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Blog do Leonel Moura

29/08/2008

O Robotarium trata a robótica como uma nova espécie com a qual já partilhamos o planeta.
Essa espécie dá os primeiros passos evolutivos e manifesta muitas debilidades. Entre outras insuficiências não foi ainda possível desenvolver uma total autonomia. Mas é para aí que se caminha.

Para que se possa falar de verdadeira autonomia num robot é necessário que este consiga cumprir os seguintes requisitos:

a) Ser dotado de um corpo independente
b) Acumular energia pelos próprios meios
c) Ter a capacidade de processar informação recolhida directamente do ambiente
d) Evitar situações de perigo, bloqueio ou que possam danificar componentes
e) Auto-reparar danos ligeiros
f) Aprender com a experiência

A partir deste patamar mínimo é de esperar o desenvolvimento de uma inteligência avançada, capacidade de reprodução e um processo próprio de evolução.

De momento somos os únicos agentes da evolução dos robots. Num jogo em tudo similar ao da natureza darwiniana, mas sem a paciência e o investimento prático de muitos milhões de anos desta. Trata-se portanto de uma evolução controlada e portanto bastante inconsequente.
Muito do investimento actual é canalizado para a criação top-down de entidades robóticas configuradas segundo perspectivas de satisfação dos nossos interesses imediatos e dependência total da nossa vontade. A robótica humanóide, aquela que seguramente tem maior sucesso junto do público e mais futuro económico imediato, pretende reproduzir, o mais fielmente possível, comportamentos humanos e cumprir funções sociais e culturais várias. O trabalho árduo, o serviço público, o acompanhamento de idosos e doentes ou o divertimento. Gerar um modo de vida robótica autónoma com base nesta tendência antropomórfica é complexo e poderá vir a revelar-se bastante moroso. Para além de se prestar ao cometimento dos maiores absurdos. A criação de robots de morfologia singular, processos emergentes e modos de vida simples mas resilientes é um caminho bem mais interessante. Muito provavelmente esta robótica nascerá da combinação entre nano e biotecnologias, computação, partes mecânicas, processos aleatórios e emergentes.

Mas não é necessária futurologia. A realidade actual já está suficientemente povoada de máquinas inteligentes, mesmo se muito desajeitadas e tantas vezes decepcionantes. A nova espécie já nasceu e cresce. Um pouco à maneira como o Câmbrico viu a grande explosão de formas bizarras e de fraca sustentabilidade mas que determinaram o curso da evolução, também os actuais robots dão os primeiros passos de uma nova vida condenada a projectar-se no futuro. Alguns fazem lembrar os Hallucigenia, uma “coisa” impraticável repleta de espinhos e tentáculos de função duvidosa que há 500 milhões de anos teve os seus quinze minutos de fama para logo desaparecer nas profundezas do reino dos fósseis primordiais. Outros parecem agitadas amebas reagindo ao estímulo ambiental. Outros insectos, aranhas, peixes, cães ou simulando este nosso renitente antropomorfismo. Há também os que ensaiam a aventura da sua própria natureza e se apresentam com formas e comportamentos rigorosamente singulares. Todos eles constituem uma nova forma de vida que nos estimula e desafia. E que só se realizará plenamente no dia em que se libertar de nós. Não tenho medo desse momento. Pelo contrário, o aparecimento de uma forma de vida tão ou mais inteligente do que nós ajudará a acelerar o nosso próprio processo evolutivo.

 

Postado por: Bravo Online | 29/08/2008 - 14:41
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21/08/2008

(Na imagem vista do interior do Robotarium)

Em 2006 tive a ideia de criar um Robotarium. Ou seja, um zoo para robots.
Autonomia e auto-sustentabilidade foram os conceitos chave deste projecto. Os robots deviam ser capazes de “existir” sem nenhuma manutenção exterior. Assim criei um ambiente apropriado, coloquei nele vários robots autónomos movidos a energia solar e deitei fora a chave. A maioria sobreviveu bem e ainda continua activa, outros avariaram, outros foram mesmo extintos.

A maioria dos habitantes do Robotarium X é da família BEAM (Biology, Electronics, Aesthetics, e Mechanics) que se define por um mínimo de componentes electrónicas, um simples sistema sensor/actuador e o recurso à energia solar. Com pouca capacidade de interacção com o ambiente, limitada à detecção de obstáculos e à procura do sol, os robots pouco mais fazem do que deslocar-se de um lado para o outro. Na medida em que existem 30 indivíduos, desde que exista algum sol, alguns deles estão sempre em movimento.

Energia solar e robótica formam uma combinação poderosa. As células fotovoltaicas resolvem satisfatoriamente a questão da autonomia e inscrevem-se numa tendência geral de uso de energias limpas e renováveis as quais representam uma das mais consistentes soluções para a própria robótica autónoma do futuro. Embora se trate ainda de uma energia de fraca potência ela já é notável. Basta comparar com a sua utilização pelas plantas. A maioria destas aproveita, para a sua sustentabilidade, menos de 1% da energia solar que recebe. Enquanto as células fotovoltaicas recuperam perto de 15%. Com pequenas células de silício com 2,5 x 6 cm, em quantidades que variam entre duas e quatro conforme as espécies, os robots conseguem mover-se, evitar obstáculos e procurar as zonas com maior incidência luminosa (fototaxis).

De modo a reforçar esta ideia de nova espécie atribuí a cada tipo de robot um nome latim. Nasceram 14 espécies num total de 45 indivíduos. Esta catalogação baseou-se nas características morfológicas, as quais por sua vez foram determinadas pelo modo de locomoção e também pelas componentes intestinas. Embora muitos destes robots apresentem algumas semelhanças com animais existentes, por exemplo Araneax tem a forma de uma aranha ainda que com sete patas, a forma do seu corpo resultou das condicionantes mecânicas. O modo de locomoção foi igualmente importante, já que associado a pequenos servomotores que exigem um posicionamento específico. E a colocação dos painéis fotovoltaicos no topo ainda mais.

O aspecto algo orgânico dos robots deve-se a uma função de adaptação ambiental. Deixar as componentes à vista, assumindo a condição de espécie electrónica e mecânica, mantendo patas, rodas, fios e placas despidas de qualquer revestimento, facilmente levaria os robots a ficarem presos uns nos outros e incapazes de movimento. A pele, relativamente lisa, serviu para contornar este problema. Saliências, penugens e cornos, foram também colocados fora do alcance dos outros robots. O corpo é adaptativo não é só decorativo.

Como obra de arte o Robotarium X confronta o homem com a vida artificial. É uma peça dinâmica, “viva”, questionadora das ideias convencionais sobre o objecto artístico e a própria noção de cultura. O Robotarium não é uma representação, mas uma manifestação de organismos vivos. A configuração espacial no seu interior é determinada pela “percepção” que os robots têm das movimentações no exterior da estrutura ou através das relações, aleatórias, que se estabelecem entre as várias espécies. Ainda que a inteligência e a capacidade sensorial geral seja baixa esta “escultura” está sempre em permanente mutação orgânica. Numa espécie de dança cuja coreografia é definida a cada momento pelos próprios agentes robóticos e não-humanos.

 

Postado por: Bravo Online | 21/08/2008 - 15:38
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15/08/2008

(Na imagem o meu primeiro robot formiga)

O estudo das formigas e de outros insectos sociais levou-me a tentar reproduzir artificialmente um similar comportamento emergente em pequenos enxames de robots. Estes insectos comunicam entre si através de mensagens químicas, as feromonas, com as quais produzem determinados padrões de comportamento colectivo. Com esse tipo de mecanismo geram e seguem trilhos, procedem a limpezas, reparam e constroem ninhos, defendem-se e atacam, conquistam territórios. As feromonas não são nestes insectos o exclusivo meio de comunicação. Nas formigas o toque de antenas ou nas abelhas a dança são igualmente importantes. Mas a linguagem feromonal resulta num complexo sistema de produção de cognição e acção. A feromona é uma língua dinâmica que se exprime por meio de uma sucessão de incrementos e decrementos. De feedbacks positivos e negativos. 

As mensagens são amplificadas quando há reforço de feromona e vão perdendo “sentido” quando não havendo acréscimo a brisa trata de a dispersar. É também uma comunicação indirecta. A que se chama stigmergia, do grego stigma/marca e ergon/trabalho. Entre o indivíduo que coloca a mensagem e aquele que é estimulado por ela não há proximidade nem relação directa.
Nas primeiras experiências que realizei com robots formigas substitui a feromona pela cor. As marcas deixadas por um robot estimulam a acção pictórica de outros robots. Desse modo emergem pinturas abstractas cuja configuração parece fruto do acaso mas que numa inspecção mais atenta revelam formas e padrões bem definidos. Não estamos portanto perante um processo meramente aleatório, mas de uma técnica de composição criativa optimizada por milhões de anos de evolução.

Tanto quanto me é dado saber, ArtSBot (Art Swarm Robots) foi o primeiro projecto de arte robótica que produziu uma verdadeira criatividade dos robots através da organização emergente das formas. Todas as experiências anteriores ou assentaram exclusivamente no aleatório ou tinham como propósito levar as máquinas a cumprir um programa pré-determinado pelo seu criador humano.

ArtSBot, pelo contrário, teve como objectivo realizar a maior autonomia possível da máquina para efeito de uma produção pictórica original. Na prática o projecto consiste numa série de pequenos robots, tipo “tartaruga”, munidos de duas canetas de feltro e um par de sensores RGB virados para o plano da pintura. Com estes “olhos”, os robots procuram cor, determinam se ela é quente ou fria, escolhem a caneta respectiva e reforçam-na com um traço fixo ou variável. Quando a tela está ainda em branco, para dar início ao processo, os robots deixam aqui e ali aleatoriamente uma pequena mancha de cor. Com estas regras simples são geradas pinturas singulares onde de um fundo aleatório se destaca uma composição bem definida com intensas manchas de colorido. O aleatório inicial é uma semente que origina uma “ordem” final. O processo é emergente e assenta nas propriedades da stigmergia.

O produto dos robots é inteiramente original. Do mesmo modo que consideramos que alguém que escreve um livro não pode ser descrito como mero instrumento do seu professor da escola primária, também neste caso os robots não podem ser vistos como simples instrumentos de quem os concebeu e programou. Há uma efectiva incorporação de informação nova e não pré-determinada no processo. E a isso não se pode chamar outra coisa senão criatividade.

É claro que se trata de uma criatividade rudimentar, automática, desprovida de imaginação, e sobretudo sem consciência de si mesma. Mas basta consultar a história da arte moderna para ver como, por exemplo, o surrealismo procurou gerar obras nesses mesmos termos. O “automatismo psíquico puro”, definição por excelência do próprio movimento, apresentou-se como uma técnica espontânea, não-consciente, sem qualquer intencionalidade estética ou moral. No campo das artes visuais é Pollock quem melhor cumpre este desígnio ao despejar tinta para cima da tela sem procurar representar outra coisa para além da própria acção.
 
Talvez por isso as pinturas dos meus primeiros robots sejam, formalmente, tão parecidas com as de Pollock ou com as de André Masson, outro pintor importante do automatismo. No seu período surrealista este artista tentava frequentemente induzir um estado de baixa consciência, passando fome, não dormindo ou tomando drogas, de modo a conseguir libertar-se de qualquer controlo racional e assim fazer emergir o que à época, na senda de Freud, se chamava o subconsciente.

A falta de consciência, controlo externo, pré-determinação ou fitness, permite gerar nos meus robots pintores uma criatividade no seu estado puro, sem qualquer intenção representacional, estética ou moral.

RAP (Robotic Action Painter) exposto agora no Itaú Cultural e criado em 2006, é um pintor individualista embora utilize o mesmo mecanismo da stigmergia como método de composição. Para além disso determina, pelos seus próprios meios, o momento em que a pintura está pronta. Os robots anteriores não tinham esta capacidade encontrando-se dependentes do esgotamento das baterias ou da minha vontade em suspender o processo. RAP toma esta decisão com base na informação recolhida directamente da pintura. O que gera uma considerável variação temporal e formal, pois tanto pode dar a obra por terminada ao fim de relativamente pouco tempo e com baixa expressão pictórica ou prolongar a construção do quadro por um período bastante longo e torná-lo muito mais denso. O “segredo” deste comportamento está na alteração significativa dos sensores visuais, os quais passaram de dois para nove “olhos”, permitindo desse modo a leitura de cores mas também de padrões locais. RAP não vê somente pontos coloridos mas detecta também pequenas configurações pictóricas. É também o primeiro dos meus robots a assinar as suas obras.

ISU, o Robot Poeta criado também em 2006, escreve letras e palavras gerando poemas e composições aleatórias baseadas na letra, muito ao estilo do Letrismo, movimento artístico que sucedeu ao Surrealismo.

Esta referência a movimentos artísticos do século XX não pretende legitimar a obra dos robots pintores, mas antes estabelecer paralelos formais que demonstram como determinados processos apresentam resultados similares, quer se trate de artistas humanos, quer de artistas não-humanos.

Os robots pintores produzem obras originais com base numa organização emergente das formas. O essencial dessas criações reside na interpretação que a máquina faz do mundo e não já na sua descrição humana. Não lhes foi induzido nenhum plano prévio, fitness estética, gosto ou modelo artístico. São simplesmente máquinas criativas dedicadas à arte.
A criatividade não é uma capacidade exclusiva da cultura humana. Pode ser reconhecida no universo físico, biológico e artificial.

 

Postado por: Bravo Online | 15/08/2008 - 17:10
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08/08/08

(Na imagem Autotelematic spider bot de Ken Rinaldo)

Quando falamos de inteligência, vida ou criatividade artificial a palavra-chave é autonomia. Porque se queremos de facto dar origem a entidades artificiais capazes de pensar, existir ou criar então elas têm que se libertar de nós e agir com os seus próprios meios e se possível com os seus próprios objectivos.

Existem muitos problemas para se conseguir verdadeira autonomia numa máquina. Será mais fácil por exemplo de o realizar nas nano-máquinas ou em seres por via da manipulação genética, já que ambos podem ser fabricados com material biológico e portanto dotados de considerável autonomia. Mas nas máquinas não-biológicas e na robótica confrontamo-nos com enormes dificuldades. Desde logo temos a questão maior da energia. O uso de baterias, ainda muito corrente, não é solução pelo óbvio motivo de que não é renovável. A energia solar e a bacteriana são as que de momento se apresentam como as mais interessantes. Todavia trata-se de energias de muita fraca potência o que significa que não permitem pensar em grandes feitos. Eventualmente teremos de um dia seguir a solução da natureza, ou seja, comer. Aliás existe já um robô que come moscas, mas para além de cheirar muito mal move-se à estonteante velocidade de 15 cm hora.

http://www.brl.uwe.ac.uk/projects/ecobot/index.html

Outras dificuldades assinaláveis dizem respeito à mobilidade, auto-reparação, aprender com a experiência ou reprodução. De qualquer modo interessa reter que tendo nós a consciência destes problemas e cada um, a seu modo, trabalhando para os resolver, é inevitável que um dia o aparecimento de novas espécies robotizadas, muito inteligentes e autónomas sejam uma realidade. Ou seja e dito de outro modo, é preciso olhar para os nossos robôs, sejam eles de entretenimento, úteis ou artistas, não tanto pelo que eles são agora mas sim pelo que eles virão a ser. Sem essa visão não se percebe nada do que se passa.

 

Postado por: Bravo Online | 08/08/2008 - 16:30
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06/08/2008

(Na imagem desenho feito por um dos meus primeiros robôs em 2004)

Existem designações que não explicam nada. Por exemplo Arte Contemporânea, já que toda a arte é por algum momento contemporânea de si mesma. Depois torna-se antiga, peça de museu, estímulo da memória, património. Por isso, em termos conceptuais e de comparação de diferentes modelos criativos, prefiro falar de arte do século 20 versus nova arte do século 21.

Dito isto, então onde está a diferença, a ruptura, o novo paradigma?

A arte do século 20 caracteriza-se por uma crescente afirmação do autor. Desde a abstracção que liberta a arte de qualquer representação ou referência exterior para se tornar numa coisa em si mesma, até ao gesto radical de Duchamp que se liberta do próprio objecto e estabelece o acto criativo como singular vontade do artista. “Arte é o que o artista diz que é arte” é o paradigma que domina todo o século 20. Mesmo nos casos de obras de carácter processual, o artista é sempre o centro do processo e aquele que tudo controla.

Na nova arte do século 21 as coisas não são tão claras. Estamos ainda na fase da procura e da experimentação. A melhor e mais excitante diga-se de passagem. As novas tecnologias e os novos saberes geraram uma explosão de possibilidades dando origem a muitas designações e práticas: net, digital, tech, sci, bio, robô. No meio de tanta diversidade, que alguns consideram ser para já o que melhor caracteriza a nova arte, não existe outro título senão o 21 da data, que possa congregar todas estas expressões por vezes até bastantes contraditórias nos seus processos e modelos conceptuais. A própria tecnologia não pode servir como marca diferenciadora, já que afinal um pincel também é tecnologia, ainda que muito baixa. Usar simplesmente uma nova tecnologia disponível não gera por si só uma nova arte. Pelo contrário, muitas vezes a arte é afogada pelo fascínio tecnológico, coisa que é bastante visível em muitas obras actuais.

É por isso que considero que depois da afirmação radical da obra com a abstracção, seguida da afirmação radical da autoria com Duchamp, a próxima ruptura realmente digna desse nome é a que retira o humano do processo e afirma não menos radicalmente a autonomia da criatividade em si mesma. Ou como dizia logo nos anos 40 Norbert Wiener, o pai da cibernética, “we must take the human factor out of the loop” se queremos gerar uma inteligência ou uma arte realmente autónomas.

Assim, eu já não crio directamente obras de arte, mas crio entidades, agentes, organismos capazes de produzir pelos seus próprios meios as suas obras de arte. Ou seja, em vez de fazer arte faço o artista. Nessa medida não só não domino completamente a produção e resultado da obra, como invisto todas as minhas capacidades e imaginação em gerar as condições para que essa obra possa efectivamente libertar-se da minha influência, quer através de imprevisíveis interacções sensoriais, quer por via de uma “lógica” interna assente em processos aleatórios e de emergência. É nesse contexto que posso afirmar que as obras produzidas pelos meus robôs pintores devem ser vistas como independentes da minha acção, de tal modo que adquirem uma qualidade própria a que chamo criatividade artificial por analogia com o que hoje já reconhecemos como uma inteligência artificial.

Os meus robôs não são os únicos produtores desta nova forma de arte. Existem muitos outros exemplos de obras geradas através de processos aleatórios, emergência, inteligência artificial, algoritmos genéticos, manipulação genética, ou seja, que no essencial partem dessa nova atitude de desencadear um processo criativo capaz de ganhar autonomia face a quem esteve na sua origem.

É esse o caminho da arte do século 21. E esse o novo paradigma depois de Duchamp.

 

Postado por: Bravo Online | 06/08/2008 - 12:25
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01/08/2008

A arte do século 20 morreu. Essa arte que continua a ser feita pela grande maioria dos artistas e se mantém dominante nas Galerias, colecções e museus é coisa do passado. É arte antiga. E isto não sucede porque mudou o número do século, mas porque se alteraram radicalmente as condições de realização da arte. Nas últimas décadas as transformações foram brutais. Apareceu o computador que depressa mostrou não ser uma simples máquina de fazer contas, mas um poderoso acelerador da inteligência, humana e não-humana. O computador permite ver para além do visível retiniano, projectar formas impossíveis de conceber no plano tridimensional, correr em breves minutos algoritmos impraticáveis para o mundo da régua e compasso. O computador gerou a velocidade de raciocínio e o hiperespaço, esse ilimitado universo de recombinação de todo o tipo de dados que nos permite pensar simultaneamente, e como deve ser, as coisas e suas relações.

Depois apareceram os satélites, os telemóveis e a Internet. O mundo finalmente tornou-se mesmo mundo. O território, de que sempre dependeram todos os poderes dominantes, perdeu importância. As nações vacilam, os nacionalismos estão obsoletos e reduzidos às novas formas de fascismo. A Internet veio redefinir a condição social, para o mal e para o bem. Quem a tem é mais livre, quem a não tem é mais pobre e excluído. A Internet é agora a grande e inesgotável fonte de conhecimento. Está lá tudo, da ciência do MIT à habilidade do artesão. Nunca na história o saber foi tão universal e disponível. A Internet transformou-se também num grande cérebro à escala planetária, organismo autónomo e imprevisível, e emergiu como uma nova forma de inteligência no planeta.

Entretanto o genoma foi descodificado atingindo-se finalmente os mais elementares mecanismos da vida. Através dele confirmou-se a interligação de todas as formas de vida do planeta. O racismo, por exemplo, é hoje bastante mais estúpido. Mas também a ilusão da superioridade do humano sobre todas as restantes formas de vida. O genoma mostra como na base estão as regras simples, o aleatório e o emergente. Conceitos fundamentais para se compreender não só a vida em geral, como a nossa vida particular, a inteligência, a criatividade, a cultura e claro está a arte. Estes grandes avanços científicos tornaram a biologia na ciência emergente da nossa era, aquela que tem conduzido a alterações profundas em praticamente todas as áreas do conhecimento. Entre tanta coisa, a nova biologia demonstrou que Darwin tinha mesmo razão. O aleatório é a força dominante no universo e na vida.

A própria economia mudou imenso nos últimos anos. De forma negativa. Aquecimento global e expansão planetária da miséria são o resultado da falta de visão dos políticos e predomínio dos interesses do velho capitalismo. Mas outras coisas vão evoluindo de forma positiva. O global que foi pensado como aprofundamento da exploração do Ocidente sobre o resto do planeta, veio afinal a resultar na emergência de novos gigantes económicos, como a Índia, a China ou o Brasil. E entretanto emergiu por toda a parte uma nova economia, baseada nas ideias e na criatividade que vai revolucionando o quotidiano.

Outros desenvolvimentos estimulam o nosso imaginário. A vida extraterrestre, cada vez mais provável. A biotecnologia e a manipulação genética com a fabricação de novos seres, alguns monstros também, ou a melhoria dos que já existem sem passar pela lenta selecção natural. A inteligência artificial que em breve será tão ou mais inteligente do que nós. A robótica e a vida artificial que povoarão o planeta com novas espécies autónomas, activas e extravagantes. Enfim, o transhumano vem a caminho, um humano expandido nas suas capacidades e inteligência e praticamente imortal.

Perante tudo isto, continuar a pintar telas com um pincel molhado em tinta ou fazer instalações em que se acumula lixo em cima de lixo a que se dá um título absurdo, é perder tempo. Ou pelo menos é continuar a viver noutro tempo que não o nosso.

A arte do século 20 morreu porque o século 20 está definitivamente morto. Agora estamos no século 21. E temos a arte do século 21.

 

Postado por: Alessandro da Silva | 01/08/2008 - 18:47
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  • Blog do Leonel Moura

    O artista português está em cartaz em São Paulo com um robô dotado de criatividade artificial

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