Elemento Estrangeiro

A mulher que eu gostaria de ser.

A primeira vez que ouvi falar de Ana Miguel foi em Brasília, no início dos anos 90. Procurava um lugar para morar e visitei um apartamento em que ela havia morado. Lembro-me de que as paredes tinham cores inusitadas -mas lindas- e que havia figuras de pequenos personagens coladas nas portas dos armários. Fiquei encantado com o que vi e perguntei quem havia transformado o apartamento daquela maneira. Disseram-me que se tratava de uma artista chamada Ana Miguel – e eu nunca mais esqueci do nome.

Anos depois – não me lembro em que ocasião- encontrei-a pessoalmente.  Conhecer um artista cuja obra se admira pode ser uma experiência frustrante. No entanto, no caso de meu encontro com Ana, foi exatamente o contrário: tornei-me mais fã do que já era.

Ela fala baixo e tem uma delicadeza que envolve -acolchoa- as coisas que diz, por mais terríveis que possam ser. As primeiras obras dela que tive a oportunidade de ver eram pequenos objetos tridimensionais. Figuras terríveis, assustadoras, tricotadas em lã macia e feitas de tecidos brocados.

Naqueles trabalhos, o tato traía a visão.  Anos depois, quando visitei  uma instalação que ela  expunha numa galeria (Espaço ECCO) em Brasília, acho que entendi o que um crítico quis dizer por “deslizamento dos sentidos” ao comentar sua obra. De novo, o paradoxo:  teias – de aranha?-  mortais, mas suaves, coloridas, tecidas de lã macia.

Agora, mais velho, continuo instigado por seus trabalhos. Pergunto-me se o que ela apresenta e denuncia não seria o paradoxo que vitima e desorienta tantas mulheres e homens nos dias de hoje: uma espécie de ressaca do Romantismo, na qual se descobre que as obrigações românticas do “felizes para sempre” talvez não sejam jamais exequíveis e de que a feminilidade, ao contrário do que dizem,  nada tem de frágil.

Não deixe de conhecer a obra desta grande artista brasileira. No momento, ela tem trabalhos na exposição “Coleção Gilberto Chateaubriand – Novas Aquisições 2010/20120″, que foi inaugurada em 21/03/2012 no Museu de Arte Moderna do Rio de janeiro – MAM.

"Personagens de Jardim" - Ana Miguel, 2000

 

"o Heimlich" - Ana Miguel, 1997.

About Alexandre Vidal Porto

Alexandre Vidal Porto é diplomata e escritor. Autor de "Matias na Cidade" (Record, 2005), atualmente finaliza o seu segundo romance, "Silvio S. vai à América." Além de ficção, gosta de escrever sobre questões sociais e de traduzir poesia.
This entry was posted in O que há para dizer and tagged , , . Bookmark the permalink.

Uma resposta para A mulher que eu gostaria de ser.

  1. I am so glad this internet thing works and your article really helped me. Might take you up on that home advice you

    [WORDPRESS HASHCASH] The poster sent us ’1944248832 which is not a hashcash value.

  2. Gê Orthof says:

    ana descortina maravilhamentos… astuta, austera e sempre uma divertida e singular amiga!

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>