Entretantos

Kepler 22b que se cuide…

Quem diria que os primeiros dias de 2012 – ano em que, dizem alguns, “o mundo vai acabar” em dezembro -, nos traria uma surpresa como a anunciada pela Agência Espacial Norte-Americana (NASA), de que existe um planeta habitável fora do sistema solar.

A notícia causa euforia, é claro. Principalmente levando em conta o que a humanidade vem fazendo com o nosso planeta. Sem querer levantar bandeira alguma ou ser chato, estamos destruindo a Terra em um ritmo cada vez mais veloz, o que causa grande preocupação. Afinal, depois que “acabarmos com o mundo” – o que pode ocorrer antes do fim de 2012 -, o que vamos fazer? Onde vamos viver?

Nas últimas décadas houve quem se iludisse com a remota possibilidade de encontrarmos um planeta – ou algo parecido – habitável não muito longe daqui. Hipótese que não foi concretizada.

Mas astrônomos e cientistas são osso duro de roer. Longe de desistir de encontrar um novo lugar para morarmos daqui a algumas centenas de anos, continuaram procurando um novo lar para o Homem com invejável obstinação. E, mesmo contra tudo e contra todos – os chamados eco-chatos (que de chatos arrisco dizer que não têm nada) e céticos vivem fazendo chacota deles, e o governo dos Estados Unidos vem sistematicamente diminuindo a verba destinada à NASA -, eles encontraram.

Batizado de Kepler 22b, o tal planeta está localizado a 600 anos-luz da Terra. Considerando que cada ano-luz equivale a 10 trilhões de quilômetros, e que são necessários 4 dias para chegar à Lua, e que a distância entre a Terra e a Lua é de 384.405 quilômetros, bem, poderemos começar a curtir um solzinho em Kepler 22b – “solzinho” entre enormes aspas, já que o satélite que corresponde ao nosso Sol tem outro nome; chama-se, justamente, Kepler 22, sem o “b” – lá para… é… sabe-se lá Deus quando.

O engraçado – ou trágico – é que a comunidade científica comemora essa descoberta. Eles ficam esfuziantes, não se contêm. Imagino a festa de arromba que fizeram ao serem confirmadas as condições habitáveis de Kepler 22b, com direito a muita Pepsi e rosquinhas.

Mas a verdade é que essa descoberta, festejada por muitos, não faz muita diferença para nós. A possibilidade de habitar um novo planeta, ainda que mais próxima da nossa realidade, não deveria ser sequer considerada, porque isso implica admitir que não há mais saída para a Terra, que ela está fadada à destruição. Pior: significa que nós, seres humanos, não damos a ela o seu real valor, que não cuidamos dela da maneira que deveríamos.

Kepler 22b que se cuide: se chegarmos lá, seus dias estarão contados.

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Os (meus) livros de 2011 2/2

Agora vamos aos livros de autores nacionais.

- “Boa ventura!”, de Lucas Figueiredo (ed. Record): do jornalista mineiro Lucas Figueiredo eu já havia lido “Olho por olho”, que conta a história de dois dos mais importantes livros originados por causa da ditadura brasileira: “Brasil: nunca mais”, escrito pelos que combatiam o regime, e “Orvil”, organizado pelos militares. A exemplo de “Olho por olho”, “Boa ventura!” é o tipo de livro que você começa a ler e não consegue parar. Lucas escreve sobre a corrida do ouro no Brasil, entre 1697 e 1810. É uma interessantíssima obra de História, além de ter o bônus da escrita talentosíssima de Figueiredo.

- “Esse inferno vai acabar” e “Nós passaremos em branco”, de Humberto Werneck e Luís Henrique Pellanda, respectivamente (ed. Arquipélago): esses dois livros de crônicas, de dois escritores de primeira classe, além de estarem aqui por suas qualidades, representam também o belíssimo trabalho que vem sendo feito pela editora gaúcha Arquipélago. Que, se não publica muitos títulos, vem se especializando em colocar no mercado obras de grande relevância, de escritores de enorme talento. Sobre os livros de Werneck e Pellanda: são duas amostras do melhor da crônica brasileira contemporânea. Textos inteligentes e simples, alguns bem-humorados, outros mais sérios, sempre com boas histórias.

- “O Rio é tão longe” e “Bom dia para nascer”, de Otto Lara Resende (ed. Companhia das Letras): o primeiro reúne cartas que o jornalista e escritor mineiro enviou para seu amigo também jornalista e escritor mineiro Fernando Sabino. O segundo é uma nova edição da obra publicada em 1993, com o acréscimo de 74 textos inéditos em livro, selecionados pelo Humberto Werneck citado acima (também escritor e jornalista mineiro, sô!). Para eles, apenas uma palavra: imperdíveis.

- “O espetáculo mais triste da Terra”, de Mauro Ventura (ed. Companhia das Letras): outro livro imperdível. O jornalista Mauro Ventura se dedicou por dois anos a escrever a história da maior tragédia circense que se tem notícia: o incêndio que atingiu o Gran Circo Norte Americano, em 1961, quando a trupe se apresentava na então capital do Rio de Janeiro, Niterói. Apesar do nome, o circo era brasileiro, apesar de contar com artistas de outras nacionalidades. Mais um livro que, depois de iniciado, é quase impossível parar de ler. Prato cheio para quem gosta de grandes reportagens e boas histórias – apesar de esta ser bem triste.

- “O escritor premiado e outros contos”, de Rafael Rodrigues (ed. Multifoco): eu não poderia deixar de mencionar o meu livro, afinal, ele é um dos acontecimentos mais importantes de minha vida. Se os contos reunidos no volume não podem ser chamados de “alta literatura”, ao menos não fazem feio se comparados ao que vem sendo publicado por novos autores brasileiros. São contos curtos e que em sua maioria tem como temas relações amorosas e familiares, e a repercussão, ao menos entre algumas pessoas que já leram e comentaram comigo, vem sendo bastante positiva.

***

Ficaram de fora da seleção, por terem chegado às minhas mãos na última da última hora, os seguintes livros: “A geração superficial – O que a internet está fazendo com os nossos cérebros“, de Nicholas Carr (ed. Agir); “Ho-ba-la-lá – À procura de João Gilberto“, de Marc Fischer (ed. Companhia das Letras); “Crônica de um vendedor de sangue“, de Yu Hua (ed. Companhia das Letras), “A felicidade é fácil“, de Edney Silvestre (ed. Record); e “Vento sul“, de Vilma Arêas (ed. Companhia das Letras), os quais ou não tive tempo sequer para ler algumas páginas ou li muito poucas. Mas acho que valem pelo menos uma olhada na livraria.

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Os (meus) livros de 2011 1/2

Nos últimos anos o número de livros – entre novos títulos e reedições – vem crescendo bastante – eu diria até assustadoramente. É tanto livro que você fica desnorteado – no caso de você ser um leitor contumaz.

É humanamente impossível acompanhar todos os lançamentos, e mais ainda ler tudo o que se deseja dentro de um ano. Até porque leituras não seguem o cronograma das editoras. Volta e meia você se vê com um livro publicado há 1, 2, 3 ou mais anos em mãos, em vez de estar lendo a bola da vez.

Mas, como faz parte do meu trabalho acompanhar as novidades, posso dizer que este foi um – mais um – ano livresco muito bom, apesar de diferente (para mim). Em 2011 eu mais folheei livros e li capítulos esparsos do que obras de cabo a rabo. Imagino que vocês tenham percebido isso, por conta do número reduzido de resenhas publicadas.

Porém, isso não me impede de eleger os meus livros do ano. Se não pude ler todas as obras listadas abaixo, pude saborear suas primeiras páginas ou alguns capítulos – no caso de algumas, bem mais que alguns, quase todos. E se as indico, é porque sei que são mesmo bons livros. É claro que muita coisa ficou de fora, como, por exemplo, a biografia de Steve Jobs, ou “Liberdade”, de Jonathan Franzen. Mas além de esses já estarem em várias e várias listas, esta aqui é a minha lista, portanto, é meu gosto pessoal (a redundância é proposital) que elege as prioridades.

Quase todos foram publicados no segundo semestre, sendo que três deles saíram já em dezembro, às portas de 2012. Mas enfim. Deixemos de conversa e vamos à lista.

Literatura estrangeira

- “O mesmo homem”, de David Lebedoff (editora Difel): o autor faz um paralelo entre as vidas de George Orwell e Evelyn Waugh, dois dos maiores escritores de língua inglesa de todos os tempos. É um livro empolgante e revelador, ao menos para quem conhece pouco dos dois autores. Para mim, foi uma bela surpresa. Um livraço.

- “Como morrem os pobres e outros ensaios”, de George Orwell (ed. Companhia das Letras): como dito acima, Orwell é um dos maiores autores de todos os tempos. Os ensaios de “Como morrem os pobres” são simplesmente brilhantes. Cada página é impressionante. Orwell consegue mesclar erudição e conhecimento com uma linguagem simples, leve e por vezes bem-humorada. É simplesmente incrível. Para quem não conhece o livro, se puder e tiver curiosidade, leia em uma livraria ou biblioteca o ensaio que começa na página 375, “Livros e cigarros”. Ou, se ler em inglês, pode fazê-lo via internet. E aí depois me diga se ele é ou não é brilhante. Detalhe: esse é um dos ensaios mais “simples” do livro.

- “O tempo que eu queria”, de Fabio Volo (ed. Bertrand Brasil): fiquei muito atraído tanto pelo título quanto pela capa deste livro. Mas o que me fez ir atrás dele foram suas primeiras páginas, que são arrebatadoras (em breve colocarei um trecho aqui). O impacto que um livro pode causar em um leitor depende muito do histórico de vida de quem lê, e/ou do momento que a pessoa está atravessando. Talvez por isso “O tempo que eu queria” tenha me emocionado bastante, e aí meu julgamento estaria comprometido. Mas recomendo ao menos uma olhadinha no livro, quando vocês forem a uma livraria. Vai que.

- “Zuckerman acorrentado”, de Philip Roth (ed. Companhia das Letras): apesar de o grande lançamento de Roth este ano ter sido “Nêmesis”, me atraiu mais essa coletânea de três romances (“O escritor fantasma”, “Zuckeman libertado”, “Lição de anatomia”) e um epílogo (“A orgia de Praga”). Comecei a ler “O escritor fantasma” e estou na metade, mas posso dizer que é mais um grande livro de Roth. O domínio que ele tem tanto da linguagem quanto da história em si é de fazer inveja a qualquer grande escritor. Difícil entender por que ele ainda não foi laureado com o Nobel de Literatura.

- “O livro da filosofia”, vários autores (ed. Globo): apesar de ser um livro introdutório, com perfis rápidos – e outros nem tanto – de vários filósofos, “O livro da filosofia” parece ser uma obra de grande valia para estudantes de filosofia ou interessados pela área. Digo “parece” porque quem sou eu para afirmar alguma coisa sobre filosofia. Comecei a graduação há pouco tempo e o que mais tem aparecido são dúvidas, em vez de respostas. Não obstante, o livro vale a pena pelas informações introdutórias e também, por que não, pelo seu projeto gráfico, rico em ilustrações e cores. Além disso, a equipe de colaboradores tem currículos/formações interessantes, e isso passa uma segurança para o leitor.

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2011 foi um ano estranho

Tenho o costume de fazer uma espécie de balanço de cada ano que passa, ainda que nem sempre transforme o resultado disso em texto. Salvo engano, 2010 não mereceu sequer um post, talvez por ter sido um ano de raras boas notícias, mas repleto – como quase sempre – de más. Talvez também por ter sido ano de eleições, e por eu ter passado por desgastes tremendos devido a isso.

Em 2011 tive boas e más notícias, como todos nós. Mas foi um ano que ficará marcado para sempre como aquele em que foi publicado meu primeiro livro. A saber, “O escritor premiado e outros contos”, que saiu pela editora Multifoco. (Foi o ano, também, em que meu querido notebook passou a apresentar um problema na placa de vídeo. Mas nada que umas porradas – de leve – não resolvam. Ao menos por enquanto.)

As alegrias, na verdade, foram poucas. 2011 foi um ano de muito trabalho – mas muito, mesmo -, tanto que este blog foi deixado um pouco de lado – e cheguei a pensar duas ou três vezes em desistir dele, mas não poderia desistir de algo que lutei tanto para conseguir. Porém, a satisfação de ver o retorno, ainda que tímido, desse trabalho é enorme, e compensa todo o esforço.

Foi um ano em que vi minhas famílias materna e paterna se mobilizarem para apoiar um escritor. Alguns foram ao lançamento, outros não puderam ir mas de longe mandaram energias positivas e fizeram questão de não apenas comprar 1 exemplar, mas vários, para dar de presente. O mesmo digo de meus amigos, e a todos eles agradeço de coração.

Falando em más notícias, como a que deu origem ao post anterior, 2011 me tirou dois avós. Um por parte de pai e outra por parte de mãe. Duas péssimas notícias em um intervalo curto de tempo, e que tiveram impactos diferentes sobre mim. A distância e a surpresa fizeram com que eu sentisse mais a tristeza da perda de meu avô, e a proximidade, porque ela morava conosco, fez com que eu ficasse revoltado com o que a vida estava destinando à minha avó. Tanta gente ruim nesse mundo vivendo bem, e minha avó, que nunca fez mal a ninguém, sofrer tanto assim?

Se eu pudesse escolher, preferiria não ter a alegria do livro publicado a ter a tristeza dessas duas perdas. Mas, se não me engano, como diz Eduardo Marciano, protagonista de “O encontro marcado”, romance de Fernando Sabino, não escolhemos, somos escolhidos. Isso vai de encontro ao livre-arbítrio, mas estudar a Filosofia Medieval – e, mais especificamente, Santo Agostinho – está ajudando a esclarecer algumas coisas, apesar de escurecer outras.

É como se pudéssemos escolher, apesar de mesmo fazendo escolhas, tudo já ter sido escolhido previamente. É um tanto complicado e contraditório, mas não é assim a vida?

O que não podemos é deixar de seguir adiante, tentando alcançar nossos objetivos, semeando nossa ideias – quando boas, por favor. Ok, isso pode parecer conversa de autoajuda, mas se não tentarmos nos autoajudar, quem o fará por nós?

Um belíssimo 2012 para todos, com muita saúde – tanto pro corpo quanto para intelecto; leiam, meus caros, leiam! – e bom senso, que aliás anda faltando demais neste mundo.

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Daniel Piza (1970-2011)

Foto: Juca Varela/ Agência Estado

“Conheci” o jornalista e escritor Daniel Piza em 2006, quando pedi sua licença para imitá-lo: eu estava para resenhar o livro “Cartas a um jovem contestador”, de Christopher Hitchens – que recentemente também veio a óbito -, e fiz algo que raramente faço, quando vou escrever sobre algum livro, que é procurar resenhas sobre a obra. Encontrei um texto de Piza, em forma de carta, e pensei em fazer meu texto também como se fosse uma missiva.

É claro que poderia escrever a resenha como se a ideia de fazê-la em forma de carta fosse minha, como se não tivesse lido o texto de Piza. Mas, apesar de não colocar uma nota de rodapé informando que a ideia fora imitada de outra pessoa, achei por bem “pedir licença” ao Daniel para fazer algo semelhante. Não sei vocês, mas achei que isso seria o correto a fazer.

Ele, claro, não viu problemas. Disse que a ideia não era “tão original assim”, mesmo que apenas ele tivesse feito daquela maneira. Gentil, pediu para que enviasse o texto para ele, quando estivesse pronto. Enviei o link, mas, se ele leu, não gostou, ou preferiu não fazer nenhum comentário.

Meses mais tarde, fui encher o saco do Piza. Pedi que ele me esclarecesse algo que o Google poderia ter respondido, mas como a questão tinha, mesmo que indiretamente, a ver como o jornal Estado de São Paulo, resolvi enviar um email para ele. Novamente, Daniel foi muito gentil e respondeu a mensagem, e foi um pouco além. Disse: “Se um dia você quiser visitar a redação, me avise. Mostro como funcionam as coisas”.

Depois disso, tive contatos bem esparsos com Daniel, apenas para pedir autorização para republicar alguns de seus textos no Digestivo Cultural, no período em que fui editor-assistente do site. Depois que meu ciclo no Digestivo terminou, nunca mais “falei” com o Piza, mas volta e meia lia algo escrito por ele, em seu blog.

Então hoje, quando soube de sua morte precoce, aos 41 anos de idade, fiquei triste. Estou triste. Porque achei que um dia o conheceria pessoalmente, e agradeceria “ao vivo” pela atenção que, mesmo ocasional, ele me deu. Como fiz quando cruzei, em diferentes ocasiões, com José Castello e Rogério Pereira, em Ouro Preto, por exemplo.

Vivemos num tempo em que qualquer um que tenha o mínimo de destaque em qualquer área se acha uma estrela, se acha um gênio. Principalmente os mais jovens. Não é fácil encontrar, no meio jornalístico e literário, pessoas que mesmo bastante ocupadas te deem alguma atenção – mesmo que não seja lá muito grande -, que pelo menos te deem um retorno, mesmo que curto. É por isso que me vejo no dever de agradecer a pessoas assim, quando tenho oportunidade, principalmente se for pessoalmente.

A visita ao Estadão, infelizmente, não aconteceu, e não pude trocar um aperto de mão com o Piza. Mas fica registrado aqui meu agradecimento, minha admiração e meu respeito por sua pessoa e sua carreira. E por mais que seu trabalho e sua pessoa sejam alvo de algumas críticas – quem não é criticado? -, ele deixou seu nome na história do jornalismo brasileiro. É preciso reconhecer isso.

Daniel, rapaz, você partiu cedo demais.

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O bigode/ A colônia de férias (trecho)

Comentei, meses atrás, en passant, sobre livros que acabei comprando depois de ser atraído pela capa – e vou falar novamente sobre isso, em breve. (Bem, “falar” não é o verbo apropriado, visto que aqui não falo: escrevo. Mas não nos apeguemos a detalhes comezinhos.)

Agora quero fazer um breve comentário a respeito de um livro pelo qual me interessei depois de ter visto, é claro, capa e título, além do nome do autor. Mas que me conquistou mesmo pelo seu início despretensioso e aparentemente inofensivo, diria até bobo. Gostei tanto que o coloquei entre os títulos que gostaria de ganhar de presente, o que acabou acontecendo, por obra e graça de minha noiva. Me refiro ao volume que reúne duas novelas do escritor francês Emmanuel Carrère, publicado há poucos meses pela Objetiva/Alfaguara: “O bigode/ A colônia de férias”. Mais especificamente à novela “O bigode”, que comecei a ler e gostei muito de suas primeiras páginas.

O fato que dá início à obra, como dito linhas acima, é bobo, aparentemente inofensivo: um homem que ostenta um bigode há anos resolve raspá-lo. Mas a forma como isso é escrito, como são descritas as divagações que faz esse homem, é sedutora, e faz com que o leitor não consiga parar de ler, a menos que seja interrompido, ou que não tenha tempo de continuar lendo, ou que não tenha senso de humor, ou…, ou…, ou…

Além disso, o que se lê nas páginas seguintes faz com que a história se torne ainda mais interessante, e o que parece ser uma gracinha ganha ares de suspense.

Dito isso, vamos a um trecho “bobinho” de uma das primeiras páginas de “O bigode”. Acredito que os barbudos – ou aqueles que gostariam, mas não podem (meu caso), de cultivar uma boa barba – vão se identificar com ele.

“Criança, não compreendia por que os adultos machos jamais tiravam um partido cômico de seu sistema capilar, por que, por exemplo, um homem que decidia sacrificar a barba fazia-o em geral de uma assentada, em vez de oferecer à hilaridade dos amigos e conhecidos, ainda que por um ou dois dias, o espetáculo de um dia glabro e outro de barba, com um semibigode ou costeletas em forma de Mickey, pantomimas que bastava uma navalhada para extinguir após se haverem prestado ao divertimento. É curioso como a satisfação com esse tipo de extravagância se atenua com a idade, que ele próprio, em ocasião similar, curvava-se ao costume, não lhe passando pela cabeça ir jantar naquele estado agreste na casa de Serge e Véronique, não obstante velhos amigos que jamais teriam se incomodado com aquilo. Preconceito pequeno-burguês, suspirou, e continuou a acionar a tesoura até que o fundo do copo de bochecho estivesse cheio e o terreno, propício ao trabalho da navalha.”

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O Rio é tão longe: o livro do ano

Em um ano recheado de bons livros, sendo um dos mais importantes “O escritor premiado e outros contos”, de um certo Rafael Rodrigues, 2011 poderia muito bem encerrar por agora, ao menos no que se refere a livros publicados, com o lançamento de “O Rio é tão longe” (Companhia das Letras, 424 págs., R$ 49,00), que traz cartas do escritor mineiro Otto Lara Resende ao seu amigo também escritor e também mineiro Fernando Sabino (1923-2004).

Livro que, a propósito, custou a sair, tendo em vista que Otto faleceu em 1992, e que em 2002 Fernando Sabino publicou suas missivas a Otto, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos (“Cartas na mesa”, ed. Record). Juntos eles formaram um quarteto que ficou conhecido como “Os quatro mineiros do apocalipse”. Tanto pelo que aprontaram em Belo Horizonte quando jovens – e uma amostra disso está no romance “O encontro marcado”, um dos melhores livros brasileiros do século passado – quanto pelo que fizeram para a literatura brasileira, escritores de talento inquestionável que foram.

Mas antes tarde do que nunca. Sem contar que o atraso foi providencial: coube a Humberto Werneck, jornalista e escritor talentosíssimo – e, vejam só, também mineiro! – organizar o livro. Algo que, anos atrás, talvez não fosse possível, devido a outros compromissos de Werneck, que, só para dar um exemplo, se dedicou por um bom tempo à escritura da belíssima biografia de Jayme Ovalle, “O santo sujo” – que, é bom lembrar, conta com a “participação” dos quatro mineiros. Principalmente com a de Sabino, que conviveu por mais tempo com Ovalle e chegou a transformá-lo em personagem de “O encontro marcado” (o velho Germano).

É bom dizer que não li, ainda, “O Rio é tão longe”. Mas estamos falando aqui de um livro cuja importância e qualidade independe de sua leitura. Leitura essa que, aliás, é quase obrigatória. Contudo, asseguro-lhes de que meu exemplar já está garantidinho, como diria o Otto, e mal vejo a hora de tê-lo em mãos.

Nelson Rodrigues, muito amigo de Otto, disse certa vez que deveriam colocar um taquígrafo atrás dele, para que fossem registradas todas as suas frases geniais, que seriam depois vendidas em uma loja. Essa anedota do Nelson não era uma rasgação de seda gratuita. Otto, em suas crônicas – e também em suas cartas -, se mostra um escritor excepcional, de uma simplicidade – nas crônicas -, uma sinceridade e uma agudeza de sentimento – nas cartas – que não é lá muito comum na literatura brasileira.

Pois que vem em boa hora este “O Rio é tão longe”, que, junto com uma nova edição do volume de crônicas “Bom dia para nascer”, também sob os cuidados de Humberto Werneck, e que traz mais de setenta crônicas não reunidas na edição anterior, de 1993, organizada por Matinas Suzuki Jr., realça, de uma só vez, as figuras de Otto e de Fernando Sabino, dois dos nossos maiores escritores. Os dois títulos inauguram a coleção Otto Lara Resende, organizada pelo já citado Humberto, sem dúvida alguma a pessoa mais indicada para fazer tal trabalho. Além de ter conhecido e convivido com ambos, é dele um livro fundamental para entender a geração de autores mineiros nascidos ali mais ou menos pelos anos 1920, “O desatino da rapaziada”, também publicado pela Companhia das Letras.

Encerro este post com o “Lembrete do anjo para Fernando Sabino”, abertura de “O Rio é tão longe” que figura também em sua capa, e me deixa arrepiado toda vez que leio:

Fernando Sabino, o Demônio é uma árvore frondosa cheia
de frutos maduros e doces. O Demônio dá sombra aos caminhantes
fatigados, o Demônio, Fernando Sabino, dessedenta os
que têm sede e dá de comer a quem tem fome. O Demônio é
uma romã fresca e saborosa depois do sol e do cansaço. Deus,
Fernando Sabino, é uma galhada seca e magra, onde os homens
sangram as mãos para nada. Uma caveira no meio do pé da estrada
é Deus, Fernando Sabino. Deus é um osso duro de roer.
Deus, Fernando Sabino, é uma fieira de dentes amarelos enfiados
como em colar e passado no colo de um esqueleto esquecido
de si mesmo. Fernando Sabino, o Demônio é uma macieira, o
Demônio é alto, louro, simpático, tem olhos azuis e fuma cigarros
americanos. Fernando Sabino, o Demônio tem poltronas,
Fernando Sabino. O Demônio toma chá com torradas e tem
varandas no flanco esquerdo e no flanco direito. Deus é cáustico
e sem alpendre. Deus é uma caveira: perigo!

Otto Lara Resende
Rio, 24 de outubro de 1954
Noite

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Essencial Franz Kafka

Detentor de uma das obras mais sólidas e influentes da literatura universal, o escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924) quis privar a humanidade da maior parte de seus escritos, ordenando que eles fossem queimados após a sua morte – poucos foram os livros de Kafka publicados em vida.

Coube a Max Brod, amigo de Kafka, desobedecer a ordem e publicar escritos que, segundo a vontade do autor, seriam transformados em cinzas.

O resultado foi exatamente o que está escrito no primeiro parágrafo deste texto: uma das obras mais sólidas e influentes da literatura universal. E também uma das obras mais intrigantes e incômodas.

Não é fácil, por exemplo, ler “O processo”, romance que narra as agruras de Josef K., personagem que certo dia acorda e é avisado de que está sendo processado e será julgado por razões que não sabe, nem lhe explicam. A questão não é linguística, o texto não é de forma alguma hermético. O “não é fácil” está ligado ao clima que o autor dá à história: algo sombrio, soturno, uma aura de mistério que chega a ser opressora, perturbadora.

Tal como clássicos do porte de “Crime e castigo”, de Dostoiévski, e “Ensaio sobre a cegueira”, de Saramago (sim, um clássico mais “jovem”, por que não?), há em “O processo” cenas e diálogos extremamente inquietantes, como o momento em que um personagem conta a K. a parábola conhecida como “Diante da lei”, resumida assim pelo escritor Louis Begley em “O mundo prodigioso que tenho na cabeça”, um ensaio biográfico sobre Kafka:

“Nessa parábola, um homem do campo chega à porta da lei e quer entrar, mas o porteiro diz que naquele momento não pode permitir. Como a porta está aberta, o homem pergunta se poderá entrar mais tarde. O porteiro responde que é possível. Passam-se anos, e o homem, que nunca é autorizado a entrar, não desiste. Por fim, quando o homem está à morte, o porteiro declara que ninguém além do homem poderia entrar por aquela porta, e que agora iria fechá-la.”

Assim como “O processo”, outras obras de Kafka são perturbadoras e marcantes em igual medida. Grandes exemplos disso são “Um artista da fome” e “A metamorfose”, ambas incluídas no volume “Essencial Franz Kafka”, publicado este ano pela Companhia das Letras, através do selo Penguin Companhia.

O volume reúne, além das duas obras citadas acima, outros textos importantes do autor, como “O veredicto”, “Na colônia penal” e contos menores e fábulas como “Um fratricídio”, “A ponte”, “Desista!”, o angustiante “O abutre”, entre outros. É uma seleção deveras primorosa, ainda mais se utilizada como primeiro contato com a obra de Kafka. Mas seria melhor ainda – ou mais essencial ainda – se “Carta ao pai” estivesse inclusa, e se as apresentações que precedem os textos, escritas por seu tradutor, Modesto Carone, fossem utilizadas ao fim deles, ou como apêndice. Mas exigir algo completo envolvendo Kafka é quase uma heresia. Afinal, seus contos e romances no mais das vezes podem oferecer ao leitor as mais diversas sensações, exceto a de completude.

Até mesmo as obras que Kafka deixou completas têm um quê de inacabadas. E muitos de seus contos parecem não ter sentido, ou têm vários – diria até infinitos – sentidos.

Assim é a literatura de Franz Kafka: paradoxal, perturbadora, inquietante. O “difícil” de Kafka não é a sua leitura, mas sim o que pode vir depois dela. É por isso que não é fácil lê-lo. E é justamente por isso que é essencial – eu diria fundamental.

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Mini roteiro gastronômico em Ouro Preto

O Fórum das Letras de Ouro Preto 2011 começou na última sexta-feira e termina dia 15, terça-feira, e, desta vez, infelizmente, não deu para mim. Fiquei só na vontade de ir, vontade essa que, reprimida, vai ser complicado de frear em 2012. Ou seja: Ouro Preto, minha querida, ano que vem estou aí!

Para quem lá está acompanhando o Fórum, ou mesmo para quem não conhece a cidade ainda mas deseja conhecer, vão aí três dicas de lugares para fazer deliciosíssimas refeições. Dois deles conheci em 2009, quando fui lá pela primeira vez. O terceiro conheci em 2010, quando Cassia viajou comigo, e adoramos o local.

Acaso 85

Além da comida deliciosa – não dá pra deixar de comer o macarrão a alho e óleo que eles fazem, nem a linguicinha (sem piadas, por favor) frita, a menos que você realmente não possa ou não goste desse tipo de comida -, para comer no Acaso 85 você precisa descer alguns vãos de escada, e ao fazer isso você esquece completamente do mundo lá fora. É simplesmente um lugar incrível. Tranquilo, agradabilíssimo, sem a barulheira que há em alguns restaurantes mais próximos do centro. Cassia e eu almoçamos lá várias vezes, e, além de ficar encantada com o local, ela adorou uma das sobremesas que eles servem.

O Passo

D’O Passo nós aproveitamos apenas a pizza, mas o local é também um espaço cultural que sempre tem alguma coisa boa acontecendo. Até houve alguma coisa por lá nos dias que passamos em Ouro Preto, mas como estávamos em busca de tranquilidade, neste dia não passamos por lá. Sobre a pizza, somente uma palavra: divina. Para completar, o ambiente é também agradabilíssimo, mas com alguma coisa de “festa” no ar. Entre aspas porque o termo não é exatamente esse. O que quero dizer é que há, n’O Passo, uma aura de alegria, de comemoração, de celebração. Em 2009, quando fui sozinho acompanhar o Fórum, ia ao Passo para sentir boas vibrações, para sentir o calor humano-festivo, digamos assim, depois de passar o dia sozinho – ou, melhor dizendo, acompanhado apenas da literatura. Cassia também aprovou o lugar, e até hoje O Passo é nosso referencial para qualidade de pizzas. Até o momento não conhecemos nenhuma melhor que a de lá.

Escadabaixo

Foi o Escadabaixo que conheci com Cassia, em 2010. Ele é uma espécie de mistura do Acaso 85 com O Passo. Do primeiro, lembra o ambiente, visto que, como diz o nome, você precisa descer uma escada para chegar até ele (o Escadabaixo fica no subsolo do Café Geraes); do segundo, tem a aura de alegria, de festa, de celebração. Lembro de termos tomado café por lá, e de termos comido alguns pasteizinhos. Foi apenas um lanche, mas o Escadabaixo ficou gravado em nossa memória, e assim que pudermos ir novamente a Ouro Preto, voltaremos lá.

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Tardes com anões


Foi lançado, na última sexta-feira (14/10), o livro “Tardes com anões” (Vento Leste, 2011), coletânea de minicontos dos autores baianos Carlos Barbosa, Elieser César, Igor Rossini, Lidiane Nunes, Mayrant Gallo, Rafael Rodrigues (eu!) e Thiago Lins.

O lançamento aconteceu durante a primeira edição da Flica (Festa Literária Internacional de Cachoeira), que terminou ontem (16/10).

Os sete anões – digo, autores – participaram de uma animada conversa sobre minicontos, e cada um falou um pouco sobre suas experiências como escritores, além de fazer a leitura de algumas das histórias publicadas na coletânea.

O bate-papo foi mediado pela professora, fotógrafa, produtora editorial e também organizadora das “Tardes com anões” Gal Meirelles, mais conhecida agora pelo codinome “Branca de Neve”.

Da esquerda para a direita: Igor Rossoni, eu, Carlos Barbosa, Mayrant Gallo, Lidiane Nunes, Thiago Lins e Elieser César.

O livrinho pode ser adquirido por módicos R$ 9,50 (R$ 5,00 do livro + R$ 4,50 da postagem), através dos e-mails m.gallo@ig.com.br e galmeirellesc@yahoo.com.br.

Deixo para vocês uma prévia do livro, que é muito bacana: um miniconto de cada autor.

Carlos Barbosa
“Para dizer que te amo (I)”

Para dizer que te amo, lavo a cueca no banho e a deixo secar ali mesmo no box.

Para dizer que te amo, nesta barulhenta Bahia, ouço Rachmaninoff, e em Bizet o que há de menos popular.

Para dizer que te amo, durmo só.

E para, inquestionavelmente, dizer que te amo, irei trabalhar no interior do Amapá.

Elieser César
“Interpretação dos sonhos”

Capistrano sonhou com uma cobra.
Jogou no bicho.
Deu macaco.
Jogou de novo.
Deu burro.
Insistiu no jogo.
Deu peru.
Ainda apostou.
Deu elefante.
Tentou mais uma vez.
Deu águia.
Foi passear na roça.
Deu cobra.

Igor Rossoni
“Descanso”

Trocara fronha e lençóis. Menos o pai, que depois de tudo no alvejo, recuperou posição de costume.

Lidiane Nunes
“Ferida”

Como uma borboleta que acaba de sair do casulo, descobre que pode voar e tem as asas arrancadas por um menino cruel que sente prazer em brincar de Deus. Assim eu me sinto.

Mayrant Gallo
“O acontecimento”

Um homem vinha pela estrada. Parou para pedir carona. Um carro passou direto, passaram dois, três, quatro. O homem voltou a andar. E ainda está andando. Sem saber que já não existem carros no mundo, e que não há mundo, e que ele é o único ser vivo sobre a face da Terra.

Rafael Rodrigues
“Previsão”

Uma cigana leu sua mão. Matou-se ao fim do dia.

Thiago Lins
“Quietude”

Uma quietude tomara conta do lugar. Aos poucos, as pessoas entravam e se aproximavam de mamãe. Estendiam os braços, e ela, um tanto trêmula, fazia o mesmo.

Enquanto os cumprimentos se sucediam, encaminhei-me até papai. Ele estava bem vestido. O caixão, bem ornamentado.

Mamãe continuava a receber cumprimentos. E em meio à quietude que tomara conta do lugar, papai soltou um longo suspiro de insatisfação.

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