Patti Smith é, para mim, melhor poeta do que performer, melhor performer do que compositora e melhor personagem do que tudo isso aí. Por isso devoreJust Kids, um livro simples e direto em que ela conta como virou Patti Smith, o que significa lembrar os anos de juventude em que sua vida era indistinguível da de Robert Mapplethorpe, mais do que amigo e namorado, quase um duplo estético e existencial num viagem a dois impressionante.
Patti vivia intoxicada por poetas franceses (Rimbaud em primeiro lugar) e a pintura de Frida Khalo (que ainda não era moda); Robert mergulhava no LSD e em imagens de esculturas, fotografias, arte clássica. Ela parecia doida e, naquela época, o final dos 60, ainda era careta; ele parecia careta e era muito, muito pirado. Ela veio de uma família suburbana que ralava em trabalhos mal pagos e conseguia entender que, grávida por acidente aos 17, sua filha tivesse a criança e desse para uma família adotar; ele tinha pais católicos e austeros, que quase enfartaram quando foram apresentados à Patti, sua jovem esposa.
Juntos, não tinham um tostão – às vezes nem para comer. Mas se amavam loucamente num muquifo do Brooklyn. Patti, que já tinha trabalhado como operária em linhas de montagem e era atendente da Scribner’s, uma das mais lindas livrarias de Nova York, hoje transformada numa horrenda loja de cosméticos , tinha certeza que era artista mas não sabia como se expressar, sempre insatisfeita com seus desenhos e textos. Robert fazia colagens, imaginava instalações jamais realizadas, ainda não descobrira a fotografia mas sabia-se um artista visual: revoltava-o que o mundo não o reconhecesse.
Em “Just Kids” ela conta como ambos, românticos, não viam distinção entre vida e arte e, por isso, aprenderam ambas ao mesmo tempo, na base da porrada. Ela, que o amava como uma donzela medieval, fica chapada quando ele se descobre homossexual e, de forma crua, passa a se prostituir para ajudar a sustentar a casa. Ele, cheio de culpa cristã, indo cada vez mais fundo no submundo dos garotos de programa, das drags e, como acabou ficando famoso em suas fotos, do jogo perigoso do sadomasoquismo. Ainda que assustados, ambos provavam o que liam em Genet e Rimbaud e o que herdaram dos beatniks.
Sobreviventes de um hotel-pocilga povoado por freaks e traficantes, com Robert derrotado por drogas e gonorréia, encontram um porto seguro no Chelsea Hotel, o centro do mundo ao qual eles queriam pertencer. E ali, onde Thomas Wolfe e Arthur C. Clarke escreveram e Dylan Thomas tomou seu último porre, instalaram-se no momento decisivo de suas vidas. Entre o Chelsea e um loft nas redondezas, nietzschianamente tornaram-se quem de fato eram.
Patti fala de intimidades, suas e dos outros, sem ser indiscreta ou sensacionalista. A impressão é que, ao escrever, retorna à inocência (procurei outra, mas a palavra é essa mesmo) daqueles dias, de quem não sabia que Woodstock estava rolando e, como qualquer jovem de sua época, tremia em conversar com Jimmi Hendrix sobre a timidez, tormento comum aos dois, ou consolar Janis Joplin que, aos prantos, não agüentava o tranco de ser rejeitada pela enésima vez por um menino bonito.
Esta inocência era, no entanto, temperada com seu temperamento belicoso. No primeiro encontro com Allen Ginsberg, um de seus ídolos e que ao lado de William Burroghs se tornaria um “mestre”, foi com ele tomar um café. No meio da conversa, Ginsberg se toca:
- Mas você não é um garoto?
- Isso significa que eu tenho que devolver o sanduíche? – respondeu ela com o jeitinho meigo que só não irritava tanto Robert quanto seus modelitos, ao que parece invariavelmente errados para qualquer ambiente.
No mesmo momento em que se separaram, encontraram-se com suas vidas. Mapplethorpe tornou-se um fotógrafo cada vez mais sofisticado e Patti subiu no palco como atriz, depois recitando poemas e, mais adiante, tocando a guitarra que lhe foi presenteada por um namorado meio pirado e já naquela época famoso, um tal de Sam Shepard.
Robert descobriu a Aids no mesmo dia em que Patti soube estar grávida de sua filha. Suas vidas corriam em paralelo, mas sempre ligadas. O capítulo final, do livro e da história dos dois, é curto e triste. Ela ainda se assusta com as imagens meticulosamente demonizadas de Mapplethorpe em auto-retratos, com os corpos torturados que, em sua obra, combinam-se com a delicadeza das flores. Mas entende que ele conseguiu o que queria: a fidelidade absoluta a seus ideais. Patti não ficou longe do que almejava, mas sua trip era outra e desta viagem faz parte, com total coerência, este delicado livro.
(Na foto de cima, os dois flagrados por Gerard Malanga na escada de incêndio do loft da rua 23. Na do meio, uma polaroid de Patti pot Robert.)
Olá, o livro só tem em inglês?
E para registrar: gosto muito do modo como vc escreve.
Um abraço.
Rimbaud aprisiona o leitor pelo infinito jogo de linguagem onde não há fronteira nítida entre metáfora e metonímia.
Já Patti Smith consegue não só aprisionar como encantar quem a ouve. Ficamos tão seduzidos por ela quanto os homens de Ulisses ficaram pelas Sereias.
Concordo com a Milena quanto a estética do texto, além claro, de querer saber o mesmo que ela.
Milena,
muito obrigado pela visita. Ao que saiba, por enquanto só em inglês.
Mãos para baixo, a loja da Apple app ganha por uma milha. É uma enorme seleção de todos os tipos de aplicativos contra uma seleção um pouco triste de um punhado de Zune. Microsoft tem planos, especialmente no campo de jogos, mas eu não tenho certeza se eu gostaria de apostar no futuro, se este aspecto é importante para você. O iPod é uma escolha muito melhor nesse caso.
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Obrigado pelo seu tempo e esforços para que decidi colocar essas coisas em conjunto sobre este site. Emily e eu também gostei muito as suas ideias através de artigos sobre as coisas certas. Estou ciente de que você tem muitas exigências com o seu programa, portanto, o fato de que você realmente tomou a quantidade máxima de tempo, como você fez para orientar as pessoas como nós, por meio deste artigo é mesmo muito queridos.
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