O Livro

Enquanto esperava o taxi no lugar ermo e adquiria a dor de garganta que está instalada, conversei com uma espectadora que tinha acabado de sair da mesma peça que eu: O Livro. Na verdade, ela que conversou comigo, porque a minha vontade era ficar quietinha pensando no que tinha acabado de acontecer.

O monólogo que o Du Moscovis apresenta, dirigido pela Cristiane Jatahy, foi escrito pelo Newton Moreno. E eu gosto bastante do Newton. Como se Du Moscovis + Jatahy + Newton não fossem fatores suficientes na equação, a peça é sobre um homem que sabe que vai ficar cego e tenta se apegar ao que ainda pode ver. E às palavras. Pronto, me ganhou (mesmo com a crítica super negativa da Barbara Heliodora, tempos atrás).

Ela estava reclamando da demora dos nossos taxis. Eu reclamei de volta, “e esse frio, né?”. E ela reclamou que ainda por cima estava com fome. “Pois é.” Ela reclamou de novo: “E ainda pra ver isso, a peça nem foi boa”. Não respondi. “Pelo menos o Du Moscovis valia a pena.” Dei um sorriso cúmplice, mas meio amarelado. “Você gostou?”

Eu podia ter mentido, eu sei que podia. Mas é tão raro encontrar alguém que vai ao teatro e quer falar sobre isso… “Na verdade eu gostei. Eu gosto bastante do autor do texto, o Newton Moreno.” Ela não esperava essa resposta. Eu percebi e nem falei de todo o resto. Ela tentou relativizar. “Mas é que é isso, né, falar assim sobre pedofilia, nossa, é tão difícil”.

Oi? Pedofilia?

“Pedofilia?” “É! Era disso que eles estavam falando.” Bom. Eu sentei lá no fundo e às vezes não dava pra ouvir o que o Du dizia (todo mundo criticou a escolha do espaço). Eu reconheço que me deixei dominar pelos trechos sobre palavras e fiquei flutuando em alguns momentos. Eu posso ser bem ingênua em muitas situações. O Newton tem aquela peça, Agreste, que fala do casal nordestino gay. Tem a outra do fist-fucking. Gente, será que tinha pedofilia na peça???

“Nossa, não vi isso de pedofilia” “Mas era isso, aquela hora que ele fica falando da herança que ele não quer!” “Mas ele está falando da cegueira.” “Não, não! Ele está falando de pedofilia, que o avô abusava do tio, que o pai ia abusar dele. Ele sente o cheiro da colônia do pai!” “Sim, mas porque a cegueira…” “Não, é por isso que ele se cega!” Silêncio. “Sei lá, não consegui enxergar isso.”

Passei doze horas me torturando. As colegas que tinham visto a peça estavam em outra, com celular desligado. Fui para o hotel, tentei ler o meu livro, que não tinha nada com cegueira nem pedofilia, mas não consegui. Gente, onde estava a pedofilia? Hoje contei o diálogo para elas, que também acharam estranhíssimo. Vou pegar emprestado o texto da peça para ler com todo cuidado. Não pode mais sentir perfume do pai que é pedofilia?

Deixe um comentário