Haja paciência para estas discussões sobre o futuro do livro. Virou um gênero de reportagem, de entrevista e até editorial – são muitos livros falando sobre o futuro dos livros. A estréia do “Sabático”, o novo suplemento de livros do Estadão, traz entrevista de Umberto Eco sobre… o futuro do livro - tema de um, com o perdão pela sexta repetição neste parágrafo, livro de conversas entre ele e Jean-Claude Carrière.
Quem sou eu para criticar Eco, uma instituição, mas o que de melhor se tira da entrevista é a revelação de que, sendo curador convidado do Louvre, pôde um dia, sozinho no museu, passar a mão na bunda da Vênus de Milo – se non è vero, è bene trovato. Pois na entrevista o que abundam são mesmo os lugares-comuns (e não por culpa do Ubiratan Brasil, o entrevistador): o livro dura mais do que o eletrônico, o livro é a memória do mundo, a internet é lata de lixo o mundo, etc.
Toda vez que começa esta ladainha eu só gostaria de perguntar se alguém sente falta de carta. De escrever, ir no correio, entrar na fila, lamber selo, receber carta.
Eu não sinto a mínima. Mas a carta desapareceu de nossas vidas faz tempo e hoje só interessa como relíquia – ou, no caso de intimidades famosas, mercadorias valiosas. Neste caso, o papel virou fetiche e a vida continua.
Brandir orgulhosamente o papel contra a tela denota mais amor a objetos do que à leitura. Eu já achava fantástico ler sobre um livro estrangeiro e tê-lo na minha casa três semanas depois pela Amazon a preço muito bom. Hoje eu baixo no Kindle e começo a ler imediatamente. Se você tem fome de leitura, a tecnologia é ideal. Se gosta de papel, aí realmente nada substitui a cafoníssima “magia do livro”.
É claro que papel é bom e eu também gosto. Mas não é nenhuma tragédia que ele seja substituído, em muitos, mas muitos casos mesmo, pelo arquivo digital. Eco diz que o digital vai durar dez anos mas, convenhamos, a grande e esmagadora maioria dos livros tem um prazo de validade intelectual menor do que esse.
Mas, no final das contas, o que me irrita mesmo é que, depois disso tudo, eu tenha escrito um post sobre… o futuro do livro. Chaaaaato…

chaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaato demais esse negócio de o futuro, de as coisas terem que durar para sempre. só qndo eu puder durar pra sempre volto a discutir o futuro de alguma coisa. no mais, f…
Olá, fico feliz que vc tenha voltado. Sempre acompanho o seu blog! E esta história do futuro do livro realmente faz tempo que é notícia. O interessante é que os livros continuam aí, e a internet também… !
Um abraço.
Você até pode ter achado chato, mas eu gostei, rsrs. Mesmo porque acabei no olho do furacão da revolução e isto está me matando (de trabalhar, claro). Além do mais, nunca li tanto (no meu Kindle, nem precisa dizer).
Gostei do seu argumento da carta – perfeito. Eu tb li a entrevista, e no sábado à noite escrevi um post na mesma linha que a sua. É como se, pelo fato de uma invenção ser tão boa a ponto de durar 500 anos, tivesse que durar outros 500, ou toda a eternidade. Que besteira. Eu me permiti uma pequena ironia, dizendo que o fato de Eco ter uma biblioteca de 50 mil volumes (maior que a de Mindlin) poderia explicar essa idiossincrasia… abs M
link do post: http://oluziada.blogspot.com/2010/03/futurologia.html
O que está em cheque não é o objeto livro, mas a cadeia produtiva. Livro on-line é software. Portanto, ebook, como cópia de livros impressos, não representam revolução, mas uma tentativa (camuflada) de se atrasar um avanço tecnológico que permitirá uma maior democratização do acesso à informação. O “futuro do livro”, discussão insípida, que só faz sentido (se é que o faz) se você tem mais de 30 anos de idade. A garotada já está no futuro. Eu também pois não gosto de ácaro. Mas, o que mais importa (e poucos estão vendo isso) é que nossa escrita também está sendo impactada pela tecnologia. E penso que para melhor.