Arquivo de abril de 2010

Gabo, Llosa e outros lobbies

quinta-feira, abril 29th, 2010

Fico pensando em  quanto papel e saliva sobre a origem e os desdobramentos do boom latino-americano teriam sido poupados se Carmen Balcells tivesse dado há mais tempo a entrevista que concedeu ao La Vanguardia na semana passada. Agente literária de Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes, Julio Cortázar e José Donoso, entre outros, dona Carmen decidiu em termos bem diretos o surgimento simultâneo de um grupo de escritores tão formidáveis:

“Aquilo era um lobby, que tem a ver com o poder literário com vender, entende? Vender”, diz a agente. E, tantas décadas depois, a invenção ainda funciona. Vendem milhares de exemplares”.

A dureza, célebre, de dona Carmen chama a atenção para um aspecto edulcorado das relações literárias: o dinheiro. Se as cifras precedem os vampiros e códigos da vida, em geral são deixadas pudicamente de lado quando se trata de autores literários. Mas não pela agente, que ignora olimpicamente a pergunta sobre os “finais infelizes” do grupo, uma alusão aos rompimentos célebres, como o de García Márquez e Vargas Llosa: “Os autores vivos continuam vendendo montes de livros. E os que morreram desfrutam da vida eterna. Você pode imaginar finais mais felizes?”

As delimitações do grupo, tão estudadas e discutidas, também sofrem com os petardos de Balcells, que causa estranhamento ao mencionar Isabel Allende como parte do boom. Mas ela explica: “Vendi Grahan Greene ao editor Mario Lacruz e, no mesmo pacote, incluí  ‘A casa dos espíritos’ de Isabel Allende, então uma autora inédita. Lacruz me ligou em seguida, emocionado: ‘Vou publicá-la como a mulher do boom’!”

De onde saiu tudo isso, há muito mais. Aqui é possível ler a entrevista na íntegra. E refletir um pouco sobre as expressões da identidade latino-americana em Fuentes e Gabo – com as notas de pé de páginas de Carmen Balcells.

(Na foto, García Márquez e Vargas Llosa, provas de que, segundo sua agente,  a invenção ainda funciona.)

Dona Shirley

quarta-feira, abril 21st, 2010
Imagem de Amostra do You Tube

Com Shirley Horn em inacreditável peruquinha platinada, um soberbo “A time for love”. Slow music (muito slow mesmo) para desejar um bom feriado a todos. Este blog volta à atividade normal na segunda-feira próxima.

Saudades de Diana K.

terça-feira, abril 20th, 2010

Estou com saudades de Diana Krall. Assim como Nelson Rodrigues, que jurava ver um Helio Pellegrino e um anti-Hélio convivendo num mesmo corpo, como um centauro, ouço Diana e a Anti-Diana e tenho saudades da primeira.

É que estou viciado na caixa com a primeira temporada de Spectacle, o talk-show de Elvis Costello que andou passando por aqui na HBO. Na minha última incursão pelos DVDs que reúnem o material produzido para o Sundance Channel, Diana faz uma ponta no episódio dedicado a Tony Bennett e estrela um outro, com sir Elton John, produtor da série, no lugar de Elvis Costello, maridão da moça e impedido de recebê-la, como ele diz, para manter “a separação entre Igreja e Estado”.

E nestes dois momentos do Spectacle quem tocou e cantou foi a Diana que eu vi  há muito tempo no MAM, quando o Free Jazz se mudou para lá. Fiquei siderado com a loura gelada com voz de negona, pouco simpática (pouquíssimo, na verdade), que entrava no palco com a elegância de um labrador (tem lá seu charme) e desfiava um repertório homenageando o Nat King Cole Trio. Barra pesadíssima. A Diana que voltei a ver em Nova York, arrasando num tributo a Harold Arlen no Lincoln Center.

Talvez no terreno baldio rodriguiano, convivam esta Diana e a outra, deitada no berço esplêndido de arranjos de cordas, melosa, cantando tudo em ritmo de bossa nova (ou de um certa compreensão de bossa nova) numa viagem que culmina na bregaria que é o DVD gravado ao vivo no Rio. A Anti-Diana é assim: comportadinha, musa do muzak, rainha dos elevadores.

Acho que a Declaração Universal dos Direitos do Artista deve incluir o direito inalienável a faturar. E Diana e seus produtores não ficaram insensíveis às marés dos standards americanos, que revelaram novos artistas, com fôlego e swing – gente como  Harry Conick Jr., John Pizzarelli,  Jane Monheit, Steve Tyrrel – e também os enrolaram numa onda nostálgica detestável, crooners da cafonice sofisticada, um bom gostismo de gosto duvidoso. Resultado: a Anti-Diana, romântica sem romance, jogando para  torcida o tempo todo.

Para matar as minhas saudades e, espero, a de vocês, aqui estão as duas Dianas. Lá em cima, como veio ao mundo artístico, cedendo à provocação de Elton para tocar, de improviso, “Night train”, o clássico de seu mestre e principal influência, Oscar Peterson. Aqui em baixo, para o deleite do Vivo Rio, mandando um “The boy from Ipanema” todo certinho e direitinho, a anti-Diana na terra da bossa nova. Gosto se discute, sim.

Imagem de Amostra do You Tube

A ternura do ‘angry man’

domingo, abril 18th, 2010

“Você tem que ir?” perguntou Harold Pinter a Antonia Fraser, que vinha se despedir num fim de festa. Ela mudou de idéia, ficou até às seis da manhã e pelos 33 anos seguintes.  Ambos adoravam repetir essa história, orgulhosos do romance que começou quando ambos, casados e famosos, tinham 40 e poucos  anos, algumas aventuras extra-conjugais e nenhuma pista de que recomeçariam nova vida.

Pinter morreu em dezembro de 2008, depois de sete anos enfrentando as idas e vindas de um  câncer. Antonia, célebre na Inglaterra por seus livros de história (sua biografia de Maria Antonieta foi a base do filme de Sofia Coppola), decidiu homenageá-lo tirando do baú parte de seus copiosos diários (parte deles hoje online), que são o coração de “Must you go? – My life with Harold Pinter”.

Não é incomum que casais de escritores lamentem a perda do companheiro em livro. A lista é extensa e, de cabeça, citaria C.S. Lewis (“A gried observed”), Simone de Beauvoir (“Cerimônia do adeus”, que é um de seus grandes livros) e , mais recentmente, Joan Didion (“O ano do pensamento mágico”). Todos eles têm o tom de catarse, de um reencontro, pela narrativa, com o amor perdido. E um pouquinho também de justificada auto-piedade.

Antonia Fraser está mais preocupada com os começos do que com o fim. Na medida em que a doença se agrava, seu livro acelera. Ela se empenha em não dar muita bola para o sofrimento. Avalia, explicitamente, que por pior que tenha sido o fim, sua história com Pinter foi maior – e também mais divertida. Pois sua narrativa, mesmo nos piores momentos, não abre mão do humor – um humor às vezes sombrio como, aliás, o do próprio Pinter.

Na intimidade do casal, desfila a vida cultural da Inglaterra entre 1975, o ano que se encontraram, e a morte de Pinter. Quando se conheceram, ele já era consagrado. E o dia-a-dia, tal como descrito nos diários e nas observações que Antonia escreve a partir de seus cadernos, era o de um principiante: tenso, workaholic, preocupado com críticas, zeloso pelas montagens que muitas vezes acompanhava em todo o mundo.

Não por um acaso, uma das histórias que melhor resume o espírito destas memórias começa com um singelo diálogo em 2005: “Parece que eu ganhei o Prêmio Nobel”, diz ele, perplexo, depois de desligar do telefonema que todo escritor sonha em receber no início de outubro. Antonia chora, eles concordam e beber um champanhe apesar das recomendações médicas e, um tanto  infantilmente, ligam a TV  “para ver se é verdade”.

Pinter era, sem dúvida,  um angry man, mas sem perder a ternura. Topou viver numa casa com os seis filhos de Antonia (logo comprou outra ao lado para poder trabalhar, claro), desmanchava-se em poemas dedicados a ela (pouco antes de morrer, publicou um livro reunindo-os) e não deixava de comemorar, de alguma forma, o aniversário do “Must you go?” .

Em fragmentos, Antonia Fraser também conta um pouco o modo de Pinter trabalhar. Começava a escrever em qualquer lugar (num banco da National Gallery, num hotel na praia, em férias), lia sempre em voz alta os diálogos para cronometrar quanto duraria a peça, fazendo sucessivos ajustes, às vezes até um dia antes da estréia.

Sua relação com Samuel Beckett é impressionantemente terna. Considerava-o  a principal influência e a referência fundamental. Eram amigos, encontravam-se sempre em Londres e Paris e Beckett invariavelmente dava palpites nos textos de Pinter, que sempre esperava por esta “bênção”.  A ligacão entre os dois é tão forte que, debilitado pelo câncer, Pinter topa encenar (ele era ótimo ator) em 2006 a terrível “Krapp’s last tape” , em que o personagem, diante de um gravador, ouve e grava a própria voz narrando uma vida sem saída, beckettiana em sua essência. Foi a primeira e única colaboração profissional entre os dois.

“Must you go?”, como dá para perceber,  já seria bom pelo que revela de  Harold Pinter. Mas é ainda melhor e surpreendente pelo que dá a conhecer de Antonia Fraser. Ela fez mesmo bem em não ir.

P.S. – A edição especial de Charles Rose com Pinter é excepcional pela entrevista e as imagens de arquivo. Veja na íntegra aqui em baixo.

http://video.google.com/videoplay?docid=-3150302824340759417

Podcast: Poesia para ouvir

quarta-feira, abril 14th, 2010

Chacal

O CEP 20 000, movimento de poetas do Rio de Janeiro, comemorou 20 anos com um áudio-livro, o “Estrondo”. Dois veteranos – Chacal e Carlito Azevedo – dividem o disco com dois estreantes – Alice Sant’Anna e Gregorio Duvivier. O resultado é dos mais simpáticos.  Editei um poema de cada, os meu preferidos. Confiram.

O affair Ditchkins

terça-feira, abril 13th, 2010

Christopher Hitchens e Richard Dawkins querem ver Bento XVI processado. E, se considerado culpado, devidamente punido. Essa é, para mim, uma das melhores notícias dos últimos tempos. Não pelo que possa acontecer ao sinistro Herr Ratzinger, mas pelo alívio de ver, hoje, intelectuais que possam ser chamados assim, ou seja, que entendem como parte de seu papel na sociedade vir a público por causas amplas, gerais, para as quais a importância de suas vozes dá amplificação.

Hitchens tem fama de falastrão – e até o é. Como todo mundo que atira muito, erra muito. Dawkins, cuja estridência é sobretudo intelectual, é mais implosivo. Juntos, fazem com que ganhe uma alcance ainda maior a possibilidade de o chefe da Igreja ser interpelado legalmente por supostas tentativas de encobrir as denúncias de pedofilia entre seus padres  E isso pouco ou quase nada tem a ver com as posições ateístas que, por caminhos diferentes,  ambos defendem:

“Por que alguém fica surpreso, e até mesmo chocado, quando eu e Christopher Hitchens pedimos que o Papa seja processado se levar em frente sua visita à Inglaterra?”, escreve Dawkins no “Guardian”. “A única coisa estranha em nossa proposta é que ela tenha partido de nós: onde estiveram todo este tempo os governos de todo o mundo? Onde está sua fibra moral? Onde está seu compromisso em tratar todos de forma igual perante a lei?”

Em ensaio publicado no último numero da Serrote , Terry Eagleton cria o personagem Ditchkins, que junta os dois polemistas na discussão, longe de se esgotar, sobre os limites da fé e da razão. Pois eu acho Ditchkins mais necessário do que nunca. Se o Papa conseguir passar ileso por sua visita à Inglaterra é de somenos. O que importa é romper a neutralidade do noticiário sobre os escândalos, mesmo que para isso seja preciso recorrer à violência verbal dos polemistas – que, mesmo em seu grau mais alto, jamais chegará aos pés da violência de fato que o mundo vêm tomando conhecimento.

Louis Begley, que além de ótimo escritor é advogado de primeira, acabou de publicar “Why the Dreyfus affair matters” , livrinho resumindo o processo que marcou o nascimento do intelectual moderno. Como se sabe, Alfred Dreyfus foi preso e expulso do exército francês sob acusação de espionagem. O processo, no entanto, foi movido a anti-semitismo e coube a Émile Zola, escritor de destaque, puxar o movimento para a restituição da legalidade. O “J’accuse”, “Eu acuso”, carta-aberta ao presidente da França, é até hoje o mais emocionante documento da dignidade e da coragem de um homem fiel a seus princípios, mesmo tendo que enfrentar as autoridades máximas do país.

Infelizmente, o mundo hoje não se dividirá tão claramente quanto a França do final do século XIX, em que dreyfusards e anti-dreyfusards defendiam suas posições em cada esquina. O máximo que se tem visto são leitores indignados que respondem com ofensas carolas e sandices fundamentalistas aos argumentos, concretos e racionais, dos dois intelectuais.

Ditchkins importa hoje porque é o sinal de que não sucumbimos à cretinice completa. Há quem diga que o ateísmo militante os transforma em fundamentalistas tão nocivos quanto os que condenam. Mas, ao que me consta, ateus não se organizam em instituições, explodem bombas em metrôs ou têm um chefe supremo considerado chefe de Estado – um Ateu Supremo que feche os olhos enquanto seus pastores salivam diante das ovelhinhas do rebanho. (Aí em cima, outro papa, o Inocêncio, retratado com candura por Francis Bacon)

A alma em sinuca

quinta-feira, abril 8th, 2010

Recebo e-mail com o  subject: “Minha sinuca”.  Remetente, Aldir Blanc.

As notícias são graves: vai a leilão a mesa de sinuca profissional que, no lugar de uma banal mesa de jantar, domina a ampla sala de um certo apartamento na Muda. Na geografia carioca,  a Muda é a Tijuca Profunda, onde o Aldir, qual o coronel Kurtz, resiste à cretinice do mundo cercado por Mary, sua garota, livros, musica, filhas, netos e o labrador Batuque. De vez em quando grita “O horror! O horror!” – mas parece que só quando o Vasco perde.

A decisão de instalar uma mesa de sinuca na sala principal de casa tem, ao que me lembro, razões familiares. O pai e personagem de Aldir, respectivamente seu Alceu e Ceceu Rico, foi na juventude um grande jogador, mas não gostava que o filho se aventurasse nos panos verdes. Daí que, bem, entenderam, né? Consta, aliás, que o adorável Ceceu jamais empunhou um taco naquela sala.

A mesa, como toda mesa de casa, já serviu para tudo, como se pode facilmente imaginar. Me lembro quando vivia repleta de romances policiais, empilhados em toda sua extensão. Aí sim, Ceceu se relacionava com ela: pegava para ler um por dia e devolvia devidamente comentado, aprovando o desaprovando o título.

No mundo da poesia e da ficção do Aldir, a sinuca é importantíssima. Deu até no verso doído de “Perder um amigo”, parceria com Mauricio Tapajós, ele mesmo amigo precoce e tristemente perdido: “Perder um amigo, morrer pelos bares/ Pifar em New York, penar em Pilares/ Perder um amigo, errar a tacada/ Sentir comichão na perna amputada”.

No Boteco do Edu, Eduardo Goldenberg organiza o leilão e dá detalhes. O monumento inclui um taqueira sem tacos (os netos transformaram em espadas, informa sobriamente o Edu), dois jogos de bolas e, a cereja do bolo, uma dedicatória de Aldir ao novo proprietário.

Ao autografar uma mesa como se autografa um livro, o Aldir me faz economizar muitos caracteres sobre como sua vida e sua obra são uma coisa só, um ideal romântico de muita gente e realização de poucos. Isso para não falar de tanta coisa que não pode ser guardada, assinada, leiloada.

Sugiro que o Museu da Imagem e do Som compre a mesa no melhor lance. Mas com o compromisso de instalá-la, autografada para o Rio de Janeiro, num dos botequins mais vagabundos, para que seja usada até a dedicatória sumir do pano verde. Não consigo ver melhor homenagem a um carioca com quem a cidade estará sempre em dívida.

Patti & Robert

domingo, abril 4th, 2010

Patti Smith é, para mim, melhor poeta do que performer, melhor performer do que compositora e melhor personagem do que tudo isso aí. Por isso devoreJust Kids, um livro simples e direto em que ela conta como virou Patti Smith, o que significa lembrar os anos de juventude em que sua vida era indistinguível da de Robert Mapplethorpe, mais do que amigo e namorado, quase um duplo estético e existencial num viagem a dois impressionante.

Patti vivia intoxicada por poetas franceses (Rimbaud em primeiro lugar) e a pintura de Frida Khalo (que ainda não era moda); Robert mergulhava no LSD e em  imagens de esculturas, fotografias, arte clássica. Ela parecia doida e, naquela época,  o final dos 60,  ainda era careta; ele parecia careta e era muito, muito pirado. Ela veio de uma família suburbana que ralava em trabalhos mal pagos e conseguia entender que, grávida por acidente aos 17, sua filha tivesse a criança e desse para uma família adotar; ele tinha pais católicos e austeros, que quase enfartaram quando foram apresentados à Patti, sua jovem esposa.

Juntos, não tinham um tostão –  às vezes nem para comer. Mas se amavam loucamente num muquifo do Brooklyn. Patti, que já tinha trabalhado como operária em linhas de montagem e era atendente da Scribner’s, uma das mais lindas livrarias de Nova York, hoje transformada numa horrenda loja de cosméticos , tinha certeza que era artista mas não sabia como se expressar, sempre insatisfeita com seus desenhos e textos. Robert fazia colagens, imaginava instalações jamais realizadas,  ainda não descobrira a fotografia mas sabia-se um artista visual: revoltava-o que o  mundo não o reconhecesse.

Em “Just Kids” ela conta como ambos, românticos, não viam distinção entre vida e arte e, por isso, aprenderam ambas ao mesmo tempo, na base da porrada. Ela, que o amava como uma donzela medieval, fica chapada quando ele se descobre homossexual e, de forma crua, passa a se prostituir para ajudar a sustentar a casa. Ele, cheio de culpa cristã, indo cada vez mais fundo no submundo dos garotos de programa, das drags e, como acabou ficando famoso em suas fotos, do jogo perigoso do sadomasoquismo. Ainda que assustados, ambos provavam o que liam em Genet e Rimbaud e o que herdaram dos beatniks.

Sobreviventes de um hotel-pocilga povoado por freaks e traficantes, com Robert derrotado por drogas e gonorréia, encontram um porto seguro no Chelsea Hotel,  o centro do mundo ao qual eles queriam pertencer. E ali, onde Thomas Wolfe e Arthur C. Clarke escreveram e Dylan Thomas tomou seu último porre, instalaram-se no momento decisivo de suas vidas.  Entre o Chelsea e um loft nas redondezas, nietzschianamente tornaram-se quem de fato eram.

Patti fala de intimidades, suas e dos outros,  sem ser indiscreta ou sensacionalista. A impressão é que, ao escrever, retorna à inocência (procurei outra, mas a palavra é essa mesmo) daqueles dias,  de quem não sabia que Woodstock estava rolando e, como qualquer jovem de sua época, tremia em conversar com Jimmi Hendrix sobre a timidez, tormento comum aos dois, ou consolar Janis Joplin que, aos prantos, não agüentava o tranco de ser rejeitada pela enésima vez por um menino bonito.

Esta inocência era, no entanto, temperada com seu temperamento belicoso. No primeiro encontro com Allen Ginsberg, um de seus ídolos e que ao lado de William Burroghs se tornaria um “mestre”, foi com ele tomar um café. No meio da conversa, Ginsberg se toca:

- Mas você não é um garoto?

- Isso significa que eu tenho que devolver o sanduíche? – respondeu ela com o jeitinho meigo que só não irritava tanto Robert quanto seus modelitos, ao que parece invariavelmente errados para qualquer ambiente.

No mesmo momento em que se separaram, encontraram-se com suas vidas. Mapplethorpe tornou-se um fotógrafo cada vez mais sofisticado e Patti subiu no palco como atriz, depois recitando poemas e, mais adiante, tocando a guitarra que lhe foi presenteada por um namorado meio pirado e já naquela época famoso, um tal de Sam Shepard.

Robert descobriu a Aids no mesmo dia em que Patti soube estar grávida de sua filha. Suas vidas corriam em paralelo, mas sempre ligadas. O capítulo final, do livro e da história dos dois, é curto e triste. Ela ainda se assusta com as imagens meticulosamente demonizadas de Mapplethorpe em auto-retratos, com os corpos torturados que, em sua obra, combinam-se com a delicadeza das flores. Mas entende que ele conseguiu o que queria: a fidelidade absoluta a seus ideais. Patti não ficou longe do que almejava, mas sua trip era outra e desta viagem faz parte, com total coerência, este delicado livro.

(Na foto de cima, os dois flagrados por Gerard Malanga na escada de incêndio do loft da rua 23. Na do meio, uma polaroid de Patti pot Robert.)

O pai do Chico e o filho da dona Julia

quinta-feira, abril 1st, 2010

Na manhã de  18 de dezembro de 1930, um jovem brasileiro sobe ao quarto 395 do Adlon, tradicional hotel de Berlim. A sua espera está Thomas Mann, Nobel de Literatura no ano anterior  e, àquela altura, uma das maiores celebridades do país. “Confesso que não era muito animadora a perspectiva de encontrar-me frente a frente com aquela fisionomia que parece apenas o pretexto para um nariz excessivo e que deve se conformar melhor à ironia do que à afabilidade”,  confessa o repórter de O jornal e do Diário de São Paulo.

Aos 28 anos, Sérgio Buarque de Holanda consegue um furo de reportagem: a confirmação, de viva voz, das origens brasileiras do autor de “Morte em Veneza”. Mann conta que Julia Bruhn da Silva, sua mãe, costumava contar histórias sobre o Brasil,  descrevia a beleza da Baía de Guanabara e, de forma mais surpreendente, atribui a esta origem sua singularidade:

“Creio que a essa origem latina e brasileira devo certa clareza de estilo e, para dizer como os críticos, um ‘temperamento pouco germânico’. (…)Estou certo de que a influência mais decisiva sobre minha obra resulta do sangue brasileiro que herdei de minha mãe. Penso que nunca será demais acentuar essa influência quando se critique a minha obra ou a de meu irmão Heinrich”.

A deliciosa reportagem faz parte do volume da série Encontros (Azougue Editorial) dedicada a Sérgio Buarque de Holanda. Na maioria dos 16 textos, Sérgio é, evidentemente, o entrevistado. De 1925 a 1982,  período documentado nas entrevistas, é a mesma pessoa: irreverente, pouco afeito às liturgias da vida acadêmica, nada afetado. Desde sempre, vacinou-se com humor e ironia da seriedade bocó dos grandes intelectuais brasileiros. Está à vontade, pimpão, na Novos Estudos, revista do CEBRAP, e na “Pais e Filhos”, onde, em 1968,  publica um depoimento impagável sobre o filho recém-famoso:

“Recebi a notícia de que Chico tinha ganhado o Festival de Musica Popular Brasileira com A banda, quando estava em Nova York. Um jornal norte-americano publicou a notícia. Claro que me senti muito orgulhoso. Cheguei à conclusão – o que uma revista publicou na época – que, antes, ele era meu filho. E depois do festival eu passei a ser o pai dele. Não há posição melhor. Têm surgido boatos por aí de que eu componho as músicas para ele. Mas, meu deus, quem sou eu para ter tanto talento? Se eu soubesse escrever músicas como ele, há muito tempo eu não seria eu mesmo, mas Chico Buarque de Holanda”.

Assim como o documentário de Nelson Pereira dos Santos, este livrinho dá uma vontade danada de ter conhecido este homem. O mesmo que, em 1954,  num cruzeiro pela Europa, fantasia-se de Netuno numa festa a bordo, de barbas brancas e tridente. A foto existe, está na edição comemorativa dos 50 anos de “Raízes do Brasil” (Companhia das Letras) e diz mais do que eu conseguiria sobre este tipo inesquecível.