Uma de minhas primeiras missões como diplomata, assim que saí do Instituto Rio Branco, foi acompanhar Tamirat Layne, então Primeiro-Ministro da Etiópia, e sua comitiva, que foram ao Brasil para participar da Conferência Rio-92.
Desde então, a Etiópia passou a ocupar um lugar no meu imaginário. Quase 20 anos depois, quando morava em Brasília, integrei a delegação brasileira à Cúpula da União Africana, cuja sede fica em Addis Abeba, a capital etíope. Foi assim que acabei fazendo uma das viagens mais interessantes de minha vida.
Addis Abeba é uma cidade grande. Tem cerca de 3,5 milhões de habitantes. Por abrigar a sede da União Africana e da Comissão Econômica das Nações Unidas para a África, conta com quase 100 embaixadas residentes e é uma das capitais diplomáticas do continente.
Para conhecer um pouquinho de Addis, abaixo, um video feito por Fred Di Meo. A música, “Dreamland“, é, naturalmente, de Bob Marley (porque a Etiópia é a terra ancestral dos rastafáris).
Por recomendação de uma amiga comum, procurei Guy Calaf e sua mulher, Kristen White, que, à época, moravam na cidade. Kristen, que é australiana, trabalhava com saúde reprodutiva feminina. Guy, italo-americano, fazia uma série de reportagens na África para a Stern alemã e a Vanity Fair italiana. Ele, que é um dos fotógrafos de conflito mais famosos do mundo, produziu imagens icônicas como esta:
Pelas mãos de Kristen e Guy conheci aspectos comezinhos da vida em Addis Abeba. Até ao cinema eles me levaram. Vimos um filme etíope muito interessante chamado Teza, de Haile Gerima, que ganhou o Prêmio Especial do Jurí do Festival de Veneza, e que, por coincidência, sai em DVD agora no próximo mês de maio.
Foram Kristen e Guy que sugeriram uma visita a Lalibela. Como eu sabia que eles sabiam das coisas, aceitei a sugestão.
Lalibela é uma das cidades mais sagradas da Etiópia. Tem pouco mais de 15 mil habitantes e fica a cerca de 2700 metros de altitude, ao norte do país, a caminho da fronteira com a Eritreia e com o Djibouti. Desde de o século 13, é um dos principais centros de peregrinação para os cristãos ortodoxos coptas etíopes.
Há algum turismo (os locais de peregrinação são considerados Patrimônio da Humanidade pela UNESCO). Existem pousadas e encontram-se guias que falam inglês. A comida, no entanto, pode ser difícil para alguns. A estrutura da cidade é precária, mas aceitável. Tem até um aeroporto pequeno, com uma pista de pouso. Cheguei lá pela Ethiopian Airlines, vindo de Addis, tendo feito uma escala em Bahir Dar, às margens do Lago Tana, que é a a nascente do Nilo Azul (que, mais adiante, no Sudão, se junta ao Nilo Branco para formar o Rio Nilo, o mais longo do mundo).
O primeiro a relatar no Ocidente a existência de Lalibela foi o padre português Francisco Álvares, em sua obra “Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias“, publicada em Lisboa, em 1540.
Em seu relato, Álvares, que integrava missão diplomática portuguesa ao Imperador etiope Lebna Dengel, escreveu o seguinte:
“Dos grandes edifícios de igrejas que há na terra de Abugima que fez Lalibela Rei e da sepultura sua na igreja de Gólgota” (…) “estão edifícios os quais me parecem que no mundo não se possam achar outros tais e tantos, e são de igrejas todas cavadas em pedras mui bem lavradas e os nomes destas igrejas são estes: Emanuel, Salvador, Santa Maria, Santa Cruz, São Jorge, Gólgota, Belém, Marmóreos, os Mártires”(…) “Estas cousas me amostravam como que me espantaria eu de as ver.»
E espantoso era.
O que ele viu foram onze igrejas talhadas cada uma num único bloco de pedra, sobre um monte denominado Calvário. Os templos estão ligados entre si por corredores e escadarias subterrâneos. Mas cada um é uma criação distinta. Tudo, todos os detalhes foram talhados na rocha, sem que os arqueólogos entendam bem como.
Reza a lenda que essas igrejas teriam sido talhadas pelo próprio Imperador Lalibela, “com a ajuda de anjos”, no começo do século 13, quando Jerusalém se encontrava em poder dos muçulmanos e bloqueada para a peregrinação de cristãos. Simbolicamente Lalibela representaria a Terra Santa. Seria Jerusalém recriada na Etiópia, com a reprodução de todos os locais sagrados. Até o rio que passa na cidade foi nomeado de Rio Jordão.. A intenção de Lalibela era que a peregrinação dos fiéis não se prejudicasse, mas ele, como a ajuda de seus anjos, acabou criando o que talvez tenha sido o primeiro parque temático da história da Humanidade.
Se você quiser ver um pouco mais, encontrei no Vimeo este video muito legal feito por Luis Filipe Gaspar, de Portugal:




Lindissimas as igrejas e impressionantes escalas.Obrigada.
Alexandre, seu texto junto com as imagens me fizeram muito querer conhecer Lalibela e seu primeiro parque temático da história da humanidade. Parabéns pelo texto!
Gostei muito de saber mais sobre a Etiopia através de você, Alexandre.
Parabéns, bela pagina !
Etiopia deve ter historias que muitos seres humanos, jamais imaginou,ou nem sabe que existe,e do pouco que eu sei fico impressionada .obrigado por compartilhar conosco esta pagina ,parabens .