Arquivo de 14 de março de 2010

A bunda de Vênus de Milo e… o futuro dos livros

domingo, março 14th, 2010

Haja paciência para estas discussões sobre o futuro do livro. Virou um gênero de reportagem, de entrevista e até editorial – são muitos livros falando sobre o futuro dos livros. A estréia do “Sabático”, o novo suplemento de livros do Estadão, traz entrevista de Umberto Eco sobre… o futuro do livro -  tema de um, com o perdão pela sexta repetição neste parágrafo, livro de conversas entre ele e Jean-Claude Carrière.

Quem sou eu para criticar Eco, uma instituição, mas o que de melhor se tira da entrevista é a revelação de que, sendo curador convidado do Louvre, pôde um dia, sozinho no museu,  passar a mão na bunda da Vênus de Milo – se non è vero, è bene trovato. Pois na entrevista o que abundam são mesmo os lugares-comuns (e não por culpa do Ubiratan Brasil, o entrevistador): o livro dura mais do que o eletrônico, o livro é a memória do mundo, a internet é lata de lixo o mundo, etc.

Toda vez que começa esta ladainha eu só gostaria de perguntar se alguém sente falta de carta. De escrever, ir no correio, entrar na fila, lamber selo, receber carta.

Eu não sinto a mínima. Mas a carta desapareceu de nossas vidas faz tempo e hoje só interessa como relíquia – ou, no caso de intimidades famosas, mercadorias valiosas.  Neste caso, o papel virou fetiche e a vida continua.

Brandir orgulhosamente o papel contra a tela denota mais amor a objetos do que à leitura. Eu já achava fantástico ler sobre um livro estrangeiro  e tê-lo na minha casa três semanas depois pela Amazon a preço muito bom. Hoje eu baixo no Kindle e começo a ler imediatamente. Se você tem fome de leitura, a tecnologia é ideal. Se gosta de papel, aí realmente nada substitui a cafoníssima “magia do livro”.

É claro que papel é bom e eu também gosto. Mas não é nenhuma tragédia que ele seja substituído, em muitos, mas muitos casos mesmo, pelo arquivo digital. Eco diz que o digital vai durar dez anos mas, convenhamos, a grande e esmagadora maioria dos livros tem um prazo de validade intelectual menor do que esse.

Mas, no final das contas, o que me irrita mesmo é que, depois disso tudo, eu tenha escrito um post sobre… o futuro do livro. Chaaaaato…