Arquivo de março de 2010

A Playboy das estantes

terça-feira, março 30th, 2010

Fetiche pouco é bobagem. Acaba de sair a Playboy das estantes. No lugar das mulheres revelando  piercings recônditos e ex-BBBs em fotos artísticas de um trabalho mais intimista, sabe?, “Unpacking my library” traz fotografias, altamente eróticas, de prateleiras de bibliotecas de arquitetos. Específico, não? Mas é próprio das taras serem mesmo específicas.

O livro, bancado pela Yale University Press, é o companion de uma exposição realizada pela Urban Center Books, livraria do The Municipal Art Society de Nova York. Reúnem dez arquitetos que abrem sua intimidade – acho que pouca coisa é mais íntima do que uma biblioteca – em entrevistas e fotos: primeiro tomadas gerais das bibliotecas, depois, ocupando a extensão do volume, em formato horizontal como uma prateleira, detalhes de estantes. Sem nenhum comentário.

O titulo é emprestado de um dos textos mais delicados de Walter Benjamin, “Desempacotando minha biblioteca”, uma tocante reflexão sobre a arte de colecionar livros que é reproduzido como prefácio. Há um detalhe interessante: nenhum dos personagens é exatamente um  bibliófilo; logo, o que se vê são livros usados, surrados, com lombadas vincadas – como na casa de qualquer um.

Olha uma prateleira é também olhar a cabeça de alguém. E, na grande maioria dos casos, as prateleiras escolhidas não se dedicam à arquitetura,   mas a arte, filosofia, literatura ou cinema. No site da exposição, Toshiko Mori, Peter Eisenman e Michael graves falam sobre seus livros – mas nada mais eloqüente do que as fotos de suas bibliotecas.

No espírito do livro, fiz para este post a foto de uma de minhas estantes. É, como se vê, dedicada à New Yorker e seus escritores. Junta numa mesma redação imaginária  David Remnick, Dorothy Parker, A. J. Liebling, Janet Flanner e Joseph Mitchell. Específico, não? Pois é, tara é assim. Muito específica.

Ele só pensa em cantar

sexta-feira, março 26th, 2010

Música e prazer sempre andam juntas em Celso Fonseca. O “Voz e violão” que sai agora em CD e DVD leva este princípio às últimas conseqüências: são 12 composições dos outros e duas próprias escolhidas com o ostensivo  e evidente prazer em cantá-las. É mais um disco de intérprete do que de compositor, é um disco que crítica costuma detestar: cheio de canções conhecidas e, o pior, que foram sucessos.

Mas o balacobaco é a mistura: do “Tempo rei”, que aí está como aperitivo, a uma irresistível “Conquista”. Pois Celso é bom de Gil e de Buchecha e, também, de sacar versões inusitadas de sucessos de massa. Depois de fazer  MC Leozinho soar como bossanovista juramentado em “Ela só pensa em beijar”, agora manda uma versão que só aos poucos se reconhece como a canção de Edimilson Teles de Souza. Quem? O compositor de “Beleza rara”. Não captou? Um dos maiores sucessos de Ivete Sangalo, aquela “Hoje sou feliz e canto/ Só por causa de você/Hoje sou feliz, feliz/E canto”.

Mas deste axé reprocessado, sem esse negócio de tirar o pé do chão, passa-se, dentre outras,  por Erasmo (“Mais um na multidão”), Rita Lee (“Caso sério”), Lulu Santos (“Tudo bem”) e uma versão sutilmente eletrônica de “Adeus batucada”, que sem invencionice empresta novidade ao clássico de Sinval Silva. Se o disco é feito para agradar o grande público? Acho que sim, mas só na medida que agrada, e muito, ao próprio Celso. E, por isso, é, como eu já ia dizendo, sinônimo de prazer. E, é claro, de uma vocação radical para o bom gosto e a suavidade.

Podcast: João Donato

terça-feira, março 23rd, 2010

“Sambolero”, novo disco de João Donato, mostra didaticamente o que é novidade em música. O repertório é exclusivamente formado por clássicos do maior pianista brasileiro, que cercado por Luis Alves e Roberto Silva mostra em piano-baixo-bateria quanta sofisticação há na simplicidade. E, também, que a maior novidade é, sempre, João Donato, de novo.

Ouça aqui o podcast.

O ovo de Colombo

quinta-feira, março 18th, 2010

Jorge Colombo é português, vive em Nova York e é um notável artista gráfico. Trabalha há mais de 20 anos, mas fcou internacionalmente conhecido em junho de 2009 depois de criar uma capa da New Yorker no Brushes, programa do Iphone que faz crer que eu você podemos nos tornar um impressionista telefônico – mas, é claro, a capa de Colombro e todas as outras ilustrações que ele vem fazendo para a New Yorker mostram que o brinquedo não só não dispensa talento como o requer em doses  generosas.

Conforme já foi amplamento noticiado, a capa do quarto número da Serrote é assinada por ele, uma visão magnífica de Coney Island feita no Iphone. Mas, a meu ver, o melhor vem dentro da revista: trata-se de alguns dos desenhos da série Summer Reading. A idéia é simples o suficiente para ser tola ou, como acontece com Colombo, espetacular: sketches de pessoas lendo no metrô nova-iorquino. “Apenas” isso, sem tecnologia.

Ao apresentá-las, o editorial da Serrote faz um paralelo com as impressionantes imagens de Walker Evans no metrô de Nova York, algumas das quais publicadas no número anterior da revista. Aqui eu boto as duas lado-a-lado e, com todo respeito ao timaço de articulistas serroteiros, o que eu não consigo ao folhear a revista é parar de olhar estes desenhos e imaginar o quanto ainda se revela diante destes traços simples, desta despretensão desta capacidade extraordinária de captar o mais ordinário.

Com o toner da melancolia

terça-feira, março 16th, 2010

Há algo de triste e meio ridículo na vida levada entre os livros.  Deve haver, concedo, o mesmo tanto de tristeza e miséria humana na vida levada entre, por exemplo,  relógios ou projetos arquitetônicos, mas como é entre eles, ou livros,  que vou levando a minha,  dou risada e me divirto perversamente com os “Sobrescritos” do Sérgio Rodrigues.

As 40 histórias, originalmente postadas no Todo Prosa, são machadianas até o talo. Mas quem se apresenta é o Machado reloaded, pois é com o pixel da galhofa e o toner da melancolia que o Sergio vai desenhando sua versão ácida da vida literária 2.0., que transcorre, serena, entre a internet e um mundo virtual pelos maus motivos.

Jovens escritores candidatos à notoriedade, velhos escritores condenados ao ostracismo, blogueiros notórios inflados pelo ostracismo, críticos velhos consagrados pelo anonimato, editores cujo fracasso subiu à cabeça. Se Sobrescritos não é uma crônica à clef – é inútil tentar identificar que o inspirou – é um mix de pedaços de ego,  cacos de literatura, poeira de vaidade e outros dejetos altamente tóxicos.

A Belle Époque já teve sua crônica registrada em “A vida literária no Brasil 1900”, de Brito Broca. O século XIX foi contemplado por Ubiratan Machado em “A vida literária no Brasil durante o romantismo”, que acaba de ser lançado pela nova editora Tinta Negra. Pois nossos dias precários têm sua modorra  transformada em comédia nos “Sobrescritos”.

Mas se você, caro leitor, já começou a se indignar porque este blogueiro medíocre está comparando o Sérgio, que não é tão bom assim,  ao Brito Broca, glória das letras nacionais, e este livrinho às duas catedrais de erudição citadas, parabéns: você é personagem, ainda que não saiba, desta triste comédia. Quem sabe no “Sobrescritos 2” você faz uma ponta como comentarista de blog?

A bunda de Vênus de Milo e… o futuro dos livros

domingo, março 14th, 2010

Haja paciência para estas discussões sobre o futuro do livro. Virou um gênero de reportagem, de entrevista e até editorial – são muitos livros falando sobre o futuro dos livros. A estréia do “Sabático”, o novo suplemento de livros do Estadão, traz entrevista de Umberto Eco sobre… o futuro do livro -  tema de um, com o perdão pela sexta repetição neste parágrafo, livro de conversas entre ele e Jean-Claude Carrière.

Quem sou eu para criticar Eco, uma instituição, mas o que de melhor se tira da entrevista é a revelação de que, sendo curador convidado do Louvre, pôde um dia, sozinho no museu,  passar a mão na bunda da Vênus de Milo – se non è vero, è bene trovato. Pois na entrevista o que abundam são mesmo os lugares-comuns (e não por culpa do Ubiratan Brasil, o entrevistador): o livro dura mais do que o eletrônico, o livro é a memória do mundo, a internet é lata de lixo o mundo, etc.

Toda vez que começa esta ladainha eu só gostaria de perguntar se alguém sente falta de carta. De escrever, ir no correio, entrar na fila, lamber selo, receber carta.

Eu não sinto a mínima. Mas a carta desapareceu de nossas vidas faz tempo e hoje só interessa como relíquia – ou, no caso de intimidades famosas, mercadorias valiosas.  Neste caso, o papel virou fetiche e a vida continua.

Brandir orgulhosamente o papel contra a tela denota mais amor a objetos do que à leitura. Eu já achava fantástico ler sobre um livro estrangeiro  e tê-lo na minha casa três semanas depois pela Amazon a preço muito bom. Hoje eu baixo no Kindle e começo a ler imediatamente. Se você tem fome de leitura, a tecnologia é ideal. Se gosta de papel, aí realmente nada substitui a cafoníssima “magia do livro”.

É claro que papel é bom e eu também gosto. Mas não é nenhuma tragédia que ele seja substituído, em muitos, mas muitos casos mesmo, pelo arquivo digital. Eco diz que o digital vai durar dez anos mas, convenhamos, a grande e esmagadora maioria dos livros tem um prazo de validade intelectual menor do que esse.

Mas, no final das contas, o que me irrita mesmo é que, depois disso tudo, eu tenha escrito um post sobre… o futuro do livro. Chaaaaato…

A fossa no espelho

sexta-feira, março 12th, 2010

Nove anos separam “It’s all right with me” de “A mesma rosa amarela”. Uma distância literalmente oceânica também deixa de um lado os standards de Cole Porter e, do outro, os frevos e sambas de Capiba e a poesia de Carlos Pena Filho. Mas outro dia me bateu que as música são equivalentes perfeitas na forma, irônica e sutil, de cantar um amor perdido.

Até aí nada: fossa é fossa em qualquer língua. Lupicínio dizia que a dor de cotovelo pode ser federal, estadual ou municipal – mas há ainda a nacional e a importada. Mas tanto o samba quanto a torch song são muitos específicos: o sujeito está com uma mulher que jamais substituirá a que perdeu. Mas, enquanto isso…

Cole fez “It’s all right with me” para o musical “Cancan”. É aquela que diz “It’s the wrong time and the wrong place/ Though your face is charming, it’s the wrong face/It’s not her face, but such a charming face/That it’s all right with me”. E assim por diante, numa lista de pequenos encantamentos e da impossibilidade do encantamento. Urgh.

Capiba  compôs o samba “A mesma rosa amarela” a partir de versos de Carlos Pena Filho que, morto tragicamente em um acidente, não viu a música gravada e seu sucesso. Saiu em disco de  Maysa e, curiosamente, foi  pouco regravada. Mas é uma pequena obra-prima: “Você tem quase tudo dela/ O mesmo perfume/A mesma cor, a mesma rosa amarela/Só não tem o meu amor/ Mas nestes dias de carnaval/Você vai ser ela/ O mesmo perfume, a mesma cor/A mesma rosa amarela”. O ponto é que, quando volta a lembrança da mulher eternamente perdida, só resta “a mesma rosa amarela”.

Todo grande cantor americano gravou “It’s all right with me”, mas poucas vezes ela foi  mais triste e melancólica do que, é claro, com o enorme Francis Albert Sinatra. Aí em cima está o rapaz em 1959, num cenário inacreditável, pontuando cada ironia fina da canção. “A mesma rosa amarela” não teve vida tão longa, mas a versão que posto aí embaixo é do também pernambucano Junio Barreto, “muderna” e, é claro, triste pacas.

Cole Porter encontra Capiba e Carlos Pena Filho entre uma ponte do Recife e outra de Paris, onde se passa “Cancan”. Se reconhecem. Pois, afinal, compuseram a mesma música.

A cova de Machado ou os mortos falam

quarta-feira, março 10th, 2010


Uma mulher e dois homens, os três estrangeiros e comunicando-se mal em português, chegam à administração do São João Batista, o gigantesco cemitério incrustado no meio de Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro. Procuram o túmulo de um certo Machado de Assis.

- Só tendo o primeiro nome – informa o prestativo funcionário.

- Mas o senhor não conhece o grande escritor? Não é fácil saber onde está?– arrisca o mais fluente.

- Só pelo primeiro nome. Tem muita gente que se chama assim, nosso registro é baseado nos primeiros nomes – diz ele, revirando os livros de registro manuscritos

A mulher, fotógrafa, vê a possibilidade de um bom flagrante. Mas no primeiro clique, é repreendida pelo funcionário:

- Aqui não pode tirar foto não senhora. E também não pode tirar foto no cemitério.

É mais ou menos assim – dei à tradução uma “cor local” não difícil de imaginar – que começa “Tumbas”, fascinante viagem de Cees Nooteboom e sua mulher, Simone Sassen, pelos túmulos de escritores e filósofos em todo o mundo. O terceiro personagem da história era o diretor do Instituto Goethe no Rio, não nomeado no livro, que em 2005 os ajudou numa tarefa simples em outros países: localizar os “mortos ilustres” de um cemitério e fotografar os túmulos para que Nooteboom escreva sobre eles suas impressões ou simplesmente reproduza citações que, tanto quanto as lápides, sejam representativas daquelas obras.

Na belíssima edição em capa dura da Actes Sud estão relacionados 82 túmulos. Como já desviei roteiro de férias para visitar alguns deles, gostei do livro desde a capa. E, à parte a qualidade dos textos, alguns deles brilhantes, Nooteboom tem uma ótima tese sobre o porque determinadas pessoas – como eu – que nem cultuam seus mortos “particulares” prestam homenagens a autores. E aí vale lê-lo na íntegra:

“A maioria dos mortos se cala. Eles não falam mais nada. Eles já disseram literalmente tudo o que tinham para dizer. Com os poetas é diferente. Os poetas continuam a falar. Eles têm a peculiaridade de se repetir. É o que acontece cada vez que um leitor lê ou recita um de seus poemas, pela segunda ou a centésima vez. Mas os poetas se dirigem da mesma forma aos que ainda não nasceram, às pessoas que ainda não viviam quando eles escreviam o que escreviam.

Por que visitar o túmulo de alguém que não conhecemos? Porque esta pessoa ainda fala conosco, ainda nos diz algo, algo que ainda ecoa em nossos ouvidos, algo que guardamos e que talvez não esqueçamos nunca mais, algo que decoramos e que, de vez em quando, repetimos alto ou em voz baixa”.

Há os túmulos imponentes como o de Dante, discretos e elegantes como os de Beckett e Susan Sontag, a escultura do próprio Joyce marcando sua presença em Zurique, o monumento vazio ao cadáver desaparecido de Walter Benjamin, a assinatura de Elias Cannetti incrustada numa lápide de pedra, o marco kitsch construído para homenagear Oscar Wilde. E o tocante túmulo de Carlos Drummond de Andrade no confronto entre os 12 dias que separam seu sepultamento do de sua filha, Maria Julieta, em agosto de 1987.

Na outra vida deste blog, tinha mencionado o site Find a Grave , a que Nooteboom também se refere como guia. Lá Machado não aparece. Figura, isso sim, no brasileiro Túmulos Famosos, mas em sua residência “oficial”, o mausoléu da ABL. No livro de Nooteboom está a imagem do primeiro túmulo, igual a milhares de outros no São João Batista, o do discreto escritor do Cosme Velho que jamais saiu do Brasil e que poderia ser o do Conselheiro Aires ou do loquaz Brás Cubas. Alguns mortos, decididamente, continuam a falar conosco.

Os quatro minutos

sábado, março 6th, 2010

munchangst

Podemos estar sempre por quatro minutos. É essa a conta, angustiante, que fiz depois de ler a assustadora reportagem em que a Der Spiegel reconstitui o destino do vôo 447 da Air France, chamado do “um dos acidentes mais misteriosos na história da aviação”.

O fato é que, combinando relatórios diversos, fragmentos de informação e interpretação de especialistas, concluiu-se que, apesar da turbulência, os passageiros só tiveram uma dica de que o fim estava próximo nos quatro minutos que antecederam a queda do Airbus, de barriga, no turbulento ponto do Atlântico.

Prova disso são as máscaras de oxigênio e coletes intactos e a certeza de que a tripulação não estava afivelada em seus lugares – como de hábito em emergências. Ou seja, ninguém estava preparado nem para um possível pouso de emergência.

Quatro minutos. Aconselho (ou melhor, não aconselho) parar e ficar cronometrando este tempo em silêncio. É uma eternidade. E é um nada. Exatamente como o que antecede as grandes mudanças.

Quatro minutos é o tempo que pode correr antes que se perceba algo errado e uma guinada. Aquela conversa que toma rumos inesperados e termina com um rompimento, de amizade ou amor. O telefone que toca, cai, toca de novo, cai e, finalmente, quando se atende, começa uma conversa cheia de rodeios que podem ser paliativos para uma notícia ruim ou a preparação para uma indesejada mudança de planos.

Quatro minutos é, portanto, o tempo da fatalidade, suficiente para que se tenha consciência da mudança e da impossibilidade de agir e alterar o que vai acontecer. É o tempo em que se pressente uma cilada ou uma paixão. É quando a vítima se vê no meio da emboscada e o perpetrador finalmente vê chegar a um termo o ataque tão cuidadosamente planejado.

Felizmente, a consciência dos quatro minutos é posterior à sua passagem. Senão, viveríamos todos como garatujas de Munch, na expectativa das mudanças bruscas. E sem a bênção dos sustos, que anulam a espera e tornam a vida mais viável. Só o sobressalto salva.

Johnny Alf, simplesmente

sexta-feira, março 5th, 2010

Não há muito o que falar sobre a morte de Johnny Alf que não seja redundante. No vídeo, do programa “7 X Bossa Nova”, Roberto Menescal e Ed Motta falam sobre sua influência em duas gerações. No meio, o próprio Alfredo José numa das melhores versões que encontrei de “Ilusão à toa”, a canção de amor mais melancólica da música brasileira.