Elemento Estrangeiro

Sobre quando alguém decide viver, mas morre.

O espírito dos mortos à espreita - Paul Gauguin, 1892

Ela se chamava Yuka. Eles, Shoji e Tommaso. Os três eram estrangeiros que moravam no Brasil.

Ninguém deixaria a terra em que nasceu por uma terra estrangeira se não achasse que valeria a pena. Ninguém troca deliberadamente a vida que tem por outra pior. Por isso acho que os três vieram para o Brasil cheios de otimismo.

Uso os verbos no pretérito porque nenhum deles existe mais. Morreram todos na última semana. Yuka, Shohji e Tommaso se enganaram. Não encontraram vida melhor no Brasil. Encontraram a morte, que esperava por eles em local e hora diferentes do que eles poderiam ter imaginado.

Tommaso morreu baleado pelas costas em um assalto, dois dias depois de se mudar para São Paulo. A morte o pegou na esquina da Avenida Nove de Julho com a Rua São Gabriel, no finalzinho da tarde, quando as pessoas estão a caminho de casa para encontrar suas famílias.

Shoji e Yuka morreram juntos. Haviam ido conhecer a Chapada dos Veadeiros. Era sábado e eles jamais regressaram a Brasília, onde viviam. O que lhes terá passado na estrada mal conservada e mal sinalizada do estado de Goiás em que viajavam poderemos deduzir, mas nunca saber ao certo.

Não há nada de especial em morrer. É a coisa mais natural do mundo. Todos morreremos. O meu nome e o seu, leitor, mais os de todas as pessoas que conhecemos, comporão listas de mortos, mais cedo ou mais tarde. Exatamente como os desses três estrangeiros radicados no Brasil.

O que faz as mortes de Shoji, Yuka e Tommaso singulares é que elas aconteceram desnecessariamente. Se tivessem escolhido um outro país que não o Brasil para morar, pode ser que os três  estivessem vivos.  Poderia até que um de nós viesse a conhecê-los e que eles se tornassem amigos. Quem sabe?

Se você for fatalista, insistirá que ninguém morre de véspera, que havia chegado o dia deles. Isso pode até ser verdade, mas, nesse caso, então, o destino veio ao Brasil para poder cumprir sua tarefa. Seria mais fácil realizá-la por aqui. Talvez o país tenha sido apenas um instrumento nas mãos do destino, que utilizou nossa falta de segurança e nossas estradas mal conservadas e mal sinalizadas para assassinar os três.

O triste é que continuará utilizando. Toda vez que o destino quiser cumprir seus designios e matar alguém otimista e saudável aos 24 anos anos, como fez com Yuka, ou aos 26, como fez com Tommaso, fará uma viagem ao Brasil. Quem sabe se trata de uma lei cósmica que não conhecemos, pela qual mortes desnecessárias tenham de ter lugar em nosso país?

Outro dia li, acho que no Facebook, alguém perguntando sobre onde andavam as canções de protesto. Ontem, no início do julgamento do Mensalão, o Procurador Geral da República citou uma, do Chico Buarque. Eu passei a semana passada inteira ouvindo outra (“Perfeição”), que Renato Russo escreveu no início dos anos 90, e que parece que foi escrita ontem, tal como a de Chico Buarque. Por que, 20, 30 anos depois, deixamos essas canções continuarem relevantes e urgentes para o Brasil?  O que mudou? O que fizemos é construção ou ruína?

About Alexandre Vidal Porto

Alexandre Vidal Porto é diplomata e escritor. Autor de "Matias na Cidade" (Record, 2005), atualmente finaliza o seu segundo romance, "Silvio S. vai à América." Além de ficção, gosta de escrever sobre questões sociais e de traduzir poesia.
This entry was posted in O que há para dizer and tagged , , , , , . Bookmark the permalink.

3 Respostas para Sobre quando alguém decide viver, mas morre.

  1. Antonio Amoedo says:

    De arrepiar. Certa feita perguntaram ao Plínio Marcos como ele conseguia ser tão atual nas críticas contidas em suas peças, anos depois delas terem sido escritas. Plínio respondeu que o mérito não era dele, o país que, em determinadas quest
    ões, não havia mudado muito. Bom, Plínio Marcos morreu – há tempo o bastante para que pouca gente consiga se lembrar, de bate pronto, 3 ou 4 títulos de peças dele -, ainda assim, a mesma pergunta poderia ser feita hoje e, se vivo, a resposta bem que seria a mesma.

  2. Cecilia Correa says:

    E o que dizer das meninas que vieram de férias e deixaram suas vidas? 14 anos, 4 anos… Num parque temático, num hotel de luxo… O descaso com o funcionamento e manutenção dos equipamentos é inominável!

  3. Graça Medeiros says:

    Essa estrada assassina em Goias ceifou já muitas pessoas.
    As armas de fogo circulam a rodo, produzidas no Brasil ou alhures, exportadas para o Paraguay e contrabandeadas para o Brasil.
    No Japão qual a lei sobre as armas?
    Vejam os índices de homicídio.
    A arma de fogo é covarde mata a distancia.

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>