Elemento Estrangeiro

Jantar com medo de arrastão não é normal.

"O Japão é um lugar estranho", de Peter Carey, publicado pela Editora Tinta da China, de Lisboa, em 2009

O escritor australiano Peter Carey, que ganhou duas vezes o prêmio Booker de literatura, publicou em 2005 um livro sobre uma viagem que fez a Tóquio com o seu filho de doze anos. O título do livro foi traduzido em português como O Japão é um lugar estranho (Wrong about Japan). Carey estava certo. O Japão é estranho mesmo. Mas é justamente essa estranheza que faz a vida de um estrangeiro aqui gratificante.

Por conta de minha profissão, morei fora do Brasil parte considerável de minha vida. A esta altura, acho que a melhor coisa na condição de estrangeiro é a possibilidade de viver experiências que não seriam possíveis em nossos países de origem. Aproveitar um momento insólito da existência, que, como nacionais, não poderíamos ter. No Japão, tenho essa sensação repetidas vezes. Algo como usar uma roupa que não nos pertence por uma noite.

Para muitos, Tóquio é a capital gastronômica do mundo. Os restaurantes da cidade têm mais estrelas no guia Michelin que os de Paris, Londres e Nova York somados. Eu sempre gostei de comer. Sabendo disso, logo que cheguei, comprei um guia Michelin e resolvi passá-lo em revista. Então, como não poderia deixar de ser, a primeira experiência insólita que tive no Japão foi engordar. Eu sempre fui magrelóide, mas em Tóquio comecei a ter, com uns dez anos de atraso, uma experiência que o resto da humanidade já tinha, mas que era desconhecida para mim: aqui se come e aqui se engorda.

Meu Guia Michelin de Tóquio. Mais estrelas que Londres, Paris e Nova York juntos.

A maneira que encontrei de combater, ainda que psicologicamente, minha potencial obesidade foi comprar uma bicicleta. Uso-a na maioria de meus deslocamentos pela cidade. Especialmente para restaurantes. Neste fim-de-semana passado, não foi diferente. Jantei com dois casais de amigos em um restaurante francês chamado Les Chanterelles, que fica a uns seis, sete quilomêtros de minha casa, do outro lado do Parque Yoyogi. Pedalei todo o percurso de ida e volta.

O jantar foi ótimo. Saí do restaurante perto de meia-noite. Aí sim tive a minha experiência estrangeira especial pedalando minha bicicleta pela noite tranquila de Tóquio, sem preocupação nenhuma. Cruzei todo o Parque Yoyogi, sozinho. De vez em quando via um casal conversando enamoradamente em um banco. Eles não se preocuparam comigo, nem eu com eles. Passei por umas outras duas bicicletas e umas três pessoas andando pelo parque a caminho de algum lugar.

Com o vento da noite batendo em minha cara, pensei que, infelizmente, pouquíssimos brasileiros de minha geração teriam a oportunidade de, como eu naquele momento, voltar de um jantar com amigos pedalando suas bicicletas despreocupadamente, sem pensarem em assaltos, arrastões ou coisas do gênero. Perguntei-me quantos brasileiros poderiam aproveitar as cidades em que vivem, sem temor de qualquer ameaça além de uma queda ou um buraco no asfalto.

Aí voltamos ao começo. Como estrangeiro no Japão, eu sou capaz de ter essa experiência, que já não posso ter no Brasil -mas que deveria poder. A gente acaba achando normal ser assaltado, desrespeitado, ameaçado, e aceita conviver com todo tipo de incômodo urbano. Acaba pensando que isso é da vida, que é o preço a pagar para viver em cidade grande. Mas não tem de ser não. As coisas podem ser diferentes, e é essa a lição que eu levarei do Japão.

Morar em Tóquo deixa claro que nossas cidades poderiam funcionar melhor e serem mais agradáveis. No século passado, esta cidade foi destruída completamente. Não uma, mas duas vezes. Em 1923, sofreu um terremoto devastador e, na Segunda Guerra Mundial, foi reduzida a cinzas pelos bombardeios que a atingiram. Ainda assim se reergueu e se reinventou.

Se os japoneses restauraram uma cidade devastada, nós brasileiros também podemos restaurar as nossas. Para tanto, temos que readquirir a noção de que jantar com amigos e voltar para casa de bicicleta sem ter medo de ser arrastado ou assassinado é uma coisa normal, a que os cidadãos têm direito. Temos de nos convencer que anormal é ter de andar pela cidade como quem anda por uma selva ou uma zona de guerra, temendo ataques de animais selvagens ou fugindo de balas perdidas, que nos ameaçam, sim, mas que não precisariam exisitir.

Abaixo, video de concentração de ciclistas em Tóquio na véspera do Natal. Filmado por  por Will Goodan, música de DJ Krush (Big City Lover).

About Alexandre Vidal Porto

Alexandre Vidal Porto é diplomata e escritor. Autor de "Matias na Cidade" (Record, 2005), atualmente finaliza o seu segundo romance, "Silvio S. vai à América." Além de ficção, gosta de escrever sobre questões sociais e de traduzir poesia.
This entry was posted in O que há para dizer, Sem categoria and tagged , , , , , . Bookmark the permalink.

8 Respostas para Jantar com medo de arrastão não é normal.

  1. Simone says:

    Texto muito bom. Tão bom quanto jantar com amigos, pedalar, e não ser arrastado ou assassinado!
    Você tem razão quando diz que passamos a achar normal todas os horrores de morar numa cidade grande. O difícil é imitar os argentinos, e bater lata na frente da Casa Rosada…
    Obrigada.

  2. Patricia Smaniotto says:

    Tive a mesma experiência quando morei em Paris. Aí mudei para Sevilha e, mal(?)-acostumada com essa falta de tensão ao andar pelas ruas à noite, acabei sendo furtada. Levaram minha mochila, com computador e câmera fotográfica dentro, sem que eu percebesse. Estava num bar com amigos e a mochila embaixo da minha cadeira. Foi um choque enorme, pois eu não esperava viver isso na Europa. Mas descobri que existe roubo, medo e violência lá também – a gente é que não vê porque não é escancarado. No entanto, basta abrir um jornalzinho de metrô em Paris para ficar sabendo que uma menina de 16 anos foi estuprada às seis da manhã dentro do vagão do metrô por oito homens. Ou ligar a TV em Sevilha para saber que outra menina foi morta e seu corpo ocultado pelo namorado. Então, a gente descobre que é igual por toda parte.

    • Giuliano says:

      Desculpa, mas não é igual, não. Existe assalto, assassinato, estupro, em todo lugar. Mas o Europeu NÃO SABE o que é ter medo ao andar na rua. Isso eu digo com certeza porque tive que explicar para vários deles o que significa você mudar um caminho ou até mesmo deixar de fazer um programa para evitar passar em um determinado lugar em determinada hora. SE você for assaltada em Paris, o que é possível, vai ser por algum vagabundo com uma faca que levará a sua bolsa, e jamais com uma quadrilha de homens com metralhadoras que te sequestrarão e te manterão refém por 3 dias até limpar sua conta bancária. Muito menos arrastão em restaurante de luxo e ladrões explodindo caixas eletrônicos. Então me desculpe, mas está muito longe de ser igual.

    • Maria says:

      Eu morei em Sevilha e, apesar das pessoas me alertarem, sentia-me muito protegida. Olha como a segurança é relativa…

      E no mais, quase todo mundo sabe que, na Europa, é normal a atuação dos pickpockets.

      E, no mais, esssa notícia da menina morta pelo namorado(Marta de Castillo), foi o mais pertubador da cidade por três anos! Além de ter sido um assassinato passional. Aqui em Salvador (onde moro) um caso de latrocínio não impera na mídia nem uma semana!

  3. LothairAmericano says:

    Boa matéria sobretudo nestes últimos tempos. A falta de liberdade para o lazer,
    para o trabalho, para o desenvolvimento cultural, etc;temos uma sensação total de estarmos num lugar abandonado, pairando no ar um grito sem Éco.Alerta -Ano de
    Eleição:EDUCAÇÃO sem restrição, e tudo poderá caminhar com preparo e conscientização…Pobres Professores, profissão degradentoada e sem nenhum amparo governamental.Eis a questão que faz a diferença em relação aos países de
    primeiro mundo, e que já passaram por guerras…

  4. Sergiolando says:

    Infelizmente a gente tem um pais de desigualdades muitas que compensa este nosso atraso e a mentalidade é realmente desvirtuante desconstrutiva e nada progressita seja da elite seja da grande massa manipulada, não dá para comparar o Japão com o Brasil nestes termos. Existe lugares no Brasil que você pode ir até a algum lugar comer e sair a meia noite sem se preocupar (são as ilhas), agora se o restaurante é 4 estrelas “são outros quinhetos”. O Brasil é cheio de contrastes de gente e lugares que o Japão não tem… O que me imprenssiona no Japão é a mentalidade de se refazer e a força do determinismo de alcançar os objetivos de maneira prática com muito trabalho e inteligencia, algo que estamos bem distante quando eu olho para o Brasil.

  5. Eduardo França says:

    Como diz uma frase em “Qual é a tua obra?”, de Mario Sergio Cortella: “É necessário cuidar da ética para não anestesiarmos a nossa consciência e começarmos a achar que tudo é normal.”

  6. Pedro Paiva says:

    Tereza voltava para sua casa, em sua mão uma sacola com uma garrafa de pinga e outra de conhaque. Sua pele manchada e corpo obeso escondem a beleza de outrora, apenas seus olhos verdes ficaram.
    O trabalho de gari foi árduo, o pior era quando a molecada caçoava.
    - Tereza cafetina.
    - Terezinha cafetina.
    http://contospoesiacia.blogspot.com.br/

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>