Da ficção – A dor que deveras sente

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O Michel é casado com a Meg, e os dois são vizinhos da Ágata. O Michel escreve e cuida da Meg, que tem perda de memória recente. A Ágata chega e confunde tudo, quem é mesmo que está doente? Deixando de lado a sinopse, que é o de menos (é isso aí: casal peculiar conhece a vizinha e se depara com seus problemas), o que precisa ser dito é que Jô Bilac fez o texto de Savana Glacial (vencedor do Shell deste ano) para o Grupo Físico de Teatro e o que resultou disso é um espetáculo que fala do próprio espetáculo.

Como em um discurso de conferência, revestido pela autoridade da ciência (com direito a citação de “Escritores Criativos e Devaneios”, de Freud), Michel senta-se a uma mesa e declara o prólogo da peça, uma carta de intenções do autor e de todos os artistas: tudo é ficção, só a dor é real. Clara referência a Fernando Pessoa ou não, o fato é que foi impossível não lembrar do “Autopsicografia”: O poeta é um fingidor… etc.

Segue a peça: Michel escreve, Meg se esquece das coisas. Então Ágata aparece e a história começa a se contar sozinha. Tudo escancara a maquinação: as marcações precisas dos atores, os gestos repetidos mecanicamente, a luz racional. Estamos sendo levados pelas mãos do autor, ele nos manipula, brinca com os espectadores. Tudo bem. A trilha sonora vai criando um clima de suspense, mas o mistério, mesmo, não é a resolução da história – quem está falando a verdade, o marido, a esposa ou a vizinha? -, mas se há uma resolução na história, se há uma verdade, se há aqueles personagens.

Mesmo com um título que, quando explicado, parece uma provocação sobre a nossa capacidade de inventar (e mais não conto), é possível assistir Savana Glacial sem pensar nisso tudo. Os atores estão ótimos, Camila Gama provoca empatia imensa e risos como Ágata, algumas cenas são belíssimas – como a do sexo do casal e a do delírio de Meg, pra lá do meio da peça, que parece ter sido feita para cinema, mas está ali, acontece bem na frente dos nossos olhos. Também há as referências ao fazer teatral – a mais bonita delas, na minha romântica opinião, é quando Ágata fala dos atores que olham fixamente para algum espectador da plateia, e o espectador se pergunta: é o ator ou o personagem que está me olhando?

Mas me parece complicadíssimo não se perguntar sobre a ficção o tempo todo. O que estamos assistindo, afinal, são personagens perfeitamente incompletos, uma história propositalmente só rascunhada. Um ensaio engenhoso do que poderia ser uma história, mas são várias.

Savana Glacial. Texto de Jô Bilac. Direção de Renato Carrera. Com Andreza Bittencourt, Camila Gama, Diogo Cardoso e Renato Livera. Sesc Belenzinho (r. Padre Adelino, 1000, Belenzinho, SP, tel 0++/11/2076-9700). De 3ª a 5ª, às 21h30. De R$ 6 a R$ 24. Até 5/5.

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