O moralista François de La Rochefoucauld (1613-80) dizia, em sua Máximas, que a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude. Descrita, assim, nesses termos, a hipocrisia poderia parecer algo positivo, como o elogio que se faz a um princípio ou a uma ação dos quais não somos ainda capazes, mas que admiramos e pretendemos imitar.
No entanto, quase sempre, o que se vê da hipocrisia é seu lado nocivo. Frequentemente, ela se apresenta como instrumento que um indivíduo utiliza para afirmar a superioridade moral ou ética que não possui. Essa utilização mentirosa da hipocrisia, porém, não ocorre apenas em nível individual. Pode também que contagie as instituições e passe a fundamentar políticas de governo, como um falso valor civilizatório, imposto, sem qualquer traço de legitimidade.
Penso nesse aspecto nocivo da hipocrisia ao ver pessoas indignadas com a possibilidade da legalização do aborto, quando qualquer mulher rica que engravide, se assim o decidir, poderá abortar em um das centenas (milhares?) de clínicas especializadas que pululam no Brasil. Ou quando se opõem à legalização do consumo da maconha, por exemplo, sabendo que milhões acendem seus baseados, nos melhores bairros do País, sem que nada lhes possa acontecer. Ou, ainda, quando se suspende uma exposição de arte (vem-me à cabeça a exposição da Nan Goldin, boicotada pelo Oi Futuro Flamengo), sob alegação de que agride valores familiares, ao mesmo tempo em que violência doméstica e hipersexualização, mesmo que lamentáveis, sejam fatos cotidianos da vida no Brasil.
A rica pode abortar em uma clinica. A pobre que tome abortivos por conta própria ou se vire com um cabide de arame útero adentro.
O rico pode relaxar com seu baseado em sua poltrona de couro desenhada por Charles Eames. O pobre maconheiro que se humilhe no cimento frio de uma delegacia de polícia.
Suspenderam a exposição da Nan Goldin no Rio de Janeiro? Não tem problema. Veja as fotos dela no MoMA quando for a Nova York nas férias.
Esse tipo de hipocrisia generalizada transforma os pobres em bodes expiatórios e os obriga a um padrão de comportamento social que os ricos não têm necessidade de manter. Também evita que o Brasil se torne um país mais justo. Mas, para muita gente, é justamente essa a ideia. O conservadorismo é comfortável. A melhor coisa é que tudo continue como está, e que não se deixe perceber que as limitações humanas são as mesmas, quer se esteja em Manhattan, no Complexo do Alemão ou no Leblon.

E este moralismo de pessimo gosto nos é imposto em prol de uma utopica etica!
Grande Alexandre, excelente texto, é sempre uma satisfação acompanha-lo aqui!
Muito bom esse texto…aborda a raiz da hipocrisia como mais uma vitima da deturpação dos valores na sociedade consumista/individualizada…muito bom mesmo.
Um texto excelente sobre a real motivação dos debates e polêmicas no Brasil. A religião? Valores éticos? Não, a vã hipocrisia mesmo.