Elemento Estrangeiro

Ele poderia ter sido a Fernanda Takai…

Assisti na sexta-feira passada à abertura de uma exposição de fotografias chamada “Nikkei Brasileiros!“, do fotógrafo japonês Mizuaki Wakahara. A exposição é a primeira de uma série de seis que a Embaixada do Brasil em Tóquio patrocina neste ano com o objetivo de mostrar a visão de fotógrafos japoneses sobre o Brasil.

Gosto muito de fotografia, mas fui à abertura da exposição por estrito dever profissional. Como Ministro-Conselheiro da Embaixada, sentia-me na obrigação de comparecer. Não pretendia escrever sobre ela aqui no blog.  Mas a verdade é que achei a exposição tão inspiradora que não resisti.

Mizuaki Wakahara na abertura de sua exposição

Mizuaki Wakahara é um fotógrafo jovem e bem conectado no panorama artístico de Tóquio. É simpático e me disse que, se pudesse escolher, “gostaria de ser brasileiro“.  Descobriu essa identificação por acaso. Nunca tivera qualquer vínculo com o país. Ninguém de sua família emigrara. Em seu imaginário, o Brasil era um lugar remoto, mais musical do que físico.

No entanto, em 2008, Wakahara tomou conhecimento da história do navio Kasato Maru, que, cem anos antes, levara 165 famílias (781 pessoas) da cidade japonesa de Kobe para o porto de Santos, em uma viagem que durou 52 dias. Foi o Kasato Maru que deu início ao fluxo imigratório que produziu cerca de 1,5 milhão de brasileiros com ascendência japonesa.

Tomar conhecimento de que tantos japoneses haviam partido para o outro lado do mundo para, de alguma maneira, se reinventarem e iniciarem uma vida nova lhe foi perturbador. Como em um exercício de projeção, passou a perguntar-se: “Se a minha família tivesse emigrado para o Brasil, e eu fosse brasileiro, que tipo de vida eu teria?”

Com essa indagação na cabeça, Wakahara viajou ao Brasil para ver de perto a realidade de gente cujos ancestrais haviam deixado o Japão para transformarem-se em brasileiros. A exposição é, justamente, fruto dessa viagem e apresenta-se como uma reportagem fotográfica que capta momentos da vida de pessoas -dos brasieliros-  que Wakahara poderia -ou gostaria de- ter sido e não foi.

Se você estiver em Tóquio e quiser assistir à exposição, ela fica em cartaz até o dia 25/05, de 9:00 às 17:00h, no Salão Manabu Mabe da Embaixada do Brasil (2-11-12 Kita-Aoyama, Minato-ku, Tóquio).

Mizuaki Wakahara podia ser a Fernanda Takai...

Wakahara poderia ter sido a Fernanda Takai...

 

...ou o Titi Freak...

...ou o Celso Kamura.

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Para quem só gosta de auto-retrato.

Outro dia, em São Paulo, saí com um grupo de quatro pessoas, das quais eu só conhecia uma. Quando perguntei onde íamos, uma das pessoas que eu não conhecia me respondeu: “vamos a um restaurante bem legal, um lugar super diferenciado“.

Fiquei sem saber exatamente o que a resposta queria dizer, mas fui ao tal “lugar diferenciado” com o espírito aberto. Tratava-se de um restaurantezinho, em um bairro rico de São Paulo, cuja entrada discreta se notava pela movimentação de manobristas ocupados em receber uma fila de carros importados. Antes de entrarmos, notei três seguranças de óculos escuros, falando em walkie-talkies e vestidos de terno e gravata pretos, apesar do calor.

No interior, todo mundo parecia ser da mesma família. Até nos olharam para ver se nos reconheciam de algum lugar. As mulheres tinham os cabelos lisos e joias e carregavam, além de óculos escuros, bolsas de couro desproporcionalmente grandes penduradas no braço. Os homens, por sua vez, estavam bronzeados e usavam camisas sociais bem passadas, enfiadas para dentro das calças. Muitos dos que tinham cabelos usavam gel. Todos comportavam-se como se estivessem em um clube. Ouvi alguém falar: “aqui só tem gente bonita!

No cardápio do bar, além das caipirinhas de frutas variadas (lima da Pérsia, tangerina, morango), os mesmos drinks que se encontram em qualquer lugar do mundo. Alguém na nossa mesa pediu um Prosecco. No cardápio de comidas, palmitos (pupunha), raviólis de mussarela (de búfala) e tiramisus, com os quais as pessoas pareciam se deleitar. Eu entrei na onda e me deleitei também. No entanto, para o que era “diferenciado”, não havia nada de novo. A única coisa original eram os preços: fora de proporção, mesmo para quem mora em Tóquio, como eu.

Na semana seguinte, fui a  um almoço de trabalho com uma conhecida que me disse que me levaria a um lugar em que “só havia gente bonita.” Devo confessar que tive certo receio de não ser bonito o suficiente e de acabar barrado na entrada do lugar. No entanto, ia convidado e não queria interferir nos planos de minha anfitriã. Se não me deixassem entrar, paciência.

Para minha surpresa, o restaurante a que ela me levou parecia a filial do outro da semana anterior. Os mesmos carros importados, a mesma tropa de manobristas e os mesmos seguranças. A mesma caipirosca de lima da Pérsia. O mesmo palmito pupunha (na brasa) e os mesmos raviólis de mussarela de búfala (com molho de tomate e manjericão). As pessoas também pareciam as mesmas, e os preços astronômicos, idem.

Ao longo da refeição, pensei ouvir umas duas vezes a palavra “diferenciado”. Também acho que entreouvi alguém dizendo “aqui só tem gente bonita”. Nos dois restaurantes, os cenários e os personagens se repetiam: mulheres de cabelos lisos com óculos escuros e homens bronzeados com a camisa para dentro das calças ocupados em ser elegantes sob um ar condicionado fortíssimo.

Pensei na Val Marchiori, daquele seriado Mulheres Ricas, no qual tudo tinha grife e nada surpreendia, cuja personalidade se escorava em catálogos de lojas da Quinta Avenida. Entre um e outro copo de água (San Pellegrino), cheguei à conclusão de que as pessoas gostavam de ir a lugares diferenciados para não terem surpresas, para só verem pessoas iguais.

"Auto-retrato" - Chuck Close, 1995

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Você já foi à Etiópia, nêga? Não? Então vá!

Uma de minhas primeiras missões como diplomata, assim que saí do Instituto Rio Branco, foi acompanhar Tamirat Layne, então Primeiro-Ministro da Etiópia, e sua comitiva, que foram ao Brasil para participar da Conferência Rio-92.

Desde então, a Etiópia passou a ocupar um lugar no meu imaginário. Quase 20 anos depois, quando morava em Brasília, integrei a delegação brasileira à Cúpula da União Africana, cuja sede fica em Addis Abeba, a capital etíope. Foi assim que acabei fazendo uma das viagens mais interessantes de minha vida.

Addis Abeba é uma cidade grande. Tem cerca de 3,5 milhões de habitantes. Por abrigar a sede da União Africana e da Comissão Econômica das Nações Unidas para a África, conta com quase 100 embaixadas residentes e é uma das capitais diplomáticas do continente.

Para conhecer um pouquinho de Addis, abaixo, um video feito por Fred Di Meo. A música, “Dreamland“, é, naturalmente, de Bob Marley (porque a Etiópia é a terra ancestral dos rastafáris).

Por recomendação de uma amiga comum, procurei Guy Calaf e sua mulher, Kristen White, que, à época, moravam na cidade. Kristen, que é australiana, trabalhava com saúde reprodutiva feminina. Guy, italo-americano, fazia uma série de reportagens na África para a Stern alemã e a Vanity Fair italiana. Ele, que é um dos fotógrafos de conflito mais famosos do mundo, produziu imagens icônicas como esta:

Guy Calaf - República Democrática do Congo, 2005

Pelas mãos de Kristen e Guy conheci aspectos comezinhos da vida em Addis Abeba.  Até ao cinema eles me levaram. Vimos um filme etíope muito interessante chamado Teza, de Haile Gerima, que ganhou o Prêmio Especial do Jurí do Festival de Veneza, e que, por coincidência, sai em DVD agora no próximo mês de maio.

 

Foram Kristen e Guy que sugeriram uma visita a Lalibela. Como eu sabia que eles sabiam das coisas, aceitei a sugestão.

Lalibela é uma das cidades mais sagradas da Etiópia. Tem pouco mais de 15 mil habitantes e fica a cerca de 2700 metros de altitude, ao norte do país, a caminho da fronteira com a Eritreia e com o Djibouti. Desde de o século 13, é  um dos principais centros de peregrinação para os cristãos ortodoxos coptas etíopes.

Há algum turismo (os locais de peregrinação são considerados Patrimônio da Humanidade pela UNESCO). Existem pousadas e encontram-se guias que falam inglês. A comida, no entanto, pode ser difícil para alguns. A estrutura da cidade é precária, mas aceitável. Tem até um aeroporto pequeno, com uma pista de pouso. Cheguei lá pela Ethiopian Airlines, vindo de Addis, tendo feito uma escala em Bahir Dar, às margens do  Lago Tana, que é a a nascente do Nilo Azul (que, mais adiante, no Sudão, se junta ao Nilo Branco para formar o Rio Nilo, o mais longo do mundo).

De Addis Abeba a Lalibela, com uma escala no Lago Tana.

O primeiro a relatar no Ocidente a existência de Lalibela foi o padre português Francisco Álvares, em sua obra “Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias“, publicada em Lisboa, em 1540.

Em seu relato, Álvares, que integrava missão diplomática portuguesa ao Imperador etiope Lebna Dengel, escreveu o seguinte:

“Dos grandes edifícios de igrejas que há na terra de Abugima que fez Lalibela Rei e da sepultura sua na igreja de Gólgota” (…) “estão edifícios os quais me parecem que no mundo não se possam achar outros tais e tantos, e são de igrejas todas cavadas em pedras mui bem lavradas e os nomes destas igrejas são estes: Emanuel, Salvador, Santa Maria, Santa Cruz, São Jorge, Gólgota, Belém, Marmóreos, os Mártires”(…) “Estas cousas me amostravam como que me  espantaria eu de as ver.»

E espantoso era.

O que ele viu foram onze igrejas talhadas cada uma num único bloco de pedra, sobre um monte denominado Calvário. Os templos estão ligados entre si por corredores e escadarias subterrâneos. Mas cada um é uma criação distinta. Tudo, todos os detalhes foram talhados na rocha, sem que os arqueólogos entendam bem como.

A Igreja de São Jorge, em Lalibela, Etiópia.

 

Igreja de Santa Maria, em Lalibela, Etiópia.

Reza a lenda que essas igrejas teriam sido talhadas pelo próprio Imperador Lalibela, “com a ajuda de anjos”, no começo do século 13, quando Jerusalém se encontrava em poder dos muçulmanos e bloqueada para a peregrinação de cristãos. Simbolicamente Lalibela representaria a Terra Santa. Seria Jerusalém recriada na Etiópia, com a reprodução de todos os locais sagrados. Até o rio que passa na cidade foi nomeado de Rio Jordão.. A intenção de Lalibela era que a peregrinação dos fiéis não se prejudicasse, mas ele, como a ajuda de seus anjos, acabou criando o que talvez tenha sido o primeiro parque temático da história da Humanidade.

Se você quiser ver um pouco mais, encontrei no Vimeo este video muito legal feito por Luis Filipe Gaspar, de Portugal:

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“Para um homem de 52 anos, divorciado, ele achava que tinha resolvido bem o problema do sexo.”

Eu acho que a frase mais importante de um livro é a primeira. Não precisa concordar comigo. Eu mesmo me reservo o direito de no futuro mudar de ideia. Mas faço essa afirmação peremptoriamente porque me parece que a primeira frase pode definir tanto o destino de um livro como o de seus potenciais leitores.

Tive a prova disso ontem. Era domingo. Tinha de ir ao supermercado. Tinha de passear com os cachorros. Tinha de arrumar os armários. Mas, assim como quem não quer nada, meio que por acaso, abri um livro que havia ficado esquecido numa estante do meu escritório. Sua primeira frase era a seguinte:

“Não é a geografia, não é a arquitetura, não são os heróis nem as batalhas, muito menos a crônica de costumes ou as imagens criadas pela fantasia dos poetas: o que define uma cidade é a história de seus crimes” (Alberto Mussa, O Senhor do lado esquerdo).

Pois bem, pelo menos no que me diz respeito, essa primeira frase mudou meu destino nesse domingo. Não fui ao supermercado, nem passear com os cachorros, e o armário  continua bagunçado. Mas li 111 páginas de um livro que nem lembrava possuir. Nesta segunda-feira, continuarei minha leitura, e o meu destino, em relação ao que parecia que seria ontem, terá mudado hoje também, só  porque abri um livro e li sua primeira frase.

Não que um início trivial espante o leitor. No entanto, uma boa abertura, ao sintetizar o espírito de uma obra, determina a urgência de sua leitura.

Para um homem de 52 anos, divorciado, ele achava que tinha resolvido bem o problema do sexo” (J.M. Coetzee, Desonra).

Do mesmo modo, uma boa abertura delineia a abordagem do escritor em relação ao leitor. É a apresentação de seu trabalho.

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo início ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte.” (Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas“) 

Em certo sentido, uma boa primeira frase é como uma boa cantada. Pode seduzir, porque anuncia todo um universo de possibilidades prazerosas. Funciona como um convite, como um definidor de vontades. Claro que relações maravilhosas podem começar com abordagens desastradas, mas isso é a exceção. Acho que o melhor é começar com o pé direito, com vontade de seguir em frente.

"Mulher deitada lendo" - Pablo Picasso, 1960. Será que ela deveria estar no supermercado?

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Não conte para ninguém que eu sou hipócrita, OK?

O moralista François de La Rochefoucauld (1613-80) dizia, em sua Máximas, que a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude.  Descrita, assim, nesses termos, a hipocrisia poderia parecer algo positivo, como o elogio que se faz a um princípio ou a uma ação dos quais não somos ainda capazes, mas que admiramos e pretendemos imitar.

No entanto, quase sempre, o que se vê da hipocrisia é seu lado nocivo. Frequentemente, ela se apresenta como instrumento que um indivíduo utiliza para afirmar a superioridade moral ou ética que não possui. Essa utilização mentirosa da hipocrisia, porém, não ocorre apenas em nível individual. Pode também que contagie as instituições e passe a fundamentar políticas de governo, como um falso valor civilizatório, imposto, sem qualquer traço de legitimidade.

Penso nesse aspecto nocivo da hipocrisia ao ver pessoas indignadas com a possibilidade da legalização do aborto, quando qualquer mulher rica que engravide, se assim o decidir, poderá abortar em um das centenas (milhares?) de clínicas especializadas que pululam no Brasil. Ou quando se opõem à legalização do consumo da maconha, por exemplo, sabendo que milhões acendem seus baseados, nos melhores bairros do País, sem que nada lhes possa acontecer. Ou, ainda, quando se suspende uma exposição de arte (vem-me à cabeça a exposição da Nan Goldin, boicotada pelo Oi Futuro Flamengo), sob alegação de que agride valores familiares, ao mesmo tempo em que violência doméstica e hipersexualização, mesmo que lamentáveis, sejam fatos cotidianos da vida no Brasil.

A rica pode abortar em uma clinica. A pobre que tome abortivos por conta própria ou se vire com um cabide de arame útero adentro.

O rico pode relaxar com seu baseado em sua poltrona de couro desenhada por Charles Eames. O pobre maconheiro que se humilhe no cimento frio de uma delegacia de polícia.

Suspenderam a exposição da Nan Goldin no Rio de Janeiro? Não tem problema. Veja as fotos dela no MoMA quando for a Nova York nas férias.

Esse tipo de hipocrisia generalizada transforma os pobres em bodes expiatórios e os obriga a um padrão de comportamento social que os ricos não têm necessidade de manter. Também evita que o Brasil se torne um país mais justo.  Mas, para muita gente, é justamente essa a ideia. O conservadorismo é comfortável. A melhor coisa é que tudo continue como está, e que não se deixe perceber que as limitações humanas são as mesmas, quer se esteja em Manhattan, no Complexo do Alemão ou no Leblon.

"Nan one month after being battered" ("Nan um mês depois de ter sido espancada") - Nan Goldin, 1984

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Literatura gay para quê?

Quando morava nos Estados Unidos, percebia que toda livraria tinha uma seção de “gay literature”. Eu não conseguia entender a lógica dessa classificação. Para mim, “gay” era quem sentia atração física por pessoas do mesmo sexo. Como literatura não tem atração sexual por ninguém, ficava difícil imaginar aqueles livros todos na estante transando entre si para poder caracterizá-los como homossexuais.

Há, no entanto, quem defenda a existência de uma chamada “literatura homossexual” como gênero específico. Acho que a base desse entendimento está vinculada à orientação sexual do autor (“se o autor é gay, sua literatura é gay“) e à dos personagens (“literatura com personagens gays é gay também“).  Essa ideia de classificar literatura como “gay” provavelmente decorreu do fato de que neste século, mais do que em qualquer outro período da história, autores e personagens passaram a evitar eufemismos ou disfarces para sua homossexualidade.

E a literatura imita a vida. Assim, a maior visibilidade de autores e persoangens abertamente homossexuais na literatura é apenas a projeção de um fenômeno social que tem a ver com vários elementos da contemporaneidade, entre eles a revolução sexual, o enfraquecimento da moral religiosa e o surgimento da AIDS. Em suma: vêem-se mais gays nos livros porque, hoje, os gays são mais visíveis no mundo.

Um branco pode se identificar com uma história escrita por um negro. Um poema composto por um homossexual pode falar ao coração de um heterossexual. E vice-versa. A literatura é um exercício de comunhão. Sua mágica consiste justamente em revelar a humanidade comum que vincula pessoas diferentes. Nesse processo de identificação humana, sinceridade vale muito mais do que gênero, nacionalidade, raça ou orientação sexual.

"Cigarras, 2002"- Leonilson

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Onde os elefantes gostariam de morrer.

Fui infectado por algum vírus gripal de estirpe samurai. Poderosíssimo. Acabo de voltar do médico. Em inglês, ele me receitou uma série de remédios (5) e repouso. No entanto, antes de repousar, aventuro-me a escrever umas pouquinhas linhas para o blog.

Passei os últimos dois dias de cama. Com febre, fechava os olhos e tentava me transportar para um lugar mais agradável que o meu quarto de doente.  Cada vez que fechava os olhos, minha mente me levava para o México. Curiosamente, esse bem-estar imaginário, produzido em delírio febril, incluía sempre alguma obra de Luís Barragán, o grande arquiteto modernista falecido em 1988.  Conheci seus projetos arquitetônicos quando morava na Cidade do México e nunca mais os esqueci.

Para ele, o modernismo deveria transmitir emoção, e a arquitetura só era bem feita se expressasse serenidade. E nada melhor para um doente que serenidade, certo? Acho que, em Barragán, procuro conforto estético para combater o desconforto físico que eu sinto. Então, para ficar bom logo, volto agora para o meu quarto e para os meus olhos fechados, que, espero, me mostrarão a arquitetura serena que quero continuar a ver.

 

Casa Gilardi - Luis Barragán

Fuente de los Amores - Luis Barragán

Casa López – Luis Barragán

 

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A mulher que eu gostaria de ser.

A primeira vez que ouvi falar de Ana Miguel foi em Brasília, no início dos anos 90. Procurava um lugar para morar e visitei um apartamento em que ela havia morado. Lembro-me de que as paredes tinham cores inusitadas -mas lindas- e que havia figuras de pequenos personagens coladas nas portas dos armários. Fiquei encantado com o que vi e perguntei quem havia transformado o apartamento daquela maneira. Disseram-me que se tratava de uma artista chamada Ana Miguel – e eu nunca mais esqueci do nome.

Anos depois – não me lembro em que ocasião- encontrei-a pessoalmente.  Conhecer um artista cuja obra se admira pode ser uma experiência frustrante. No entanto, no caso de meu encontro com Ana, foi exatamente o contrário: tornei-me mais fã do que já era.

Ela fala baixo e tem uma delicadeza que envolve -acolchoa- as coisas que diz, por mais terríveis que possam ser. As primeiras obras dela que tive a oportunidade de ver eram pequenos objetos tridimensionais. Figuras terríveis, assustadoras, tricotadas em lã macia e feitas de tecidos brocados.

Naqueles trabalhos, o tato traía a visão.  Anos depois, quando visitei  uma instalação que ela  expunha numa galeria (Espaço ECCO) em Brasília, acho que entendi o que um crítico quis dizer por “deslizamento dos sentidos” ao comentar sua obra. De novo, o paradoxo:  teias – de aranha?-  mortais, mas suaves, coloridas, tecidas de lã macia.

Agora, mais velho, continuo instigado por seus trabalhos. Pergunto-me se o que ela apresenta e denuncia não seria o paradoxo que vitima e desorienta tantas mulheres e homens nos dias de hoje: uma espécie de ressaca do Romantismo, na qual se descobre que as obrigações românticas do “felizes para sempre” talvez não sejam jamais exequíveis e de que a feminilidade, ao contrário do que dizem,  nada tem de frágil.

Não deixe de conhecer a obra desta grande artista brasileira. No momento, ela tem trabalhos na exposição “Coleção Gilberto Chateaubriand – Novas Aquisições 2010/20120″, que foi inaugurada em 21/03/2012 no Museu de Arte Moderna do Rio de janeiro – MAM.

"Personagens de Jardim" - Ana Miguel, 2000

 

"o Heimlich" - Ana Miguel, 1997.

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O casamento

Susana e Matias casaram-se no dia dezoito de maio. Três anos antes, na mesma data, haviam sido apresentados por um amigo comum.

O namoro foi quase monótono. Nenhum rompimento ou grande dúvida. O tempo foi dando a medida do que, entre eles, deveria, dia a dia, acontecer.

Noivaram dois anos depois do primeiro encontro. Na festa do noivado, Matias, maravilhado, orgulhoso, descobria-se homem, pronto para casar.

Naquela mesma noite, em sua cama, antes de dormir, sonhou a vida que queria com Susana.  Levemente bêbado, imaginou uma fazenda com cães pastores tangendo ovelhas, num país longínquo, bem distante do Brasil.

Casaram-se um ano depois.

O mesmo padre que batizara Susana celebrou seu casamento. Não que isso fizesse a menor diferença para ela àquela altura da vida.  Só muitos anos depois descobriria a religião.  Mas sua mãe, que era católica, conhecia Padre Justino há anos e fez questão de que fosse ele a casá-la.

Para Susana, naquela cerimônia, só interessava mesmo o fato de estar-se casando. Por meio de Matias, ela operava uma metamorfose em sua vida. Padre Justino abençoava aquela transformação.  Susana também sonhava com uma fazenda, cães pastores e ovelhas num país longínquo, do outro lado do mundo.

O noivo estava satisfeito, mas não feliz. Não caberia falar de felicidade ali. A satisfação de Matias era outra. Dos elementos que a compunham, o orgulho era o mais importante. Sentia orgulho de sua noiva e quase queria que seus sogros houvessem sido também seus pais.

O casamento era uma função, uma brincadeira, uma partida de tênis que poderia transformar-se em frescobol na praia ou em futebol na lama. Matias Grappeggia cumpria o seu destino de homem. Casava-se bem.  Levava seu nome adiante.

Incluía-se na ordem natural das coisas: do pó ao pó. O padre lhe falou de eternidade, de mais uma geração. Confirmava-se a intuição que ele já tinha de que o casamento é uma eterna construção, como a catedral em Barcelona sobre a qual lera na revista Manchete.

Para não sobrecarregar os recursos do noivo, Susana escolheu uma praia perto de São Paulo para a lua-de-mel. Um motorista os levou num carro alugado.  No banco de trás, olhando a paisagem, Matias perguntava-se se aquela vegetação fechada ainda abrigaria macacos. Susana não pensava em nada. Enjoava nas curvas da estrada, feliz com sua nova vida, que descia a serra em direção ao litoral.

Perdeu a virgindade cerca de quarenta minutos após a chegada ao hotel, mas não conseguiu identificar o momento exato do defloramento. As três taças de champanhe que engoliu a confundiram, sem relaxá-la.  Fato consumado, abraçou as costas do marido, ao mesmo tempo em que lhe beijava o pescoço.

Mudou sua vida sem choro. O sexo seria só uma atividade a mais na rotina do seu novo estado. Entendia que sua virgindade não valia nada. Não mudava nada. Dava-se conta de que defendera sua virgindade contra os avanços do namorado inutilmente.

Durante o resto da lua-de-mel tomaram banhos de mar, comeram camarões e fizeram sexo duas vezes todos os dias, de manhã e à noite.

(Matias na cidade, Editora Record)

"O casamento dos Arnolfini" - Jan Van Eyck, 1434.

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Você se importa?

Tenho um fraco por quem acha que pode mudar o mundo. Essa gente, no entanto, é muitas vezes desqualificada como louca ou irrealista. Minha avaliação dela é distinta. Acho que esses visionários, se é que  poderia chamá-los assim, são as pessoas mais sensatas que há, porque têm lucidez para identificar problemas sociais e criatividade para apresentar soluções originais. São os responsáveis pela inovação. Fazem o mundo melhorar. Quem se conforma com a ausência de soluções para os problemas do mundo  é preguiçoso ou egoísta. Só isso.

Se você, como eu, tem interesse por esse tipo de empreendedor social, que acha que o mundo pode ser melhor e se engaja no processo de melhoria, não deixe de assistir a “Quem se importa“, documentário realizado pela diretora Mara Mourão. O filme, que é narrado pelo Rodrigo Santoro, teve sua première em Harvard faz duas semanas e vai estrear no Brasil no  mês que vem (13/04 em SP e 20/04 no Rio).

Trata-se de um longa metragem muito inspirador. Mara e sua equipe viajaram pelo mundo identificando o trabalho de pessoas que mudam o mundo por meio de idéias inovadoras, capazes de causar impacto social suficientemente forte para influenciar e definir políticas públicas. O filme inspira porque ajuda a entender como a mente dessas pessoas funciona, os obstáculos que atravessam e a alegria que sentem ao cumprirem sua missão.

Entre os entrevistados, há um nigeriano que, ao detectar os problemas que a falta de saneamento e a ausência de banheiros públicos em Lagos trazia à população, criou uma empresa que já instalou quase dois mil banheiros na cidade, empregando mais de 1000 pessoas carentes e levando estrutura sanitária para o local. Criou um negócio social onde quem administra o banheiro fica com 60% da renda auferida e, assim, além de melhorar o sistema sanitário, está mudando a vida das pessoas empregadas.

Tem um indiano que fundou o Kiva, organização que promove microcrédito pela Internet. O site do Kiva funciona como um facebook de empréstimos. Você entra e escolhe o perfil da pessoa a quem quer emprestar dinheiro. Quando o empréstimo é pago, quem emprestou tem a opção de resgatar seu dinheiro, emprestar a outra pessoa ou doar para o Kiva. Dessa maneira, mais de 300 mil pessoas em 100 países já foram beneficiadas.

Há também um monge budista belga que treina ratos para desarmar minas terrestres na Tanzânia e Moçambique. Os ratos são também treinados para detectar tuberculose. Enquanto um laboratório consegue analisar 7 exames por hora, um rato consegue “analisar” 40 amostras em 7 minutos, reduzindo consideravelmente gastos na detecção do que hoje é a maior epidemia no continente africano.

Além desses, tem vários outros empreendedores sociais cujo trabalho merece ser divulgado.  Se puder, não deixe de assistir ao documentário.

Vale a pena.

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