A cova de Machado ou os mortos falam


Uma mulher e dois homens, os três estrangeiros e comunicando-se mal em português, chegam à administração do São João Batista, o gigantesco cemitério incrustado no meio de Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro. Procuram o túmulo de um certo Machado de Assis.

- Só tendo o primeiro nome – informa o prestativo funcionário.

- Mas o senhor não conhece o grande escritor? Não é fácil saber onde está?– arrisca o mais fluente.

- Só pelo primeiro nome. Tem muita gente que se chama assim, nosso registro é baseado nos primeiros nomes – diz ele, revirando os livros de registro manuscritos

A mulher, fotógrafa, vê a possibilidade de um bom flagrante. Mas no primeiro clique, é repreendida pelo funcionário:

- Aqui não pode tirar foto não senhora. E também não pode tirar foto no cemitério.

É mais ou menos assim – dei à tradução uma “cor local” não difícil de imaginar – que começa “Tumbas”, fascinante viagem de Cees Nooteboom e sua mulher, Simone Sassen, pelos túmulos de escritores e filósofos em todo o mundo. O terceiro personagem da história era o diretor do Instituto Goethe no Rio, não nomeado no livro, que em 2005 os ajudou numa tarefa simples em outros países: localizar os “mortos ilustres” de um cemitério e fotografar os túmulos para que Nooteboom escreva sobre eles suas impressões ou simplesmente reproduza citações que, tanto quanto as lápides, sejam representativas daquelas obras.

Na belíssima edição em capa dura da Actes Sud estão relacionados 82 túmulos. Como já desviei roteiro de férias para visitar alguns deles, gostei do livro desde a capa. E, à parte a qualidade dos textos, alguns deles brilhantes, Nooteboom tem uma ótima tese sobre o porque determinadas pessoas – como eu – que nem cultuam seus mortos “particulares” prestam homenagens a autores. E aí vale lê-lo na íntegra:

“A maioria dos mortos se cala. Eles não falam mais nada. Eles já disseram literalmente tudo o que tinham para dizer. Com os poetas é diferente. Os poetas continuam a falar. Eles têm a peculiaridade de se repetir. É o que acontece cada vez que um leitor lê ou recita um de seus poemas, pela segunda ou a centésima vez. Mas os poetas se dirigem da mesma forma aos que ainda não nasceram, às pessoas que ainda não viviam quando eles escreviam o que escreviam.

Por que visitar o túmulo de alguém que não conhecemos? Porque esta pessoa ainda fala conosco, ainda nos diz algo, algo que ainda ecoa em nossos ouvidos, algo que guardamos e que talvez não esqueçamos nunca mais, algo que decoramos e que, de vez em quando, repetimos alto ou em voz baixa”.

Há os túmulos imponentes como o de Dante, discretos e elegantes como os de Beckett e Susan Sontag, a escultura do próprio Joyce marcando sua presença em Zurique, o monumento vazio ao cadáver desaparecido de Walter Benjamin, a assinatura de Elias Cannetti incrustada numa lápide de pedra, o marco kitsch construído para homenagear Oscar Wilde. E o tocante túmulo de Carlos Drummond de Andrade no confronto entre os 12 dias que separam seu sepultamento do de sua filha, Maria Julieta, em agosto de 1987.

Na outra vida deste blog, tinha mencionado o site Find a Grave , a que Nooteboom também se refere como guia. Lá Machado não aparece. Figura, isso sim, no brasileiro Túmulos Famosos, mas em sua residência “oficial”, o mausoléu da ABL. No livro de Nooteboom está a imagem do primeiro túmulo, igual a milhares de outros no São João Batista, o do discreto escritor do Cosme Velho que jamais saiu do Brasil e que poderia ser o do Conselheiro Aires ou do loquaz Brás Cubas. Alguns mortos, decididamente, continuam a falar conosco.

1 Comentário para “A cova de Machado ou os mortos falam”

  1. C. S. Soares disse:

    A respeito de Machado, eu mesmo passei por essa situação. Terminada a escrita do romance ‘Santos Dumont Número 8′, estive no São João Batista para conhecer o túmulo de Santos Dumont (foi a primeira vez que estive naquele cemitério).

    Já que estava lá, quis também conhecer o túmulo de Machado. Ninguém sabia me informar onde ficava. Perguntas daqui e dali, cheguei por fim, não sem alguma dificuldade, ao mausoléu da ABL.

    Lá, naquela época (era 2005), além do ‘novo’ túmulo onde jazem Machado e Carolina, conheci (e fotografei) a campa da antiga sepultura. Tirei as fotos sem problemas. Também cliquei as alvas e muito simples gavetas de Guimarães Rosa (17) e Manuel Bandeira (18), além do assombroso túmulo de José de Alencar, nas proximidades do mausoléu acadêmico.

    E estas fotos, certamente, serão tema de um futuro estudo (nada fantástico, pois a morte não nos devia surpreender) antecipado pelo seguinte trecho que copio do próprio “Santos Dumont Número 8″: Marcel Proust, ilustre morador da quadra entre as avenidas Thuias e Transversale, número 2, no Pére Lachaise…

    Sim, como Noteboom, eu também estive lá, claro.

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