Há algo de triste e meio ridículo na vida levada entre os livros. Deve haver, concedo, o mesmo tanto de tristeza e miséria humana na vida levada entre, por exemplo, relógios ou projetos arquitetônicos, mas como é entre eles, ou livros, que vou levando a minha, dou risada e me divirto perversamente com os “Sobrescritos” do Sérgio Rodrigues.
As 40 histórias, originalmente postadas no Todo Prosa, são machadianas até o talo. Mas quem se apresenta é o Machado reloaded, pois é com o pixel da galhofa e o toner da melancolia que o Sergio vai desenhando sua versão ácida da vida literária 2.0., que transcorre, serena, entre a internet e um mundo virtual pelos maus motivos.
Jovens escritores candidatos à notoriedade, velhos escritores condenados ao ostracismo, blogueiros notórios inflados pelo ostracismo, críticos velhos consagrados pelo anonimato, editores cujo fracasso subiu à cabeça. Se Sobrescritos não é uma crônica à clef – é inútil tentar identificar que o inspirou – é um mix de pedaços de ego, cacos de literatura, poeira de vaidade e outros dejetos altamente tóxicos.
A Belle Époque já teve sua crônica registrada em “A vida literária no Brasil 1900”, de Brito Broca. O século XIX foi contemplado por Ubiratan Machado em “A vida literária no Brasil durante o romantismo”, que acaba de ser lançado pela nova editora Tinta Negra. Pois nossos dias precários têm sua modorra transformada em comédia nos “Sobrescritos”.
Mas se você, caro leitor, já começou a se indignar porque este blogueiro medíocre está comparando o Sérgio, que não é tão bom assim, ao Brito Broca, glória das letras nacionais, e este livrinho às duas catedrais de erudição citadas, parabéns: você é personagem, ainda que não saiba, desta triste comédia. Quem sabe no “Sobrescritos 2” você faz uma ponta como comentarista de blog?
