuindo o poder de desejar, você precisa de menos coisas. Eu costumo dizer, ao contrário do que se pensa, que a alma - se é que isso existe, alma como aquilo que não é o corpo - é vivida pelos jovens, não pelos velhos, porque os jovens não sentem o corpo, é como se ele não existisse, portanto são pura alma, pura espiritualidade. Os velhos é que sentem o corpo, as dores do corpo, estes são materialistas.

Eu me sinto um garoto de setenta, começando realmente, como se tivesse sete anos. A velhice é para os outros. Nada mais esquisito do que você ser chamado de senhor. Você sempre foi você, por que de repente você é senhor? É degradante, é mais uma faceta misteriosa da condição humana. Eu não posso acreditar na velhice como punição. Mas também sinto um pouco superficial essa minha conversa, porque, na verdade, o tempo é um atributo da consciência, portanto não existe.  Porém existe. A degradação da vida, a morte, por exemplo, é uma prova real de que estamos dentro de um grande relógio. Não é melancolia, é revolta! Fico puto de não poder mais virar uma noite sem me sentir exausto, de não conseguir tomar porres imensos que sempre tomei, enfim, não jogar o mesmo basquete. Outro dia me perguntaram “Você tem arrependimentos na vida?”. Eu ia dizer “Eu não”, imediatamente depois eu pensei: Todo mundo tem, eu tenho milhões de arrependimentos. Tenho arrependimento de não ter aprendido a sapatear, de não ter feito mais esporte, de não ter cuidado mais do meu corpo, não ter comido mais mulheres do que comi, não ter estudado mais francês ou inglês, coisas que ficam para trás, para “sempre” – que também é uma palavra ligada ao tempo.

Talvez a única coisa relevante que mudou de uns séculos pra cá, foi exatamente a velocidade da informação. Ela se tornou muito maior, é necessário que a inteligência seja sempre aguçada porque a linguagem contemporânea é rápida e excessiva: dando uma informação, é preciso dar outra imediatamente. Eu sou atentíssimo a isso em meu trabalho não é preciso repetir. A vida não repete, ela não é didática. A vida é louca, mas não é didática.

Um encontro não é apenas um encontro, tem algo por trás disso, você sente. Então, percebo que meu modo de criar é sempre o seguinte: me colocar num estado no qual não sou eu que escreve, é a minha mão. Eu tenho de soltá-la em cima do computador e deixar sair um material que eu chamo de material indômito, aquilo que sai sem ser domado, qualquer besteira. É muito doloroso fazer isso, você tem de se desligar da sua consciência, construir uma ponte mais direta com seu inconsciente - se é que isso existe, inconsciente não é uma parte do corpo humano, é apenas um conceito que Freud institucionalizou. Eu solto aquele material, e a partir disso, é pura razão. Tento desesperadamente ordená-lo, transformá-lo numa coisa interessante. Forço a barra até estar pronto para mostrar para os outros. Ouço muito as pessoas. A não ser que eu tenha certeza de que a pessoa está errada, em princípio ela está certa; os fregueses sempre têm razão. Se meu filme ou minha peça causou em alguém uma impressão que eu não queria, devo estudar isso. Eu tenho uma certa humildade inerente, e é assim que eu faço cinema e teatro. Para fazer um romance, talvez, se você for um gênio, você possa escrever na inspiração. Pensando na linguagem épica ou poética. Mas na linguagem dramática, cênica, tem de estudar um pouco.  Acredito muito na dramaturgia, ela é uma observação interessante sobre a vida. Ela nada mais é do que um estudo estatístico, casualístico sobre todos os filmes bons e as peças boas que você viu na sua vida.

 Eu gostaria de morrer entre um passo e outro. Minha posição com relação à morte é a seguinte: como você deve ter notado, eu sou contra. Eu sei que ela, a própria, não liga a mínima para esse ponto, mas eu sou contra. Eu penso que serei contra inclusive na hora de morrer. Eu não faço a fantasia otimista de que quando ela vier, eu vou achar que não é ela ainda, e quando for não saberei porque estarei morto; essa é uma fantasia otimista. Mas, então, o meu projeto para o futuro sempre é criar, criar, criar, e assim me comunicar com meu semelhante, na busca do entendimento do Mistério do mundo.

Tempos bons? Os bons tempos? Não tenho nada não a dizer sobre isso, porque os bons tempos continuam a existir, eles não acabam, embora sejam mais freqüentes na juventude. É pena que o jovem não tenha consciência disso! Nada é comparável ao poder e o prazer de correr mil metros sem cansar. Nada é comparável ao poder de beber uma noite inteira. A vida se esvai e isso é triste, por mais que você se esforce, não tem como escapar disso. Agora, entendo inteiramente. Eu sou a favor da vida. Eu costumo dizer que a vida é feita de terror e glória. 

Sendo o Terror tão potente quanto a Glória, não tem racionalidade que possa afirmar que está mais certo um do que o outro. Por isso é preciso você decidir de que lado está. Eu sou da galera da Glória. Nesse sentido eu não posso achar que a velhice é vantajosa.

Mulheres fazem plásticas. Não é aceitável a velhice, a beleza roubada. Têm as perdas biológicas, elas perdem a capacidade de reproduzir mais cedo do que os homens, isso se reflete em modos e costumes; elas realmente sofrem com o envelhecimento. O que é uma bobagem, porque muitas vezes continuam mais lindas do que muitos jovens. O Rodin, o escultor, para o ódio das mulheres, discorda. Afirma que o auge da beleza feminina é aquele instante imediatamente anterior à perda da virgindade, porque depois os traços se deformam, pouco a pouco, pela fadiga da paixão.

É costume se pensar que as grandes modificações são processos demorados, e é absolutamente mentira, as grandes mudanças são súbitas. São conhecimentos chamados imediatos, e não mediatos. Esses conhecimentos mediatos têm um caminho para trilhar. As grandes transformações são imediatas, não precisam de caminhos. É de repente que você muda, não é aos poucos.
Para fechar o assunto, resta citar Santo Agostinho, na melhor definição de Deus que jamais ouvi: “DEUS É AQUELE PARA QUEM TODOS OS TEMPOS SÃO PRESENTES.”

 

 

Postado por: Domingos Oliveira | 29/05/2009 - 11:43
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tempo

 DO TEMPO

 A filosofia não é feita para descobrir a verdade e sim para divertir o filósofo.

Dando tempo ao tempo

 Na verdade, o tempo é uma coisa em principio criada pelo homem, ele não é presente na natureza, mas na consciência humana. Se você vive, você diz que o tempo passa. Se você tem consciência, você tem a consciência do tempo, e ao mesmo tempo ele é o agente da sua morte.

O ser humano nasce direcionado para a morte, sendo o Tempo o barco dessa viagem. Por outro lado, é um agente da vida, um Salvador. É costume dizer que o tempo encontra a solução para todos os problemas. Um exemplo simples, embora doloroso: Você está com uma mulher, mas você não consegue viver junto com ela porque você não confia nela. Porém, você não consegue viver sem ela. Se eu disser que não consigo viver com ela e nem sem ela, a lógica diz que a minha única solução é morrer. Certo? Errado. Mentira! Está faltando um dado na questão: o Tempo. Se você estirar seu problema no tempo, mil caminhos aparecerão: pode ser que eu deixe de amá-la, pode ser que ela passe a me amar, que as nossas coisas se resolvam, e todas as outras coisas intermediárias. Quando você estende as questões no tempo, elas mudam de feição, conteúdo e significado. O tempo é uma luneta mágica. A consciência é uma coisa que só existe quando foi perdida.

 Para onde vai o tempo?

A consciência é uma coisa que só existe quando foi perdida. Se o mundo fosse compreensível não haveria arte. A arte é uma pesquisa do mistério, e esse mistério é o que nos une a todos. De modo que criar é, de alguma forma, se unir ao outro. Existem dois tipos de liberdade. Primeiro, a liberdade da arte, em que você descobre que pode fazer tudo, que não tem ninguém te mandando, nenhuma limitação para o artista. E a segunda, que é maior do que a primeira, quando você pega toda essa primeira liberdade, e porque você quer, livremente, entrega-a para os outros (Peter Brook). E a verdadeira arte sempre contém essa segunda liberdade, ela nunca é egoísta. No teatro isso é tão claro! No cinema é o mesmo fenômeno, um pouco mais escondido. Acho a profissão do ator a mais profunda de todas porque é ele que entende o que está acontecendo do lado de lá, na platéia. Chega um ponto no seu trabalho como ator, que é raro, talvez na temporada de uma peça você consiga chegar lá uma vez ou outra, no qual acontece o seguinte: aquela energia que é trocada pelo ator e pela platéia, quem não é ator não tem a menor idéia do que é isso, torna-se uma coisa tão concreta que pode te derrubar fisicamente ou pode fazer você levitar; é um fenômeno muito sério. Se o ator consegue se harmonizar com a platéia, há um momento de grande arte, aquele no qual um grupo grande de pessoas tão diferentes entre si, consonam num mesmo sentimento, numa mesma idéia! Um momento em que aquelas várias consciências são por um momento uma só!!! Isso é de um mistério imenso. É uma coisa religiosa, sentimento místico. É como se o tempo entrasse em suspensão, respeitasse esse momento e saísse da sala, por cortesia.

Sartre diz, adoro, que o tempo são três: presente, passado e futuro. Qual é o mais importante dos três? Todo mundo diz que é o presente: faz parte da modernidade a idéia de viver o presente. Mentira. O presente não é nada, absoltamente! Não passa de uma ligação impalpável entre o passado e o futuro, ninguém consegue pegá-lo. E o passado é uma operação mental, um jeito que o homem inventou de continuar a ser aquilo que ele não é mais. O futuro é o Astro! É a coisa importante! O homem é puro projeto, puro lançar-se sobre o futuro. Sartre formula: “Não importa o que o passado fez de mim; importa o que eu farei do que o passado fez de mim” – uma das frases mais construtivas que jamais foram escritas.

A presença do tempo é destrutiva, posto que nascemos para morrer e o Tempo nos conduz à degradação, e, dizem até, à degradação do próprio universo, através da entropia. Porém, ao mesmo tempo, ele é construtor. Ou seja: trata-se de um conceito extraordinário, uma parte misteriosa da condição humana...

Sem o tempo, os instantes seriam eternos. O Tempo não passa! Nós é que passamos por ele, como as gotas d’água de um rio quando você está sentado na margem. Mas cada uma delas existirá para sempre, eternamente. Embora não possamos sequer imaginar para qual oceano este rio se destina... Como num quadro parado de cinema.

A arte e o tempo

O maior mérito do cinema diz respeito exatamente ao tempo.

 Se existe uma realidade no mundo, essa é a que não há realidade no mundo. Se existem garantias no mundo é que não existem garantias. A transitoriedade. Tudo passa. A mudança é a lei do mundo. O tempo não pára. E a arte é um ato de revolta contra isso. A arte tenta ser perene, sua ambição é não mudar! Aquele quadro é aquele quadro, aquela peça é aquela peça. A arte é uma revolta do homem contra o tempo. Eu passo, eu morro, mas minha Obra de Arte, não. Hamlet é para sempre Hamlet.

Penso que o cinema, sua importância, se deve principalmente ao fato de que ele deu ao homem capacidades que ele não tinha de entender o Tempo. Ele tornou fáceis para o homem, até banais, operações mentais sobre o tempo, que antigamente somente um gênio poderia fazer.

Por exemplo: o próprio corte, a própria montagem. Eu estou aqui com você e de repente, num segundo, é amanhã! Isso seria uma coisa difícil de imaginar, para o homem medieval. Para nós é um dado corriqueiro. Como em “2001”, em que você evolui da pré-história para a nave espacial num único corte, o mais famoso do cinema. E outras coisas, não só o corte.

A câmera lenta. Sou apaixonado por ela. Eu não saberia ver aquilo que a câmera lenta me mostra, eu não saberia que o movimento do cavalo era tão belo. Eu chamo a câmera lenta de “a atenção dos deuses”. Você não precisa ser entendido ou sensível como um deus para ver aquilo. E tudo mais.

A fusão! A magia de uma coisa estar se transformando em outra.

A câmera rápida, que nos prova a todos que somos socialmente formigas loucas andando em todas as direções, sem saber quem somos.

O cinema permite operações que antes eram impossíveis; é o grande recado dele. É um fornecedor de jogos mentais. O teatro é real. Sob muitos aspectos, eu acho que ele é maior do que o cinema. Uma vez perguntaram a Jean Louis Barrault a diferença entre teatro e cinema e ele disse que o cinema era a consciência do homem, a filosofia do homem, a música do homem, a arte do homem, era tudo. Vai destilando palavras e começa a parecer que não vai sobrar nada para o teatro. No final conclui. O teatro é completamente diferente: ele é real. O teatro é perenidade, é eternidade. Cinema, quando ele é bom, tira a gente do tempo, e quando você vê se passaram duas horas. Ele pega você na cadeira, bota você pra rodar e te joga na cadeira de novo. Não há reflexão, é um sonho.

O tempo do Teatro é completamente diferente do normal, você vive num tempo muito mais contraído no teatro. “Teatro é beber o vinho de uma existência inteira na taça frágil de uma hora.” (Shakespeare)

Tecnicamente o cinema é muito sério, ele imita o sonho. Inventaram uma máquina que faz uma coisa igual ao sonho, impalpável e concreta como ele, que pula no tempo como o sonho, de modo que o cinema vem direto para o seu inconsciente, lugar do sonho. O teatro é diferente. Ele é uma atividade absolutamente racional, fala direto à sua razão, embora através dos seus sentimentos. Apesar de que não prezo extremamente essa distinção entre a razão e o sentimento. Tenho quase certeza de que o computador exaustivamente informado passe a ter sentimentos. Que a razão é o único caminho que pode levar à verdadeira loucura. Esse é o campo do teatro.

este assunto continua na próxima postagem...

 

 

Postado por: Domingos Oliveira | 25/05/2009 - 11:22
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carta aberta

O DIRETOR FICA MUITO GRIPADO E NÃO PODE COMPARECER AO TEATRO. ENTÃO MANDA UM CD COM UM BILHETE PARA OS ATORES OUVIREM IMEDIATAMENTE ANTES DE ENTRAREM EM CENA. PEÇA “CONFRONTO” NO TEATRO ARENA DO SESC COPACABANA.

CARTA AO ELENCO NA QUINTA-FEIRA DIA 14 DE MAIO

Oi, turma.

Não posso ir hoje, que é um dia importante, posto que o primeiro com a platéia paga. Parou a festa, chegou a realidade da temporada. Como se isso não bastasse, vai assistir ao espetáculo a Barbara, velha Barbara. Esses dois motivos devem certamente resultar em atores inseguros, uns fazendo mais do que deviam, outros não fazendo quase nada, todos mais rápidos ou mais lentos do que a medida certa... resumindo: todos sem personagem em cima. De modo que mando esse bilhete pra vocês com alguns conselhos para se defenderem do provável.

1.    Quanto à Barbara, é complicado. Uma pessoa contra o espetáculo contamina uma platéia inteira. E a Barbara é quase sempre contra. O repertório dela é pequeno, ela gosta de muito pouca coisa e não tem a inteligência suficiente para gostar de mais que aquilo. Existem pessoas assim, que são monolitos. Odeiam qualquer coisa diferente do que aprenderam que é o bom. Esse tipo de espetáculo não é o que a Barbara gosta, ela gosta do TBC, que eu também gosto muito. Um tipo de teatro que vocês não sabem o que é, com um tipo de ator tecnicamente muito preparado, de formação européia, que vocês jamais serão. Ela vai achar os atores péssimos. Mais um detalhe: comigo ela não propriamente simpatiza. Não como pessoa, claro. Mal nos conhecemos. Não simpatiza com o tipo de artista que eu sou. Ou talvez com o que eu sou. De modo que não tem jeito. Tudo pode sempre acontecer, porém é pouquíssimo provável que ela faça uma crítica positiva. E o que não tem remédio, remediado está. Vocês são atores, têm imaginação, tem a obrigação de ter. Meu conselho convicto é que esta noite vocês imaginem, simplesmente, que a Barbara não está lá! Vocês olham para a cadeira que ela está sentada e não vêem ninguém! Ela não está lá! De verdade.

2.    Quanto à platéia, pode ter gente, como pode não ter. Pode ter 400 pessoas ou quatro gatos pingados, a maioria convite. Como representar para uma platéia vazia? Examinemos a pior hipótese. Quando o homem se prepara para a pior hipótese, o que vem é lucro. É ótimo representar para uma platéia vazia. Um bom ator sabe disso. A energia que te move tem de vir de outro lugar. Para que você não se sinta péssimo, rejeitado, um merda, você tem de representar muito bem! Para si mesmo e para os colegas. Gozar da sua própria criação. Sem falar que, entre os poucos, pode estar naquela noite o santo, o iluminado. Ou aquele que o seu trabalho de artista vai calar tão profundamente que vai tornar melhor sua vida. É ótimo. Você pode representar mais baixo, mais devagar, fazer mais loucuras, ser irresponsável. E sem irresponsabilidade, não existe arte.

Bom, chega. Vamos trabalhar, vagabundos!

Montem-se numa grande vitalidade, elevem sua inteligência!

O espetáculo torna-se uma luta de boxe. Não adianta ganhar um, dois, três rounds. Você pode ir a nocaute até um momento antes do fim. Portanto, DIVIRTAM-SE!

Do seu diretor,

Domingos.   

 

 

 

 

 

 

 

 

Postado por: Domingos Oliveira | 18/05/2009 - 13:13
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cinema

Não tenho conseguido ler. Boto isso no blog não para divulgar as mazelas que o tempo traz, e sim porque quero saber se alguém tem defeito semelhante na vista, ou melhor, sabe como consertá-lo. Meus olhos não andam conseguindo ficar numa linha só. As linhas se multiplicam verticalmente ou dançam de lá pra cá. Examinei e me disseram que o músculo dos olhos por vezes cansa de botar os dois paralelos e resolvem brincar por aí separados um do outro, para sempre. Tem um tal de prisma que eles botam nos óculos que dizem que corrige, mas para mim torna o mundo um caleidoscópio mal feitíssimo. Meu oculista me disse que eu deveria tentar mais o prisma. Se eu tentasse mais, ia me adaptar. Tomei aquilo como sendo uma anedota dele.

Já tinham me avisado que o corpo humano é mal feito, feito para quebrar com o tempo, embora não possamos comprar outro. E que os olhos são uma parte especialmente mal feita. A primeira que normalmente demonstra defeitos com o uso.

E aqueles aparelhos sofisticadíssimos, evidentemente caríssimos que quase não precisam do oculista! Ei, aí fora, alguém tem alguma coisa assim? Existirá um oculista que sabe fazer mais do que mandar ler letrinhas longínquas? Mande o nome e o endereço. Se for no fim do mundo, vou lá, pois gosto muito de ler. Ou gostava.

 

 

Até hoje não consigo perder a emoção de entrar numa videolocadora legal ou num jornaleiro de quiosque. As luzes brilham. Quanta informação ao redor! Que maravilhosa multidão onipresente através de suas obras, pensamentos...

Me lembro perfeitamente como era difícil obter informações. “Les Enfants Du Paradis” tinha apenas uma cópia e foi exibida aqui no cineclube. Tiveram que fazer três sessões e eu consegui assistir em pé, lá do fundo do paraíso, que é o nome que dão em francês para o balcão e as galerias. Desde esse dia passei a ser um homem de valor cultural mais reconhecido, pois tinha visto o filme.

Não posso conter a emoção quando entro numa boa locadora de estar entrando numa catedral magnífica. Depois de uma hora lá dentro com a minha mulher perguntando na porta por que eu não vou embora, consigo sair do encantamento, às vezes sem nenhum filme na mão, posto que já vi todos.

A juventude hoje tem ao alcance de suas mãos toda a cultura do mundo, está no jardim das delícias, sem saber. Talvez minha inveja maior deles são os filmes que eles ainda tem pra ver.     

Como todo mundo, assisto filmes em casa, em DVD. Não é a mesma coisa que no cinema (embora este conceito esteja caindo vertiginosamente de moda). Mas é impossível fugir disso, DVD tornou o cinema uma arte solitária. Como o livro. Quase que exatamente como o livro. Lá não se pode exercer do poder da palavra, mas isso já é outro assunto.

Essa semana tive uma gripe e vi, entre outros, dois filmes ótimos. Já tinha visto os dois, mas rever, na medida em que o tempo passa, vai se tornando tão bom quanto ver pela primeira vez.

Revi “The Shawshank Redemption” (“Um Sonho de Liberdade”). Quando esse filme passou, não dei muita bola, embora tenha considerado um bom filme. Porém li que na lista do “Internet Movie Database”, site considerado, ele aparece em primeiro lugar. O melhor filme do mundo. Realmente é comoventíssimo, visto da cama na madrugada. É um filme sobre a amizade, mais que tudo. Mas também sobre a tenacidade, um homem deve terminar tudo o que começa, a dignidade, que eu tenho mas não sei bem o que é, e sobre a vingança, o filme tem qualquer coisa de “conde monte cristo”.

Deve ser revisto depois de alguns anos nesses tempos onde esses valores estão bastante esquecidos, exceção feita aí à vingança. A vingança, o prato que se come frio, é um dos sentimentos mais viscerais do ser humano. Sua consumação provoca um extremo e duradouro prazer. Em todos os lugares do mundo, em todos os tempos. Embora seja uma coisa horrorosa. O homem não é o lobo do homem. Mas isso é outro assunto.

Vi também “The Apartment”. Molière, Jean Baptiste Poquelin, o irmão gêmeo de Mozart. Ambos filhos da mesma alegria. Billy Wilder, se não é o melhor diretor do cinema americano, é o de mais longo espectro. Passeando como com um cachorro entre o drama e a comédia, é um dos filhos mais diretos do mestre Poquelin, à moda americana.

O gag principal de Molière pode ser descrito assim: O protagonista tem um problema grave, por exemplo, horror de ser corno. Em “Escola de Mulheres”, este horror é tamanho que Arnolfo criou uma menina absolutamente inocente e apartada do mundo para casar com ele quando atingir a maioridade e, por inocência, jamais corneá-lo. Arnolfo encontra na rua um rapazinho galante e bonito. Que reconhece como filho de um amigo dele que mora em outro país. Oferecendo seus serviços ao rapaz, Arnolfo descobre que ele está apaixonadíssimo por uma moça que viu na janela que, pela descrição, Arnolfo reconhece ser a sua menina, na sua janela. Depois disso, por duas horas de obra prima, Arnolfo tenta impedir aquele amor, o que não é difícil, posto que o rapazinho, sem saber, torna-se seu confidente. Ou seja, o marido ciumento sabe de todas as manobras com antecedência. Quanto mais faz para atrapalhar, mais ajuda. É claro que daí resulta num canto de louvor ao amor, ele mesmo, sua invencibilidade, etc.

Mas voltemos ao gag.

Consiste em que o personagem e a platéia sabem da verdade, compartilham o mesmo segredo. Porém o protagonista, no caso, o infeliz marido, sabe e não pode reclamar, para não virar o corno.

Em “Se Meu Apartamento Falasse”, título horroroso de “The Apartment”, Jack Lennon, para subir na firma em que trabalha, empresta seu apartamento a colegas mais graduados, para levarem mulheres lá. Como tudo é discreto, os vizinhos não sabem que não é ele que leva as mulheres, e o consideram um conquistador, um garanhão. Ele é apaixonado pela ascensorista Shirley McLaine. Pois bem. Um dia, o chefe dos chefes pede o apartamento para levar uma mulher. Ele não se incomoda porque esse dia não estaria lá mesmo, posto que marcou um encontro com a amada ascensorista. Adivinharam? A ascensorista é o novo caso do chefe dos chefes. Wilder carrega esta situação paradoxal durante uns noventa minutos de uma alegre dramaturgia. Por fim, todos sabem os conflitos e dificuldades pelos quais passam a ascensorista, mas acham que é ele o amante. Quanto mais ele faz para livrá-la do amante, o chefe dos chefes culpado, mais a vizinhança acha que são dele todas as culpas. De quê se ri? Porque ele não pode contar a verdade nem para ela. Para não comprometê-la ou fazer-lhe mal. Somente o protagonista sabe, sem poder dizer, a verdade. E a platéia, naturalmente. Assim, fortemente identificada platéia e protagonista, advém o riso diante do sofrimento do protagonista, de quem pode zombar. Ri, porque o protagonista não pode dizer aquilo que lhe é necessário dizer.

Mas que graça tem isso? A platéia ri porque se sente cúmplice do autor? E assim sente que é inteligente como o autor? Que o autor a chamou num canto para olhar pelo buraco da fechadura um verdadeiro tesouro? Provavelmente as explicações acima não estão longe da verdade. Porém continua o mistério. Por que tem graça ser cúmplice do autor?

Em Woody Allen, por exemplo, pode pegar qualquer filme. “Filmando no Escuro”. W. e a platéia sabem que ele está certo. Mais ninguém sabe. E não pode dizer, se não perde o filme. É o gag de Molière. Mas o riso é um mistério. Por mais que se leia, por mais que se veja, por mais que se faça. Talvez uma experiência inconsciente que não pode ser explicada. Sei que é um conhecimento de algo que nos dá grande prazer e não sabemos o que é. Se soubermos, perde a graça.

 

A dramaturgia é a busca daquilo que é comum em todos os filmes e peças que você viu. Uma ciência estatística. Ou melhor, uma arte racional, distanciada, crítica. Uma força da natureza. Não é preciso entendê-la, não é bom entendê-la. É preciso comê-la, transformá-la em você mesmo.                             

 

Postado por: Domingos Oliveira | 12/05/2009 - 19:02
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Confronto

ÚLTIMO RELEASE SOBRE O “CONFRONTO”

 

CONFRONTO é uma peça sobre violência, o crime, a segurança pública... e as possibilidades reais que temos de acabar com isso. Indica, inclusive, os caminhos que o cidadão comum deve seguir para colaborar na luta contra essas mazelas sociais. É, portanto, uma peça útil e oportuna. Quanto a sua estética, CONFRONTO foge do realismo. E também, por que não dizê-lo, de qualquer falta de clareza. São duas tramas que seguem paralelas, cada uma com seu protagonista. O sanguinário Santiago, capitão da PM com mania de grandeza, e o idealista Luiz Felipe, secretário de segurança. Ambos fracassam porque não há caminho para sucesso nessa região. Todos pagarão por estar nela. Sendo isso não um moralismo, e sim um retrato lúcido da realidade.

Deu muito trabalho, essa peça. Muito desfastio. Trabalho no sentido em armar uma “fábula”, um conto exemplar, que retratasse não o crime, porém o processo do crime. Os personagens são o secretário de segurança, o governador, o comandante da polícia militar, o chefe da polícia civil, etc. Da raia miúda, autora da violência mais aparente, já se escreveu muito. Sobre a cúpula é mais raro. Somente com a ajuda de um homem que tenha passado por tudo isso, como Luiz Eduardo Soares, seria possível. No entanto fiz questão de escrever uma peça onde se pudesse dizer em claro e alto bom tom “toda e qualquer semelhança com pessoas reais ou imaginárias, vivas ou mortas, terá sido mera coincidência”. A peça não é sobre Garotinho, ou César Mais, ou Álvaro Lins. E sim sobre o sentimento que esses nomes podem eventualmente ter sentido. Não interessa a história. Nem os fatos. Interessa apenas o ser humano. Que, malgrado a si mesmo, tem de enfrentar esses confrontos.

Para isso, tive de refletir muito e cuidadosamente: Sobre o poder, a democracia, a burocracia, o mal e o bem. Creio que cheguei a algumas idéias interessantes. O desfastio vem de conviver durante tanto tempo com um trabalho árduo com esse tipo negativo de sentimentos. Jamais tocarei nesse assunto de novo. Em nenhuma circunstância. O convívio com o mal é nefasto. Causa mau humor e gripe.

É isso que estamos estreando no teatro de Arena no próximo dia 8:

 

CONFRONTO

De Domingos Oliveira, Luiz Eduardo Soares e Marcia Zanellato.

Na arena do SESC Copacabana, com elenco de 19 atores.

 

Coisa, evidentemente, inviável do ponto de vista comercial, nesse momento de crise. Mas o que fazer? Para o artista, as crises são internas.

Venha ver o meu anti-naturalista colorido e delirante

CONFRONTO

Venha conferir pontos de vista!

 

Postado por: Domingos Oliveira | 06/05/2009 - 17:23
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DESABAFO

DESABAFO

Acho “tancredar” uma coisa horrível. Morrer na praia. Cair, vendo a linha final. Ou pegar uma gripe diante de uma estréia, um vexame, uma humilhação verdadeira. Nunca aconteceu comigo, é a primeira vez. Por causa das besteiras que eu venho fazendo. Para mim é difícil admitir a fragilidade dos meus 72. Meu nariz entupiu como se tivessem posto cimento. E a coluna com uma dor lombar que me dá a impressão de que, se piorar um pouco, não consigo mais ficar de pé. Além disso e por causa disso, um suéter na consciência, a cabeça confusa, a sensação braba de astenia, etc.

Primeira conclusão: a alma é, sem dúvida, o corpo. Só os loucos cristãos desvairados da Idade Média poderiam pensar o contrário. Sem saúde a alegria torna-se impossível e é inevitável a depressão. Por mais que pense que um homem deve ser superior aos seus sentimentos, nesse momento acho tolice a citada frase. Quando se está doente, você quer morrer. E olhem que foi apenas uma gripe e uma dor ciática. Eis a armadilha: a força da vida é imensa, quando o corpo permite. Mas como o corpo é fragilíssimo, não vale nada essa força da vida. Mas sou sartreano, detesto me queixar. Auto piedade é o sentimento mais escroto que eu conheço. De modo que tomem o dito por não dito, esqueçam, saibam que tenho profunda consciência da minha extrema felicidade. Ou, se preferirem, extrema consciência da minha profunda felicidade. Sou um palhaço doente, é isso. Mas logo me recuperarei e tentarei retirar esse desabafo do meu blog, o que não será possível.   

Terminei ontem de escrever o complicadíssimo CONFRONTO que estréia dia 8 de maio, no SESC Copacabana. Espero vocês lá no ensaio aberto aos amigos dias 6 e 7 de maio. “Terminei” é modo de dizer. Trata-se da vigésima sétima versão, a dramaturgia é complicadíssima. Muitos personagens... É claro que essa versão que escrevi ontem está maravilhosa e sem defeitos. Mas temo que não permaneça assim depois do meu próximo ensaio, daqui a duas horas. A dramaturgia é uma lucky lady, uma dama do acaso. Veste vermelho e ai de quem decidir contrariá-la. Suas leis aparentemente falíveis refletem o umbigo do mundo. Artistas durante séculos deliraram suas idéias em busca do poema. A dramaturgia tenta definir o que há de comum e melhor do resultado desses artistas. Arremete contra o mistério com a força de um louco que quer furar a parede com golpes de cabeça. Disse Fauzi Arap, espero que a idéia seja dele, que a dramaturgia é o retrato dos acontecimentos acausais, tão estudados por De Paoli e Jung. As ondas de quedas de avião, de azar ou sorte, de acasos não interligados através de causa e conseqüência. Mas é muito difícil compreender a dramaturgia. Ou melhor, de introverter os seus valores. No entanto, esta é a condição (sem a qual não) para um escritor de peças e filmes. Não adianta lutar contra a lady D. (dramaturgia). Resta amá-la e examiná-la minuciosamente.

 

Postado por: Domingos Oliveira | 01/05/2009 - 10:37
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CARTA ABERTA AOS ARTISTAS VERDADEIROS OU OS OPERÁRIOS DA CATEDRAL

CARTA ABERTA AOS ARTISTAS DE VERDADE OU OS OPERÁRIOS DA CATEDRAL

 

Se você tem certeza que é um artista de verdade, que sua razão de ser é a Arte, que sem a Arte você morreria, leia isso: É um chamado, uma convocação. Pouca gente sabe o que é a Arte. E, no poder, quase ninguém. Por isso acontecem absurdos como essa badaladíssima discussão. Juca Ferreira versus Lei Rouanet. E a coisa da OS (Organizações Sociais). São movimentos atuais que em resumo consistem em entregar o dinheiro disponível para a Cultura, através de várias Leis e processos, para o Governo. Aumentar o Poder do Governo, confiando em seus critérios para julgar. De que modo deve ser usado o dinheiro público (isenção de impostos ou outras coisas). É claro que os destinos do cinema e teatro brasileiros não devem continuar sendo regidos por diretores de departamentos de marketing (embora eles tenham se comportado, até hoje, razoavelmente bem). Como este ponto é indubitável, J Ferreira ganha sempre as discussões, posto que está com a razão. O dinheiro público deve ter a tutela do governo, para que possa ser aplicado no bem comum. E nesse tipo de teoria, perdemo-nos todos em reuniões infindavelmente monótonas e vazias de conteúdo. Claro que o dinheiro da Arte e da Cultura deve ser comandado pelo Governo. A propósito, deve ser dito que já é. Posto que os maiores patrocinadores são estatais (Petrobrás e outras). Não é importante saber se o dinheiro fica com o Juca Ferreira ou com a Petrobrás. O importante é saber o que eles vão fazer com isso. E eis que chega a pergunta que ninguém faz, por falta de coragem:

- Que tipo de filme ou peça o ministro JF acha que deve ser produzido? Quem vai levar o dinheiro? É isso que interessa. O ministro imediatamente argumentará que essa decisão não é dele, e sim das comissões que constituirá. Será uma inverdade quando ele disser isso. Perigosa inverdade. As comissões são controladas por quem as nomeia. Sendo sempre altamente manipuláveis. De modo que é preciso saber qual é o gosto pessoal do Juca. Que concepção ele tem da Arte e da Cultura. Observemos que começa aqui a fatal confusão. A Arte faz parte da Cultura, mas não é a Cultura. É maior e mais importante que a Cultura, ou pelo menos pertence a outro departamento. Cultura é Educação. É uma coisa que se preocupa, que aprende, que bebe na fonte do passado. A Arte é a locomotiva da Cultura. É o arauto que anuncia o futuro. A Arte diz respeito àquilo que não existia ainda, e está sendo criado. A Arte defende a humanidade.

Quando escrevo essas palavras estranhas, pressinto a incompreensão. São transcendentes, confesso. A Arte é transcendente. É a mais forte arma de comunicação, recurso didático para tornar os homens civilizados. A Arte ensina aos homens seus maiores valores. O amor, a dignidade, a honra, o patriotismo, a cidadania, a solidariedade. Por causa deste nobre alcance, a Arte jamais é citada em debates públicos. A massa burguesa da maioria encarregou-se nos últimos séculos a desmoralizar a palavra Arte. Segundo estes tolos, a Arte é uma coisa desnecessária, fútil, em geral exercida por gente que não gosta de trabalhar. Quando, na verdade, a Arte é o único trabalho verdadeiro. Se você não entende essas palavras ou se elas irritam, pare de ler esse artigo já. Ele não é pra você. Você pode ser um bom sujeito e até um pensador lúcido, mas não é um artista.

Juca Ferreira é um homem forte. De um carisma notável, eloqüência, e, por que não dizê-lo, simpatia irresistível. É preciso saber de um homem desses o que ele entende por Arte.

Repito. Que filmes e peças deveriam ser feitos com o dinheiro público, segundo a opinião pessoal dele?

Para exigir a resposta dessa pergunta, convoco meus pares, os artistas, a repercutir esse artigo. Faz anos que preconizo a existência de um Ministério da Arte. Todos tem medo de mim e preferem me achar ridículo, pensar que estou brincando. Não estou. Penso que a Arte é o que sustenta a Cultura, o que a leva para frente. Não existiria o cinema e o teatro brasileiro sem Glauber Rocha e Nelson Rodrigues. É o artista que tem que ser protegido pelos governos.

Não pensem que puxo a sardinha. Os bons artistas, como eu e muitos, sobreviverão de qualquer jeito. Com Ministério ou sem, não importa as reuniões de Juca Ferreira.

É a Arte que vai abrir os mercados internacionais. É a Arte que nos dará o respeito do público. A Arte é o retrato do país. Um país pobre como o nosso não pode gastar dinheiro público com filmes e peças ruins. Somente devem ser feitos peças e filmes bons! E quem vai decidir o que é bom ou ruim, pergunta o leigo incauto. Ele responde: Isto não pode ser posto em Lei, é subjetivo. Engano fatal. O único que pode julgar a arte é o artista. E não é difícil reconhecer um artista, a primeira vista. É aquele que ama realmente a humanidade e constrói uma obra sobre esse amor.

Atualmente, a palavra “diversidade” sacralizou-se. Quem duvidar disso, morre. Concordo com a diversidade. Mas ela está abaixo do critério da Arte.

Todas as comissões propostas são mistas: minoria dos artistas, maioria de burocratas ou técnicos interessados no assunto ou no prestígio. Isto está errado. Os verdadeiros artistas devem ter a maioria de qualquer comissão, porque somente eles entendem o que é a Arte. É pretensão de outros querer julgar a atividade artística.

Enfim, as palavras cansam.

Sei que somente serei entendido pelos artistas de verdade. Para eles que escrevo e peço que não me deixem sozinho e repercutam, a seu modo, esse meu artigo. Tenho certeza que vocês concordarão, sendo artistas verdadeiros.

Na prática, confesso que sou a favor do Juca e das OSs. Um homem deve lutar pela Lei correta. E depois lutar, mais agressivamente ainda, contra aqueles que aplicam mal a Lei. Essa é uma briga que vem depois. Apesar de que eu, artista, não tenho tempo pra isso. Minha obra me espera. Tenho pouco tempo. A eternidade seria pouco...

Somente a Arte salva, sem a Arte não há salvação.

“Oh, minha alma! Não aspira a vida imortal, porém esgota o campo do possível” (Píndaro)

Por favor, repercutam, companheiros.

 

Com todo respeito ao ministro, e até confiança,

Domingos Oliveira.

 

A

 

Postado por: Domingos Oliveira | 23/04/2009 - 11:30
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A culpa

 

Entre as minhas mil vontades totalmente irrealizáveis no tempo em que me foi conferido, tenho de escrever um livro de auto-ajuda. É impressionante esse troço. Você entra nas melhores livrarias, as bancadas da frente são todas ocupadas por livros mais ou menos imbecis de auto-ajuda. E eu tenho vontade de ler todos! Tento explicar por quê. Primeiro devo dizer que não entendo bem a expressão “auto-ajuda”. A leitura daquele livro ajuda o leitor, que auto-lê, a viver melhor, é isso? Então entendo o interesse pelo gênero. Todos os livros bons são de auto ajuda. A arte não tem sentido se não for feita exatamente pra isso, ajudar a viver. Só que os de “auto ajuda” tenta realizar essa tarefa mais diretamente. E, em geral, não ajudam nada. Por conta dessa pressa de ir ao pote. Mas o gênero é nobre. Meu possível e improvável livro de auto-ajuda chamar-se-á

As Artes da Vida

O mínimo que você precisa saber para não ser um fodido, ou melhor, totalmente infeliz

 

Apresentação

A Auto-Estima

 

Quanto maior, melhor. A auto estima não é a vaidade. A vaidade é inveja, disputa, a auto-estima não. É de uso interno. Amor, assim mesmo. E qualquer principiante sabe que você não pode amar ninguém se não amar a si próprio. Você vai ficar o tempo inteiro falando sobre a merda que você é e vai estragar tudo.

Certa vez, numa insônia matutina, invadiram a minha cabeça. Como pequenos cavalos alados, doze princípios, doze coisas em que acredito, e que norteia a minha vida. Não direi aqui quais são, isto será feito ao longo desse livro. Bem não sei se são quatorze, ou se são doze, se são sete, ou vinte e quatro. Moisés tinha apenas dez mandamentos. Como isso que vocês estão lendo é o primeiro rascunho do tal livro de auto ajuda que fará de mim certamente um milionário, começo por qualquer um.

 

Princípio:

Sou inocente. Por falta de intenção culposa.   

 

Antigamente, era culpadíssimo. Qualquer coisa de mal que acontecia eu corria e pegava a culpa. Isso é muito comum. Como os muros pichados ou os funcionários públicos. A culpa é um sentimento fortemente atuante e presente na nossa sociedade. Embora oculta sob outras formas. Os pais botam culpas nos filhos numa tradição milenar. Os padres, nos fiéis. Os maridos, nas esposas. As esposas, nos maridos. E assim vai. Ad infinituum. Numa próxima postagem, contarei como me livrei da culpa. E tornei-me um inocente inveterado. Hoje conto apenas um incidente de teatro que me ocorreu recentemente.

Estava dirigindo uma peça, escalei um ator que não tinha muita experiência. Amigos me insistiram que eu o empregasse. Mas a responsabilidade era grande, posto que se tratava de um principal ator da peça. Mas o sujeito era simpático, evidentemente inteligente, segundo os depoimentos dos amigos comuns, até brilhante. Não fazia teatro como ator a doze anos, só isso. Embora fosse um mestre na teoria. Eu olhei bem pra cara dele, achei que tinha a cara do papel, tinha o físico do rolo, entreguei o papel pra ele. Que desastre! Estava a quinze dias da estréia e o citado ator, que aqui chamarei de Waldemar Dantas, não revelava o menor traço de talento. Era um canastra empedernido cujas palavras soavam pedras nos meus ouvidos. A equipe inteira achava o mesmo e buzinava no meu ouvido que eu precisava botar o Waldemar pra fora, senão a crítica ia cair de pau, o espetáculo arruinado, etc. A atriz que lhe completava o par romântico chorava pelos cantos, certa de que com o tal comparsa não poderia mostrar nem uma fração do seu talento. Enfim, a situação era sinistra, porque eu tinha culpa de despedi-lo. De dizer: “Aí, ô meu, tu tá fora, tu tá derrubando!” Dava indiretas sim. Desde as mais sutis até aquelas com peso da pata de um elefante. E o cara não pedia demissão. Sempre sorria e dizia: “Amanhã eu vou melhorar”. “Porra, tenho cinqüenta anos de teatro, sei que ele não vai melhorar! Não há milagres no teatro, o cara não tem noção, se não, já tinha ido embora!” Mas o Waldemar ficava, entendia tudo, porque não era burro, mas ficava. Numa demonstração de grande resistência às rejeições. Até que um dia resolvi acabar com aquilo. Escrevi uma carta que entregaria pessoalmente dizendo que ele não era capaz de fazer o papel, etc., que eu não podia arruinar o espetáculo nem levar à falência meus sócios. “Melhor um momento de cara vermelha do que uma vida de sorriso amarelo”, repetia minha culpada alma reiteradamente. “Vou mandar embora hoje, embora eu saiba que ele já está em crise pessoal, financeira, e que isto vai ser um meteoro caindo na vida dele. Tenho de salvar o espetáculo!”, pensava, suando frio de embaraço. “Entremente, permitam-me voltar atrás. Hoje dança o Waldemar mau ator.” Chamei uma amiga de teatro, mulher muito poderosa e muito chegada a ele, para assistir ao ensaio. Ela veio. Para constatar a necessidade da expulsão e, assim, diminuir a minha culpa. O ensaio começou. Quando Waldemar disse a primeira frase, me surpreendia. Estava bem melhor. Na segunda, idem. A terceira foi melhor ainda. O filho da puta tinha escondido o jogo. Estava representando bem, só porque minha amiga Milena estava na platéia. Ele sentiu segurança, talvez com a presença dela, e fez um excelente ensaio. Melhorou, deu salto de qualidade enorme, de um dia para o outro. Se tivesse estreado assim, já tava bom. Quis negar isso pra mim mesmo e não consegui. E pensava, enquanto a peça acabava de correr: “E se amanhã ele voltar a ser uma merda? A estréia está se aproximando, não tenho tempo a perder! Se é para substituir, substituir já!” Então olhava a cena e ele estava ótimo. “Já sei!” Gritou a intuição dos meus “inocentes”: “Não vou segurar essa sozinho, a culpa de ter de mandá-lo embora. Se tiver sido apenas, hoje, um milagre.” Findado o ensaio, reuni a turma toda em roda, inclusive a amiga / produtora dele, e falei tudo. Tudo o que estou contando aqui. Obriguei, praticamente, todo o elenco a dizer que ele estava muito ruim e que os olhos de todos queriam se voltar para seu desempenho no ensaio seguinte. Esculhambei devidamente e com todas as palavras, sem sentir nenhuma culpa. Confesso que não sei como termina essa estória. Ou esqueci, ou foi ontem.

 

 

Sou inocente por falta de intenção culposa. (Este é um “princípio” precioso).

A culpa é um mal mais virulento e disseminado do que parece. Ela leva a muitos crimes e tem de ser combatida. E pode servir de excelente arma para fascistas e repressores. É só lembrar a igreja católica e sua mania de inferno, como lugar dos culpados.   

 

Termino contando o primeiro chute que dei na enorme culpa de adolescente.

Eu achava que tinha feito um mal a uma pessoa muito querida e chorava desesperadamente no sofá do psicanalista. Acontece que o psicanalista era bom e me disse: “Você não pode ter feito o mal porque você quer muito bem a ele. Porque é uma pessoa querida.” Aquilo bateu em mim tão forte que quase caí do sofá. Era a chave de tudo, da porta da libertação. Não tinha culpa, estava absolvido, porque não tinha tido a intenção culposa.

 

Tem também a culpa de ser velho, de ser infiel, de ser ateu, de ser pobre, enfim, uma longa e sinistra lista da qual falaremos em seguida...    

   

 

Postado por: Domingos Oliveira | 20/04/2009 - 13:00
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memória, atualidade

MEMÓRIA.

 

Eu prometi. Mas para quê contar meu doloroso e curioso ritual de passagem para a idade adulta, se tudo já foi escrito numa peça de teatro chamada “A Primeira Valsa” que pode ser encontrada na prateleira da primeira livraria? Esse é o problema que um escritor como eu tem para escrever sua biografia. Não que tudo tenha sido contado, nos filmes e peças. É que tudo foi contado melhor, nos filmes e peças. Omitidos os detalhes, realçados os sentimentos. Pra que contar? Então pincelo aqui memórias que não couberam no teatro.

 

O dia em que eu fui almoçar com Eliana no restaurante na floresta da Tijuca. Que, acho, existe até hoje. Muito jovens, apaixonados, quando saímos de lá brilhava na nossa frente a estrela vespertina. É um dos grandes momentos da minha vida. Penso que pode ser contada assim a vida de um homem. Através de momentos que não significam nada pra ninguém e que para o homem, resumiram o universo. A qualidade de uma vida talvez possa ser medida pela quantidade de momentos assim que um homem guarda na frágil memória.

Me lembro também de quando ela estudava no colégio Benett, onde havia garotas a granel, coisa muito reservada e chique. E que uma vez fui buscá-la na saída do colégio e que ali, logo que foi dobrada a esquina, ela me deu a mão pela primeira vez.

Do mesmo modo em que me lembro que era grená de veludo o sofá na sala do apartamento dela e dos pais/deuses. Era ali que nos beijávamos depois que seu Álvaro e Dona Lucy, muito discretamente, avisavam que iam dormir. Tenho certeza de que para nos deixarmos mais à vontade na sala. Até hoje para mim grená é a cor do amor.

É imenso o susto sentido nos primeiros encontros com o sexo. A iniciação sexual não se compara com nenhum outro sentimento humano. Entontece e fascina. É um intumescimento da alma.

Mas leiam a peça. A arte é a vida sem as partes chatas.

Quando se olha um girassol no jardim, ele é incompreensível. Porém quando olhamos um girassol que Van Gogh pintou, aí então sabemos o que é o girassol.

Me lembro também muito dos bailes de formatura. Nessa mesma época. Éramos muitos, porém quatro andavam sempre juntos. Botavam smoking juntos e faziam questão de chegar cedo no baile para ver quem ia chegar depois. Essa parte feliz da minha adolescência conto também em largo estilo na peça “Os Melhores Anos das Nossas Vidas”.

Sendo brutal e resumindo. Contei para seu Álvaro que a mulher dele tinha um amante. Ele me disse que já sabia. Há muito tempo. Meses depois, ele comeu uma comida de lata e teve uma doença terrível chamada botulismo. Da qual nunca mais ouvi falar, graças a deus. E morreu em uma semana. Sendo que por instinto, acaso ou afeto, acabei sendo sua companhia principal nos últimos momentos. Já que a filha e a mãe, por motivos compreensíveis, não tiveram coragem de chegar muito perto daquele sinistro quarto de hospital.

Chorar é chorar. Expressão de um sentimento de dor.

Nunca chorei tanto quanto no enterro do bondoso Álvaro. Meu pai cultural. Era um pranto de revolta contra a condição humana que mantenho até hoje intacta dentro de mim. Embora minhas lágrimas tenham secado nesse assunto.

Lá, no tal quarto de hospital, ele me contou o segredo maior: Que também ele tinha uma amante. Uma moça que, segundo ele, modesta e humilde, sem a educação e a beleza da esposa Lucy, tinha lhe ensinado o que era o sexo. E me deu o telefone dela e pediu que eu telefonasse todos os dias dando notícias e que, quando ele morresse, eu fosse na casa dela. Me deu o endereço. Dois ou três dias depois, morreu. Saltou da cama alguns centímetros como se a cama o tivesse arremessado ao ar. E caiu morto. Depois do enterro, exaurido pelas lágrimas, fui logo visitar a amante. Era nem muito velha, nem muito moça. Nem muito bonita, nem muito feia. Inculta e vulgar. Mas, como sofria muito, me recebeu bem. Sentamos um diante do outro e tomamos quatro garrafas de vinho. De repente ela tirou a roupa numa velocidade espantosa. Me agarrou e carregou para dentro. Não desejo contar esse momento. Nem saberia, creio. Minha alma se evadiu dali. Saiu pelas frestas da janela, sei lá. Um ou dois meses depois, me separei de Eliana. Não era mais um adolescente. Estava longe de ser um adulto. Era um ser torturado, transbordando amor pelos sete buracos do corpo e bebendo como gente grande. Porém repito: detalhes maiores só na obra. De vez em quando me esvazio de memoriar qualquer coisa. Parece fútil. Passou.

Tenho impressão de que o meu próximo capítulo é a faculdade de engenharia. Sim, sou engenheiro. Eletricista. O único engenheiro eletricista brasileiro especializado em eletricidade teórica. Tenho tanto horror daquela faculdade que nunca mais voltei lá, nem para apanhar o diploma. Não tenho CREA. Meu cenógrafo Ronald Teixeira horrorizou-se com isso e resolveu fazer uma pesquisa arqueológica e desencavar os papéis que provam minha formatura. Não tenho nem retrato, perdi. Só um programa da noite com o nome de todos os formandos e o meu lá. Domingos José Soares de Oliveira. Engenheiro Eletricista, especialidade Eletricidade Teórica!  

 

ATUALIDADES

 

Terminou o Apocalipse. Parece uma fase redundante. Mas não é. Terminou mesmo a temporada. Fui ao bar com os atores no último dia. E achei que tinha terminado na hora certa. São 50 ou 60 pessoas que me amam loucamente. Mas que fazem um barulho infernal! Que não tenho mais idade para resistir. Ó, juventude! Quanta energia! Deviam todos fazer uma suruba, o Grupo Fúria. Seria a Suruba Fúria. Isso era bonito de ver.

Escrevi uma carta pra eles no último dia, que na hora, resolvi ler em cena. Posto que tudo no teatro é teatro. Assim fiz e foi apoteótico.

Transcrevo a carta nesse blog:

 

Carta Aberta aos Atores do Apocalipse

Último dia da temporada do Laura Alvim

 

 

 

Caros membros do Grupo Fúria,

 

 

O teatro, quem não faz não sabe o que é bom. Na maior parte das vezes não se ganha dinheiro, mas dessa vez, por exemplo, ganhei 70 amigos. Imaginem vocês o capital que isso significa! Mais uma vez foi demonstrado que a montagem de uma peça é uma vida. Que não acaba no ultimo dia da primeira temporada, porque cria laços difíceis de esquecer. Nada une mais as pessoas do que o teatro, nada ensina mais a solidariedade e, agora vocês podem entender, sem a arte não há salvação.

 

Os ingleses não acertaram em muita coisa. Mas pelo menos em Shakespeare e no ditado seguinte eles têm razão. “As despedidas, quanto menores, melhores.” Nada acabou, assim como nada estreou, uma peça é apenas uma peça. Seis meses de convivência íntima, amizades e amores espocando como bolhas de champagne.

 

Eu não quero que o grupo acabe. É muita energia para ser desperdiçada. Mas como não sou Deus, nem onisciente, muito menos onipotente, tudo depende de vocês. Penso que o próximo passo do Fúria é, sem dúvida, o Festival. Peças curtas, um espetáculo que pode demorar horas, ser subdividido, Fúria 1, Fúria 2, Fúria 3... Distribuirei peças para certas pessoas que me parecem as figuras mais agregadoras do grupo. Porém haverá lugar para todos. Depois teremos nosso domingo quinzenal a partir de 19 de abril, às 15h, em algum lugar... Claro que nos faltam diretores. Até que eu possa dar de novo a minha dedicação ao grupo. Mas está na prioridade dos meus planos, acabando o “Confronto”, abrir um curso muito semelhante ao que fizemos, sobre dramaturgia e direção. Um curso Fúria. Que nos trará o que necessitamos.

 

Segue anexo a lista das peças que me parecem que poderiam tornar importante o Festival Fúria. Porém, repetindo o dito, tudo vai depender de vocês. Comigo podem contar.

 

Vale dizer de novo minha frase principal. Minha não, de Nietzsche: “Quem for meu discípulo, que não me siga!” Sigam seus caminhos, caminhos de cada um. “Quando nos perdemos uns dos outros, aí sim, estaremos juntos.” Ninguém tem obrigações ou deveres com o grupo. Nem eu nem vocês. O grupo é o caminho pelo qual um homem tem que passar para individualizar-se. E quando sai do outro lado, quer queira ou não queira, ele é o líder do seu próprio grupo.

 

É tão difícil acreditar que o fim de uma coisa é sempre o começo de outra!

 

Do seu amigo e companheiro

 

Domingos Oliveira.

 

 

Quem tem medo de Juca Ferreira?

Eu.

O homem é de um vigor notável. Petista, macho, bem articulado e provavelmente bem intencionado. Criou um problema ético no mínimo interessante. O Ministério da Cultura quer agora o dinheiro da Lei Rouanet, de isenção fiscal, e retomar a liderança do cinema brasileiro. Afirma que o dinheiro é público e que, portanto, tem de ser utilizado na sua função social. Jura de pés juntos que não será dirigista, bate na mesa, ofende sem pudor o antagonista mais próximo. É simpático à beça e ganha a discussão por uma razão simples: porque tem razão. Há anos repito, eu e a fatia inteligente da galera do flamengo, que é um absurdo deixar o destino do cinema brasileiro na mão de departamentos de marketing. João Sayad, outra fera, porém não baiano, também tem um argumento valioso: se querem a responsabilidade do cinema, que arranjem dinheiro pra isso. E não venham tomar o único que temos, o da isenção fiscal.

De qualquer modo, não é importante ter uma opinião clara a respeito. Juca e sua patota querem apenas avalizar aquilo que já está decidido. É apenas mais uma farsa democrática perguntar a opinião da classe. Se eu tivesse que decidir, acho que seria um Juquista. Em vez de um Sayadista.

Um homem deve lutar pela lei certa, mesmo que com as pessoas erradas. Depois de estabelecida a Lei certa é que chega a hora de trocar as pessoas.

O que mais me espanta é o fato de que em todo tempo dessa momentosa discussão, nenhuma vez é citada a palavra “arte”. A Arte é a única que interessa. A palavra “cultura” significa “educação”. Não precisava nem existir. A cultura precisa progredir. Assim como as pontes e estradas devem ser construídas. Mas a Arte é o que interessa. É o que deve ser protegido.     

 

Por falar nisso, o “Juventude”, meu filme, não foi indicado pra nenhuma categoria da vastidão de prêmios da Academia Brasileira de Cinema, cuja festa não irei amanhã, porque eu vou ensaiar. Não foi sequer indicado. 300 pessoas de cinema votaram, imenso Brasil afora. O filme foi comovidamente aceito por gregos e troianos, mas não para a Academia. Me pergunto os motivos disso. Que mal eu fiz a eles? Ou será o bem que eu faço a eles que causa inveja? Gosto do Roberto Farias, gosto da idéia da Academia, mas Ibsen e Nelson Rodrigues têm absurda razão: a maioria é burra! A maioria detém o poder. Mas nunca o direito. O direito está sempre com as minorias. (O Inimigo do Povo).                    

 

Postado por: Domingos Oliveira | 10/04/2009 - 23:01
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Atualidades

ATUALIDADES.

 

É ótimo ter um blog na Bravo!. Mas é péssimo não saber quantas pessoas visitam o meu blog. Coisa que a Bravo!, por motivos técnicos, não consegue informar. Por outro lado, o blogueiro necessita saber o quanto está sendo visitado, para escolher seus caminhos. Qual herói me resolve esse problema?

 

Vi o documentário que anda nas locadoras sobre o Mastroianni. Um homem lindo de carreira grandiosa como ator, considerado pela família e pelos amigos um sábio, um mestre na arte de viver. No entanto, um burrão, simplório, que fala no telefone em todo intervalo de filmagem providenciando compras tanto de objetos de arte quanto de inutilidades. É a inteligência emocional. Que cada vez respeito mais. A definição clássica de inteligência é “a capacidade de unir rapidamente contextos distantes”. Isso é belo e energizante. Mas talvez seja menor que inteligência emocional. Tão típica das mulheres. Que, por vezes burras, são inteligentíssimas. Neste tipo de inteligência, a característica principal é o senso de realidade, a capacidade de entrega e a aceitação da vida. Sem dúvida, a inteligência maior que a primeira. E que não pode ser medida pelo QI. Difícil definir a inteligência. Mas é fácil reconhecer alguns atributos. Dos quais o principal é a humildade. E a incapacidade de invejar uma inteligência maior e a usufruir dela. E a capacidade de amar. O amor também é inteligência. O burro não ama.

 

Compareci à estréia do documentário de Maria Ribeiro “Domingos”. Primeiro no Rio, depois em São Paulo. Inaugurando o Festival de documentários “É Tudo Verdade”, um festival formidável. O filme chama-se “Domingos”. Eu, no cinema, já tinha sido ator, diretor, autor, porém ainda não tinha sido assunto. É uma posição estranha. Disse lá, diante do público: “Nada mais ficcional do que um documentário. Um homem não cabe num filme. Apenas uma pequena parte. É sempre um recorte feito pelo autor, a talentosa Maria Ribeiro, do homem em questão. Quem não me conhece gosta muito. Quem me conhece, acha que faltam coisas e não gostam, de modo geral. De modo geral as famílias não aceitam as biografias. Sempre desautorizam. “Um homem é uma fenda estreita de infinita profundidade.” Um crítico, Pedro Butcher, conseguiu me lisonjear extremamente, na Folha de São Paulo: “É possível não gostar dos filmes de Domingos Oliveira. Mas é muito difícil não gostar do Domingos Oliveira.” Esta foi uma estocada no meu coração. De qualquer modo, em São Paulo foi bem mais quente que no Rio. São Paulo sempre me tratou muito bem. Sempre me compreendeu melhor. Desde o tempo de “Todas As Mulheres do Mundo”, quando o falecido Sérgio Person me recebeu em São Paulo para a estréia como se eu fosse um rei visitante. E ele, Person, o dono da cidade. Tenho muitas obras que gostaria de levar a São Paulo. Para que adquiram o status que merecem. Parece que eu vou pra lá em setembro remontar o “Largando o Escritório”. Tão maltratado pelo cinema. Se for, acho que fico um tempo. Paulistas vão me adorar. Temos coisas sérias a trocar. Produtores paulistas: uni-vos!    

 

Postado por: Domingos Oliveira | 02/04/2009 - 12:10
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continunado

Não estou em dia com esse Blog. A vida é tão veloz e entontecedora que não deixa tempo para comunicá-la. Mas isso não está certo. É uma das muitas regras da vida que devemos, com o grande esforço dos humanos, modificar.

Escrevi uma boa dezena de anos ou mais um diário, que não era diário. Somente escrevia quando me sentia confuso. Ou seja, no mínimo três vezes por semana. Exagero. Por mês. Mas aí era interessante e útil. Garanto que tão útil quanto a psicanálise, que também fiz anos. O método consistia em tentar reconstituir como um detetive os passos daquela pobre criatura sem rumo nem leme. Desde o último diário até o momento atual. Durante anos consegui realizar essa façanha. Conscientizar minha vida como uma linha contínua, verificando assim os sentimentos que persistiam e aqueles que o tempo levava embora. Pensei em poder fazer o mesmo, excluindo as grandes intimidades, com este blog. Aí ele seria útil. A mim e a todos.

Não sei se com o passar do tempo a vida se intensificou ou eu me desintensifiquei. O fato é que não consigo mais, o que não significa que não devo continuar tentando.

Minha última postagem foi há duas semanas atrás. Blogueiro vagabundo que não merece o respeito de bloguistas fiéis. Isso dito, eu recomeço de onde deixei.

A Primeira Valsa.

Quando eu tinha qualquer coisa parecida com vinte anos, vivi uma experiência tão mágica da qual emergi adulto. É o meu ritual de passagem para a idade adulta. Foi curioso porque tive a oportunidade de encontrar o amor, a arte e a morte. Ao mesmo tempo.

O Amor foi uma moça chamada Eliana, muito bonitinha e inteligente. E igualmente neurótica. Mas não mais do que eu. Minha turma de amigos era toda apaixonada por Eliana. Mas eu levei. Não sei por que, já que naquele tempo eu era apenas uma cotia imberbe molhada de chuva, ou melhor, um menino medroso e romântico sem limite, e fortemente culpado de tudo o que acontecia ao redor. Desde as guerras internacionais até a queda de um pingo de café com leite do outro lado da mesa. Esta deficiência era devida talvez à má qualidade de gênese ou a uma educação radical de uma mãe possessiva que não me deixava nem ir à praia, com medo que eu me afogasse. Até hoje não sei nadar. Qualquer naufrágio me soçobra.

Mas eu amava muito Eliana, embora minha mãe a detestasse. Sentimento que Eliana retribuía em igual medida, o que era suficiente para me transformar naquela cotia molhada e ainda por cima, impotente. Muito mais tarde meus psicanalistas explicaram tudo. Mas já era tarde para fazer alguma coisa. Assim foi que tivemos uma lua de mel péssima, dois anos de noivado e dois de casamento péssimos e finalmente uma separação amigável. Da qual resta a saudade infinita e uma vontade de conhecer de novo, posto que Eliana morreu cedo, cada vez mais introvertida, de um câncer malvado.

O encontro com a Arte e a Cultura deveu-se ao pai dela, seu Álvaro. Ele gostava muito de mim. Foi o primeiro a perceber exaltadamente o meu artista. Na minha casa de origem não se liam livros. Nem se ouvia música. Foi seu Álvaro que botou nas minhas mãos Nietzsche, Dostoievski, Beethoven, Bach, Scarlatti, Van Gogh, Rafael, Picasso, Charles Chaplin, e Alan René. Ele foi o primeiro que me disse “Seu poema é bom. Mas o copidesque do seu poema é muito melhor.” Esse homem, que eu amava loucamente, morreu muito cedo. Um ano depois do meu casamento. De uma doença estranha e feroz chamada botulismo, uma coisa que aparece nas vacas. Sofri aos berros, aos uivos, quando ele morreu. Era meu primeiro contato com a Morte. Completando o quadro da Cultura, havia também a mulher dele, dona Lucy. Neta de um famoso caudilho do Sul, ou seja, gente fina de verdade. Aristocracia rural. Quando ela apareceu, meus amigos e eu transferimos imediatamente toda a nossa paixão para ela. Era uma deusa. Linda, parecia Vivian Leght, de “O Vento Levou”. Lembrava Grega Garbo e adorava as cenas de sexo de “Hiroxima, Mon Amour”. Enfim, uma mulher divina, pairando acima do bem e do mal. Defensora discreta do hedonismo. Envolta constantemente numa onda de classe e beleza.

Para mim, que vinha de uma família burguesa onde era preciso tampar os ouvidos antes do almoço tal a gritaria, aquilo era o paraíso. A perfeição do paraíso. O drama se inicia quando, no primeiro ano de casados, vou com Eliana e sua família passar o verão numa idílica casa de montanha cercada por um bosque de pinheiros altos. Foi quando vimos, por acaso eu e Eliana, que discutíamos nossa relação na madrugada, um vulto de um homem sair da janela de dona Lucy e fugir. Era um dia de semana, quando seu Álvaro descia para trabalhar. Não havia dúvidas. A amada deusa tinha um amante. Pela aparência do vulto que corria, era um rapaz. Não muito mais velho do que eu. Como tinha dito a cantora Maysa numa canção da época, nosso mundo caiu. Estourou uma bomba no céu do paraíso. Eliana achava que tínhamos a obrigação de contar para o seu Álvaro, mas que ela não tinha coragem de contar. Então teria de ser eu.

A vida parece uma novela, só que bem narrada. E o capítulo seguinte desta fica para a próxima postagem.

 

Obs. A peça, que anos depois escrevi sobre isso, é linda. Talvez a minha melhor peça. Eu devia parar tudo e filmá-la. Era o melhor que eu tinha que fazer na minha vida. Mas ninguém faz nunca o melhor.

 

ATUALIDADES

 

Para reconstituir o caminho de duas semanas para cá, meu método detetivesco é recorrer à agenda. Que embora diga pouco, é o único recurso, antes de sair perguntando aos amigos: “quem sou eu?”, “o que fiz na semana passada? Não, agora já estou bem, não precisa me internar.”

Comentei anteriormente vários filmes do Oscar. É realmente uma péssima safra. Típica do fim da Era Bush. Moldados pela extrema beleza de Kate Winslet, sucederam-se filmes que dizem pouco da vida. O único bom é “O Lutador (The Wrestler)” Onde Mickey Rourke utiliza com habilidade sua decadência e Marisa Tomei diz a que veio.

Fiz uma leitura trágica do filme: o lugar que é teu muitas vezes te mata. No entanto, não é possível ficar em outro lugar. Então um homem volta e morre. O último plano do filme é dos melhores que o cinema fez. Lembra o valor da verdadeira cinematografia.

A partir dos filmes do Oscar, pegamos tapes interessantes aqui em casa. Titanic foi o primeiro. Esse é um bom filme. Só os idiotas é que não acham. Embora muitos idiotas achem também. Um filme feito para provar que um amor vale mais que mil e oitocentos afogados. James Cameron é um artista de primeira (essa arte que os americanos desenvolvem, a do filme comercial, é extremamente interessante do ponto de vista artístico. Eles têm uma tradição como os pintores renascentistas, fertilizam com as idéias novas e sempre desenvolvem. O cinema é uma dinastia. Cameron fez pelo menos um filme formidável, “O Segredo do Abismo”, é um mestre nessa arte do dinheiro, do diretor enquanto maestro de uma orquestra gigantesca.)

“Milk” também é imperdível. Para ver o trabalho do ator Sean Penn. É formidável, de ter de conter os gritos de entusiasmo. Se você tem uma idéia do que é o trabalho de um ator, o ator tenta descobrir o que seria se fosse outra pessoa. E às vezes, poucas vezes, esta bendita esquizofrenia atinge as vísceras no âmago a alma mais profunda. Vem direto do inconsciente, sem intermediações. É a divina arte de representar. Olhamos Sean Penn, pensamos como ele está bem, e depois esquecemos que é o Sean Penn, que é um filme, e ficamos amigos daquele gay alegre e politizado que ele representa, ou melhor, ressuscita sem passar pela morte. Vale a pena ver. Eu sabia que ele era bom, mas não tanto. O filme é um pouco chato. Porque é a reconstituição de uma estória real e a realidade é sempre meio chata.

 

Mudando de assunto, fui a uma reunião excelentíssima de autoridades prestando contas à classe artística de suas atividades políticas. Era Adriana Rattes, Secretária de Cultura do Estado, mulher belíssima, cercada de sua charmosíssima trupe, igualmente feminina. As mulheres na política é outra coisa. Se existe algum futuro para a política, é entregá-la às mulheres. Provavelmente acaba na mesma catástrofe. Mas é muito mais colorido. Escrevi uma carta para a Rattes, da qual transcrevo uns trechos, com todo o respeito, tenho certeza de que ela não se incomodará.

 

... tive fortes emoções durante a reunião, fortes sensações. Importantes insights e também muita alegria. Vou te dizer o que eu vi lá naquela sala belíssima do Parque Lage:

Que a cultura no Estado vai indo muito bem. A Secretaria é composta de mulheres lindas, chefiadas por você, que é uma camponesa intelectual da mais fina qualidade.

Você falava diante de mim num tailleur sóbrio sem usar nenhuma sedução, o que é raríssimo nos políticos, sem nenhuma máscara. Era incrível, realmente incrível. Nenhuma mentira, pura e limpa como Deus a fez. Estava apenas partilhando seus problemas com o maior entusiasmo e naturalidade.

São evidentes suas boas intenções, assim como de Eva Doris, Carla, e toda sua patota que compõe a Secretaria. Encantadoríssima Carla Camurati, falava de sua luta tão aguerridamente que tínhamos a certeza que ela irá vencê-la. Fiquei com pena de vocês pela dureza desta luta contra a burocracia, esse monstro paralisante, floresta dentro da qual agem os corruptos.  luta contra a burocracia é das mais nobres que podem ser travadas. Mais do que parece. E é possível vencê-la.

(...)

Quando uma pessoa digna entra no circuito do poder, ela tem finalidades definidas. Fins nobres. Mas o Poder faz uma alquimia maligna e transforma os meios em fins, fazendo com que esses últimos sejam esquecidos. A luta contra as dificuldades imbecis de intenção desonesta é tão complexa e absorvente que a pessoa digna esquece o que foi fazer lá, eu sei que você me entende.

(...)

Pertencemos a uma geração que aprendeu na porrada que a pessoa tem de ORGANIZAR PARA DEPOIS FAZER. Aprender medicina pra depois cuidar do doente. Engenharia para construir edifícios. Senão os doentes morrem e os edifícios caem. Porém na Cultura, não precisa ser assim. Pode-se fazer e depois organizar ou ao menos se fazer enquanto se organiza. Dando sempre prioridade ao fazer. Um exército não pode ficar estudando as artes bélicas enquanto corre uma guerra lá fora. Essa idéia foi concretizada por Aderbal na porta do velho Gláucio Gil “Aberto para obras”. Consertar os teatros, resgatar os aparelhos (termo horrível, lembra apartamento de subversivo). Consertar sim. Resgatar sim. Mas sem parar de fazer. Esta é a verdadeira atitude correta. Claro que para isso é preciso enfrentar as convencionalidades e colocar A IMAGINAÇÃO NO PODER (Que é a proposta mais inteligente de toda a contracultura). “A imaginação no Poder”, como disse Marcuse.

(...)

Desapareceu do discurso público da cultura a palavra principal, o palavrão: A ARTE.

Cultura é uma coisa extremamente importante. Magnamente importante. Mas é apenas o trem, a Arte é a locomotiva. São os verdadeiros artistas que devem ser apoiados, descentralizadamente, é claro. Estamos num país pobre. Não é necessário fazer uma Arte medíocre, é preciso fazer uma grande Arte. E os poderes constituídos não chegam nunca lá. Não tem tempo para saber onde está o ouro. Aquilo que justifica a atividade, a Arte.

Cultura é uma palavra muito ligada à educação. Mas é a Arte que modifica as pessoas e o caminho humano. A Arte é a meta. Deve haver no foyer do Teatro Municipal ou na Cecília Meirelles, ou no Porão do Gláucio Gil, uma sala onde pode ser feito um espetáculo, que teoricamente pode ser uma obra prima. Durante o processo de reparo do “aparelho”.

É difícil botar a imaginação no Poder. Uma inércia profunda o defende. Mas é preciso criar métodos novos. Não somente no nível da “OS”, em todo tempo meu ouvido insistia em ouvir “OVNIS”, mas também terrenos da criação.

 

Fora isso, aconteceu muita, muita coisa, desde que postei da última vez. Mas não cabe recontar. O assunto do dia, que prometo comentar na postagem que vem, é a mudança petista no sentido da apropriação da Lei Rouanet. E da criação do fundo de recursos. Enfim, emendas perigosas beirando ao mesmo tempo a democracia e o autoritarismo.

 E finalmente os comerciais desse seu workahoolic blogueiro.

  1. CONTINUO EM CARTAZ ATÉ 12 DE ABRIL COM O “APOCALIPSE, SEGUNDO DOMINGOS OLIVEIRA” NO TEATRO LAURA ALVIM. DE QUINTA A DOMINGO. QUI A SÁB 21H E DOM 20H. Não quero dizer que é  melhor peça em cartaz, mas também não quero mentir. É. Não percam. A mais insólita estória de amor de Domingos Oliveira. 46 atores com destaque impressionante de Matheus Souza.
  2. Aproveitei uma pausa de um fim de semana da temporada para vencer um grande pudor: Não mostro nunca meus poemas, melodias e canções. Até eu, que sou um despudorado, tenho pudores. RESOLVI NÃO RESISTIR E MONTEI UM PEQUENO ESPETÁCULO CHAMADO “SHOW ÍNTIMO: POEMAS E CANÇÕES DE DOMINGOS OLIVEIRA”. Coloquei público e atores-músicos no palco do Laura Alvim. Tive uma boa idéia de fazer uma dupla com a atriz Sophie Charlotte cuja diferença de idade para minha é de meio século. Enfim, houve quem gostasse muito. Logo resolvi fazer mais duas récitas. Apenas duas. DIAS 30 DE MARÇO, TERÇA FEIRA, E 1 DE ABRIL, QUARTA. ÀS 21H.
  3. ESTREEI UMA REMONTAGEM COM O ELENCO ORIGINAL. TRATA-SE DO SUPER CAMPEÃO DE BILHETERIA “TODO MUNDO TEM PROBLEMAS SEXUAIS” Que não é representado há anos. E já fez 200 mil espectadores Brasil afora. Olhe, foi como se o público estivesse sentado na porta do teatro (TEATRO MIGUEL FALABELLA, NORTE SHOPPING) Na sexta lotou os 500 lugares. No sábado lotou e para o domingo não tinha mais. Além de que foi um deleite. Os atores Pedro Cardoso, Priscilla Rozenbaum, Ricardo Kosovski, Paloma Riani e Ludmila Rosa tinham amadurecido suas interpretações. Pesavam tanto no drama quanto na comédia dos personagens. O que tornava a peça mais engraçada ainda. O riso do primeiro momento ao último parecia música aos meus ouvidos. De tão franco, sincero e sadio. Enfim, um “big hit”. O reservado, quase misantropo Pedro Cardoso, tem uma noção da platéia transcendental. É sem dúvidas o melhor comediante brasileiro, vivendo o seu apogeu. Para não rir de Pedro Cardoso é preciso estar morto.
  4. O DOCUMENTÁRIO “DOMINGOS” DE MARIA RIBEIRO ESTRÉIA NO FESTIVAL “É TUDO VERDADE”. Numa delicadeza extrema, a jovem Maria Ribeiro utiliza seu afeto por mim para seu primeiro longa metragem. É difícil para mim um julgamento. Mas penso que ela veio para ficar. DIA 26 DE MARÇO ÀS 21H NO UNIBANCO ARTEPLEX, RIO DE JANEIRO. É de encabular. Não mereço tanto. O psicanalista Alberto Goldin comentou depois da sessão privada: “O filme é ótimo. Mas seria melhor se o Domingos não estivesse vivo.” De modo que pedi a Maria que colocasse uma cartela no final escrito: “Domingos Oliveira está vivo e bem, morando no Leblon, casado com Priscilla Rozenbaum, tem uma filha e quatro netos, etc, etc, etc.”
  5. Começo a ensaiar no sábado minha peça sobre a Segurança Pública, escrita em parceria com Luiz Eduardo Soares e Marcia Zanelatto. Peça política é fogo. Não pode usar revólveres, nem de brinquedo, porque também se assalta com esse brinquedo. Elenco basicamente de homens, o que é desagradabilíssimo. Faz refletir sobre o poder e é muito difícil ter opiniões otimistas a respeito. É difícil não ser sério, a respeito. E eu... sou um autor sério que FAZ O MAIOR ESFORÇO PARA PARECER QUE NÃO. VEM AÍ: “SANGRENTA MADRUGADA SANGRENTA”. UMAREFLEXÃO DE DOMINGOS OLIVEIRA SOBRE O PODER. TEATRO SESC COPACABANA. ESTRÉIA EM MAIO. AGUARDEM!

Mas na verdade, não estou interessado em nada disso. E sim numa idéia nova que tive anteontem...  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Postado por: Domingos Oliveira | 24/03/2009 - 12:52
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Biografia

foto: minha mãe

Aceitei escrever esse blog com a finalidade principal de ir, aos poucos, desenvolvendo o passado, para que, ao alcançar o presente (atualidades), obter o rascunho da minha biografia, tão constrangedora de fazer sem esse estímulo. Seguimos hoje, de novo, esse objetivo.

Em 56 eu tinha 20 anos. Terminava a escola de Engenharia e ia casar. Uma moça baixinha, apaixonante, filha de uma família tradicional, por vezes melancolicamente introvertida. O nome dela é Eliane. Eliane odiava a minha mãe, um sentimento recíproco. Minha mãe, que era uma pessoa formidável sob certo ponto de vista, era um monstro de possessividade pelo outro. Visto com a lente do tempo, ela me fez muito mal e muito bem. Bem porque foi dela que herdei minha força (eu tenho alguma nos momentos mais difíceis). Mal porque tentou me possuir. Tentou fazer com que eu permanecesse uma criança, dependente dela o maior tempo possível. Mal porque não sabia distinguir a verdade da mentira, a verdade era o que lhe interessava. E assim fez de mim um homem que até os quase 30 anos era neurótico, amedrontado, ocasionalmente impotente, vivendo num buraco negro da angústia e da culpa. Foi a sabedoria e a aceitação da vida provindas de meu pai que, unindo à sua força materna, me fez encontrar a mola que existe no fundo do buraco. E que me impulsionou para fora dele quando toquei o fundo. Com tanto ímpeto que me pôs entre as estrelas, lugar que me encontro até hoje. Meu ritual de passagem da adolescência para a estrada adulta foi duro e sofrido, confesso. E eu narro na minha peça “A Primeira Valsa” com detalhe e profundidade que não posso repetir aqui. A peça “A Primeira Valsa” foi publicada no livro “O Melhor de Domingos Oliveira”, lançado pela Editora Global de São Paulo. É o filme que eu mais tenho vontade de fazer. Segundo João Moreira Salles, que um dia quis produzi-lo mas depois esqueceu, seria “um filme quieto”. De todas as minhas estórias, a que eu melhor filmaria. Realmente a “Valsa” é lindíssima, e seu final forte como um soco na cara. Tentem ler. Porei na próxima postagem uma sinopse nesse blog desta fase de minha vida.

 

ATUALIDADES

 

OSCAR 2008.

Está oficializada no cinema a picaretagem em grande estilo.

Ela veio para ficar. Posto que rende milhões de dólares. Agora teremos uma enxurrada de filmes à la “Quem Quer Ser Um Milionário”. Vai ser uma desgraça. O filme é extremamente bem feito, dando assim o aval da técnica as suas péssimas intensões. Daniela Thomas já tinha me dito antes de eu ver o filme: eu detesto. É o melhor filme de Michael Moore. Uma manipulação da realidade. Fui ver e não achei que poderia ser tanto. É péssimo. Irritante. Somente americanos interessados na indústria cinematográfica, e não no cinema, poderiam eleger essa obra. Tentarei explicar por quê:

Primeiro, detrata uma nação. Os indianos devem estar muito putos. A TV Globo já caiu em cima deles. Com toda virulência de seu mau gosto. O “Milionário” esculhamba mais profundo. Todos os indianos são calhordas. Monstros de malvadezas, devoradores de crianças, como foram outrora os comunistas. O filme, segundo Priscilla Rozenbaum, é qualquer coisa intermédia entre “O Caçador de Pipas” e “Romeu e Julieta” do Zeffirelli. Cabe para terminar a observação, o que é manipular a platéia. Certas situações fazem obrigatoriamente um homem chorar. Particularmente os homens simples. Esse filme começa durante uma hora coloca na minha frente crianças inocentes barbaramente tratadas. Em particular, nada revolta mais do que o sofrimento de uma criança. Também achava Dostoievski. O filme depois lança uma estória de amor absurda, crítica. Para dar um exemplo, o personagem principal, que é muito pobre, arrisca perder 10 mil cúpias (ou não sei que moeda é aquela) para ganhar 20 mil. Claro que isso bota de orelha em pé qualquer espectador. Causa desejos grandes de entrar na tela e dar bons conselhos ao personagem, etc. Tudo isso são situações dramáticas fortes, reconheço. Que fazem o espectador sofrer ou chorar. Só tem validez como arte esse tipo de coisa, SE TIVERMOS ALGO MUITO CONSTRUTIVO A DIZER A PARTIR DISSO. Algo útil para a vida do espectador. Algo que lhe compense o sofrimento que passou dentro do cinema. Em “Roma, Cidade Aberta”, quando o padre de Aldo Fabrizi é fuzilado pelos nazistas, as crianças, alunas do padre, assistem de longe. Depois saem andando pela estrada, mostrando que a vida continua. Isso vale a pena. Fazer o espectador sofrer por sofrer é um erro muito fácil e altamente criticável. Coisa de filho da puta, picaretagem.

Assim é o “Milionário”.

Creio que do mesmo modo que nosso presidente oficializou o suborno através do mensalão, Hollywood oficializa esse tipo de filme / picaretagem. Teremos uma enxurrada em seguida. Manipular os sentimentos humanos com inteligência e boa técnica passou a valer e ganha Oscars. Pobre cinema.

 

Estou atualmente vivendo um quase inferno de escalar uma peça. Preciso de três ou quatro atores maduros para realizar excelentes papéis na peça “Sangrenta Madrugada Sangrenta”, meu mais recente trabalho. Não encontro ninguém que queira.

Um porque tem compromissos anteriores. Outro que está em uma das dúzias de novelas em cartaz. Outros porque não gostam mesmo de teatro, a não ser que admiravelmente bem pagos. Para ser um ator de teatro, é preciso antes ser um artista. Não é necessário nenhum dom especial. Mas é preciso gostar do teatro. Isso não é pra qualquer um. Não existe mais ator de teatro. Mas não esmoreço. Procuro até a raspa do tacho e, se preciso, faço um monólogo.   

 

Postado por: Domingos Oliveira | 10/03/2009 - 10:57
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Atualidades

“Apocalipse” termina na primeira semana de abril. Tenho orgulho desse trabalho pela sua originalidade. Se você não for ver, não verá nunca mais nada parecido.

 

Atualmente, quando termino um trabalho teatral, minha alma exige deixar um registro, filmar a peça bem e fazer um bom making off. Para que não fique apenas na memória dos poucos que estiveram lá. Essa fugacidade do teatro outrora louvada por poetas, é extremamente frustrante. A arte quer contrariar o tempo, essencialmente. Exige aprendizado. Enquanto tudo passa. É esta a loucura da arte.

 

Aproveitando que o “Apocalipse” para por uma semana (nos dias 13, 14 e 15) e levando em conta que sou um workaholic encostado na parede pela espada dos 72 anos, resolvo montar o “Show Íntimo”. Apenas para 60 pessoas, dentro do palco do Laura Alvim. Uma espécie de recital. De poemas e canções de minha lavra. Nunca tive coragem de mostrar esse meu lado. Sempre me inibiu declarar-me poeta. Embora o seja, sempre fui. É a hora de quebrar esses pudores femininos. Apareçam lá. “Poemas e Canções” de Domingos Oliveira. Com participação de Sophie Charlotte e os músicos Igor Eça e Wladmir Pinheiro. Segue o release para a imprensa:

 

GRUPO FÚRIA / TEATRO ILUSTRE ORGULHOSAMENTE APRESENTAM

 POEMAS E CANÇÕES

INÉDITOS de

DOMINGOS OLIVEIRA

Dias 14, 15 e 16

Sábado, domingo e segunda-feira

Às 21h

No   TEATRO LAURA ALVIM

Com a participação de

SOPHIE CHARLOTTE

e dos músicos

WLADMIR PINHEIRO e

IGOR EÇA

Lotação Máxima 60 pessoas

(o recital é apresentado dentro do palco)

Ingresso:

R$ 50,00 (inteira)

R$ 25,00 (meia)

R$ 15,00 (ingresso amigo)

 

A primeira sessão, dia 14, é apenas para convidados.

O que é isto, a poesia? Disse o pensador moderno que ‘a poesia é aquilo para onde tende a prosa na medida em que o assunto se aprofunda’. É interessante. Realmente, os loucos e bêbados falam poeticamente. A poesia, certamente, não é uma prosa rimada.

A rima é um acidente sempre bem-vindo, mas não é a essência da coisa. A poesia, por exemplo, pode ser escrita em prosa. E vice-versa.

Penso que a poesia diz em palavras aquilo que não pode ser dito em palavras. Fala diretamente do mistério da vida, daquilo que não pode ser falado. Disse o filósofo que o Poeta é o arauto, aquele que anuncia o futuro. Nunca entendi bem essa formulação, talvez porque não seja pra entender. E sim, para decorar. Sei que tem a ver com o destino da humanidade.

Enfim, eu rodo em círculos pra me confessar Poeta. A única coisa que realmente sou é poeta. O Poeta é aquele atravessado pelo mistério, imerso no mistério, movendo-se dentro dele na bruma da imaginação. O Poeta é aquele para quem a vida somente pode ter um sentido, presente a cada instante. Que é a busca do poema.

Os meus, por exemplo, nunca mostrei pra ninguém. Sempre tive um pudor enorme. Eu, que sou despudorado. Talvez porque sejam textos muito esquisitos, íntimos. Talvez pessoais demais, não muito comunicativos, não sei... Esquisitos e íntimos...

Mas como minha provecta idade não permite mais esse tipo de sentimento virginal, resolvi quebrar esse tabu pessoal... E aqui estamos hoje apresentando Poemas e Canções de Domingos Oliveira. Para tamanha façanha, recorri a dois amigos músicos, Wladimir Pinheiro e Igor Eça, e a minha jovem companheira de palco, Sophie Charlotte, que é bela como o luar.

Duração: 1 hora de espetáculo.

Bebidas a serem servidas durante o espetáculo.


A vida 

Idiota querido, é uma rameira! 

Apaixona por brincadeira 

Depois joga na sarjeta o amante ferido. 

Todos serão traídos por ela 

Todos cairão de boca na deliciosa boceta 

como moscas nas teias 

Não resistindo aos prazeres do sangue 

correndo nas veias! 

Mas espera, inocente imbecil 

Logo a transcendente promessa se reduz ao crime vil 

No auge da paixão sublime o infeliz compreende 

que a amada entregou-se apenas por instantes: 

A vida é uma meretriz! 

O preço da hora não diz

Amanhã ou agora 

depende do freguês 

mas cada um gozará somente uma vez! 

Depois - é a Despedida 

Saciada a fome da vida ela se irá 

Nenhum valor que um homem possa ter aquinhoado 

Nenhum nome que possa ser gritado 

fará com que ela olhe para trás... 

Outro amante espera ansioso,

para viver o instante delicioso 

Olhem, confesso que mesmo eu,

um gênio do mal

não imaginei nunca nada igual 

maldade tão absoluta! 

Querido, pobre, miserável 

A vida é uma puta!

Brilham as pedras na estrada 

como as estrelas no céu 

Se as estrelas fossem dias 

seria o céu a eternidade 

Dias feitos e acabados 

como os que eu tenho  contado 

No entanto com espanto 

Vejo que o céu é um manto 

Que a mim que sou criança 

Confia a herança 

A mim que tenho medo 

Revela o segredo 

a mim que nada sei 

coroa REI  

O TEMPO É NOSSA ÚNICA POSSE

para não perdê-lo é preciso agir

pensar não é agir

Falar somente é agir quando alguém ouve

Cantar é agir mesmo que ninguém ouça

A AÇÃO FAZ O MUNDO

Por isso é preciso concluir, por simples leviandade que o TEMPO, a POSSE, o AGIR, o OUVIR, o PENSAR, o CANTAR e o MUNDO

são apenas palavras.

Mas atenção: coisas há que não são palavras e estas são a maior parte das coisas.

Domingos Oliveira é ator, autor, diretor, cantor... e agora, poeta???

 

 

 

Tenho muito mais o que contar aos meus caros bloguistas. Esse excesso de feriados e o calor senegalês do Rio faz com que eu não tenha tempo. Posto de novo ainda essa semana.

 

Pediram para eu escrever uma notinha sobre Marlon Brando. Não tenho nada com isso, mas é difícil resistir à imprensa. Principalmente na forma de uma moça delicada falando no telefone. Então, que seja. Marlon Brando, uma velha estória do jazz. Como se dizia em New Orleans.

 

 

Reza a lenda, comprovada por um making off, que Coppola depois de ter aceito o cachê extra milionário exigido por Brando para fazer o “Apocalypse Now” pediu-lhe apenas três coisas: Que emagrecesse um pouco, porque Kurtz, o personagem, estava há muito no coração da floresta; Deixasse crescer o cabelo pelo mesmo motivo; E que chegasse com o texto mais ou menos decorado.

Parece que Brando chegou muito mais gordo, completamente careca e que, depois de alguns ensaios, Coppola descobriu que ele não tinha sequer lido o livro de Conrad, no qual o filme se baseava. Dizem também que o ator dava esporros constantes no diretor, o mesmo que o tinha salvo do relativo esquecimento com o surpreendente e soberbo “Godfather”.   

Quando Coppola pensava quem poderia ser o poderoso Vitor Corleone, seus severos produtores cogitavam apenas dois atores, que consideravam os maiores do mundo: Marlon Brando e Lawrence Oliver. Coppola achava Brando jovem demais para o papel. Mas este tramou um teste tão brilhante que foi aceito por todos. Continua contando a lenda que o consagradíssimo Tenessee Williams, apaixonado, foi buscar o rapaz numa distante cabana para fazer o “streetcar”.

Minha relação pessoal com Brando vem dos motociclistas que subiram as escadas dos Cine Pax na Praça da Paz, no Rio de Janeiro do início dos anos 50. Sem descer das motocicletas, para espanto de uma geração. Eram os rebeldes sem causa, imitavam o Brando em “The Wild One”. Vendo os filmes hoje na perspectiva do tempo, nada disso espanta. Ele tinha um tipo de carisma satânico. Amedrontava ao mesmo tempo que atraía como jibóia diante de um coelho. E era, principalmente, novo, desconhecido. Nunca tinha sido visto ninguém assim. Deus trabalha por formatos, porém de vez em quando inventa um novo: Marlon Brando.

Figura evidentemente situada entre Narciso e Zeus. Sempre me pareceu mais uma personalidade do que um ator. Se James Stewart, Gary Cooper ou Bogart nunca se distanciaram muito de si mesmos para cumprir seus personagens, Brando o fez menos ainda. Poder-se-ia dizer que era uma persona que nunca deixava cair, Brando forever Brando.

Agredia a platéia com sua interpretação embora a acariciasse deixando entrever sua alma frágil e feminina. Apenas comparável com a do outro que fez época junto com ele, mas que cometeu a tolice de morrer cedo, James Dean.

Marlon impõe a sua personalidade acima de tudo. Usando, para isso, variados recursos entre os quais o sexo sempre foi o principal. Ele queria seduzir sexualmente a platéia. Homens e mulheres. Era um bissexual assumido. Os analistas hoje em dia quase em sua totalidade afirmam que o bissexualismo não existe. Coisa de grego, forma disfarçada de homossexualismo. Então Marlon era Grego. Como foi um bom Romano, embora ao seu jeito e maneira, no Marco Antonio do “Julio César” da MGM.

Falar de Brando é falar de sexo. E quê mais existe, não é mesmo? Do militar paternal / homossexual do “Golden Eye” ao deus da sedução que é o seu Kowalski. Que devorava sem piedades a instável Blanche naquele escândalo que foi nos anos 50 o “Bonde Chamado Desejo”.

Brando era um filho direto e dileto do Actor Studio, aquele exagero de psicologismo que o teatro americano tirou do sóbrio e racional Stanislavski. O primado da improvisação e da memória emocional. Tratava-se de revelar o mundo interior do ator prioritariamente. Ao custo de qualquer narrativa, pagando o preço de qualquer maneirismo.

Nunca fui um Brandista inveterado, mas lembrando dele agora na flor da minha idade penso que também eu era um fã apaixonado pela grande figura. Apenas me amedrontava um pouco. E não gosto de quem me amedronta. Tudo faz sentido. Ele gostava de fazer piadas de gosto duvidoso com os colegas, era famoso nisso. Consta que na cena do enterro de Corleone, Godfather, Brando mandou colocar no caixão umas centenas de quilos de chumbo para que a turma de figurantes que carregava o caixão fizesse um esforço especial. Isso o divertia muito. E vendo no filme é engraçado mesmo. Um dos rostos mais bonitos que jamais nasceram, uma beleza antiga, clássica, romana, foi destruindo a citada virtude pouco a pouco durante uma vida. Até tornar-se um gordo monstruoso. Orson Welles e outros já tinham feito o mesmo. Homens que não suportam a beleza externa. Talvez porque não desejavam ser amados por isso. A propósito, a comparação é curiosa, Welles e Brando. Ambos ficaram famosos muito cedo, inimizaram a sociedade em que viviam e fizeram muitos filmes insuportavelmente ruins, ao lado de umas poucas obras primas. Sem que isso lhes arranhassem o prestígio. O que dizer desses deuses quase antipáticos? Deuses não foram feitos para ser discutidos. E sim, amados.

Marlon Brando nasceu em 42, morreu em 2004, tendo levado uma vida que oscilou entre a glória e o terror. Homens assim não deviam morrer, não posso concordar com isso. Por mais insuportáveis que fossem. Deviam morar num Olimpo humano e ser observados pelos simples mortais como obras primas da criação.

...Dada esta impressão pessoal, fui tomado de saudades de Brando e recorri ao google. O resultado me fez pensar o quanto de sofrimento pode passar um homem que, embora genial, não tenha compreendido os encantos da humildade. Transcrevo, não comento:

“Em ‘Appocalypse Now’ o ator atuou no escuro para esconder sua má forma. (...) Usa uma frase chave em cada a cena e inventa todo o restante. Alega que decorar sacrifica a espontaneidade. Utilizou até ponto eletrônico. (...) Filho de um casal de alcoólatras, odiava o pai e reverenciava a mãe. (...) Fez vários filmes ruins durante quase toda a década de 60. (...) É notável a carência do astro e sua dificuldade de expressar afeto pelas mulheres. Diz-se sempre entediado com o trabalho.”

“Quando morre, deixa uma herança de 22 milhões de dólares e reconhece 11 filhos. (...) Recebeu 14 milhões de dólares por seu papel em ‘Superman’. (...) Tinha dívidas enormes adquiridas em processo judicial contra seu primogênito Christian, que assassinou o namorado da irmã Cheyenne. (...) Foi cremado aos 80 anos. Sua filha Cheyenne suicidou-se em 1995. (...) Outros filhos bastardos reclamaram a herança.”

“Descendente de imigrantes holandeses, entrou jovem para a academia militar, da qual foi expulso por subordinação. (...) Sempre afirmou que somente era ator como forma de ganhar dinheiro.” ...

A arte salva, sem a arte não há salvação. O forte de Deus não é a justiça, e sim, a misericórdia. Que viva para sempre nas telas o doce Marlon Brando, grande ator e operário da arte.

 

Postado por: Domingos Oliveira | 03/03/2009 - 10:05
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PROCURAM-SE ATORES que aparentem idade entre 40 e 60 ANOS

MAS, ATENÇÃO: É preciso DISPONIBILIDADE de ensaios em MARÇO e ABRIL.

A peça estreará em MAIO, ficando em cartaz até JUNHO.

Somente os que tiverem esta disponibilidade e este perfil deverão mandar currículo, fotos e telefone de contato para: domingos.selecao@gmail.com

Entrevistas serão agendadas, com os pré-selecionados, nos próximos dias 24, 25 e 26.

 

Postado por: Domingos Oliveira | 20/02/2009 - 12:22
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Atualidades e Passado

 

Tento ver os filmes do Oscar. Como se diz “picaretagem” em inglês? Já perguntei e ninguém sabe. Vou olhar no dicionário. Picareta é pick. De modo que picaretagem pode ser pickness ou pickhood. Em inglês ou português, o cinema americano decididamente está no caminho da picaretagem. Não é uma agressão. Classifiquemos as picaretagens em alto estilo da grande indústria.

1. Começaram a complicar os filmes horrorosamente de uns anos pra cá com flashbacks e flashbacks de flashbacks para que suas banalidades pareçam profundas. Isso se tornou uma regra da indústria. O filme quanto mais complicado, botando algumas coisas explicativas idiotas para que o espectador burguês sinta-se inteligente, passou a ser uma tentativa inesperada do cinema americano.

A tendência vem desde, por exemplo, “Magnólia”, passando, do que me lembro, por “Matrix”, “Traffic”, atravessando “O Código da Vinci” e centenas de outros que não me lembro porque é impossível lembrar de um filme do qual você não entende nada. Vocês sabem de que eu estou falando. Por isso, em geral dorme-se na cadeira. São os filmes das “águas turvas” e Nietzsche diz “não turve as água para que elas pareçam mais profundas”. É preciso fazer o leitor não entender nada para que possa sair discutindo o filme e, assim, se dizer inteligente. Embora rasteiro. Eu já pergunto: É complicado? Não vou. Tenho paixão pela clareza.

2. Os blockbusters não podem mais ser curtos. Têm que ser o mais longo e o mais caro possível. Para que tenham uma espécie de importância industrial. Vejam o filme do Brad Pitt em todas as idades, nem sei como se chama, que é uma coisa chatíssima. Botões de alguma coisa, se não me engano. Vejam “O Leitor” e mesmo o Sam Mendes com o casal do Titanic. São filmes enormes, absolutamente desproporcionais à história que iniciaram de base. São filmes encompridados artificialmente. Repetitivos como uma novela. Só que com mais produção. Como são chatos, meu Deus! Me dêem uma ilha de edição de 3 horas que eu dobro a qualidade artística desses caríssimos e importantíssimos filmes. O Benjamin Button partiu de um pequeno conto. Poderia ser cortado no mínimo em meia hora. “O Leitor” idem. Como enrolam! Qualquer dia veremos com destaque no letreiro dos filmes a função “enrolador”.

3. O conteúdo é o que menos importa. Tudo se confunde para esconder o conteúdo que, na verdade, não existe. Não há afirmatividade nesse tipo de cinema americano. É uma ginástica dramatúrgica para agradar a Gregos e Troianos. Isso fica bem claro n“O Leitor”. Não é claro porque cargas d’água o tribunal não sabe que ela é analfabeta, esse dado geral está no topo de qualquer ficha. Tribunal mal informado. Não fica claro se ela comia as mulheres ou só botava pra ler livros. Hipótese improvável. Por outro lado, aquele ar culpado da Kate Winslet sem, contudo, dar sinais de arrependimento é picaretésimo.

 

Benjamin Button:

Baseado em pequeno conto de Fitzgerald, o filme é incrivelmente alongado, o Brad Pitt não é ator pra tanto, o filme cai num excesso de realismo nada fantástico. Por outro lado, é claro que tem de ver o show da maquiagem. Ver um homem em todas as suas idades é uma oportunidade rara, misteriosa. Quando é que nossos maquiadores vão aprender qualquer coisa semelhante? Por aqui entramos em cena sempre com a mesma cara, não por escolha, mas por não sabermos entrar com outra.

 

O Leitor:

A mentira principal impingida ao espectador durante esse filme consiste em dar o papel de uma analfabeta, nazista, criminosa de guerra, certamente dura e burra como uma porta, para a Kate Titanic Winslet. A mulher é maravilhosa, doce, inteligente, sempre com um ar de quem não queria fazer um personagem assim. A história de amor que

compõe 2/3 do filme com o clone adolescente do Ralph Phiennes é deliciosa, comovente, quem não gostaria? Quando entra o próprio Ralph a coisa desaba um pouco. E a questão filosófica supostamente tratada, a culpa dos nazistas, é encarada do modo mais superficial possível. É irrelevante a culpa dos monstros criminosos, o importante é seu castigo. Se a coisa é comigo, se alguém matou ou torturou minha mulher ou filha, tenho todo direito de cortar-lhe a cabeça imediatamente. Se a coisa é com o Estado, também deve vir o castigo, embora mais poderosamente. Para que outras pessoas não façam as mesmas sacanagens. E o argumento de “Eu não sabia que estava agindo errado” certamente não é prova de inocência de ninguém. E isso é duro. Não é preciso ficar discutindo o assunto. Em blockbusters oscaráveis, vide “O Julgamento de Nuremberg” de 61, fazem 48 anos, onde os divinos Burt Lancaster e Maximilian Shell já diziam tudo a respeito. Tem no videoclube.

 

Não falei longamente do Sam Mendes. Aquele filme ótimo “Beleza Americana” parece ter sido acidental na carreira do Mendes. Que tem a seu favor já ter comido a Cameron Diaz e a Rachel Weisz, o que não é dizer pouco, atualmente divide a cama com a própria Kate Titanic. Ou seja, um homem feliz. Faz o filme pra ela com uns cinco finais, parece que não vai terminar nunca. Tenta o mesmo recado inspirado do “Beleza”, recado este compartilhado pelo grande Lars Von Trier que consiste no estudo da maldade que se esconde no coração dos seres humanos. Imperceptível na normalidade. E letal na primeira crise. Dessa vez Sam, que é inglês, prefere as belezas de Kate como atriz e como mulher ao aprofundamento do tema citado. Mas não deixa de ser um bom filme, embora também merecesse menos complacência e mais edição.

Termino os comentários reiterando minha certeza de que o cinema americano é o melhor do mundo, longe. Eles sabem fazer. Mesmo quando é ruim é muito bom.

 

 

CONTRACULTURA

 

Uma obrigação que tenho comigo mesmo é escrever a minha estória de amor com a contracultura. Aquelas idéias confusas e belas: “seja razoável, peça o impossível”, “a imaginação no poder”, “caia fora” e mais tudo o que Harrison e Lennon disseram chegou para mim quando eu já era grandinho. Aos 33, 34 anos. Já tinha feito 17 de análise. E vivido um bocado. De modo que pude compreender a profundidade da jogada. Virei hippie e de alguma forma continuo sendo. A contracultura foi um movimento que mostrou aos homens, através do ácido e da música, sua verdadeira beleza. Suas incríveis potencialidades. Quem me botou um ácido na boca pela primeira vez foi uma moça linda, mãe da minha filha, com quem casei no dia seguinte. Vi o movimento no clímax e depois no declínio. E não contei nunca essa história trágica em forma de arte. Claro que é porque temo o fracasso diante de tão importante assunto. Mas por outro lado, acho o “Dreamers” de Bertolucci uma bobagem e “Hair” uma superficialidade. Ninguém descreveu, fora a música, a grandeza desse por enquanto último sonho consistente de libertação da humanidade. Portanto é quase uma missão minha fazer isso. Sou dos poucos que posso. Vamos ver se dá tempo.

 

 

PASSADO

 

Retomo essa linha principal deste blog. O rascunho da minha auto biografia e a comparação do que fui e do que sou hoje. Reli o material anterior inteiro (você pode também fazer no www.dodomingosoliveira.blogspot.com) e concluí qual deve ser o próximo capítulo. “Domingos, 21 anos. Meu primeiro casamento. Um ritual de passagem para a idade adulta”. Aguardem na próxima postagem.

 

Postado por: Domingos Oliveira | 13/02/2009 - 12:29
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DA INFIDELIDADE OU DO CASAMENTO ABERTO

DA INFIDELIDADE OU DO CASAMENTO ABERTO

Há certos assuntos na sociedade que, embora tenham importância de vida ou morte, nunca são comentados em alto e bom som. As palavras tartamudeiam entre a língua e os dentes, sendo em sua maioria, engolidas até o estômago antes que tenham a oportunidade de sair pela cavidade da boca.

O casamento aberto é um desses assuntos.

A ambição oculta de quase todos os casais é pensada, sentida e tratada como um crime grave ou uma vergonha insuportável.

Também eu participo dos sentimentos descritos acima, compelido a isto pelo meu inconsciente escravizante pleno de preconceitos burgueses tenazes. Não façam o que eu faço, porém leiam o que escrevo.

Na minha mais recente peça, logo no prólogo o assunto é discutido em termos banais, para não assustar ninguém. Eros, o Deus do Amor, discute com a Fidelidade:

FIDELIDADE. Deus sabe da minha importância social. O progresso humano não teria existido sem mim.

 (Além de sua função natural de mãe e jardim das delicias, as mulheres são importantes na sua função de confidentes. Realmente as mulheres são os seres a quem os homens contam seus segredos. Essa confiança masculina provém do fato de que os homens acham que podem contar com a cumplicidade incondicional da esposa pelo simples fato de introduzirem habitualmente seus pênis nelas – o que nem sempre é motivo suficiente. Mas quase sempre é.)

EROS. A senhora não passa de uma convenção, um anacronismo, uma idéia tirânica. 

FIDELIDADE. Fútil!

EROS. Possessiva! Era necessária quando os homens deixaram de andar por aí caçando e descobriram a agricultura, precisando saber quem era filho de quem, para botar para trabalhar na sua horta.   

(A explicação, de Engels/Marx, da monogamia através da agricultura é manjadíssima mas ainda parece mais razoável para o surgimento de tamanho absurdo.)

FIDELIDADE. Machão!

EROS. Supérflua! Hoje em dia sua presença é ridícula, incômoda.

FIDELIDADE.  Não tente me reduzir a um fenômeno econômico. Ele não percebeu que evolui através dos séculos, e de obrigação moral passei a ser um ato consciente de escolha amorosa? Homens e mulheres modernos pensam. Hoje em dia, eu, Fidelidade, sou compreendida de novo como a única saída para evitar o aniquilamento da sociedade.  

(Quanto à clamada evolução da Fidelidade através dos séculos, tentemos lembrar do que aconteceu. Na medida em que a fofoca chegou até nós. Começando pelos Gregos, segundo a lenda eram todos gays. Com a esposa então ignorante era impossível discutir a política ou outro assuntos transcendentais. Para isso era preciso recorrer aos rapazinhos, quanto mais jovens melhor. Posto que nas primeiras idades os sexos definem-se pouco e é mais atraente assim. Segundo os Gregos. Já nessa observação, vemos o vírus letal que mais tarde se desenvolveria. É a alma quem trepa. Usa o corpo apenas como fábrica de nenéns. Estranho isso. Em poucas sociedades o sexo valeu pelo sexo, sem uma ideologia romântica que o sustentasse. Muito estranho isso. Pressuponho uma culpa ontológica, que comentaremos depois.)

EROS. Criminosa! Está cientificamente provado que a libido humana não pode se satisfazer com uma pessoa só.

FIDELIDADE. Você já foi casado, meu filho?

EROS. Nunca fui casado, nem sou seu filho! Sou o Deus do amor!

FIDELIDADE. Embora não conheça o básico. Os homens, meu filho, por mais que digam isso e aquilo, não suportam ver suas amadas debaixo de outros. É o básico. Com as mulheres, por mais que não pensem nisso, acontece o mesmo. O ciúme é um arrancador de cabeça, tem a força de um furacão, a virulência da peste. Quer Deus queira ou não queira, não há amante que não contraia essa doença, o ciúme. É o básico.

 (Divisão de trabalho homem/mulher, caça da comida/guarda da casa e dos filhos, revelou-se desde sempre altamente eficaz. Como é possível observar em qualquer filme de cowbói. Foi através desse conluio que o Oeste foi vencido. (“How the West was won?” É Grace Kelly quem salva a vida de Garry Cooper matando o bandido embora fosse “quaker”. Atrás de um grande homem existe sempre uma grande mulher. De preferência, com uma espingarda na mão.) 

EROS.  Foi por tédio que Eva comeu a maçã. Adão era pouco, ela queria ter outros homens. É natural! E olha que aquilo era O paraíso. No dia em que for ensinado às crianças na escola, no dia que todos souberem que a Fidelidade não tem nada a ver com o Amor, que existem casais infiéis felizes e casais infelizes e fiéis, aí então os homens serão felizes. Antes não. Homem e mulher inventam um amor sem paixão, sem sexo. Um incesto ilegal, posto que não são irmãos. Decretam mulher e homem que vão viver a dois, como se fosse possível. Dois contra o Mundo! Derrota assegurada.  

FIDELIDADE. O casamento fiel não desaparecerá nunca! Na medida em que os homens progredirem, na medida em que puderem alcançar as estrelas, destruírem o planeta ou salvá-lo... Quero dizer, na medida em que eles se aproximarem de nós, os Deuses... Terão cada vez mais a necessidade de inventarem algo maior que eles, e isto será o Amor fiel, certamente. O amor então será eterno, um feito para outro, incondicional, e maior que a morte... 

(A relação macho e fêmea é, sem dúvida, de caráter transcendental. O sexo é em si uma transcendência. Na luta contra a morte o amor é o bálsamo, a ilusão salvadora de que não morreremos, posto que sobreviveremos no outro.)

Este é o beabá do assunto. Embora eu confesse humildemente que levei muitos anos de batalha e boa dose de ferimentos para alcançar a tola e superficial síntese acima dramatizada.

O fato é que quase todos os casamentos são, inconfessadamente, abertos. Abertos a sete chaves. O ciúme impede a prática pública tão normal entre os animais, que nem casamento têm, e que não são por isso filhotes do demônio. O ciúme, este monstro de olhos verdes, é dos sentimentos mais profundamente arraigados da alma humana. Também um dos mais violentos. A questão escandalosa se impõe. O ciúme é uma fórmula de guardar a posse do ser amado. É um sentimento que faz parte da natureza humana ou um terrível, porém passageiro, condicionamento social.

Justificando por questões econômicas, realmente um apartamento é mais barato do que dois, o prato pode ser dividido. O ciúme pode ser apenas uma regra de comportamento sócio-econômico e, portanto, passível de cura ou redenção em países mais ricos e civilizados.

Os casais, defendendo seus peixes, em geral negam com veemência essa hipótese. Porém costumes de outros países onde o harém poligâmico é oficializado, revelam uma certa diminuição do ciúme. Sem bem que em geral, apenas do chamado sexo frágil, das mulheres.

(Toda vez que digo isso, levo porrada das mulheres presentes. Porém gosto de afirmar que o ciúme, antes de tudo, é uma falta de educação. Que não acredito em ciúme nem em TPM. Os senhores podem imaginar o quão roxas ficam minhas amigas quando falo isso.)

Uma vez alguém me disse que a fidelidade é um sonho americano. Num casal italiano, francês ou sueco, não parece ser tão importante que existam, no meio, amantes e amantes. Claro, nas mais severas regras da discrição e da manutenção de aparências. Não pode ser pública a infidelidade. Senão todo mundo vira corno.

Bem verdade também que, mesmo na América, o sentimento de traição parece depender de condições geográficas ou sazonais. Quero dizer que uma pulada de cerca é menos grave se o adúltero está numa cidade distante, passando férias ou numa locação de cinema.

Já vi mulheres que, por exemplo, consideram que seus maridos são traidores apenas depois do terceiro encontro com a outra. Até três pode, desde que não seja comentado o assunto. Essa é a parte mais difícil. Comentar o assunto.

Há os que defendem a teoria Rodrigueana de que o adultério deve ser negado, mesmo sendo pego em flagrante, nu e em pé em cima da cama. Negado às últimas conseqüências. Aí a coisa se complica mais. O novelo se enreda. A noção de traição é extraordinariamente subjetiva. Podemos quase afirmar que cada casal tem a sua. Uma diversidade sinistra. E, pior que isso, imprevisível. Exemplos: Uns ficam com ciúme se a mulher olha um homem na rua. Os jovens “ficam” nas festas, isto é, percorrem quase todo o sexo fora a penetração, inocentemente nas festas, sem ofender ninguém. O beijo quase perdeu sua característica de traição. Embora eu conheça muitos que pensem exatamente o contrário. Que um beijo na boca alheia é um bom motivo para um assassinato. As prostitutas não beijam na boca. E que, mesmo sem beijo, o sentimento de desejo e a conseqüente fantasia romântica fora do casamento é crime grave e imperdoável.

Na minha modesta opinião vivemos um tempo de alta repressão sexual. Uma espécie de Nova Era Vitoriana. Uma vergonha.

Subitamente resolvo parar por aqui. Caso contrário, discorrerei em círculos por muitas páginas. A verdade é que falo por mágoa. Essa maldita dessa fidelidade me fez sofrer e sangrar uma vida inteira. E faz até hoje. Tento explicar melhor: Sempre procurei a melhor definição do amor. Amo muito o Amor, sempre quis saber o que ele é. Como naqueles livrinhos que havia antigamente, uma frase em cada página, “o amor é...”

Numa tarde delirante ocorrida há muitos anos, quando eu rolava no chão do meu apartamento de tanta dor de corno e somente não berrava para não assustar os vizinhos... encontrei minha definição predileta:

Amar é querer o bem do outro.

Se não, não é Amor. Tesão, fascinação, paixão, muitos outros nomes bonitos que, em geral, terminam em “ão”. Mas não é o Amor.

Amar é querer o bem do outro.

Radicalmente. Incondicionalmente. Apaixonadamente.

Mas acontece que muitas vezes isso bate de frente com o ciúme. O bem da minha amada pode ser ter um amante, digamos, meu melhor amigo. E não seria digno de minha parte cortar-lhe o pescoço ou o pênis por causa disso. Afinal, amar é querer o bem do outro e um filósofo somente é digno quando segue sua filosofia. Digamos que tenha sido você que, para seu próprio bem, tenha arranjado uma amante. E tenho certeza que sua mulher provavelmente te daria dezessete facadas ou, o que é pior, sairia pela porta se por acaso soubesse. Este é um dilema irresolúvel para o filósofo apaixonado.

Mentir é feio. Coisa de criança. Além de perigoso. Porque mentira tem perna curta.

Mentir é feio. Seu sentimento por aquela ninfeta que se apaixonou é nobre, belo, não tem a menor má intenção e, ao que parece, não retira nenhuma parcela de amor que você tenha pela sua esposa. Um homem tem direito a sentimentos assim. Não deve negá-los com uma mentira sob pena de corroer irremediavelmente a sua dignidade.

Um homem de verdade tem direito a seus sentimentos. Inclusive direito de gritá-los aos sete ventos. Um dilema, sem dúvidas.

Dizer a verdade é feio. Faz sofrer a mulher amada. O que contraria toda a natureza do Amor. Que não nasceu para ferir e sim, para acariciar.

O suicídio é sempre uma solução. Mas é impossível suicidar-se a cada paixão. Resta, portanto, ao homem diante do ciúme apenas degradar-se, perder o respeito por si próprio, quebrar um braço ou uma perna na queda da própria altura.

A última vez que fui seriamente traído, ou melhor, considerei-o assim, andei procurando em lugares escuros assassinos profissionais que me ajudassem a fazer a justiça com aquele filho da puta que tinha ousado tirar minha mulher. Pareço inofensivo, mas sou perigoso! Mas afinal, quem não é?

Para terminar, devo dizer que atualmente sou um adepto teórico do Casamento Aberto. E se não professo é por pura falta de coragem. Porém coragem é um sentimento que se aprende. Quem sabe um dia eu não poderei voltar a esta coluna afirmando que venci o ciúme, que era uma bobagem, uma caretice social? Quem sabe um dia não ficarei contente porque minha amada diverte-se em outra cama?

Ninguém sabe até onde vão as possibilidades humanas. Gostaria que a vida fosse fácil. Eu também, um homem fácil. A fidelidade me indigna.

 

 

 

 

 

 

Postado por: Domingos Oliveira | 30/01/2009 - 12:41
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O Fracasso da Qualidade

O FRACASSO DA QUALIDADE

Tento compreender porque meu filme “Juventude”, embora tenha sido um notável sucesso de crítica, mais que isso, junto a amigos, intelectuais e artistas, é um fracasso em número de espectadores atingindo, até hoje, 22 de janeiro de 2009, não mais que 12 mil espectadores. Tento entender como um filme que provoca uma profunda comoção, que é unânime entre as cabeças pensantes ou sensíveis, pode ser um fracasso de bilheteria! O quanto vale o famoso boca a boca no cinema brasileiro? Ele é o verdadeiro espelho do agrado do filme. Quanto vale isto? Em casos como o “Juventude”, parece não valer nada. Ou será que a platéia inteligente vai, mas não recomenda? Tudo é possível.

Esse artigo não é sobre o “Juventude” e sim sobre vários outros filmes bons, onde o mesmo ocorreu. É uma tentativa de compreender o fracasso da Qualidade. É preciso, antes de tudo, entender que o mercado é absurdamente dispare. Que dada existência de patrocínios, as despesas gastas com comercialização são muito diferentes, criando, evidentemente, uma concorrência injusta e desleal com os filmes que não têm verba e propaganda. É uma luta de David e Golias, um sendo exibido no cinema ao lado do outro.

Muitas coisas levam o espectador ao cinema além da qualidade. Principalmente:

  1. O número de cópias
  2. O número de cinemas em que foi lançado
  3. Se tem ou não artistas da Globo ou outros igualmente midiáticos

É evidente que esses valores acima falam a favor do chamado “filme comercial” de assunto e linguagem fáceis ou pouco criativos. Claro que há exceções dos bons filmes do divertimento como o de Daniel Filho, que é uma espécie de Monicelli brasileiro. Porém sabemos que falar de números é falar de nada. Números são manipuláveis. É evidente que o agrado de um filme é importante.

Um filme não é feito para divertir, apenas. É feito para ensinar a viver. Será necessário fazer filmes ruins num país pobre como o Brasil? É evidente que não. O necessário é fazer filmes bons. Que cheguem ao coração da platéia. Que lhes ensine a ser melhores pessoas, melhores cidadãos, tornar mais justa nossa cruel sociedade. Dificilmente esse tipo de filme pode ser feito a muitas mãos. Em geral, são filmes de um homem só, o autor, a visão de mundo de um homem que, em achando que a vida vale à pena, grita isso para os outros. Sob forma de elogio das grandes qualidades humanas, a dignidade, a honestidade, o amor, o patriotismo, a ética, ou seja, os valores que construíram essa nossa humanidade. Esses filmes valem à pena ser feitos. Os outros não. Ou melhor, devem ser feitos sem apoio do Estado.

Não há nenhum vestígio na Legislação Brasileira de Cinema de medidas que protejam decididamente esse tipo de filme: o filme de Arte. Muito pelo contrário. Cada vez mais se considera como valor magno a bilheteria bruta. Aquilo que o filme rende em dinheiro. Como se esse fosse seu único valor. A TV Globo estabelece o valor financeiro dos filmes que compra através de bilheteria. Mesmo no moderno Funcine, que é uma ótima idéia, a bilheteria dos filmes anteriores conta prioritariamente.

Bilheteria é importante, sem dúvida. Até numa obra de arte. Tudo de que eu ouvi falar até hoje chegou até mim porque deu dinheiro. Beethoven deu dinheiro. Kafka deu dinheiro. A arte é invencível. Mais cedo ou mais tarde ela alcança a todos e dá dinheiro. Na maior parte das vezes, fora do período de vida do artista. Que, por isso, produziu menos. É uma lástima.

O cinema brasileiro tem de representar o mercado internacional, na pequena faixa disponível para isso. O que tem sido tentado através de filmes que de alguma forma imitam o tipo de filme que os americanos fazem.

O filme de baixo orçamento é desprezado e o altíssimo orçamento louvado. É a máxima que dinheiro traz dinheiro. E traz mesmo. Mas é importante que as autoridades apóiem isso.

Reivindico o Ministério da Arte. Regido por artistas. Fora de qualquer suspeita, que privilegiam somente o mérito. A arte do filme. Não é preciso um ministério com grandes dotações orçamentárias. Seria o minúsculo ministério. Porém ministério. Que ajudasse a criar a importância social do cinema e que fizesse do cinema o retrato do país. Que ajudasse, na sua diversidade, tanto os escolhidos quanto os milionários. Num cinema de alto aspecto e virulência emocional. Esses filmes são os únicos que podem vencer a barreira do mercado internacional. São esses filmes que carregariam a chamada, proclamada e desejada indústria cinematográfica. Assim como a locomotiva carrega o trem. É preciso igualmente incentivar o filme independente e patrociná-lo a posteriori, se for bom. Coisa que é proibido na legislação atual que patrocina roteiros, a forma das mais difíceis de ler de toda a literatura. Preconizo a volta da meritocracia artística. Caso contrário, estaremos diante do primado da mediocridade. Da idéia inútil e repetida, da mensagem conformista. No entanto, são outros valores que, crivados de burocracia criam os editais de patrocínios. Ou dão o dinheiro diretamente.

A incompreensão das autoridades e dos burocratas responsáveis sobre este ponto fundamental é o problema do cinema brasileiro. Para completar, por favor, ninguém levante o argumento de que é difícil e subjetivo julgar o que é ou não é arte. Mentira! Mentira maliciosa! A arte brilha como sol. Dá frutos abundantes em todas as estações. É reconhecível à primeira vista. E, se não for, basta perguntar a um artista de verdade que já tenha emocionado muita gente.

Por mim, boto meu roteiro novo em mérito, a melhor coisa que já escrevi, e também minha peça nova, a melhor que já escrevi, embaixo do braço. Me armo com a lanterna da paciência e saio por aí batendo de porta em porta pedindo, com se fosse um prato de comida, uma inteligente compreensão.     

 

 

Domingos Oliveira

Rio de janeiro, 22 de janeiro de 2009.

 

Postado por: Domingos Oliveira | 22/01/2009 - 12:30
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O Curioso Caso de Benjamin Button

Não gostei do filme do Brad Pitt. Embora siga o David Fincher. Esse cara, profissional da indústria americana, tem sem dúvida um pé na profundidade. E pertence ao grupo dos maiores. Embora seja irregular como a peste. Fez pelo menos um grande filme: “Se7en”. Aquilo era um filme maligno. Talvez apenas comparável ao “Silêncio dos Inocentes” e ao “O Iluminado”. Fez também o “Alien 3”, fechando a série e contendo a morte da Sigourey Weaver, que na época me impressionou muito. Principalmente o final. Busco num velho diário:

 

“Segunda feira, 10 de setembro de 1992

Fui ver "Alien 3". É ruim. O cinema americano desse tipo vai ter que inventar um substituto para a violência. Ela está tão gasta quanto os espetáculos do G. Thomas e Cia. E precisa também fazer uma campanha de moralização da dramaturgia. Não tem roteiro, é tudo enganação. Uma técnica, também gasta, de IMITAR o que seria uma grande cena, se fosse.

Entretanto, o último momento, a morte de Ripley não me sai da cabeça. Ali é pura arte, os anjos cantam como nas sinfonias de Beethoven.

Não sei quem fez aquilo, mas quem fez é gênio. A arte ascende à Altura quando, imitando a Vida, ela adquire tantos significados que a inteligência não alcança. Então o Mistério é revelado, numa superposição de sentidos.

Ripley se joga no fogo de costas.

(para proteger o filho, para não morrer antes que o monstro nasça, se joga no inferno, deita como quem vai dormir e sonhar, a queda em si mesma contém a ressurreição, é elegante como um salto olímpico.

A câmera é lenta ‑ o que habilmente foi antes preparado pelo filme, usado antes banalmente, apenas como linguagem.

Lento é o tempo dos que morrem porque diante da morte não há o tempo.

Surpreendentemente vemos que Ripley não tem medo. Sorri, em paz, enquanto o fogo se aproxima.

Que paz será essa? A do dever cumprido, a da paz finalmente alcançada depois de tanta inglória luta, o prazer de deixar esse mundo vil, a de vencer o Mal transformando‑se assim no bem ele mesmo?

Kirilov sabia que o homem que não teme a Morte, transforma‑se em Deus.

Então o terrível acontece .

Sua barriga rompe e de lá sai o monstro‑embrião.

Ele grita, agita‑se, está apavorado, sabe que vai morrer também.

Tinha de ser ali e não antes, apenas no encontro com a Morte é possível dar a luz ao Mal, na presença da luz do fogo,o demônio revela sua fraqueza e medo, o monstro interno pode ser liberado agora, nas garras do Bem.

Vemos de novo Ripley, ela sorri ainda. Compreende tudo. Sua mão segura o monstro com carinho, enquanto submergem no caldeirão fervente.

Mais que hospedeira do mal, ela era a mãe! Porque o Demônio é também um anjo, caído eternamente. E o amor de tudo que existe é maior que o Bem ou o Mal. É do homem que sai todas as coisas, é Ele o Deus que ama suas criaturas.

Ripley mergulha protegendo seu filho nas trevas das chamas, que também são luzes do paraíso, do eterno mistério, da infinita tristeza, da insensatez infinita. Não morre. Reúne‑se com o Todo, como se nunca tivesse existido)

Esse tipo de delírio e muitos outros que não chegam às palavras me vieram a mente com este mau filme comercial de Hollywood.

O cinema comercial americano é a arte mais cara e mais viva do planeta.”

Fez também “O Quarto do Pânico”, alguns outros interessantes porém menores (Zodíaco, Clube da Luta, Vidas em Jogo). Tem 47 anos, é um típico diretor de filmes de indústria, comparável talvez ao maior deles, James Cameron.

Esse agora, “O Curioso Caso de Benjamin Button”, concorrente ao Oscar desse ano, é um filme caríssimo de 3 horas de duração que diz-se baseado num pequeno conto de Fritz Gerald. Lá eles são assim. Tem uma indústria que precisa produzir e que produz, tendo um bom roteiro ou não. Esse é curioso mas é claro o esforço de espichar a estória, que daria no máximo um bom curta de meia hora. Mas que agüenta durante três por causa do dinheiro que custa. Dinheiro não traz felicidade, mas traz liberdade e, no cinema, muito prazer. Não há quem resista a uma exuberante produção. Mesmo que não seja nada, maravilha os olhos com a sensação de beleza, espanta com a dificuldade e o preço de filmar aquilo.

O filme conta a fábula de um homem que nasce velho e morre neném. Anedota que eu conheço através de um texto do Chaplin que fechou todos os meus “Cabarés” dos últimos tempos. O trabalho de maquiagem do Brad Pitt cala a boca de qualquer um. São mágicas que dinheiro pode comprar. Por essas e por outras, é que sempre afirmo que nós do cinema brasileiro devemos fugir como o diabo da cruz dos filmes de produção. Eles fazem bem demais. É luta de categorias. Porém o filme é “realista”. O cinema tem um pé afundado na lata de cimento do realismo. Somente os grandes cineastas conseguem escapar um pouco disso. É a limitação do cineasta. Pelo menos até hoje. Os roteiristas até tentam algum realismo fantástico, qualquer coisa de Garcia Marques, ou refugiam-se no humor, mas com muito pouco resultado. O público adora o realismo porque está acostumado com ele e os produtores não permitem que os filmes caros saiam disso. Então o que vemos na nossa imaginação é um bando de roteiristas criando cenas desnecessárias ou bolando efeitos sensacionais para sustentar a obra. E a obra tem que ser necessária.

De qualquer modo, o cinema bota você para rodar. Sonhar diante da tela. Nada descansa mais do que o cinema. Nada te faz voltar mais à inocência da infância.

No teatro a gente quer que o espectador pense. No cinema não. A gente quer que ele sonhe.

Enfim, já são palavras demais para um filme que, afinal, não tem tanta importância quanto o dinheiro gasto nele. Como a maioria dos filmes americanos, são produtos que tentam driblar as consciências dos espectadores e chegar ao Oscar.

Mas vão lá ver pra conferir. E tornar os produtores mais ricos ainda.

Creio que é um bom filme infantil. Se eu tivesse 12 anos, provavelmente ficaria muito tocado e apaixonado pela anti sexy Kate Blanchet.

Mas, por amor de Deus, chega. Estou ficando tão malvadamente irônico quanto o normal dos críticos.

 

PS. Me arrependo de ter escrito essa crítica. Os críticos são por vocação idiotas e arrogantes. Só lhes deveria ser permitido o elogio, indicando aquilo que eles consideram bons caminhos para o cinema ou para o teatro. Falar mal é covardia. Tinha de ser expressamente proibido. É fácil e subjetivo. Se gostou, fala bem. Se não gostou, cala a boca. Sob esses critérios, talvez eu possa continuar a comentar filmes de peso que ando vendo.  

 

 

 

 

Postado por: Domingos Oliveira | 20/01/2009 - 11:14
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Estreia

Aproveito esse blog para convidar todos os leitores para as estréias do Apocalipse Segundo Domingos Oliveira, uma estranha peça que perpetrei. É uma comédia filosófica sobre um deus fracassado. Para os que seguem o meu pensamento. É audaciosa, moderna, iconoclasta, viril. Hoje e amanhã as portas estão abertas para o ensaio geral. É só chegar e entrar. A sessão é às 21h no Teatro Laura Alvim e é bom chegar antes porque pode lotar. Embora eu queira o teatro abarrotado.

A partir do sábado  a bilheteria está aberta com preços modicíssimos. Não é um trabalho tímido, venham dar sua opinião. Minha peça de número 56 na lista das minhas direções.

 

Domingos.

 

Aproveito esse blog para convidar todos os leitores para as estréias do Apocalipse Segundo Domingos Oliveira, uma estranha peça que perpetrei. É uma comédia filosófica sobre um deus fracassado. Para os que seguem o meu pensamento. É audaciosa, moderna, iconoclasta, viril. Hoje e amanhã as portas estão abertas para o ensaio geral. É só chegar e entrar. A sessão é às 21h no Teatro Laura Alvim e é bom chegar antes porque pode lotar. Embora eu queira o teatro abarrotado.

A partir do sábado  a bilheteria está aberta com preços modicíssimos. Não é um trabalho tímido, venham dar sua opinião. Minha peça de número 56 na lista das minhas direções.

 

Domingos.

 

 

Rio de Janeiro, 15 de janeiro de 2009

 

 

SEGUNDA CARTA ABERTA AOS ATORES

 

PRIMEIRO ENSAIO GERAL

 

 

Nos enganaram que era a estréia. Não saiu nada no jornal, a bilheteria não está aberta, portanto não é a estréia. É o nosso primeiro ensaio geral. E amanhã, outro. Nem por isso deixa de ser um momento importantíssimo. E hoje teremos, se Deus quiser, uma grande quantidade de público convidado. Exijo o abarrotamento do teatro. Ou seja, vai entrar a platéia. A outra parte deste binômio estará no teatro.

Estamos nesse momento padecendo dos males do espetáculo que fica pronto cedo demais. Como toda gravidez, uma estréia não pode ser prematura nem postergada, deve coincidir com as dilatações naturais do grupo. Anteontem ensaiamos muito bem e ontem muito mal. Creio, pela lei do teatro, que faremos hoje muito bem, amanhã pior um pouco e sábado, um grande espetáculo, embora nervoso. A estréia. Estamos vivendo um processo de teatro completo e complexo. Creiam. Creio que será inesquecível na vida de todos nós.

Que faremos hoje e nos próximos dias? Essa pergunta requer toda sabedoria do diretor. Tem de ser algo que transforme os atores de comediantes banais a artistas. Claro que isso vai depender de cada um, da auto estima de cada um, de como cada um pensa sua vida. Algo no ator depende do que ele é. Da nossa parte, estabeleçamos uma estratégia para hoje somente, posto que o amanhã depende de hoje. Vamos fazer uma passada às 18h e outra, com público, às 21h. Ou 21h30. Isso deixa vocês uma hora a uma hora e meia para se vestir e fazer rigorosamente o que quiser. Não existem aquecimentos certos para entrar em cena. É pessoal. Por mim, sempre aconselho viver cada dia como se fosse o último, saber que a platéia está aí para gostar e somente não vai gostar se o ator se esforçar muito. Porque uma peça é apenas uma peça. Porque somos todos carneirinhos à espera do corte e porque estamos ali para nos divertir. A mais sofisticada das diversões, que é o exercício da “loucura sob controle”. Vejamos na prática.

É preciso estabelecer um objetivo para a primeira passada. Passada sem objetivo não vale nada. O ator deve se preocupar com uma coisa só. Listei os objetivos que eu poderia propor para hoje:

      - A velocidade, conforme já fizemos.

      - A velocidade, limitada pela perfeita audição da fala e das intenções.

      - A pompa na representação, que é a consciência da gravidade dos assuntos tratados.

      - O contacto entre o grupo.

      - A contenção dos excessos.

      - A integridade do personagem.

      - Botar o público para rir.

      - Botar o público para chorar.

      - Estabelecer uma cumplicidade sólida com o público.

      - Trabalhar sobre a exatidão de falas e gestos.

      - Ter grande dedicação na narrativa da estória, primado da narrativa.

      - Etc., etc., etc.

São todos importantes. Mas não separei para a passada nenhum deles. E para o ensaio geral, escolherei um diferente desses todos. Prefiro fazer o seguinte. Dividir a peça em fôlegos e escolher uma dessas metas para cada fôlego. É um jogo. Divertido. Depois serão eleitos os melhores do jogo. Pelo júri formado por minhas assistentes e eu. E os vencedores serão levados em triunfo pelos colegas. Ainda não direi qual é o prêmio. Ainda não sei. Beijos servem, ou preferem algo mais concreto?

 

Primeiro Fôlego: APRESENTAÇÃO DOS PERSONAGENS

 

Do prólogo, até o final da primeira cena do demônio.

 

 

Segundo Fôlego: A LIBIDO

 

Da volta de Eros com a estória de Deus, a ameaça do Demônio, e a proposta sobre a libido até a saída das Fidelidades e os Eros aliando-se ao Demônio.

 

 

Terceiro Fôlego: O ATENTADO

 

Deus chama o Demônio para acertar os ponteiros, cena ameaçadora de Lady Mefisto, entrada das Mortes e depois do Demônio, noção do perigo, gongo de 15 minutos para o Juízo Final, Deus decide retaliar o atentado.

 

 

Quarto Fôlego: O JULGAMENTO

 

Cena da suruba do mal, massacre divino, cena importantíssima de confidências, início do julgamento, desespero de Deus, casais, Poeta, execução do Apocalipse.

 

 

Quinto Fôlego: UMA ESTÓRIA DE AMOR

 

Vida descobre o Apocalipse, revolta-se contra Deus até o final, o orgasmo do Big Bang, os agradecimentos.

 

 

IMPORTANTE.

As propostas do ensaio serão dadas na hora, etapa a etapa.

 

Adiantamos o início, primeiro fôlego, velocidade e clareza.

Segundo Fôlego, a pompa.

Terceiro fôlego, contacto.

Quarto fôlego, velocidade e contenção.

Quinto fôlego, exatidão e economia.

 

 

PROPOSTA PARA A SEGUNDA PASSADA (COM PÚBLICO)

 

Manter-se rigorosamente dentro dos personagens, porque a pressão do público será grande, puxando para a comédia e vocês não estão acostumados com ela, de modo que os personagens podem dançar. (Sei que não é fácil, mas no entanto, é.)

 

 

 

FRASE DO DIA:

 

O importante numa comédia é o drama. O humor, a comédia traz obrigatoriamente. Não é o riso, é a lágrima que deve ser procurada. É a lágrima que torna nobre o riso. Quando a comédia alia as duas coisas, ela torna-se o mais eficiente meio de comunicação com a platéia.

 

 

OBS. Da uma hora e meia de espera entre um espetáculo e outro, cada um pode fazer o que quiser. Uns preferirão ficar sozinhos e retirados. Outros preferirão agitar os músculos em exercícios de corpo. Outros se aquecerão na fogueira das grandes idéias que cercam a peça. Etc. Cada um tem o seu jeito e isto está certo, será respeitado. Porei também uma música no palco desde a entrada do público para quem quiser se preparar dançando. Mas o importante, no entanto, é que todos antes da representação passem pela a platéia e observe o espaço. É muito importante saber para quem e onde vamos fazer o teatro.

 

 

Ass.

Domingos. 

 

Postado por: Domingos Oliveira | 15/01/2009 - 11:27
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A 5 Dias Do Apocalipse

O APOCALIPSE SEGUNDO DOMINGOS OLIVEIRA estréia com bilheteria aberta no próximo sábado dia 17 no Teatro Laura Alvim às 21h.

Rio, 10 de janeiro de 2009

Carta aberta aos atores e equipe do

“Apocalipse Segundo Domingos Oliveira”

GRUPO FÚRIA

Amigos,

Nessa hora de estréia gostaria de colocar para vocês alguns pontos importantes. Não basta o talento nem a eficiência para enfrentar a estréia. É preciso também uma certa sabedoria. Saber que:

1.     Uma estréia é apenas uma estréia. Um dia chega o texto, no outro dia as marcações, os figurinos, as luzes e, um dia... o público. A estréia é um dia como qualquer outro no processo teatral. É claro que equivale no amor à noite de núpcias. Mas esta também é uma noite como as outras, se estivermos vivendo um grande amor. Todas as estréias são nervosas porém portanto maus espetáculos. Vivos, emocionantes, interessantes, mas certamente não serão dos melhores que faremos.

2.     Toda estréia é um sucesso. Os amigos elogiam escandalosamente e quem não gostou não tem coragem de dizer e inventa um elogio. Não acredite em nada que digam na estréia.  E curtam o sucesso.

3.     Uma peça é apenas uma peça. Não decide nem resolve a vida de ninguém. Embora pareça sempre a coisa mais importante do mundo, isso faz parte do poder hipnotizador do teatro. Não é. Você pode fazer peças sem qualidade, contanto que um dia você faça uma com grande arte. Essa última será sempre lembrada e a primeira, esquecida. Uma peça é apenas uma peça... e “a vida não é nada disso”. Como dizia meu velho e bêbado tio Jackson.

4.     Não se considerem sem graça porque não riem mais de suas piadas. Todo mundo já ouviu cada uma delas no mínimo dez vezes. O inacreditável do teatro é que o público verá a peça pela primeira vez. Essa coisa que está te levando à exaustão que você conhece de cabeça para baixo é para o espectador uma novidade absoluta. Não é inacreditável?

5.     Mesmo que sejamos todos muito ruins, o texto é bom. Lembram que vocês um dia acharam isso? Permitam que o público ouça o texto. É uma segurança.

6.     Divirtam-se!

Domingos.

PS. Seguem alguns pensamentos escolhidos lúcida e generosamente pela nossa querida companheira Glauce do livro “Do Tamanho da Vida”. A escolha é oportuna. Aconselho a leitura de cada um deles dez vezes, ou até entendê-los. E aplausos para a brava Glauce.

"Apenas o coração traz a genialidade. A qualidade básica do ator é, sem dúvida, sua generosidade."

“A posição do ator diante do diretor deve ser a daquele que soma. Se o diretor um dia indica certo caminho e, num outro dia, indica, com igual ênfase, um caminho que conflitua com aquele... o ator só tem a ganhar com isso. Não significa incoerência do diretor. Somente um ator burro pode ficar incomodado com isso. Significa apenas que a cena pode ser enfrentada por caminhos conflitantes! Se o ator souber somá-los, melhor para ele! A alma do ator deve ser como uma bolsa mágica, onde tudo cabe. Jamais a divisão ou a subtração. A soma! A multiplicação!”

" Uma  vez Fernanda Montenegro me disse: ' Domingos, quando você estiver em cena, escolha uma coisa para fazer. Não importa muito o que você escolhe. Mas faça aquilo até o fim, às últimas conseqüências, ao perigo: Quem não gostar é porque não entendeu!'

Jamais recebi um conselho tão sábio. Como grande atriz, Fernanda sabe que não há lugar no palco para meios-termos, dúvidas, timidez. Que é preciso ocupar a alma com algo radical que guie todo o resto. Algo tão forte que nos defenda da autocrítica e do vendaval de energias que provirá da platéia... Não importa o tamanho do papel, ou sua importância dramatúrgica dentro da peça. Quando um ator entra em cena, ele é o personagem principal. "

 

 

" (...) tenho por fé que o decorar um texto deva ser na verdade um mergulho profundo, um retorno ao mundo do autor, daquele que escreveu as linhas. Quando o autor escreveu, não precisou decorar. Aquelas palavras saíram dele por algum motivo. Os atores devem tentar reproduzir o próprio processo de pensamento do autor... Assim, o texto estará em nossas bocas e consciências verdadeiramente, de modo inevitável, como o autor escreveu. E assim, elevados através desse tipo de abordagem ao nível de autor, podem os atores começar seu verdadeiro trabalho."

 

 

 

Teatro é uma coisa séria, para gente séria.

 

 

 

 

" Ziembinski me disse uma vez que a “boa vontade” é um dos valores mais importantes do teatro. Realmente. Quando uma equipe de atores colabora em cena, tendo prazer em representar, ajudando o colega, de coração aberto para a platéia, cria um sentimento tão belo que ele é em si o espetáculo. "

 

 

" Nenhum espetáculo de teatro é mais bonito do que aquilo que acontece detrás do pano. Porque mais bonito que o teatro é o espírito do teatro."

 

 

 

" Todo mundo quer ser ator. Mas pouca gente pode ser ator. Ator de teatro em particular. Não porque sejam necessários dotes especialíssimos, mas porque pouca gente ama o teatro a ponto de poder ser um ator. "

 

 

 

"São raros os atores que propõem a si mesmos emoções ou pensamentos que não podem entender. Emoções e sentimentos de ordem inconsciente. Toda grande interpretação repousa no inconsciente. A inteligência, toda a inteligência, é indispensável, mas vale pouco. O ator tem valor se for louco. Louco sob absoluto controle. E, de novo, são poucos os que não temem. Liberar a própria loucura faz bem à saúde e não enlouquece ninguém."

 

 

 

" Coerência é um valor antigo. O direito à incoerência deve ser dos primeiros reivindicados pelo artista. Qualquer homem inteligente é incoerente. A coerência é apenas um exercício de uma inteligência essencialmente incoerente."

 

 

 

 

"Contar bem a história é a obrigação mínima."

 

 

 

" Mas um ator não sobe ao palco para ser amado; esta é uma gratificação secundária. Sobe ao palco para amar."

 

 

 

" O corpo é apenas o instrumento da alma. Esta, sim, deve ser aquecida antes do ensaio.

Diante da lareira dos grandes sentimentos."

 

 

 

" Um ensaio de teatro deve ser um ato teatral. A partir do momento em que chegamos lá até o momento de ir embora, todo o nosso comportamento deve ser teatral. Alguém que assiste ao ensaio deve sair com a sensação de ter visto uma grande peça, cujo assunto é um ensaio de uma peça de teatro."

 

 

 

"A luz e a trilha musical são partes muito trabalhosas e delicadas de uma montagem teatral. Tão importantes quanto o cenário e o figurino, para dizer o mínimo. Depois do turbilhão do impacto que os atores e as demais realidades cênicas impõem à primeira concepção do diretor, é fazendo a trilha, e depois a luz, que sentimos

o primeiro retorno ao precioso silêncio autoral. "

 

 

 

 

  "Num ensaio de teatro e, posteriormente, na representação, tudo deve ser incorporado. Qualquer incidente inesperado, qualquer circunstância externa momentânea ou (principalmente)

os estados de espírito dos colegas servem fortemente como fontes de criação."

 

 

 

"O valor de nosso trabalho não depende da opinião dos outros. Faremos tudo para que eles gostem, sem dúvida. Mas se não gostarem é porque não entenderam.

Posto que representaremos com prazer, mãos estendidas e coração aberto.

A boa intenção é tudo que se pode exigir no teatro."

 

 

 

" O ator é o espetáculo de si mesmo. Por mais diferentes que sejam os personagens que representa,

o espetáculo que a platéia vê é a alma do ator por detrás do personagem.

Por isso, o teatro é uma arte formidável. Somente grandes almas dão grandes espetáculos."

(Domingos Oliveira, em 'Do Tamanho da Vida')

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Postado por: Domingos Oliveira | 10/01/2009 - 13:10
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Atualidades

Faz duas semanas que eu não escrevo. Assim, perco a confiança dos meus bloguistas. O que fiz nessas duas semanas, sei lá, foi um turbilhão. Não por causa das festas, mas sim porque a mente humana é um turbilhão. “A raposa tem seu corvil, o pássaro tem seu ninho, somente o filho do homem não tem onde descansar a cabeça.” Cristo. Nessas duas semanas, amei e vivi. Através dos dois shows de Natal, dois shows de Ano Novo, ensaios intensos do “Apocalipse”, que estréia dia 15, quinta-feira, no Laura Alvim para convidados, ou seja, vocês. É só escrever para o blog e pedir convites que eu deixo na porta nos três primeiros dias. Fiz algumas idas ao paraíso, algumas descidas ao inferno, como todo mundo.

 

Os shows de Natal e Ano Bom: O teatro é do Governo. Ou seja, o ar refrigerado quebra e custa para chegar outro. Que, quando chega, não refrigera o suficiente. Fazendo o show, aí lembrei o que era o calor. É uma coisa bestial, a camisa grudada no corpo, onde você perde toda a civilidade, para de pensar, perde a memória e pensa somente uma coisa que tem sentido: tirar a roupa e fazer sexo. Entregar-se aos fluidos humanos. Os homens nórdicos não sabem do que estou falando. Passou de 40°, o homem é só impulso, a não ser que desmaie. Apesar ou talvez por causa disso, o show foi de grande comunicabilidade. Foram as nossas festas, do elenco, de Natal e Ano Bom. Abraçamos e beijamos, desejamos estar juntos no ano que vem (esse ano agora), demonstramos toda a paixão que temos uns pelos outros. Quem não faz teatro não sabe o que é bom. E quem não faz o “Cabaré”, nem imagina. Apesar de que jurei a mim mesmo que não vou fazer mais, que esta fórmula chegou ao seu esgotamento, ao seu clímax (dessa vez usei como “cenário” do palco italiano um fundo vivo e imprevisível. Eram meus alunos, os furiosos apocalípticos, bebendo e namorando tudo o que podiam com a impressão louca que não estavam sendo vistos pela platéia. Que a platéia estaria olhando só para os cantores na frente. Enfim, o clímax. Melhor cenário que já tive. Para superar, é preciso mudar. E talvez encaretar, porque mais livre do que isso, não dá. Agora pretendo fazer um show muito quietinho, no ar refrigerado, com pouquíssimas pessoas, de smoking, se eu arranjar um, intitulado “Poemas e Pensamentos”, onde revelarei meu lado mais oculto e pudorado, que é o das minhas canções. Chega de orgia, eu quero a missa. Mas advirto aos leitores que muito provavelmente tudo o que está escrito acima é mentira. Adoro meus Cabarés e cabareteiros.

Sinto pena que nunca tenha dado dinheiro. A proposta estética não permite lugares grandes, exige intimidade. Ora, o Cabaré tem muita gente. Quem entra, não sai. O resultado é que a receita não cobre a despesa. Afinal, o que é isto, o dinheiro? O DINHEIRO É UMA COISA QUE O PATROCINADOR TEM. E EU NÃO TENHO. Quem me arranja um patrocinador para o Cabaré? Deus não é, já pedi.

 

Sobre o Ano Novo, transcrevo aqui uma pensata de dois ou três anos atrás, que foi dita no Cabaré, à qual permaneço fiel.

Crônica de REVEILLON:AFINAL O QUE ESTAMOS COMEMORANDO?

 

As champagnes e os fogos e os corações e as mentes espoucam, depois de uma contagem regressiva até o encontro dos ponteiros. Quem não souber que todo ato humano é total e completamente desprovido de qualquer sensatez terá dificuldades de entender. Um marciano que porventura assista, ficará apavorado: trata-se de algo tipicamente humano, particular.

É apenas o Reveillon. A primeira pergunta salta aos olhos: o que afinal estamos comemorando???

 INICIANDO pelo óbvio: a data denuncia a nossa esquecida conexão cósmica. Macacos que somos, bichos imitadores, mimetizamos o Big Bang nos céus de Copacabana. Diga-se de passagem, bastante bem. A Terra deu mais uma volta em torno do Sol, esta bailarina. Ou bolinha de roleta? Hora das previsões e dos planos, dos búzios e tarôs, como será a vida que vem?

Sabemos apenas que as estações se repetirão, embora isto não signifique muito aqui nos trópicos. Sabemos que os tempos tomarão de novo os mesmos nomes: janeiro, março, fevereiro, dezembro. Que serão feitas as listas dos melhores de tudo. Que a Humanidade terá nova chance de salvação. É a repetição do diferente, incrivelmente diferente. Como a mais sólida lei do mundo é que não há leis no mundo, ansiamos sempre por algo, previsível. É o réveillon. Sempre em Dezembro. Graças a Iemanjá, ja estamos com o espírito preparado. Há uma semana foi o Aniversário do Cristo, o mais famoso dos mortais. E ficamos toda a semana nos shoppings, ansiando por dar presentes...

O primeiro dia do ano é também o dia da confraternização universal, de comemoração quase planetária. Na Era da Quebra do Pacto Social, quando aviões são encravados em edifícios e adversários políticos simplesmente eliminados por envenenamento, são muito bem vindas essas combinações comunais, como o Reveillon. Embora dificultem o trânsito nas ruas. Somos, pelo menos uma vez por ano, levados a pensar que pertencemos a um grupo maior, chamado Humanidade. Que, de tão absurdo e tenaz, há de ter um grande destino.

Penso que é a mais bela das efemérides, o Despertar do ano. Mais que o Natal e o Carnaval. À meia noite, renascemos. Devia haver uma lei proibindo mortes ou separações de casais, nas épocas próximas do reveillon, tal é a tendência para que isto aconteça. Devia haver uma lei que protegesse os amores que nascem no reveillon, sob a benção dos fogos de artifício.

Tento lembrar-me de reveillons sensacionais. Para surpresa minha, lembro poucos. Aquele que, resolvido a passar sozinho com uma recente namorada, abrimos a champagne cedo demais e dormimos, sem trepar nem ver fogos, antes da meia noite.

Outro na casa de Cesar Thedim, que o porre era tanto que me deitei na rua de braços abertos para que os carros passassem por cima de mim e dando trabalho aos amigos para retirar dali aquele bêbado que atrapalhava o trânsito.

Aquele em que Priscilla resolveu cair na cachoeira gélida de Teresópolis à meia noite, como fizemos durante tantos anos, só que havia um temporal serrano e o rio rugia como dez dragões, e Priscilla insistia em cair assim mesmo. E não me lembro de muito mais, por quê?

Talvez o reveillon não seja uma festa particular, que deixe recordações particulares. O que me lembro, isso em todos eles, é das sensações de um grande amor no peito e de uma gravidade diante do Tempo ele mesmo..

...Tenho pensado muito ultimamente na distancia que vai entre o Amor que um homem tem no peito e aquele que ele consegue expressar. É imensa! Uma grande frustração. O reveillon é uma chance de amenizar esta limitação existencial. Sair andando por aí, dando abraços beijos em todo mundo e desejando um... Feliz Ano Novo!!

 

A sorte está lançada, os dados rolaram, o espetáculo está concebido. Embora ainda não realizado. Mas atualmente adquiri o seguinte defeito: Quando no Cabaré aprendo a cantar uma música, já não tenho mais vontade de cantá-la. Concebido o espetáculo, é como se ele já fosse para o escaninho do passado. Embora, na realidade, trabalharei 12 horas por dia entusiasticamente sobre essa coisa do passado. O espetáculo tem tudo para me desmoralizar, pedras pesadas podem ser arremessadas contra mim. Ou para me levar ao pódio dos diretores geniais, experimentais, desses que só os jovens realmente entendem. Isso porque o “Apocalipse”, confesso, é uma peça bem esquisita. Estruturada, armada sobre as regras da melhor dramaturgia. Clareza absoluta. Não obstante é muito pessoal. E diferente de tudo o que você já viu. Não sei se o povo vai se interessar pelo tema, pura filosofia transformada em humor e espetáculo, uma espécie de Indiana Jones metafísico com direito a atentados contra Deus, massacres e grandes amores. Nada celestiais. Fora isso, entreguei o centro da peça, o papel de Deus que eu ia fazer, para Matheus Souza, um garoto de 20 anos com talento dos maiores que já vi. Mas Matheus também é esquisito. A platéia pode amá-lo ou detestá-lo. E ele não vai ligar a mínima. Nem eu. Sua companheira de cena forma com ele uma química amorosa que salta aos olhos. Incrivelmente chama-se Sophie Charlotte. 20 anos de juventude feita mulher. Uma coisa perfeita, inexistente. Pedaço do paraíso. E os dois lados se vertem fazendo essa história sobre uma depressão divina cercados por mais 35 atores. Venham ver nos primeiros dias. Estou inseguríssimo com a reação do público, porém absolutamente seguro sobre a excelência do meu trabalho. Quero dizer que pode sair uma merda, mas é muito bom!

 

O filme “Juventude” faz hoje uma semana em cartaz. Elogios em todas as direções. Telefonemas emocionados e certamente injustos apontam como meu melhor filme. Mas a relação da minha bilheteria com os concorrentes é deprimente. “O homem bom” faz muito mais, “Se Fosse Você 2” também “Marley e Eu” então, nem se fala. Embora eu desconfie que esses números comumente publicados sobre bilheterias de cinema não reflitam absolutamente o agrado do público. Não me refiro apenas às quantidades díspares das verbas de lançamento, que vão de 20 mil reais a 6 milhões. Refiro-me principalmente ao valor do próprio dado. Se estou em cinemas maiores, faço mais espectadores. Se lanço com dez vezes mais cópias, tenho muito mais espectadores. O índice de julgamento do agrado do público não é só quantidade. E sim, a quantidade por cópia. Ou, o que seria mais justo ainda, a relação dos lugares oferecidos e dos lugares ocupados. Utilizando este outro índice, talvez eu esteja perto do Marley. Vou tentar descobrir.  

Enfim, minha postagem de hoje reduz-se a estas atualidades.

A frase do dia é: “Cai a alma no mais profundo dos abismos, a queda em si mesmo contém a ressurreição.” (De uma peça clássica israelita, de Sch. An Ski)   

 

PS ressentido: Meu programa “Todos os Homens do Mundo” Com Priscilla Rozenbaum entrevistando homens foi o melhor talk show do ano passado, sendo que quatro ou cinco são verdadeiras obras primas do gênero. O programa não foi sequer citado nos “melhores do ano na TV”, essa mania que eles têm de fazer listas. O que faz pensar na desinformação e a injustiça que nos asfixia. E que há certos momentos em que há que se deixar a modéstia de lado.     

 

 

Postado por: Domingos Oliveira | 03/01/2009 - 12:04
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