Elemento Estrangeiro

Conversar é preciso.

Tirei duas semanas de férias. Fui para os Estados Unidos. Passei uma semana em Nova York e uma semana em Washington. Ontem de madrugada voltei a Tóquio, preocupado em não me atrasar para o trabalho.

Cedinho liguei para a minha secretária, Tomoko, para saber o que havia na agenda. Foi assim que descobri que hoje, segunda-feira, é feriado no Japão. Perdi um dia de férias. Mas ganhei um dia de descanso, para me readaptar ao fuso horário. Ja fui ao supermercado, passeei com os cachorros e desarrumei as malas. Realidade, aqui estou eu de volta.

Tinha planejado fazer milhões de coisas durante as férias. Queria encontrar milhões de pessoas. Mas a verdade é que as férias se acabaram antes de que eu tivesse feito um terço (um quarto?)  do que planejava fazer. Acho que, com férias, é sempre assim. Em setembro, irei, de novo cheio de planos, em férias, para o Brasil.

Logo que cheguei a Nova York, fui ver a instalação arquitetônica (“Cloud City“) do artista argentino Tomás Saraceno, no telhado do Metropolitan Museum <http://www.metmuseum.org/saraceno>, mas cheguei adiantado.  Para aproveitar o tempo, resolvi, assim meio sem muita convicção, visitar outra exposição temporária chamada “Schiaparelli & Prada: conversas impossíveis”. Para minha surpresa, essas “conversas impossíveis” acabaram sendo um dos pontos altos de minha viagem.

A ideia básica de “Schiaparelli & Prada” é traçar um paralelo entre os trabalhos das estilistas italianas Miuccia Prada (1949-)  e Elsa Schiaparelli (1890-1973). A sala da exposição transforma-se em espaço multimídia, com projeções de um suposto diálogo  entre Prada e Schiaparelli, esta interpretada pela atriz Judy Davis.

Judy Davis como Elsa Schiaparelli em "Impossible Conversations", de Baz Luhrmann

Nas conversas imaginadas, cujas filmagens foram dirigidas por Baz Luhrmann (Romeo+Juliet, Moulin Rouge!), as duas discutem o papel da sexualidade, da subversão do padrão de beleza, da negação dos estereótipos sociais associados às mulheres na concepção e no desenvolvimento de seus respectivos trabalhos.

Ao mero espectador, a lição que fica é a de que o designer de moda pode ser um agente político poderoso. Explico-me: tanto Schiaparelli quanto Prada, cada uma a sua maneira e em seu tempo, subverteram a imagem idealizada da beleza feminina. Por meio de seu design, alteraram a percepção e as expectativas da sociedade em relação às mulheres e, ao apresentarem seus conceitos expandidos de mulher, ampliaram consequentemente o papel e as possibilidades femininas no mundo.

Simples assim.

Elsa Schiaparelli e Miuccia Prada

“Schiaparelli & Prada: Impossible Conversations”.  Metropolitan Museum, Nova York, até 19 de agosto de 2012.

 

 

About Alexandre Vidal Porto

Alexandre Vidal Porto é diplomata e escritor. Autor de "Matias na Cidade" (Record, 2005), atualmente finaliza o seu segundo romance, "Silvio S. vai à América." Além de ficção, gosta de escrever sobre questões sociais e de traduzir poesia.
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