Entretantos

Keep the aspidistra flying

Dinheiro, dinheiro, tudo é dinheiro!
(George Orwell)

Ele recebeu a folha de papel com indiferença e certo nojo. Indiferença porque sabia que o material contido ali seria uma grande porcaria, e nojo porque cabia a ele publicar aquele tipo de merda. Estava ficando cansado de fazer esse trabalho sujo.

Começou a ler.

“Tempo é dinheiro.
Falta de tempo é dinheiro.
Alegria é dinheiro.
Tristeza é dinheiro.
Conforto é dinheiro.
Incômodo é dinheiro.
Saúde é dinheiro.
Doença é dinheiro.
Amor é dinheiro.”

Sim, tudo é dinheiro. Qual a novidade? Será que é somente isso que esse imbecil tem pra dizer? Como ele conseguiu passar dois meses trabalhando nessa porcaria? E eu ainda tive que atrasar o lançamento da antologia por causa disso…

“Conhecimento,
Poder,
Influência,
Amigos,
Inimigos,
Beleza,
Prestígio,
Sexo,
Fama,
Discrição…

Enfim, tudo é dinheiro.

Deus é dinheiro?”

Mas que bela bosta. Uma grande merda.

– Muito bom, rapaz! Mas daria até um conto, se você recheasse um pouco mais, você não acha? Não quer deixar para publicar na outra antologia que faremos? Devemos publicar em três meses, no máximo. Nesse tempo você poderia trabalhar um pouco mais nele. Mas isso é somente uma sugestão, claro.

– Pode falar a verdade, não precisa mentir para me agradar. Você gostou mesmo? Eu fiquei em dúvida se isso seria um poema ou se já não seria um conto em versos. Mas acabei trazendo desse jeito, para você me dar um parecer.

– Claro que gostei. Por que mentiria pra você? E gostei muito dessa indecisão entre ser prosa ou poesia. Aliás, acho que esse é o maior mérito desse seu, hã, escrito.

– Puxa, obrigado, de verdade. Vim o caminho todo imaginando o que você iria achar dele.

– E, aliás, sabe o que podemos fazer? Publicá-lo agora, como poesia, e também como conto, na antologia que falei. É só você aumentá-lo um pouco. E pode ficar tranquilo em relação ao dinheiro. Você me paga somente metade do valor que fixarmos, que tal?

– Mas é claro que aceito! Nossa, muito obrigado!

– Não precisa me agradecer. Você é um excelente escritor. Uma pena que as editoras não o tenham descoberto ainda.

– Como disse Ôrvéu, “é o dinheiro que escreve livros, é o dinheiro que os vende”. E eu, ao menos no momento, não tenho dinheiro para escrever muito.

– Desculpe, eu não entendi. De quem é a frase?

– Ôrvéu, Jorge Ôrvéu, você sabe. Talvez eu não esteja pronunciando corretamente o sobrenome. Ele é o autor de “1984”, “A revolução dos bichos”, entre outros. Essa frase é de “A flor da Inglaterra”.

Às vezes quase sinto pena de tirar dinheiro de gente assim. Eles pensam que essas antologias que eles mesmos pagam vão render alguma fama, ou que os levarão a ser editados por grandes editoras. Eu sinceramente não sei como é que alguém pode ter esperanças tão vãs. Só não me sinto culpado porque, ora bolas, não estou enganando nem roubando ninguém. Meu trabalho é somente organizar e publicar os livros. Paga quem quer.

– Ah, sim, claro que conheço o Orwell.

– Não disse? Eu que estava falando errado. Como é mesmo a pronúncia?

George Orwell. Tem que enrolar um pouco a língua no “r”. Orwell. Mas enfim. Você é um excelente escritor. Não vá fazer como muitos aí, que desistem no meio do caminho.

– Não, não, de forma alguma. Desde jovem decidi que seria escritor, e vou continuar buscando isso. Como costumo dizer: nem que eu morra tentando.

– É isso aí, rapaz. Bom, agora preciso ir. Assim que imprimir os livros, mando logo entregar os seus exemplares. Faço questão de que você seja o primeiro a receber. Até mais!

– Vai ser uma honra para mim! Muito obrigado! E eu vou indo também, meu horário de almoço está acabando, preciso voltar para a livraria.

– Já disse: não há o que agradecer. Até!

Vendedorzinho de merda.

* “Keep the aspidistra flying“, romance de George Orwell, foi publicado no Brasil como “A flor da Inglaterra”, pela editora Companhia das Letras.

** Mais sobre a aspidistra.

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Uma pequena homenagem a Fernando Sabino

Depois de algum tempo sem dar as caras por aqui – não foi por falta de vontade, acreditem -, retorno com um texto sobre Fernando Sabino, um de meus mestres (o principal, na verdade). Este texto não é senão uma versão reduzida de uma matéria que escrevi e que foi publicada na revista Conhecimento Prático Literatura nº 27, de dezembro de 2010.

Nascido em Belo Horizonte, em 12 de outubro de 1923, Sabino começou a carreira literária muito cedo, aos treze anos de idade, quando teve publicado um conto na revista Argus, da polícia de Minas Gerais. No livro “O tabuleiro de damas”, seu “esboço autobiográfico” – como ele mesmo costumava dizer –, Sabino conta que, estimulado por uma irmã, começou a participar do concurso de crônicas de uma revista do Rio de Janeiro, a Carioca. Depois, começou a participar do concurso de contos promovido pela mesma revista, e foi também premiado pelas ficções curtas. Era tão comum ganhar os concursos – que eram semanais – que Sabino passou a “receber o dinheiro adiantado do representante da revista em Belo Horizonte”.

E foi no conto e na crônica que Sabino conquistou mais leitores. Suas crônicas – a maioria delas bem-humoradas e divertidas, mas há também as sérias e críticas – e seus contos inusitados e engraçados – não há como não citar “O homem nu”, adaptado duas vezes para o cinema, e “Macacos me mordam” – têm um alcance um pouco maior que seus romances e novelas. Mas é inegável que, não obstante a qualidade e a popularidade de seus contos, foi com as crônicas engraçadas, com os casos que só ele conseguia contar que o escritor mineiro mais se destacou – até porque foi o gênero que mais praticou durante toda a carreira.

Há quem diga que, melhor cronista que Sabino, só Rubem Braga. Para não causar discussão, o melhor mesmo é fazer como um personagem de uma crônica do próprio Fernando, e dizer que fica resolvido, assim, o impasse de qual dos dois é o maior cronista brasileiro: resolvemos depois.

O primeiro livro publicado de Fernando Sabino foi “Os grilos não cantam mais”, de contos, em 1941, aos dezoito anos de idade. Já o segundo foi uma novela, “A marca”, em 1944, elogiadíssima na época – e ainda hoje. Depois deles vieram “A cidade vazia” (1950, crônicas) e “A vida real” (1952, composto por três novelas). Somente em 1956 é que “O encontro marcado” seria publicado. Daí para a publicação de “O grande mentecapto”, seu segundo romance, se passariam 23 anos. Sendo que o livro teve parte de seu material escrito em 1946. Sabino conta em “O tabuleiro de damas” como tudo aconteceu:

“Num domingo de 1979, mexendo no meu arquivo, encontrei as cinquenta e poucas páginas que havia escrito sobre Viramundo [protagonista do livro], já amareladas pelo tempo. Tomei-me de brios e entrei num transe tão maluco como os de meu personagem. Comecei a escrever dia e noite sem parar, terminei o livro em dezoito dias, em meio a crises de riso e de choro”.

“O menino no espelho”, o terceiro romance, teve mais sorte e não demorou muito para vir à luz, o que aconteceu em 1982, apenas três anos depois do anterior. Em 2004, alguns meses antes da sua morte, foi publicado “Os movimentos simulados”, romance que o autor havia escrito em 1946 – um ano produtivo para o autor, percebe-se – e que foi útil durante a realização de “O encontro marcado”, mas que havia sido deixado de lado, guardado em alguma gaveta. Nos últimos anos de sua vida, ao fazer o inventário de sua obra, Sabino reencontrou o livro “perdido” e decidiu publicá-lo, mantendo a linguagem original, “meio rebarbativa, sem escanhoá-la”, diz o autor na nota introdutória ao livro, que completa, portanto, o quarteto que forma a obra romanesca de Fernando.

Obra essa que foi ofuscada pelas crônicas. Hoje, talvez apenas “O encontro marcado” tenha ainda um grande apelo, que infelizmente parece nem ser mais tão grande assim. Os outros romances, apesar de ainda lidos e comentados, não têm a atenção que merecem. Jorge Amado considerava, por exemplo, “O menino no espelho” como sendo uma obra-prima (em “Navegação de cabotagem”, o escritor baiano revela que é este o livro de Sabino que mais gosta). Nele, Fernando narra sua infância com toques de realismo fantástico, de fábula: ele voa num pedaço de bambu, se torna agente secreto, é campeão mineiro de futebol pelo América – fazendo o gol do título, contra o Atlético –, entre outras façanhas.

Além de romances, crônicas, contos e novelas, Fernando Sabino escreveu uma série de perfis sobre pessoas com as quais conviveu (publicados em “Gente”), reportagens publicadas em vários jornais e revistas, deixou para seus leitores sua correspondência com Clarice Lispector (“Cartas perto do coração”), uma seleta das cartas que enviou para Otto, Hélio e Paulo (“Cartas na mesa”), e vários textos seus que não haviam sido publicados ainda em livro – inclusive revelando uma outra faceta do escritor, a de crítico literário – em “Livro aberto”(2001). Além disso, Sabino foi cineasta (filmou dez documentários sobre dez escritores brasileiros) e era um amante do jazz – tocava bateria, e dizem que era dos bons.

Sabino faleceu em 11 de outubro de 2004, às vésperas de completar 81 anos de idade. Morreu em casa, cercado pelos filhos, como queria que fosse. Ele e sua obra se mantêm vivos, tendo os filhos de Fernando desempenhado um trabalho louvável e incansável para divulgar os livros e a figura do autor. Em 2006, quando “O encontro marcado” completou 50 anos, foi lançada uma edição comemorativa, com um encarte especial produzido pelos filhos do escritor. Há um projeto chamado “Encontro marcado com Fernando Sabino” que já passou por Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo – além de, claro, Belo Horizonte, onde foi inaugurado – que expõe objetos do escritor, painéis que retratam suas obras e sua vida, fotos e muitas outras atrações. Como se pode ver, o homem se foi, mas sua obra permanece, e através dela Fernando Sabino continua vivo, encantando e divertindo milhares de velhos e novos leitores.

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Entrevista com Maria João Costa


A editora portuguesa Maria João Costa é bastante conhecida em sua terra natal. Lá, trabalhou no canal GNT Portugal, depois de desistir de uma certamente bem-sucedida carreira jurídica.

“Certamente” porque Maria João teve sucesso em todos os lugares pelos quais passou. Depois de trabalhar na área jornalística e ser um dos destaques do GNT, decidiu mudar mais uma vez, entrando no mercado editorial. Dirigiu durante seis anos a editora Livros D’Hoje, que atualmente integra o Grupo Leya. Nesse período, lançou vários livros que se tornaram best-sellers em Portugal, entre eles os brasileiríssimos “1808”, de Laurentino Gomes e “O vendedor de sonhos”, de Augusto Cury.

Sua experiência na Livros D’Hoje foi fundamental para que, em fevereiro de 2012, Maria João assumisse a função de editora-executiva da editora Leya no Brasil. Sua transferência faz parte da estratégia da editora portuguesa para conquistar ainda mais espaço no país, e o fato de o Brasil sediar a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 foi decisivo para mais essa mudança, que envolveu inclusive a abertura de um escritório da editora no Rio de Janeiro (a sede da Leya no Brasil é em São Paulo).

Apesar de o trabalho de um editor não ser muito conhecido pelos leitores, nem ser muito divulgado pela imprensa, foi com certo destaque que, em outubro passado, a Leya lançou a primeira “cria” de Maria João Costa: a Coleção Novíssimos, que abrigará títulos de jovens autores portugueses. Na primeira leva, foram lançados os romances “Por este mundo acima”, de Patrícia Reis; “O teu rosto será o último”, de João Ricardo Pedro; “No meu peito não cabem pássaros”, de Nuno Camarneiro; “Um piano para cavalos altos”, de Sandro William Junqueira; e “Para cima e não para norte”, de Patrícia Portela.

É sobre a coleção, sobre as mudanças de rumo em sua carreira e sobre o mercado editorial que Maria João Costa nos fala na entrevista abaixo.

Como foi feita a seleção dos autores dos livros da Coleção Novíssimos, que a Leya está lançando no Brasil?

Os autores foram pré-selecionados pelos seus editores originais, que nos apresentaram uma lista do que consideravam ser a nata da nata da nova literatura portuguesa que a Leya Portugal publica. Estiveram envolvidos neste processo o editor da Caminho, Zeferino Coelho, e as editoras da Dom Quixote, Cecília Andrade e Maria do Rosário Pedreira. Os autores recentemente vieram ao Brasil para divulgar os livros, e é importante destacar o empenho do Instituto Camões e da Embaixada Portuguesa, em Brasília, na vinda dos escritores.

Vocês planejam fazer o movimento inverso, ou seja, publicar novos autores brasileiros em Portugal?

Sendo a única editora de língua portuguesa presente nos principais territórios de língua portuguesa, sentimos uma responsabilidade acrescida em relação a estes temas e à promoção dos autores de língua portuguesa. Temos já vários novos autores publicados isoladamente, como é o caso do Marcelo Ferroni, por exemplo. Mas estamos a estudar a possibilidade de criar uma colecção.

Você trabalhava em Portugal e foi transferida para o Brasil para ficar à frente do escritório da Leya no Rio de Janeiro. Quão impactante foi essa mudança para você? Já havia vindo ao Brasil antes? O que está achando do país?

Acho que é impossível não sentir o impacto de uma mudança profissional. Neste caso em particular, os efeitos são sentidos em maior escala, tendo em conta que a um novo projeto profissional tive de associar uma grande mudança pessoal, até mesmo no que diz respeito a hábitos e costumes. Mas como sempre tive uma grande proximidade ao Brasil, sinto que a adaptação tem sido rápida. Trabalhei para a TV Globo (GNT Portugal), vivi no Rio de Janeiro cerca de um ano e nunca mais deixei de visitar o país, nem de acompanhar o que aqui se fazia do ponto de vista editorial.

O Brasil vive um grande momento e o mercado editorial está vibrante. Acho que essa é a maior diferença em relação ao cenário em que estava inserida: um país mergulhado numa crise profunda, que acaba com a motivação dos leitores e a criatividade dos editores. Para mim, a grande diferença, a sensação que tenho neste novo Brasil, é que não dá para fechar o olho em momento algum. Se você dormir, nem que seja por um segundo, já perdeu um bom projeto. O mercado está mais competitivo do que nunca, e este é o grande desafio, surpreender num mercado onde está quase tudo feito, especialmente para mim, que tive de criar uma estrutura e redes de contactos a partir do zero.

Sua formação é em Direito, mas decidiu atuar na área jornalística e depois no mercado editorial. Como foram essas mudanças de área?

Sempre tive dúvidas sobre o que queria fazer. Quis estudar cinema, mas os meus pais não deixaram. Depois pensei em jornalismo, mas tive medo de mudar de ideias e ficar agarrada a um curso que não servia para mais nada. Foi assim que surgiu o Direito, pela convicção de que, se me arrependesse, ainda poderia ser jornalista. O jornalismo acabou por acontecer naturalmente, como um hobby, quando ainda estava no segundo ano da faculdade e tive a oportunidade de começar a trabalhar numa revista nacional fazendo entrevistas e reportagens sobre temas diversos. A esta revista seguiram-se outras, até que no meu último ano da faculdade, também de forma natural, fui entrevistar os diretores do novo canal de notícias da RTP (hoje RTP Informação), que estavam a escolher um grupo de 50 jornalistas para integrarem a equipa do novo canal, e acabei por ser convidada a juntar-me a eles. Poucos meses depois, passei para a casa mãe, RTP, seguido da TV Globo. Acabei por me tornar na cara do canal em Portugal, até que a TV Record “roubou” o sinal de antena à GNT Portugal e tive de decidir o que ia fazer a seguir. Estava um pouco cansada do meio televisivo, e achei que era um bom momento para mudar.

Como trabalhava numa área híbrida que ficava na fronteira entre informação e entretenimento, sentia que acabava por entrar numa competição injusta com pessoas que estavam dispostas a tudo para subir na vida, algo que acontece em todas as profissões, mas em televisão mais do que em todas (especialmente entre o sexo feminino). Não estava para isso! Por outro lado, e apesar do trabalho ser divertido, do ponto de vista intelectual, ao fim de um tempo, torna-se redutor, a menos que tivesse enveredado pela área política, coisa que hoje tenho pena de não ter feito. Foi assim que acabei por dar um salto para o mercado editorial, como experiência, para ver se gostava. Comecei na Dom Quixote em 2006 que, passado um ano, foi comprada pela Leya. Achei o trabalho divertido, decidi ficar e hoje é a minha ocupação principal. Não me arrependo nada!

Você sofreu alguma espécie de preconceito por ter trabalhado em televisão, um veículo que “literatos” geralmente desprezam?

Gosto de dizer que sou produtora de conteúdos e não editora, autora, roteirista, jornalista ou jurista… Vivemos numa época onde os conteúdos são a essência das grandes plataformas que comunicam com o público, independentemente da forma como são apresentados: um livro, um filme, um jornal, uma revista, um programa de televisão, um blog, um aplicativo. Todos precisam de conteúdos, é disso que vivem os autores, e é nesse mercado que trabalho. Hoje desenvolvo conteúdos para livros, amanhã pode ser para séries de televisão. Sem nenhum problema. É óbvio que quem vive agarrado à tradição literária, ou orienta o seu trabalho para um nicho de mercado, não consegue olhar para um modelo de negócio onde o objetivo é chegar às massas. Parte da ideia errônea de que o que é popular não é bom, simplesmente porque saiu do controle de uma elite intelectual e se popularizou.

Por isso é que o espaço para a literatura anda tão ameaçado e também a sobrevivência dos autores. Porque os editores clássicos não acreditam que os livros literários possam abandonar esses nichos, salvo raríssimas exceções, que logo são apontadas negativamente pela crítica que, ao notar um entusiasmo invulgar do grande público, logo se apressa a rejeitar o conteúdo, com a premissa de que “o que é bom não pode ser popular”. Fazendo um paralelo com o jornalismo, certa vez ouvi um diretor de um jornal dizer que não assistia televisão (alguns intelectuais gostam de dizer isso para se afirmarem contra corrente). E eu perguntei-me: como pode um diretor de um jornal não ligar a televisão nos dias de hoje? Ou então, um editor? O mundo acontece também daquele lado, e, por mais que achemos que algumas notícias são manipuladas, temos de estar ligados, saber o que se passa. O cérebro sempre serviu para separar a informação que interessa da que não interessa.

Também os editores tradicionais dizem, por exemplo, que não vale a pena fazer livros para a classe C, pois esta não compra, o que não é inteiramente verdade. O maior problema é não terem acesso a conteúdos que despertem o seu interesse. Na Europa, há uns 15 anos, o mercado editorial deu um grande salto quando percebeu que estas pessoas também compram livros e os começaram a vender nos grandes supermercados, o que para os “literatos” foi quase um sacrilégio, à época.

Isto para dizer que há muitos equívocos a respeito de muitas ideias feitas, o que faz com que, sim, seja comum que “literatos” olhem para pessoas como eu com preconceito. Tem a ver com esta forma redutora de olhar os conteúdos e o mundo. Acho que todos devem ter acesso ao que se faz nas áreas criativas, independentemente das interpretações que lhe derem. Se continuarmos a ser dogmáticos com o conhecimento, então nunca vamos ter níveis de educação e cultura interessantes. Eu gosto de sentir que trabalho para todos os públicos, e digo sempre uma coisa: quem consegue fazer o mais, também consegue fazer o menos, difícil é o contrário. E não é porque faz o menos, quando necessário, que nos tornamos incapazes de fazer o mais, ou deixamos de ser quem somos.

Como está em Portugal a questão dos livros eletrônicos? Como as editoras estão lidando com esse “problema”?

Problema? Parece mais uma oportunidade. Uma forma de chegar a mais pessoas, e a novos públicos. Nunca os livros e os autores tiveram direito a uma “vitrine” tão grandiosa. Parece-me óbvio que o livro não vai acabar, pelo menos no que diz respeito ao conteúdo, e me parece claro que os editores também não vão deixar de existir. A grande maioria dos conteúdos que existe atualmente depende da iniciativa do editor; outros, do seu esforço de garimpo e lapidação, o que ajuda o público a tomar uma decisão na hora de comprar um livro, independentemente de este ser físico ou digital, porque sabe que existe um trabalho de triagem prévio. Oferta a mais confunde o consumidor. As marcas ajudam-no a fazer a seleção. Por outro lado, acho que o mercado editorial aprendeu alguma coisa com o que aconteceu aos jornais quando estes começaram a ter plataformas digitais, e acharam que podiam disponibilizar os conteúdos gratuitamente, pois o retorno viria com a publicidade. Um erro trágico que quase acabou com o setor.

Parece-me que o grande problema está no peso que as grandes livrarias virtuais querem ter neste novo modelo de negócio, no que diz respeito às margens, ocupando o lugar dos distribuidores tradicionais. O que coloca uma questão importante às editoras que pensaram que, num primeiro momento, iam conseguir aumentar as suas margens de rentabilidade, mas que, afinal, se veem novamente presas a um sistema idêntico, igualmente castrador quando na verdade a distribuição deixa de depender de um conjunto físico de ações que levam os livros de um armazém para pontos de venda em todo o país. Conseguir encontrar aqui um equilíbrio parece-me o grande desafio.

A Leya tem feito um grande esforço para estar na vanguarda deste mercado. Além de termos desenvolvido uma plataforma própria onde comercializamos diretamente os nossos e-books, mantendo o controle absoluto sobre os conteúdos, para evitar a pirataria, estamos também presentes nas livrarias virtuais da Amazon e da Apple com os livros da Leya Portugal, e já sentimos um reflexo nas vendas desse canal. No Brasil, esse processo ainda está em curso, mas acredito que, dentro de poucos anos, assim que os pads se democratizarem, este canal assuma uma venda realmente expressiva, senão majoritária. Gostaria também de lembrar que, em 2012, pela primeira vez, se venderam nos EUA mais livros digitais do que em papel.

Segundo estudo divulgado em 2007 pelo Plano Nacional de Leitura de Portugal, Brasil e Portugal têm em comum o fato de a quantidade de leitores plenos, digamos assim (ou seja, pessoas que conseguem ler e compreender bem), são a menor parcela da população, enquanto que os analfabetos funcionais, como chamamos aqui as pessoas que escrevem e leem com dificuldade, constituem uma grande porcentagem da população. O mercado editorial é desafiador, portanto, em ambos os países. Como as editoras lidam com isso em Portugal? O que você pensa que deve ser feito, tanto aqui quanto lá, para que sejam formados mais e melhores leitores?

Esse é um dos grandes desafios que temos pela frente, um trabalho que não se faz em pouco tempo, que leva gerações, mas nesta matéria parece-me que o Brasil está um passo à frente de Portugal. A política implementada por FHC de compra de livros pelo governo parece-me ter sido decisiva para criar um primeiro link com aqueles que não tinham qualquer relação com os livros. Em Portugal essas compras não existem, pelo contrário, temos as bibliotecas a pechinchar ofertas de livros aos editores, o que limita muito a possibilidade de algumas pessoas terem acesso a eles. Ademais, no Brasil os livros estão isentos do pagamento de IVA [imposto sobre o valor acrescentado], ao contrário de Portugal, onde pagam 6%, e onde tem sido muito discutido um aumento para os 12%. Não nos podemos esquecer que Portugal vive uma crise econômica muito grave que ainda não tem fim à vista. As vendas de livros caíram cerca de 10% em 2012, mas estima-se que neste ano o cenário seja muito agravado com a entrada em vigor das novas medidas fiscais.

Em contrapartida, o Brasil vive um período próspero do ponto de vista econômico e social e tem tudo para se tornar num país considerado de primeiro mundo dentro de alguns anos. Para isso será importantíssima a manutenção da aposta governamental na educação, na radicação do crime e da exclusão social. Apenas assim estarão criadas as condições para a população descobrir o interesse pela leitura. Quem vai querer ler, ou ter tempo para ler, se tem como preocupação não morrer de fome nesse dia, ou não ser atingido pela bala de um fuzil?

Ao mesmo tempo, e como já referi antes, parece-me fundamental os editores criarem conteúdos adequados a esse nicho de mercado. Conteúdos feitos sem preconceitos, textos simples, fáceis de ler. É preciso também encontrar formas criativas de chegar a essas pessoas, para que elas saibam que esses conteúdos existem, para que se crie o interesse, já que elas não têm o hábito de frequentar livrarias. Talvez esta geração nunca chegue perto de um livro literário, nem sequer tenha uma ideia do que isso é, mas se conseguir criar o bichinho da leitura na próxima, e esta na seguinte e por aí fora, então talvez aí esteja encontrado o caminho.

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Ser comum


Afinal, qual é a graça de se ter pouco dinheiro? Quanto menos se tem, mais se precisa, e a irritação por não poder comprar isso ou aquilo aumenta a cada dia.

Imaginemos um pai de família desempregado, por exemplo. Apesar de aparentemente não estar faltando emprego no Brasil – é o que vive dizendo o governo -, esse homem não sabe desempenhar muitas funções. Ou melhor: não tem preparo – leia-se ensino, estudo, conhecimento – para buscar um emprego diferente do que tinha.

Digamos que ele tenha sido demitido por ter passado alguns dias – ou semanas – de cama. Ele não tinha plano de saúde e tampouco dinheiro para comprar remédios. Na verdade, mesmo que tivesse dinheiro para comprá-los, não poderia, pois não tinha nenhuma receita médica em mãos: ele tentou ser atendido no posto de saúde, mas doutores e enfermeiros estavam em greve.

Ele vive com a esposa e três filhos em uma pequena casa na periferia de uma cidade média qualquer. É bem provável que nem ele, nem o seu vizinho mais chegado – que é porteiro de um prédio -, saibam o que é Broadway e Paris. Mas de Nova York eles já ouviram falar, porque deu na televisão em 11 de setembro de 2001.

O homem que perdeu o emprego depois de adoecer – não, ele não tinha carteira assinada e não pôde questionar a sua “demissão” -, que sempre fora uma pessoa tranquila, tem se irritado muito ultimamente. Isso porque, apesar de conseguir uns bicos aqui e ali, não vê perspectiva de conseguir um emprego fixo, de carteira assinada, para ter um dinheiro certinho todo mês e poder planejar nem que seja um pouquinho a sua vida.

Comida em casa ainda não falta, graças a Deus. Esses bicos têm sido suficientes ao menos para isso – leia-se o básico: arroz, feijão e um pedaço da carne mais barata que estiver à venda no mercadinho. Mas roupas a sua família não compra faz meses, e perfumes, então, nem mesmo se uma revendedora da Avon oferecer 40% de desconto.

Caso o nosso herói e o seu vizinho porteiro tivessem R$ 50,00 sobrando todo mês, jamais pensariam em ir a Nova York, Paris ou qualquer outro lugar. Esse dinheiro certamente iria para uma poupança cujo destino seria custear a educação dos seus filhos. E, se sobrasse mais alguma coisinha, talvez utilizassem essa pequena gordurinha financeira para, de dois em dois meses, fazerem um churrasquinho, porque ninguém é de ferro. Quem sabe comprariam uma piscina daquelas de plástico – uma só para as duas famílias, entendam -, para os filhos se refrescarem um pouco no verão, e só.

Mas mesmo passando por todas as dificuldades que um homem em suas condições pode passar, nosso protagonista não desiste. Ele acredita que todas as pedras que encontra pelo caminho são apenas problemas passageiros, provações divinas, ele diz, e crê que, cedo ou tarde, as coisas vão melhorar.

E não precisa melhorar a ponto de ganhar na loteria e ter que mudar para a capital, comprar uma casa com jardim, piscina e três carros na garagem. Em suas orações, ele só pede que Deus lhe dê, primeiro, saúde, para ele e para a sua família. Depois, pede para encontrar um emprego decente, para que possa dar uma vida digna – leia-se não faltar comida, produtos para a higiene pessoal e limpeza da casa, roupas e outros itens básicos – à sua mulher e aos seus filhos.

Só isso e nada mais. E ele vai conseguir. Ah, ele vai.

***

Essa foi minha tentativa de resposta a este texto – infeliz, para dizer o mínimo – de Danuza Leão.

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Sobre trabalhar em livraria

Livraria Ateneo, em Buenos Aires

Algumas pessoas imaginam que trabalhar em livraria é a coisa mais fácil do mundo. O único trabalho que o atendente tem, para essas pessoas, é ir à prateleira e pegar o livro solicitado por algum cliente. De resto, é ficar lendo o dia inteiro ou conversando sobre literatura com os colegas.

Nesse mundo maravilhoso, o paraíso seria uma livraria – e não uma biblioteca, como disse Borges.

Mas as coisas não são bem assim. Um livreiro – como são chamados os donos de livrarias ou aqueles que trabalham em livrarias – tem muitas outras atividades. Os livros chegam dentro de caixas, e é necessário abri-las e tirar os pobrezinhos lá de dentro. Além disso, é importante conferir o conteúdo das caixas – pode parecer que não, mas o mercado de livros tem toda uma organização.

Feito isso, é preciso aguardar os novos títulos serem cadastrados “no sistema” – sim, livrarias têm sistemas de busca e controle de estoque!; mesmo que alguns poucos livreiros possuam a incrível capacidade de saber onde estão praticamente todos os livros da loja -, assim como a quantidade recebida dos títulos que já têm cadastro.

Depois, vem o trabalho talvez mais importante: guardar esses livros em seus devidos lugares. Os lançamentos ou livros cuja venda é certa geralmente vão para lugares de destaque na livraria. Mas a maioria das obras vai para a estante, quer porque ficam melhor abrigadas nas estantes, quer porque são obras que, sejamos sinceros, não merecem ocupar espaços nobres.

Os espaços nobres são as vitrines, que precisam ser montadas com cuidado. Os livros a serem colocados nas vitrines devem ser não apenas bons, mas interessantes e bonitos. Os livros são grandes portadores de conhecimento, mas são também produtos, e, se a lógica de uma livraria é obter lucro, não se coloca “Dom Casmurro” na vitrine.

Mas até o momento estamos falando de atividades não muito “chatas”. É desafiador, até, procurar espaços estratégicos para bons livros ou boas apostas. E é extremamente gratificante ver que uma determinada exposição resultou em venda, principalmente no caso de livros que não estão na mídia.

As atividades “chatas” – entre aspas porque, se você gosta de livros, jamais vai dizer que é chato trabalhar em uma livraria – são as seguintes: limpar prateleiras e balcões, ensinar aos clientes como se abre um livro – porque a maioria das pessoas não sabe abrir um livro; geralmente elas os abrem demais, dobram demais a capa, o que estraga os pobres coitados -, cuidar para que os filhos dos clientes não rasguem os livros nem os joguem no chão, recolher títulos da área infantil na área de sexologia ou livros de Filosofia na estante de Administração – que, detalhe, são bem distantes uma da outra – entre outras ações que não me recordo agora.

Mas o mais “chato” – e também divertido -, mesmo, talvez seja bancar o detetive. Sim, porque todos os livreiros têm algo de Sherlock Holmes. Livreiros precisam indicar livros para os clientes presentearem seus chefes, sogras, namoradas, amigos ou alguém que sequer conhecem bem. Livreiros precisam descobrir qual é o livro de capa vermelha que estava na vitrine há cerca de um mês. Livreiros precisam descobrir qual é aquele “livro de administração” escrito por um tal de Niá Tsu – mais conhecido como Sun Tzu. Livreiros precisam fazer uma lista de todas as obras que estão disponíveis na loja sobre a reprodução de cavalos-marinhos brancos no oceano índico.

E não se pode deixar de mencionar o fato de que livreiros fazem também as vezes de psicólogos. Aquelas mesmas pessoas que imaginam não haver trabalho algum a ser feito na livraria pensam que podem passar horas conversando com o livreiro sobre o que quer que seja – e aqui você pode imaginar qualquer coisa mesmo.

Por tudo isso, e por outras coisas que não foram mencionadas aqui – mas, principalmente, pelo amor que algumas poucas boas almas têm pelos livros e pela literatura, trabalhar em livraria é uma delícia. Um prazer que poucos conhecem e têm a alegria de desfrutar.

***

Para quem ainda não conhece: confiram o blog Manual Prático de Bons Modos em Livrarias, que conta com uma bela coleção de “causos” engraçadíssimos – melhor rir do que chorar, né? – que vivem acontecendo nas livrarias do nosso Brasil.

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Não leiam frases, leiam livros


Citar frases marcantes de artistas e intelectuais se tornou uma espécie de hábito nas redes sociais. Existem sites que reúnem essas frases, facilitando o trabalho daqueles que, muitas vezes, têm a boa intenção de compartilhar bons pensamentos entre seus amigos – ainda que quase sempre não conheçam uma obra sequer do autor.

Fazer isso não é nenhum crime (infelizmente, talvez?). Muito pelo contrário: esse “hábito” é visto como engrandecedor, afinal, o que se está compartilhando é conhecimento, lições de vida, mensagens no mais das vezes positivas… E quem vai ser contra tão nobres intenções?

Acontece que, de uns tempos para cá, dois autores brasileiros têm sido os alvos prediletos desses “compartilhadores de pensamentos”: Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu. Dois grandes autores brasileiros, melhor dizendo.

Frases de ambos pipocam por todos os lados. Em blogs, em Tumblrs, no Facebook, no Twitter. Onde quer que você esteja, para onde quer que você olhe, está lá, uma frase de qualquer um dos dois. Se esse fenômeno fosse um sinal de que Lispector e Caio F. estão sendo muito lidos, seria fantástico, mas não é o caso. As frases, muitas delas tiradas do contexto, são compartilhadas por pessoas que, salvo exceções, jamais leram um livro de algum dos dois autores. Pior: muitas dessas pessoas sequer têm noção de quem foram Clarice e Caio, e o quanto ambos representam para a literatura brasileira.

Tanto Clarice quanto Caio são conhecidos por terem sido muito sentimentais. Alguns chegam a dizer que eles eram dois atormentados. Seja como for, construíram obras que são admiradas por grandes escritores. Por isso, entristece ver que essas obras foram reduzidas, por alguns, a frases de efeito. Tanto Clarice quanto Caio merecem mais respeito, e mais leitores. Deixo, portanto, a dica de dois livros, um de cada autor, que devem agradar tanto a novos leitores quanto aos já conhecedores da literatura de ambos.

De Clarice: “Aprendendo a viver”

De Caio: “A vida gritando nos cantos”

E outros dois para quem tiver coragem – é preciso coragem – para entrar no universo atordoante de ambos:

De Clarice: “A paixão segundo G.H.”

De Caio: “Morangos mofados”

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A queda, de Diogo Mainardi

Pensei em iniciar este texto citando o fato de o jornalista e escritor Diogo Mainardi ter sido, durante anos, o maior crítico do governo Lula, em sua coluna mantida até 2010 na revista Veja.

Pensei em continuar o texto dizendo que esses textos ácidos, irônicos e com pitadas de humor tiravam do sério os petistas e deixavam exultantes aqueles que eram contra o governo e o presidente Lula.

Mas a verdade é que nada disso importa no momento. Este texto não pretende abordar o Mainardi ex-colunista, mas sim o livro que ele acaba de publicar no Brasil: “A queda – As memórias de um pai em 424 passos”.

Em 30 de setembro de 2000 nasceu Tito, primeiro filho de Mainardi com sua esposa Anna. Na época, eles moravam em Veneza, e o autor optou que o garoto nascesse na Scuola Grande di San Marco, construção renascentista que abriga o hospital público da cidade. A fachada do edifício foi projetada pelo escultor e arquiteto Pietro Lombardo (1435-1515), um dos mais importantes artistas do Renascimento.

De frente para essa fachada, conta Mainardi na primeira página de “A queda”, sua esposa disse: “Estou com medo do parto”. A resposta do autor foi a seguinte:

“Com esta fachada, aceito até um filho deforme”.

Tito, que completa hoje, dia 30 de setembro, doze anos de idade, nasceu com paralisia cerebral.

A paralisia foi provocada por um erro médico. Mas os pais de Tito sabiam que aquele hospital era famoso por seus erros médicos. Por que decidiram, ainda assim, recorrer a ele, em vez de irem a um hospital um pouco mais distante? O autor faz essa pergunta a si mesmo, e a responde em seguida:

“Eu só conseguia associar a arte perfeita de Pietro Lombardo a um parto igualmente perfeito. Porque o Bem, representado pela arquitetura de Pietro Lombardo, jamais poderia gerar o Mal, representado por um erro de parto”.

E foi um erro de parto a causa da paralisia cerebral de Tito.

Esse erro e a paralisia de Tito são o ponto de partida de Mainardi para fazer associações entre as vidas dele e do filho com fatos histórico-culturais. O resultado disso é uma sucessão de “coincidências” – entre aspas porque o leitor pode dar a esses “acasos” o nome que preferir, de acordo com sua crença ou visão de mundo.

O trecho a seguir serve de exemplo:

“Nasci em 22 de setembro de 1962. No mesmo dia, Le Corbusier recebeu um convite para arquitetar o novo hospital de Veneza, que seria transferido da Scuola Grande di San Marco para a área do matadouro de San Giobbe. (…) Seis meses depois de apresentar seu projeto, Le Corbusier entrou no mar e morreu. (…) Seu projeto para o hospital de Veneza foi sepultado”.

A lógica é a seguinte: se Le Corbusier não tivesse morrido, seu projeto de um novo hospital teria levado adiante. Lá, muito provavelmente, Tito nasceria de um parto sem complicações, e sem paralisia cerebral.

Estruturado em forma de curtos capítulos enumerados – alguns têm apenas um parágrafo – e escrito de maneira invejável, para se dizer o mínimo – faço questão de reforçar: as associações que Mainardi faz com fatos histórico-culturais são impressionantes -, “A queda” é uma leitura que se faz rápida, mas, ao contrário do que pode se pensar, não é um livro que se esquece rapidamente. Em muitas passagens emocionante, é também às vezes cruel. Nesse caso, Mainardi consigo mesmo. É o tipo de obra que fica ressoando por um bom tempo na mente do leitor mais perspicaz. Afinal, se, como volta e meia diz o autor, a vida de Tito é circular, não seria assim também as vidas de todos nós?

Este é só um dos questionamentos que “A queda” nos proporciona. Uma outra pergunta pode ser feita a partir do que Mainardi denomina de “orgulho da arte”, que poderia ser definido como a crença na cultura e nas obras-primas das mais variadas formas de arte. Mas não um endeusamento delas, e sim a crença de que a arte pode transformar, se não o mundo, ao menos alguns homens. A questão que poderia ser levantada é: em vez de “orgulho” isso não seria “arrogância”?

Para finalizar, dois pequenos acasos: comprei “A queda” no dia 22 de setembro de 2012. Lendo o livro, “descobri” que Mainardi completara 50 anos de vida no mesmo dia. Escrevi este texto na véspera do décimo segundo aniversário de Tito, “protagonista” do livro, mas isso não foi feito de caso pensado. Somente depois de iniciado o texto foi que percebi. “Coincidências”?

* * *

Este post seria publicado ontem, dia 29 de setembro. Mas pouco antes de finalizá-lo, fiquei sabendo da morte de Hebe Camargo, uma das maiores personalidades culturais deste país – e isso independe do que você defina como cultura. Em respeito à sua memória, optei por esperar pelo menos um dia para publicar o texto.

Coincidentemente, o faço no dia do aniversário de Tito. Parabéns, Tito!

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Os melhores escritores brasileiros com mais de 40 anos

Depois de muito nhém-nhém-nhém e blablablá sobre a edição da revista Granta que elegeu os 20 melhores escritores brasileiros com menos de 40 anos e a antologia “Geração Subzero” – cujo subtítulo é “20 autores congelados pela crítica mas adorados pelos leitores” -, achei que seria de bom tom mudar o foco geracional da discussão e levantar a bola para os escritores com mais de quarenta anos.

Mas, antes que alguém pergunte, é preciso deixar claro que nada tenho contra nenhuma das antologias. Muito pelo contrário: há, nas duas, autores que admiro bastante – alguns, na verdade, não pela literatura que fazem, mas pela carreira, pela história, pela postura que têm.

A ideia de fazer este texto veio primeiro como uma brincadeira. Algo meio “ah, vou fazer uma piadinha com essas polêmicas bobas”. Mas depois pensei: ué, não por que não levar a coisa um pouco a sério e fazer mesmo a MINHA lista?

A ênfase no “minha” é, claro, porque é uma lista pessoal, baseada em minhas leituras – e, em alguns casos, em leituras e indicações de amigos MEUS. Ou seja: é uma lista baseada em quem eu sou e no que vivi/li até aqui.

Ah, outra observação importante: como tanto “Granta” quanto “Geração Subzero” se concentraram em prosadores, seguirei o mesmo critério. Daqui a algum tempo, porém, penso em escrever algo envolvendo poesia aqui.

O perfil do “listante”, caso algum exigente acadêmico se pergunte, é de um homem de 29 anos escritor resenhista editor (da revista virtual de contos Outros Ares) e vendedor de livros residente em uma cidade do interior da Bahia que lê literatura a sério há cerca de 10 anos e que antes disso sempre leu muito mas mais revistas informativas e quadrinhos do que livros de ficção. A falta de pontuação foi, sim, proposital.

Dito isso, vamos lá. Aí vão alguns nomes de autores, com indicações de algumas obras e pequenos comentários justificando a presença de cada um deles na lista. A lista não tem uma ordem específica: fui listando os nomes à medida que eles apareciam em minha mente. E o tamanho dos textos nada tem a ver com a minha preferência por este ou aquele autor. Exemplo: gosto demais do primeiro autor listado, especialmente do livro dele que cito, mas escrevi pouco sobre ambos. Talvez inconscientemente, para que não fique parecendo puxação de saco.

Menalton Braff – “A coleira no pescoço”; esse livro, de contos, contém algumas pequenas obras-primas. E não há, nele, nenhum conto ruim. Não por acaso, foi finalista do prêmio Jabuti em 2007.

Ruy Espinheira Filho – “De paixões e de vampiros”; romance de formação brilhante – uma obra-prima, sem exagero -, “De paixões e de vampiros” é um livro ao mesmo tempo engraçado e delicado, uma obra singular, eu diria. Simplesmente sensacional, e pode ser lida tanto por adolescentes quanto por senhores e senhoras aposentados. Livraço.

Mayrant Gallo – “O inédito de Kafka”; Mayrant Gallo é um dos melhores contistas em atividade no Brasil. E um dos mais profícuos. Se o meio literário não se concentrasse tanto nas regiões sul e sudeste, certamente ele seria mais conhecido e mais lido. “O inédito de Kafka”, de 2003, marca sua estreia nacional, por uma editora com distribuição nacional.

Ronaldo Correia de Brito – “Livro dos homens”; Ronaldo estreou tarde nacionalmente, já depois dos seus 50 anos de idade – antes do volume de contos “Faca”, de 2003, só havia publicado “As noites e os dias”, também de contos, pela editora Bagaço, do Recife -, mas nos últimos anos vem publicando com boa regularidade, e acaba de lançar seu segundo romance, “Estive lá fora”. “Livro dos homens”, de 2005, é um belíssimo livro.

Jaime Prado Gouvêa – “O altar das montanhas de Minas”; como todo bom mineiro, Jaime Prado Gouvêa não é de muita badalação. Mas sua obra deveria ser muito badalada. Principalmente esse romance, outra obra-prima (expressão que já repeti várias vezes aqui, eu sei, mas isso acontece porque estou elencando apenas autores e obras de primeiríssima categoria). “O altar das montanhas” de Minas ganhou nova edição em 2010, portanto, não é difícil encontrá-lo em livrarias. Mais um livraço.

Luiz Vilela – “Perdição”; não li muita coisa de Vilela, apenas alguns contos isolados e a novela “Bóris e Dóris”, publicada em 2006 e escrita toda em forma de diálogo – algo muito difícil de ser executado, mas que o autor faz com maestria. “Perdição”, um romance, é sua obra mais recente, e está na minha fila de leituras.

Rubem Fonseca – “Feliz ano novo”; fazer uma lista dessas e não citar Rubem Fonseca seria um despropósito. Até quando não está em sua melhor fase o autor, mineiro – mais um! – de nascimento, mas que adotou o Rio de Janeiro como lar, acerta. É o caso de “O seminarista” e “Diário de um fescenino”. Em “Feliz ano novo” está o conto de que mais gosto do Zé Rubem: “Passeio noturno (parte I)”, uma obra-prima de nossa literatura.

Bernardo Carvalho – “O sol se põe em São Paulo”; de Bernardo li apenas o romance citado, e para mim já basta para colocá-lo nesta lista. Um livro belíssimo, “O sol se põe em São Paulo” está entre as obras que pretendo reler quando eu chegar na fase das releituras, lá pros meus cinquenta, sessenta anos. Na minha fila de próximas leituras está outro livro do autor, “O filho da mãe”, romance publicado em 2009.

Rubens Figueiredo – “Passageiro do fim do dia”; conhecia Rubens Figueiredo apenas pelo nome – por sua reputação como tradutor e por vez ou outra ver alguém resenhar um de seus livros. Porém, nunca me interessei em lê-lo. Isso até o dia em que minha “madrinha literária” me recomendou o romance citado, publicado em 2010. Comecei a lê-lo e logo entendi por que ele ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura de melhor livro do ano. É verdade que ainda não o terminei, mas já posso afirmar que é um grande livro.

Lygia Fagundes Telles – “Seminário dos ratos” e “Antes do baile verde”; o que dizer de uma autora que você leu em sua adolescência e cujos contos, passados mais de dez anos, não saem de sua cabeça? É essa a relação que tenho com a obra de Lygia Fagundes Telles. Não li seus romances, mas considero alguns de seus contos como obras-primas não apenas de nossa literatura, mas da literatura universal. São eles: “Natal na barca” e “Venha ver o pôr do sol” (que estão em “Antes do baile verde”), e “As formigas” (que está em “Seminário dos ratos”).

Flávio Moreira da Costa – “As armas e os barões”; conhecido como grande antologista, Flávio Moreira da Costa é também exímio contista e romancista, além de poeta. “As armas e os barões” é um romance de formação que se passa durante a ditadura. Apesar de um tanto experimental em sua execução, o autor não se perde nas inovações, não se preocupa demasiadamente com a forma, e isso dá ao livro um equilíbrio que poucas obras transgressoras possuem.

Antonio Carlos Viana – “Cine privê”; outro mestre do conto, Antonio Carlos Viana é do time de Jaime Prado Gouvêa e Luiz Vilela, e mantém a discrição e a humildade em altos níveis. Sua obra é de uma qualidade impressionante, o que o faz ser admirado por autores já consagrados, como Mayrant Gallo e Humberto Werneck (que não entrou nesta lista porque deixou de escrever ficção ainda jovem). Em “Cine privê” estão contos belíssimos, apesar de muitos deles serem um tanto cruéis.

Charles Kiefer – “Valsa para Bruno Stein”; único livro que li do autor, “Valsa para Bruno Stein” é um romance que impressiona por sua precisão. É uma excelente introdução para a obra de Kiefer, de quem tenho mais dois livros para ler, e é mais uma obra naquela minha lista de futuras releituras.

Luiz Antonio de Assis Brasil – “Música perdida”; mais um autor de quem li apenas um livro, mas cuja obra me marcou bastante. “Música perdida” é, também, uma obra-prima, e foi muito comentado na época de seu lançamento (2006). É outro autor que preciso ler mais.

Chico Buarque – “Leite derramado”; do nosso blue eyes eu havia lido apenas “Budapeste”, do qual não gostei – sou uma das três pessoas deste mundo que não gostou desse livro. Quando me foi dada a “missão” de resenhar “Leite derramado”, já comecei a me preparar para a avalanche de críticas que meu texto – negativo, eu supunha – receberia. Para a minha alegria, não precisei passar por nenhum perrengue: “Leite derramado” (2009) é um dos melhores romances brasileiros publicados de 2000 para cá, e de longe a melhor obra de Chico Buarque.

Carlos Heitor Cony – “Antes, o verão”; entre os anos de 2002 e 2003 li quatro romances do autor. Além do citado, li também “Pessach: a travessia”, “Tijolo de segurança” e “O piano e a orquestra”. Anos depois, li mais três romances, mas nenhum deles com a qualidade dos quatro lidos anteriormente. E o que mais ficou em minha memória foi mesmo “Antes, o verão”, que também está na minha lista de futuras releituras.

Bom, é isso. Alguns autores importantes deixaram de ser citados porque meu contato com a obra deles é muito pequeno ou não existe, como Sérgio Sant’Anna, Vilma Arêas e Hélio Pólvora. E também porque há muitos autores que sequer conheço. Portanto, fiquem livres para fazer suas indicações nos comentários.

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O livro branco

Quando comecei a escrever a sério, ali pelos meus 18, 19 anos, tinha muitos devaneios. Como, por exemplo, ser o primeiro brasileiro a ganhar o Nobel de literatura – que coisa mais cafona, não? Hoje, penso que, se ganhar, recusarei o prêmio, tal como fez Sartre, só de birra.

Pensava também, claro, em ganhar o Jabuti, entrar para o Pen Club e, só de lambuja, levar um Pulitzer, mas na categoria de jornalismo. Para a ABL, nunca pensei em entrar, porque, como dizia Fernando Sabino, não entraria em um clube que me aceitasse como sócio.

Esses devaneios todos fazem parte do passado, e se me quiserem na Academia Ponto Centralina de Letras, estou dentro e não largo o osso [Ponto Central é o nome do bairro onde moro]. E se me derem o prêmio de melhor escritor do quarteirão, já me dou por satisfeito (mentira).

Digo isso em tom de brincadeira, mas sem esconder que há alguma coisa de verdade nesse discurso. Com o tempo, com o amadurecimento e o conhecimento da realidade das coisas, vamos desistindo de um algo ali, adaptando um desejo aqui, descobrindo outro objetivo acolá. Mas, ainda que a vida nos traga as maiores surpresas, sejam elas boas ou não, a verdade é que ela sempre vai ter o poder de nos surpreender ainda mais, não importa o quão vivido você seja.

E é por essa peculiaridade da vida – justamente o que dá graça ao fato de continuarmos vivendo, sem jamais saber o que nos aguarda -, que jamais imaginei, em nenhum de meus devaneios, em participar de uma antologia de contos acompanhado de Fernando Molica, Marcelino Freire, Henrique Rodrigues e André de Leones, pessoas – grandes caras – que conheci – virtual ou pessoalmente – nesses anos de andanças literárias. Jamais imaginei, também, que uma antologia dessas seria publicada por uma editora como a Record, e que o tema seria os Beatles. Impensável, também, que meu nome estaria, na capa, logo abaixo do de Nelson Motta, um cara que dispensa apresentações, devido a sua história no mundo da música, do jornalismo e da literatura.

“O livro branco”, título da antologia, ainda traz os escritores (listá-los-ei pela ordem em que estão na capa, que é a ordem alfabética) Ana Paula Maia, André Moura, André Sant’Anna, Carola Saavedra, Felipe Pena, Godofredo de Oliveira Neto, Lúcia Bettencourt, Marcia Tiburi, Marcelo Moutinho, Marcio Renato, Maurício de Almeida, Simone Campos, Stella Florence e Zeca Camargo. A organização do livro é de Henrique Rodrigues, que também organizou “Como se não houvesse amanhã”, antologia de contos inspirados em músicas da Legião Urbana.

Meu xará de sobrenome estará, inclusive, lançando “O livro branco” na Bienal do Livro de São Paulo neste sábado, dia 11, no estande da editora Record. Mas antes ele participa, às 18 horas, com Fernanda Takai, vocalista do Pato Fu, e Mário Bortolotto, de um bate-papo com o título: “Paixão radical – Música”.

Quem puder marcar presença no bate-papo e ir ao lançamento, não se arrependerá. Mas, quem não puder, pode ficar tranquilo: outros lançamentos de “O livro branco” estão para acontecer. E, enquanto isso, quem quiser comprá-lo, já pode fazê-lo através de algumas livrarias virtuais.

Ah, sim, quase esqueço: meu conto foi inspirado por “Don’t let me down”, e leva o título de “Amor incondicional”. Espero que gostem :)

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Com a palavra, António Lobo Antunes

Por duas vezes tentei ler um romance do português António Lobo Antunes. Primeiro, “Ontem não te vi em Babilônia”; depois, “Eu hei-de amar uma pedra”, cujos títulos considero fora de série.

A culpa do fracasso é minha, claro. Mas, sabendo que meu caso não é isolado, não joguei a toalha ainda. Daqui a algum tempo tentarei novamente, e até aceito dicas de por qual livro começar. Enquanto isso, vou folheando “As coisas da vida”, seleta de crônicas de Lobo Antunes que saiu por aqui em fins de 2011.

Falando em seleta, este post, na verdade, é só para reproduzir algumas frases que o autor português proferiu em entrevista concedida à jornalista Eleonora de Lucena, da Folha de São Paulo, que me foram enviadas pelo também jornalista Humberto Werneck (que, é bom lembrar, mediou a conversa com Lobo Antunes na Flip de 2009, uma das mais elogiadas mesas de todas as edições do evento).

Aí vão as frases. E, claro, deixo o link da matéria de Eleonora de Lucena. É só clicar aqui.

A imaginação não é mais do que a forma como você arranja os materiais da memória. Não há imaginação. Há memória.

“O que marca profundamente uma pessoa são coisas nas quais não reparamos quando vivemos; coisas pequeninas, um olhar ocasional na rua. O problema é transfigurar isso.”

Tenho dúvida se se pode chamar de romance o que escrevo. Não me interessa contar uma história. Não me interessam personagens. A única coisa que me interessa é tentar colocar a vida inteira dentro das capas de um livro.

“O problema é que o leitor normalmente abre o livro com sua chave, feita de suas experiências. Um livro bom tem que ter a chave dele. Então é preciso abrir o livro com a chave do livro, não com a sua.”

O livro não é uma coisa que fala, é uma coisa que ouve. É a orelha que você encosta na terra para ouvir o mundo. Você tem que ficar doente do livro.

“Normalmente o livro começa a caminhar dentro de você quando a leitura acaba. Os livros bons são os que têm insônias. Você se levanta à noite para beber água e passa na biblioteca às escuras. Os livros estão a dormir. Mas Os Irmãos Karamázov estão a olhar para você.”

Quando não escrevo me sinto culpado. A criação é um mistério. Há alturas de uma felicidade intensa, mas a maior parte do tempo é angústia. De tentar encontrar a palavra e a música e a cor. Talvez escrever seja a arte dos corantes.

“Nos dias bons a mão fica a fluir e escreve sozinha.”

Sei que precisava de mais 200 anos, mas não sei para escrever o quê. Cada livro é o primeiro. Porque a experiência é como os flutuadores dos hidroaviões. Não servem para nada quando você está no ar. E você está sempre muito sozinho quando está fazendo um livro.

“Ninguém ganha uma guerra; todos perdem.”

Cada pessoa tem a idade com que nasceu. Se nasceu com 20 anos, tem 20 anos; se nasceu com 80, tem 80.

“Alguém alguma vez fica curado seja do que for? Você se cura de um grande amor? Não sei.”

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