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A espera da espera

quarta-feira, 28 de julho de 2010 por paulo-roberto-pires

Me dei conta de que o blog ficou parado quinze dias. Isso porque não queria emendar o post sobre Paulo Moura com outras notas de tonalidade fúnebre. É que, neste período,  a Indesejada das Gentes trabalhou mais e mais criativamente do que eu, atuando em várias frentes, provocando baixas distantes e próximas,  concluindo processos longos ou interrompendo caprichosamente algumas trajetórias. Mestra do silêncio, acabou impondo-o a mim.

Não há mesmo muito a dizer quando soa pouco convincente que exista uma “melhor”, para onde iríamos depois dessa -  que, nesta lógica, fica sendo “a pior”. Tampouco dá para ter esperança de, um dia, voltarmos hamster, antúrio ou brother do BBB. Uma vez descartada, pelo menos para mim,  a hipótese de que rumemos gloriosamente ao encontro d’Ele (ou daquele outro, o Tisnado, o Sem-Gracejos, bem mais interessante), resta o silêncio. E a espera.

E espera, convenhamos, é tudo igual. Dependendo da pré-disposição filosófica,  você pode se divertir, se estressar ou, o que é melhor e mais difícil, entrar num momento de suspensão bem interessante.  Escrever, ler, ouvir música, amar, beber  e comer (não necessariamente nesta ordem) são boas distrações para este tempo hoje cada vez mais longo. Por isso é preciso, como um mendigo de Beckett, continuar, mesmo sem poder, mesmo sem querer.

No meio do silêncio, aqui e ali ouço vozes de conforto, de que é assim mesmo, depois de uma certa idade frequenta-se tanto cemitério quanto botequim. Talvez tenham razão,  e talvez a hora seja mesmo essa, a “segunda idade”, classificação indicativa na qual fui enquadrado outro dia por um  irônico e eufórico representante da primeira idade. Já na terceira (idade), você deixa de ser espectador para se transformar em potencial protagonista de tantas cerimônias de adeus.

Façamos, pois, da espera um tempo interessante.

Paulo Moura, a nobreza

terça-feira, 13 de julho de 2010 por paulo-roberto-pires
Imagem de Amostra do You Tube

A primeira vez que vi alguém tocar um saxofone foi há muito, muito tempo. Tive sorte que, naqueles programas de pais separados, meu pai me levasse, muito frequentemente, ao Sovaco de Cobra, um botequim na rua Enes Filho ( ou seria Francsico Enes, nunca sei), na Penha Circular, que foi nos anos 1970 o encontro entre a velha guarda do choro e a novíssima geração. E nunca mais esqueci como era hipnótico aquele saxofone que, conforme associei um pouco mais tarde, era tocado por Paulo Moura.

O tamanho daquela gente que via tocar aos domingos só vim aquilatar mais tarde, claro: Joel Nascimento, Abel Ferreira (esse, minha mãe explicou, era vizinho do bar e tocava o “Saxofone, por que choras?” em um disco lá em casa), Waldir Azevedo e uma garotada que eu achava muito mais velha do que era: Mauricio Carrilho, Rafael Rabello, Henrique Cazes. Mas a idéia do sax ficou, por isso mesmo, impressa com a figura do maestro.

Falando de música a sério, descobri que aquele sax transitava entre duas coisas que adoro, jazz e samba de gafieira – talvez porque parentes próximos, talvez porque juntam inteligência e alegria extremas. E comecei a explorar os discos e, depois, os shows daquele sujeito elegantérrimo, sempre impecável, de uma nobreza muito particular como Paulinho da Viola,  Duke Elington ou Dexter Gordon. A nobreza que o fez também ritmista da Imperatriz Leopoldinense.

Vejo a notícia de sua morte, de certa forma esperada,  e subitamente sinto o tamanho de minha dívida – personalíssima – com discos e shows que acabaram pontuando momentos muito importantes dos últimos vinte e tantos anos. É essa, acho, a relação fundamental que se estabelece com um artista, a de fazê-lo um de seus próximos, ainda mais quando se teve o privilégio de ter sido, por algum tempo, seu contemporâneo.

Estranhamente, me dou conta que nunca escrevi decentemente sobre ele e, nas poucas vezes que o encontrei, bateu a mesma timidez irrevogável que enfrentei quando, jornalista já experiente, me vi um iniciante na frente de Moacir Santos.  Ou seja, nunca fiz um aceno, qualquer, de que aquele primeiro sax seria, de certa forma, o primordial, o que abriria caminho para tantos outros, de Charlie Parker a J. T. Meirelles.

Não dá para retribuir tanta coisa. Fica a versão de “Ternura”, de K-Ximbinho, do disco que, para mim, melhor organiza esta despedida, o belíssimo K-Ximblues.

Emblemas da coragem

domingo, 11 de julho de 2010 por paulo-roberto-pires

Não há grande ou pequena coragem. Há, isto sim, a opção entre falar e calar e também entre gritar e falar. É aí que começa a coragem simplesmente, moeda em baixa na bolsa dos valores, balizada antes pelo cinismo e o bom mocismo -  que ridicularizam ou evitam, de acordo com a maré, as divergências radicais.

***

Acabo de assistir “Whoever says the truth shall die”,  documentário de Philo Bregstein sobre o assassinato de Pier Paolo Pasolini. No filme de 1981, lançado portanto seis anos depois do crime, amigos como Alberto Moravia e Bernardo Bertolucci dizem não à versão oficial, segundo a qual o verdadeiro suplício a que o cineasta foi submetido – é duro encarar a imagem de seu corpo massacrado -  teria sido obra de um solitário garoto de programa.

Tanto a direita fascista quanto a máfia, para onde apontam as suspeitas mais fortes, teriam motivos de sobra para querer a morte de quem viveu para incomodar. Até mesmo a esquerda, a quem sempre foi vinculado, não engolia bem um militante que, no calor dos levantes de 1968, declarou-se solidário não à polícia, mas aos policiais – eles sim, filhos de gente miserável, do proletariado em nome do qual insurgiam-se estudantes bem nascidos.

Para Jacques Rancière, o desentendimento é o fundamento da verdadeira política. Só há política, sustenta ele, quando alguém que não é suposto falar, pronuncia-se sobre assunto que se evita falar, em lugar e momento que lhes são proibidos. A forma da política é, pois,  a forma da coragem.

Horas antes de morrer,  Pasolini concedeu uma entrevista a qual, em comum acordo com o jornalista Furio Colombo,  queria intitular “Estamos todos em perigo”. Dela, fica a advertência: “A recusa sempre constituiu um gesto essencial. Dos santos, dos eremitas, mas também dos intelectuais. O número reduzido de homens que fizeram a História são aqueles que disseram não. Para ser eficaz, a recusa deve ser grande e não pequena total, e não  se ater  tal ou tal ponto ‘absurdo’, contrário ao bom senso”.

***

Roberto Bolaño não poupava adjetivos fortes a seus desafetos estéticos. Metralhava impiedosamente Pablo Neruda, o autor-instituição do Chile onde nasceu, e Octavio Paz, medalhão do México onde viveu, se formou intelectualmente e ambientou seus livros essenciais. A recusa violenta contrariava frontalmente a cordialidade violenta dos meios literários.

Isabel Allende, chilena como ele  e, diferentemente dele, ligada às mais tradicionais formas de narrativa, era simplesmente chamada de “datilógrafa” ou “escrevente”. Quando Bolaño morreu, a reação da autora de “A casa dos espíritos” foi previsivelmente dura: “Não senti muito porque ele falava mal de todo mundo. É uma pessoas que nunca falou nada de bom de ninguém. Era um senhor bem desagradável”.

O editor Jorge Herralde, que primeiro publicou Bolaño e zelou inclusive por sua posteridade, anota a reação de Allende e bota as coisas nos lugares; “Bolaño a ataca como escritora enquanto ela o ataca como pessoa, faltando objetivamente com a verdade”. À recusa, veemente, de uma obra, responde-se com a condenação pessoal. E assim o mundo vai, coberto de elogios.

***

Torquato Neto manteve a coluna Geléia Geral no meio da  barra mais pesada do país. Também cultivava o desentendimento: aos olhos da  esquerda, era porra-louca alienado; da direita, um cabeludo subversivo. A “Geléia”, sofisticada e amarga, passou incólume pela censura entre 1971 e 1972. E nela  Torquato resume a coragem:

“Quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão”.

O Shoppping K.

quarta-feira, 7 de julho de 2010 por paulo-roberto-pires

O senhor K. ensinou e eu não deveria esquecer: “Na luta entre você e o mundo, apóie o mundo”. Mesmo assim, achei possível sair ileso de uma necessária ida ao shopping.

- Eu queria trocar uma camisa e…

- Como é seu nome?

Eu só queria um  número maior. E tinha diante de mim um sorriso estupefato, lombrosiano olhar de contemplação – seja lá do que for  – e a mão estendida.

- Prazer, Cauã. (Ou Cauê. Ou Tiê. Ou Bizu. Ou Tuiuiu.)

Música alta. Clientes tomando cerveja. Eu não queria dançar, só bebo em botequim. Queria, isso sim, um número maior . Envelhecer não é fácil.

- Não quer ver uma outra coisa, um outro modelo?

Eu queria tudo igualzinho. Só um número maior. Entrei e saí da cabine em tempo recorde e, depois de esperar uma eternidade para que meu mais novo amigo executasse uma complexa troca de notas, tentei, em vão, pegar o embrulho.

- Eu te acompanho até a porta.

E lá fomos nós, eu e Cauê (ou, ou, ou) até a despedida apoteótica:

- Paulo, foi um grande prazer te conhecer e trocar tua camisa.

De tão feliz, por algum motivo que escapa à compreensão humana, ele também declarou ter sido um prazer conhecer minha mulher.

Na loja seguinte, entrei com objetividade e firmeza:

- Quero uma camisa pólo, preta, igual à da vitrine.

- Prazer, Alex.

Esse meu novo amigo não parecia um lesado habitante das areias de Ipanema. Era uma versão piorada (bem piorada) de Brüno, o fashionista. Óculos enormes, me mostrou camisas “báaaarbaras”, “jeans básicos”(na promoção) e, depois de muito insistir, a camisa preta. Eu só queria a camisa preta.

- Leva essa também que está mais tchan!

(Alex, Alex, sei que nos conhecemos há pouco tempo, mas… “tchan”?!)

- E essa aqui? Com o símbolo da Copa? Báaaaarbara.

Tendo se esgotado minha protocolar educação, eu, o grande torcedor, amante incondicional do futebol, quase um hooligan, desisti de ser simpático. Mas nem assim consegui botar a mão no embrulho:

- Eu te acompanho até a porta.

Pois é, senhor K., da próxima vez vou partir para o ataque e já vou entrar na loja perguntando:

- Como é seu nome?

O iPad é uma boa droga

domingo, 4 de julho de 2010 por paulo-roberto-pires

Sabe aqueles livros de memórias, em que o sujeito narra sua luta contra o alcoolismo, as drogas ou a depressão? Eu estou prestes a escrever um, sobre a minha dispersão. Só que, é claro, não consigo começar de tão disperso que ando e até este blog parei de atualizar.

Anestesiado pelo senso comum, eu poderia listar dezenas de fatores estressantes que vem me impedindo a concentração em um livro (a não ser estritamente a trabalho), filme ou aula (as que assisto, não as que dou, bem entendido). Mas, desta vez, a vida atribulada, clássico bode expiatório, não é a culpada. O responsável sou mesmo eu, mais exatamente a partir do momento em que resolvi comprar um iPad.

Tenho horror ao horror de tecnologia, de quem se orgulha de não ter e-mail ou celular como distinção cool dos vulgares (e plugados) mortais. E, como já escrevi aqui, me desperta mais horror ainda o outro extremo, expresso pela industria de discussões sobre “o futuro do livro”, um subgênero (literalmente) jornalístico e acadêmico que lista gadgets e quinquilharias virtuais e intelectuais como o destino inelutável da humanidade letrada. Mas não deixo, por curiosidade e mesmo dever profissional, de experimentar as novidades.

E a boa avaliação da novidade está, pelo menos para mim, quando ela entra na vida suavemente e, sem traumas,  provoca uma mudança e encontra seu lugar. Foi o caso do Kindle: é hoje rotina para mim ler no bichinho feioso e com jeitão de Lego. E o “tac tac” dos botões que viram as páginas já é tão sinônimo de leitura quanto o barulho do papel.

Diante do iPad, o Kindle parece mesmo primitivo. Talvez porque destine-se exclusivamente à leitura, esta prática cada vez mais primitiva. É certamente imbatível a tela que não reflete a luz, é genial o dicionário (de inglês) acoplado e bate um bolão (sobretudo em viagem longa) a função, nada básica, de leitura em voz alta.

No iPad, como é de conhecimento público,  nossas várzeas tem mais flores, nossa vida mais amores: a tela é deslumbrante em sua alta definição, o You Tube roda como televisão, as fotos das férias parecem tiradas de um filme, o e-mail é facílimo de operar e os viodeopodcasts, cada vez mais numerosos na Apple Store, nasceram para o novo gadget.

No meu brinquedo, convivem hoje a edição da Wired (que é mesmo genial),  42 livros de domínio público (muitos dos quais, como a íntegra do diário dos irmãos Goncourt, são um velho sonho) e tantos outros do Kindle, inúmeros apps de notícias, dois Vooks (video-books, uma gracinha recente que mistura mini-documentários a textos cheios de hiperlinks), acessos rápidos para o Facebook e o Twitter e, ultimamente, o Touching Stories, filminhos interativos experimentais feitos para a tabuleta – além, é claro, de músicas, vídeos e um livro em italiano, chatíssimo, sobre Caravaggio, cuja motivação de compra até hoje me escapa.

É a tal da “convergência”, apito mais tocado do que a vuvuzela pelos arautos do admirável mundo novo digital. O negócio é saber o que converge para nossa cabeça e, em que medida, essa enxurrada de informações não vai criando uma ignorância informada que, para muita gente, tem se confundido com cultura. O recado está lá, discretamente, no livro de Robert Darnton, “A questão dos livros”: informação NÃO é conhecimento,  embora cada vez mais se confunda com este por motivos vários.

Pode-se argumentar que forma-se aí uma nova forma de aprender, de refletir. Não descarto absolutamente esta hipótese. Mas o que sei é que o zapping intelectual é prazeroso, vicia e anestesia. De uma hora para outra, me vi com 18 assuntos interessantes para trazer ao blog e não escrevi sobre nenhum deles. Me interessei por vários livros e não li nenhum capítulo inteiro. Vi trechos de filmes e não consegui concluir nenhum.

Eu queria mesmo era instalar um firewall intelectual para segurar o lixo que “converge”. Como este programa só existe em meu delírio, me contento em pensar numa desintoxicação, lenta e gradual, diminuindo o tempo grudado na telinha e, quem sabe, cuidando para que este blog não vire um deserto virtual.

P.S. – Hoje, na coluna do Globo, Caetano diz que ficou vontade de comprar um iPad. Eu o aconselharia, repetindo o que ele mesmo disse sobre a maconha: “Caetano, o iPad é uma boa droga!

Lady Gaga, bibliotecária

sábado, 5 de junho de 2010 por paulo-roberto-pires
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Depois de uma pausa de mil compassos para reorientar a vida do blogueiro, esta página lítero-musical-idiossincrática tenta fazer jus ao tag que acabo de criar apresentando a seu reincidente público “Catalog”. É o clip aí de cima, que cruza vetustos bibliotecários da Washington University com Lady Gaga , numa versão alucinantemente divertida de “Poker face”.

O vídeo -  que, glória das glórias, foi comentado por Perez Hilton, o Liberace do bloguismo fofqueiro, e virou nota no Huffigton Post -  foi feito de pura curtição por Sarah Wachter, que é estudante de ciência da informação. Pare uma produção caseira, é um show. Como idéia, é brilhante.

Biblioteca, em geral, assemelha-se a um hospital, uma ilha de organização e assepsia cercada de sussurros por todos os lados.  A idéia de um staff executando dancinhas sensuais e corinhos é demais. Depois dessa, não tem Hannah Arendt para Lady Gaga.

Os vivos e os mortos

quarta-feira, 12 de maio de 2010 por paulo-roberto-pires
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“Forever” é um documentário estranho sobre as relações nada usuais que se estabelecem em torno do Père Lachaise. O cemitério de Paris, como se sabe, reúne um número extraordinário de mortos célebres, dentre eles Proust, Jim Morrison, Yves Montand , Alan Kardec, Maria Callas, Modigliani, Chopin e  Isadora Duncan.  É meca de turismo artístico e funerário e uma Disneyworld para aqueles que acham a visita ao túmulo  de quem se admira a consequencia natural da leitura de um livro, das lembranças de um show ou disco.

Este é, obviamente, o ponto de partida da diretora Heddy Honigmann , holandesa que nasceu no Peru e já dirigiu um doc no Brasil  – “O amor natural”, dedicado aos poemas eróticos de Carlos Drummond de Andrade.  Mas ela vai além ao destrinchar, em ótimos personagens,  os laços emocionais mais ou menos óbvios entre os visitantes e os túmulos, os vivos e os mortos.

Há a jovem concertista japonesa que cultua Chopin mas que tem o papel de fã cuidadosamente desmontado ao descobrirmos que o compositor é o elo que se estabeleceu entre ela e a memória do pai, que perdeu ainda muito cedo. Ou a viúva que todas as semanas visita o túmulo daquele que, segundo diz, foi o único homem que amou e com quem só viveu três anos – ele morre, tragicamente, intoxicado por uma picada de abelha.

Visitando o túmulo de Proust, o desenhista Stéphane Heuet conta como apaixonou-se pelo autor até adaptá-lo para graphic novels. Um coreano, emocionado, conta, em péssimo inglês e depois em sua língua, sem legendas, como Proust foi importante para sua vida – e alguns turistas, falando francês, visitam o autor sem jamais ter lido sua obra.

Uma senhora dedica-se a manter limpas e floridas as sepulturas de Proust e Modigliani, autor que é admirado por um jovem que é maquiador de cadáveres, entrevistado em pleno exercício da função. Há também a mulher idosa, espanhola, que visita o marido todos os dias e vive de luto também pelo país que teve que abandonar por “pensar diferente”  na época do franquismo.

Para um dos guias do Père Lachaise, as histórias do cemitério são sua própria razão de viver. E, dentro de suas funções, ele procura levar os visitantes, que buscam os famosos,  a uma pouco conhecida cantora francesa, morta precocemente, e uma adolescente, poeta, cuja mãe fez gravar seus versos no túmulo. O tempo corroeu boa parte das palavras, mas o guia está lá, para recitar os versos que, certamente, irão desaparecer com ele. Ou melhor, ficarão registrados no filme, Heddy Honigmann transformada em um de seus personagens.

A máquina sado-masô de fazer livros

sexta-feira, 7 de maio de 2010 por paulo-roberto-pires

Jorge Herralde é um mito no mercado editorial. Há 40 anos mantém a Anagrama à margem dos grandes grupos e corporações. A editora espanhola, criada ainda em pleno franquismo, é um caso, cada vez mais raro,  de independência financeira e editorial e ele já tem seu lugar na história recente da literatura por ter apostado primeiro, contra todas as correntes, em Enrique Vila-Matas e Roberto Bolaño – isso para não falar de dezenas de outros nomes, menos conhecidos por aqui.

Além de publicar livros, reunindo o primeiro time da literatura mundial, Herralde os escreve. São coletâneas despretensiosas de comentários sobre autores, entrevistas e discursos de agradecimento de prêmios ou escritos para congressos. Ganhei de presente três deles e, muito provavelmente por vício profissional, viajei na viagem de “Opiniones mohicanas”, “El observatorio editorial”  e “El optmismo de la voluntad”.  Nos três, o que se discute obsessivamente são livros, livros, livros à mancheia.

A literatura escrita por editores é farta lá fora e quase nula no Brasil – e fico pensando que falta não nos faz um depoimento sistemático, em primeira pessoa,  de José Olympio ou Jorge Zahar. Em geral, estes livros consistem em relatos memorialísticos nos quais se narram bastidores de grandes obras e a convivência, nunca tranquila, com autores notórios. Há outra vertente, menos atraente para quem não é do ramo, de reflexões sobre o mercado e suas tendências. Herralde mistura as duas, sempre cioso que este ofício é mais da sombra do que da luz, de que o prazer maior não vem do protagonismo.

Há histórias mirabolantes, como a do encontro com Charles Bukowski numa cidade próxima a Los Angeles e a quase prisão ao dirigir de volta para o hotel consideravelmente embriagado por litros de hospitalidade de seu autor. Outras são deliciosamente banais, como o diário em que narra três dias no Salão do Livro de Paris, ou irônicas – a idéia de que já virou um clichê inevitável convidá-lo para debates sobre editoras independentes como um “herói” da classe.

O ponto mais comovente desta rede de textos fragmentados é a relação que Herralde  estabeleceu com o autor de “Noturno do Chile”. São diversos textos dedicados ao escritor chileno, dentre os quais se destaca a narrativa da emocionada certeza, depois de um fim de semana imerso nos originais de “Os detetives selvagens”, de que estava diante de uma obra-prima.  E, inspirado na editora inglesa Diana Athill –  para quem um editor não “descobre” um autor, mas o “reconhece” –  ele reflete não sem a modéstia que a profissão exige: “Tive a oportunidade de reconhecer Bolaño. E o possível mérito foi ter armado um dispositivo, ou seja, um catálogo, com autores  tão atraentes para que um autor muito ambicioso literariamente comoRoberto  Bolaño  quisesse fazer parte do club”.

Figura simpaticíssima, em entrevista à TV espanhola ano passado, Jorge Herralde define, meio brincando, meio a sério, seu ofício: “A editora é uma máquina sado-masoquista de dar prazer e receber dor”.

Uma idéia de perfeição

quinta-feira, 6 de maio de 2010 por paulo-roberto-pires
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“A perfect day” é uma canção auto-explicativa, sobre a felicidade possível, ainda que em tons um tanto sombrios. Talvez a mais explicitamente romântica de Lou Reed, gravada no chapante  Transformer, o disco de 1972 que nos deu “A walk on the wild side”  e “Vicious”.

Aí está, tão simples e bela quanto “beber sangria no parque” e ir ao cinema com quem se ama, na versão de seu autor com Elvis Costello. Contido, Lou é o par perfeito para o derramamento de seu anfitrião em “Spectacles”, o talk show sobre o qual falei outro dia.

É só isso, tá? (Como se fosse possível usar “só” para esta pequena obra-prima.)

Os lugares de Edward Said

terça-feira, 4 de maio de 2010 por paulo-roberto-pires
Imagem de Amostra do You Tube

Assisto, emocionado, ao pacote com dois DVDs sobre Edward Said. Produzidos em tempos e momentos diferentes, flagram a presença física do intelectual brilhante que ele foi e, depois de sua morte, como o que escreveu e pensou persiste na família, na academia e na desgraça do mundo pelo qual se bateu boa parte de seus 67 anos.

Os filmes têm títulos auto-explicativos: “A última entrevista” e “Memórias de Edward Said”. O primeiro foi idealizado por D.D. Guttenplan, um ex-aluno que sugeriu a gravação desta longa conversa ao saber, em 2002, ser incurável a leucemia que mataria Said em agosto do ano seguinte. O segundo, rodado em 2005 pelo japonês Sato Makoto, faz uma estranha busca pelos vestígios do autor de “Orientalismo”.

A entrevista é chocante pelo estado físico de Said. Começa, justamente, por sua desencantada constatação de que morrerá em breve. Lhe falta o fôlego mas não a veemência. Aborda cada aspecto de sua obra sabendo que está deixando um documento importante.  É uma despedida emocionada mas sem pieguice e diz muito de um intelectual engajado que jamais foi redutível ao populismo. Talvez por que, ao sair em campo na defesa da causa palestina, tivesse por trás todo um trabalho, fantástico, de crítica literária e musical. Sua vida jamais se resumiu a correr mundo praguejando contra os EUA e Israel.

No documentário, Makoto viaja pelos lugares em que Said viveu  – e, o mais interessante, pelos que inspiraram sua reflexão. Entrevista irmã, mulher e filhos, alunos, colegas na universidade de Columbia, Noam Chomsky, Daniel Baremboim. Mostra a casa, hoje em ruínas, onde a família Said passava os verões, o apartamento em que viviam no Cairo. A narrativa mistura informações factuais e trechos de seus livros, notadamente das memórias  “Fora do lugar”.

Há imagens impressionantes de um campo de refugiados palestinos. Os entrevistados desconhecem quem foi Said, mas seu testemunho é tão eloquente quanto os livros que ele escreveu sobre os despossuídos. Há também tomadas de homenagens e conferências, imagens da infância. O túmulo no Líbano. Da montagem, sai a exata imagem de como o autor de “Orientalismo” fez de sua vida a base, sólida, de suas convicções intelectuais.

Não é preciso concordar com suas posições para admirar Said pela integridade com as defendeu. Foi chamado de “professor terrorista”, rompeu cedo com Arafat  e teve seu escritório em Columbia destruído por uma bomba. No 11 de setembro, decidiu só escrever para jornais ingleses e árabes, rechaçando os clichês que a mídia americana insistiu em colar à sua imagem. Criou com Barenboim a orquestra que une jovens judeus e árabes, uma metáfora concreta da convivência possível entre contrários.  Poucos, como ele, mereceram nos últimos anos serem identificados como “intelectual”, aquele que exerce sua independência a ponto de desagradar a todos os seus potenciais aliados.Presenças de Edward Said.

Lá em cima, um trailer dos dois documentários.

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