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Se você pegar uma pá e bater no peito de um homem na altura dos pulmões, as danças param

sexta-feira, 13 de maio de 2011 por Mariana Delfini
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Estreou ontem Oxigênio, da Companhia Brasileira de Teatro, no Sesc Copacabana. O texto é do russo Ivan Viripaev, até então inédito aqui no Brasil, e no palco estão Rodrigo Bolzan (ótimo) e Patrícia Kamis (que tem seus melhores momentos da metade pro fim).

A peça, que eu vi em Curitiba, é a crítica do mês de maio – nas bancas e agora aqui. Quem analisa o espetáculo é o jornalista Daniel Schenker, que entre outras coisas escreve:

“Sem enveredar pelo terreno do confessional, tomadas de posição inflamadas vêm à tona, seja na esfera da história de amor [entre um homem e uma mulher chamados Sacha], seja no campo da política, quando são discutidos temas como imigração e terrorismo”

A peça, que estreou em 2003, foi encenada em vários países e também virou filme, dirigido pelo próprio autor do texto. Veja um trechinho, “falado” em russo mas com legendas em inglês:

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Oxigênio De Ivan Viripaev. Direção de Marcio Abreu. Com Patrícia Kamis e Rodrigo Bolzan. Mezanino do Sesc Copacabana (r. Domingos Ferreira, 160, RJ, tel 0++/21/2548-1088). De 12 a 29/5. 5ª e dom., às 20h; 6ª e sáb., às 21h30. De R$ 4 a R$ 16.

Homenagem

quarta-feira, 11 de maio de 2011 por Mariana Delfini

Vocês viram o Google de hoje? O que substitui o logo é uma animação celebrando o 117º aniversário de Martha Graham, coreógrafa que revolucionou a dança no começo do século passado.

Eu ia explicar o que é cada um dos movimentos que a animação da home do Google apresenta, mas, vejam que beleza, o site oficial já fez isso, e muito melhor, claro, do que eu poderia cogitar fazer.

Começa assim:

The Doodle begins with the shrouded figure from Lamentation, Graham’s signature solo from 1930. Then radical, and now iconic, the solo contains the seeds of Graham’s revolution – from the gutsy, torso-driven movement to the stark, unadorned emotion and her desire to “chart a graph of the heart” with her dances. The innovative costume, a tube of stretchy wool, accentuates the torque and pull of the movement, becoming the sculptural evocation of grief itself.

Dá para assistir a Martha Graham falando sobre essa coreografia, e um trechinho dela, aqui neste vídeo:

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Intervalo

terça-feira, 3 de maio de 2011 por Mariana Delfini

enquanto estou aqui na coxia preparando uma entrada especial na edição de junho, vocês podem sair pra fazer xixi, tomar um café, ler o programa, discutir sobre o que estão vendo. mas são só 15 minutinhos, tá? voltem.

Da ficção – A dor que deveras sente

terça-feira, 19 de abril de 2011 por Mariana Delfini
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O Michel é casado com a Meg, e os dois são vizinhos da Ágata. O Michel escreve e cuida da Meg, que tem perda de memória recente. A Ágata chega e confunde tudo, quem é mesmo que está doente? Deixando de lado a sinopse, que é o de menos (é isso aí: casal peculiar conhece a vizinha e se depara com seus problemas), o que precisa ser dito é que Jô Bilac fez o texto de Savana Glacial (vencedor do Shell deste ano) para o Grupo Físico de Teatro e o que resultou disso é um espetáculo que fala do próprio espetáculo.

Como em um discurso de conferência, revestido pela autoridade da ciência (com direito a citação de “Escritores Criativos e Devaneios”, de Freud), Michel senta-se a uma mesa e declara o prólogo da peça, uma carta de intenções do autor e de todos os artistas: tudo é ficção, só a dor é real. Clara referência a Fernando Pessoa ou não, o fato é que foi impossível não lembrar do “Autopsicografia”: O poeta é um fingidor… etc.

Segue a peça: Michel escreve, Meg se esquece das coisas. Então Ágata aparece e a história começa a se contar sozinha. Tudo escancara a maquinação: as marcações precisas dos atores, os gestos repetidos mecanicamente, a luz racional. Estamos sendo levados pelas mãos do autor, ele nos manipula, brinca com os espectadores. Tudo bem. A trilha sonora vai criando um clima de suspense, mas o mistério, mesmo, não é a resolução da história – quem está falando a verdade, o marido, a esposa ou a vizinha? -, mas se há uma resolução na história, se há uma verdade, se há aqueles personagens.

Mesmo com um título que, quando explicado, parece uma provocação sobre a nossa capacidade de inventar (e mais não conto), é possível assistir Savana Glacial sem pensar nisso tudo. Os atores estão ótimos, Camila Gama provoca empatia imensa e risos como Ágata, algumas cenas são belíssimas – como a do sexo do casal e a do delírio de Meg, pra lá do meio da peça, que parece ter sido feita para cinema, mas está ali, acontece bem na frente dos nossos olhos. Também há as referências ao fazer teatral – a mais bonita delas, na minha romântica opinião, é quando Ágata fala dos atores que olham fixamente para algum espectador da plateia, e o espectador se pergunta: é o ator ou o personagem que está me olhando?

Mas me parece complicadíssimo não se perguntar sobre a ficção o tempo todo. O que estamos assistindo, afinal, são personagens perfeitamente incompletos, uma história propositalmente só rascunhada. Um ensaio engenhoso do que poderia ser uma história, mas são várias.

Savana Glacial. Texto de Jô Bilac. Direção de Renato Carrera. Com Andreza Bittencourt, Camila Gama, Diogo Cardoso e Renato Livera. Sesc Belenzinho (r. Padre Adelino, 1000, Belenzinho, SP, tel 0++/11/2076-9700). De 3ª a 5ª, às 21h30. De R$ 6 a R$ 24. Até 5/5.

Da identidade

quinta-feira, 14 de abril de 2011 por Mariana Delfini
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O clipe de divulgação não mostra, mas um dos grandes baratos de Adultério, da Cia. Atores de Laura, é o jogo inspirado por Luigi Pirandello: as trocas de identidade dos personagens. Não vou entregar o que acontece, mas acho que posso dizer que, como em uma das brincadeiras do teatro de improviso, em que as situações se modificam à interferência de um “mediador”, as cenas da peça mudam de tempos em tempos – com os mesmos atores no palco, mas representando outros personagens. Não falo mais pra não estragar. Corram, é o último final de semana.

Adultério. Texto coletivo da Cia. Atores de Laura. Direção de Daniel Herz. Com Ana Paula Secco, Anderson Mello, Leandro Castilho, Marcio Fonseca, Paulo Hamilton e Verônica Reis. Sesc Ipiranga (r. Bom Pastor, 822, Ipiranga, SP, tel 0++/11/ 3340-2000). Sáb., às 21h e dom., às 18h. De R$ 4 a R$ 16. Até 17/4.

Do desejo

terça-feira, 12 de abril de 2011 por Mariana Delfini

“Boneca descerebrada para um, musa inspiradora de outro, esposa improvável e assassina, coquete audaciosa, deusa do sexo - Lulu personifica desejos, e são eles que conduzem seus amantes ao mesmo itinerário. Primeiro, a volúpia da conquista. Depois, a traição e a morte.”


trecho de As Muitas Vidas de Lulu, crítica da peça Devassa escrita por Manoela Sawitzki e publicada na edição 156 da Bravo!.

Devassa. Texto a partir de Lulu – A Caixa de Pandora, de Frank Wedekind. Direção de Nehle Franke. Com Cia. dos Atores. Teatro Anchieta – Sesc Consolação (r. Dr. Vila Nova, 245, SP, tel 0++/11/3234-3000). Sex. e sáb, às 21h; dom., às 19h. De R$ 8 a R$ 32. Até 1/5. (não vai ter sessão nesse sábado, dia 16, por conta da Virada Cultural)

Diálogos

domingo, 3 de abril de 2011 por Mariana Delfini

(na última noite em Curitiba, uma assemblage do que têm sido meus últimos dias. to pirando)

(ainda falta contar de outros momentos do festival, mas isso fica pra daqui a pouco)


1. o passado

“Eu tive uma memória.” Emma, personagem de Marco Nanini em Pterodátilos (em cartaz em SP), lembra-se de alguns momentos de sua infância durante a peça.

“Eu tive um esquecimento.” Meg, personagem de Andreza Bittencourt em Savana Glacial (apresentada aqui em Ctba, em cartaz em SP), quando mais uma vez é acometida por seu problema de perda de memória recente.

2. o gesto

Os personagens homens de O Último Stand Up, novo espetáculo do Satyros (previsão de estreia ainda em 2011 em SP), repetem por três vezes o ritual de estender com rispidez o casaco antes de vesti-lo.

Meg, a personagem de Savana Glacial que faz bolos para vender, estende seu avental com rispidez antes de vesti-lo.

3. as letras

Du Moscovis, ainda no começo de O Livro, puxa para a boca de cena o papel que estava pendente no fundo do palco, revelando um outro papel que contem frases escritas em adesivos que guardam luz (e portanto brilham na escuridão). Sara Antunes, no final de Sonhos Para Vestir, puxa para a boca de cena um tecido que estava pendente no fundo do palco, revelando o cenário-instalação de Analu Prestes, com frases bordadas, que o pai de Sara lhe escreveu em cartas.

4. a conta

O personagem do Pequeno Inventário de Impropriedades (Fringe), vivido por Max Reinert, trouxe para frente uma lousa e começou a listar as suas namoradas, como o personagem homem da Deborah Falabella em O Amor e Outros Estranhos Rumores (fora de cartaz) contabiliza as suas namoradas em projeções, durante uma palestra. Em ambas, depois, as cabeças de animais – cavalo em uma, coelho em outra.

5. o lugar

A parede que vai pra trás do palco, as laterais tomadas por cabides com roupas e instrumentos musicais. Estou falando de Vida (fora de cartaz), da Cia. Brasileira de Teatro, e de Antes da Coisa Toda Começar (em Ctba), da Armazém Cia. de Teatro.

O Livro

sexta-feira, 1 de abril de 2011 por Mariana Delfini

Enquanto esperava o taxi no lugar ermo e adquiria a dor de garganta que está instalada, conversei com uma espectadora que tinha acabado de sair da mesma peça que eu: O Livro. Na verdade, ela que conversou comigo, porque a minha vontade era ficar quietinha pensando no que tinha acabado de acontecer.

O monólogo que o Du Moscovis apresenta, dirigido pela Cristiane Jatahy, foi escrito pelo Newton Moreno. E eu gosto bastante do Newton. Como se Du Moscovis + Jatahy + Newton não fossem fatores suficientes na equação, a peça é sobre um homem que sabe que vai ficar cego e tenta se apegar ao que ainda pode ver. E às palavras. Pronto, me ganhou (mesmo com a crítica super negativa da Barbara Heliodora, tempos atrás).

Ela estava reclamando da demora dos nossos taxis. Eu reclamei de volta, “e esse frio, né?”. E ela reclamou que ainda por cima estava com fome. “Pois é.” Ela reclamou de novo: “E ainda pra ver isso, a peça nem foi boa”. Não respondi. “Pelo menos o Du Moscovis valia a pena.” Dei um sorriso cúmplice, mas meio amarelado. “Você gostou?”

Eu podia ter mentido, eu sei que podia. Mas é tão raro encontrar alguém que vai ao teatro e quer falar sobre isso… “Na verdade eu gostei. Eu gosto bastante do autor do texto, o Newton Moreno.” Ela não esperava essa resposta. Eu percebi e nem falei de todo o resto. Ela tentou relativizar. “Mas é que é isso, né, falar assim sobre pedofilia, nossa, é tão difícil”.

Oi? Pedofilia?

“Pedofilia?” “É! Era disso que eles estavam falando.” Bom. Eu sentei lá no fundo e às vezes não dava pra ouvir o que o Du dizia (todo mundo criticou a escolha do espaço). Eu reconheço que me deixei dominar pelos trechos sobre palavras e fiquei flutuando em alguns momentos. Eu posso ser bem ingênua em muitas situações. O Newton tem aquela peça, Agreste, que fala do casal nordestino gay. Tem a outra do fist-fucking. Gente, será que tinha pedofilia na peça???

“Nossa, não vi isso de pedofilia” “Mas era isso, aquela hora que ele fica falando da herança que ele não quer!” “Mas ele está falando da cegueira.” “Não, não! Ele está falando de pedofilia, que o avô abusava do tio, que o pai ia abusar dele. Ele sente o cheiro da colônia do pai!” “Sim, mas porque a cegueira…” “Não, é por isso que ele se cega!” Silêncio. “Sei lá, não consegui enxergar isso.”

Passei doze horas me torturando. As colegas que tinham visto a peça estavam em outra, com celular desligado. Fui para o hotel, tentei ler o meu livro, que não tinha nada com cegueira nem pedofilia, mas não consegui. Gente, onde estava a pedofilia? Hoje contei o diálogo para elas, que também acharam estranhíssimo. Vou pegar emprestado o texto da peça para ler com todo cuidado. Não pode mais sentir perfume do pai que é pedofilia?

Drops (ou Pastilhas para Garganta)

sexta-feira, 1 de abril de 2011 por Mariana Delfini

Viva o taxi demorado para o lugar ermo com vento no outono de 13ºC de Curitiba.

Apfelstrudel, com a entrada do Bosque Alemão ao fundo. Dediquei algumas horas do dia frio de ontem a um passeio com o ônibus que percorre os principais pontos turísticos de Curitiba. Bosque do Alemão foi a última parada antes de ir correndo de volta para o teatro.

Drops (ou Pastilhas para Garganta)

sexta-feira, 1 de abril de 2011 por Mariana Delfini

Viva o taxi demorado para o lugar ermo com vento no outono de 13ºC de Curitiba.

DOIS

O Fringe é complicado. O nome vem do festival de Edimburgo para indicar uma mostra sem curadoria, em que qualquer grupo de teatro de qualquer canto do país pode se inscrever para se apresentar nos dias do festival daqui. Neste ano, são quase 400 espetáculos espalhados pela cidade, que começam às 10h ou ao meio-dia e terminam à meia-noite.

O guia do festival, que traz a sinopse de todos eles, é um calhamaço, e a curadoria fica por conta de cada espectador. Não é fácil. Existem alguns caminhos mais “seguros”, como procurar diretores e companhias conhecidos. Apostar em alguns estados, às vezes. Parece horrível e injusto com os que ainda são obscuros – o que me lembra aquela cena do Amor Sem Escalas, na fila do raio-x:

Personagem do George Clooney: Never get behind old people. Their bodies are littered with hidden metal and they never seem to appreciate how little time they have left. Bingo, Asians. They pack light, travel efficiently, and they have a thing for slip on shoes. Gotta love ‘em.

Personagem da Anna Kendrick: That’s racist.

Personagem do George Clooney:I’m like my mother, I stereotype. It’s faster.

Mas é isso: é mais rápido. Porque ninguém gosta de ver peça ruim, certo? Acontece, claro. E então na rua, quando te perguntam o que você viu, você diz que uma tal peça, a pessoa pergunta se você gostou, você faz uma cara de “é…”, em seguida vem o comentário: “É Fringe, né?”.

Mas descobri em mim uma generosidade que ainda não conhecia. Ao invés de ficar irritada e/ou com vontade de ir embora e/ou com vergonha por quem está se apresentando, sinto um carinho enorme por todos eles que estão dando a cara a bater. Dá até vontade de abraçar no final, nos aplausos, quando os personagens viram atores. Adoro quando os personagens viram atores.