No começo do ano passado, cumpri uma missão de três meses na capital da Hungria. Além dos meus colegas de Embaixada, não conhecia ninguém na cidade. À noite, no meu quarto, passava horas navegando pela Internet, sem destino certo, pulando de site em site.
Numa dessas noites, fui dar no site de uma galeria inglesa, que apresentava uma série de artistas ainda não descobertos pelo mercado internacional de arte. Uma das obras exibidas me chamou especialmente a atenção: um desenho hiperrealista de um homem destruindo um carro BMW a golpes de marreta.
Em um primeiro momento, tive a impressão de que a obra estava inacabada. Embora os objetos centrais da composição estivessem minuciosamente desenhados, não havia paisagem circundante: homem, carro e marreta flutuavam contra um fundo branco, sem nada que os fixasse. O quadro chamava-se “Em estado de fúria”, e com paisagem circundante ou não, a “fúria” estava toda ali.
Fiquei siderado pelos trabalhos daquele artista. Chamava-se Andrei Berindan, e imaginava-o na Inglaterra ou em outro lugar inacessível à minha situação. Por curiosidade -e para ver se encontrava fotos de outras pinturas suas- procurei-o no facebook. Encontrei-o, mas ele era uma pessoa discreta, e seu perfil não trazia muita informação. Por impulso, mandei-lhe uma mensagem, dizendo-lhe que escrevia de Budapeste e que suas obras tinham me causado forte impressão.
No dia seguinte, Andrei Berindan me escreveu, agradecendo os elogios que lhe havia feito e convidando-me a visitar seu estúdio. “Estou em Baia Mare, na Romênia, a 500 quilômetros de Budapeste”, foi o que me disse. Informou-me que os quadros de que eu havia gosatdo estavam disponíveis a um preço que eu achei, se não barato, pelo menos aceitável.
Queria aqueles quadros para mim. Baia Mare ficava no norte da Romênia, no coração da Transilvânia, a cerca de 70 km da fronteira com a Hungria e a cerca de 50 km da fronteira com a Ucrânia. Sabia que tinha de ir, mas era inverno, e o deslocamento não seria fácil. Depois de duas semanas pensando em uma solução para o meu problema, contratei o motorista da Embaixada para me levar à Romênia particularmente, durante o fim-de-semana.
A viagem na neve seria cansativa. Saímos cedo, às 7:30 da manhã, e, durante horas, a paisagem que se via na estrada era de desolação gelada:
Às vezes, apareciam umas casinhas ou um pequeno povoado cobertos de neve:
Finalmente, por volta de 2 da tarde, chegamos a Baia Mare. A cidade tem cerca de 150 mil habitantes e pareceu proporcionar uma vida tranquila a seus moradores. Como combinado, encontrei Andrei na Praça Central, e, de lá, fomos para seu pequeno estúdio, em um edifício de estilo comunista, que me lembrou um pouco o edífico em que morei quando era estudante do Instituto Rio Branco em Brasília.
Andrei Berindan era jovem (nasceu em 1981) e magro. Disse-me que era professor de artes na Universidade local e sugeriu que meu motorista e eu fôssemos almoçar no restaurante de um amigo seu, coisa que preferimos não fazer porque estávamos apressados. Queríamos estar de volta em território húngaro antes que anoitecesse.
No estúdio, os quadros de que eu havia gostado já estavam embrulhados. Eram pequeninos, e vê-los fora da tela do computador foi um pouco anticlimático. Notando minha decepção, Andrei ofereceu-me um desenho enorme, muito bonito, mas cujo preço era muito mais do que eu poderia ou gostaria de pagar.
No entanto, estava satisfeito com as pinturas. Coloquei-as na mala do carro, e levei-as para Budapeste comigo. Um dos quadros ficou com uma amiga, que gostou dele tanto quanto eu. O outro está qui no Japão, embelezando minha casa.
Soube que, recentemente, Andrei Berindan fez sua primeira exposição em Londres. Acho que será a primeira de muitas, porque ele é um artista excepcional. Faz alguns dias, contou-me que desenha figuras contra fundo neutro porque quer transmitir a ideia de atemporalidade e de descompromisso com períodos históricos. Disse-me, também, que se acostumou a pintar em preto e branco porque uma de suas maiores influências, seu pai, que é fotógrafo, trabalhou anos em preto e branco, já que, segundo ele, até os anos 90, não se encontrava filme fotográfico colorido na Romênia.
Abaixo, um pouquinho do trabalho de André Berindan:





Muito legal seu blog, adorei, eu iria a Transcilvnia ver o Conde, mas achei legal ir buscar uma pintura tambem rsrsrs
bjinhos
eu iria, sim, Alexandre…
Alexandre, você e seu blog são uma grande inspiração para mim! Venho sempre aqui e,como leitora assídua, já estou me sentindo no direito de fazer um pedido: por que você não faz um post contando como é um dia seu na embaixada?