Recebo e-mail com o subject: “Minha sinuca”. Remetente, Aldir Blanc.
As notícias são graves: vai a leilão a mesa de sinuca profissional que, no lugar de uma banal mesa de jantar, domina a ampla sala de um certo apartamento na Muda. Na geografia carioca, a Muda é a Tijuca Profunda, onde o Aldir, qual o coronel Kurtz, resiste à cretinice do mundo cercado por Mary, sua garota, livros, musica, filhas, netos e o labrador Batuque. De vez em quando grita “O horror! O horror!” – mas parece que só quando o Vasco perde.
A decisão de instalar uma mesa de sinuca na sala principal de casa tem, ao que me lembro, razões familiares. O pai e personagem de Aldir, respectivamente seu Alceu e Ceceu Rico, foi na juventude um grande jogador, mas não gostava que o filho se aventurasse nos panos verdes. Daí que, bem, entenderam, né? Consta, aliás, que o adorável Ceceu jamais empunhou um taco naquela sala.
A mesa, como toda mesa de casa, já serviu para tudo, como se pode facilmente imaginar. Me lembro quando vivia repleta de romances policiais, empilhados em toda sua extensão. Aí sim, Ceceu se relacionava com ela: pegava para ler um por dia e devolvia devidamente comentado, aprovando o desaprovando o título.
No mundo da poesia e da ficção do Aldir, a sinuca é importantíssima. Deu até no verso doído de “Perder um amigo”, parceria com Mauricio Tapajós, ele mesmo amigo precoce e tristemente perdido: “Perder um amigo, morrer pelos bares/ Pifar em New York, penar em Pilares/ Perder um amigo, errar a tacada/ Sentir comichão na perna amputada”.
No Boteco do Edu, Eduardo Goldenberg organiza o leilão e dá detalhes. O monumento inclui um taqueira sem tacos (os netos transformaram em espadas, informa sobriamente o Edu), dois jogos de bolas e, a cereja do bolo, uma dedicatória de Aldir ao novo proprietário.
Ao autografar uma mesa como se autografa um livro, o Aldir me faz economizar muitos caracteres sobre como sua vida e sua obra são uma coisa só, um ideal romântico de muita gente e realização de poucos. Isso para não falar de tanta coisa que não pode ser guardada, assinada, leiloada.
Sugiro que o Museu da Imagem e do Som compre a mesa no melhor lance. Mas com o compromisso de instalá-la, autografada para o Rio de Janeiro, num dos botequins mais vagabundos, para que seja usada até a dedicatória sumir do pano verde. Não consigo ver melhor homenagem a um carioca com quem a cidade estará sempre em dívida.

Paulo, fantástica sua crônica. Torço realmente para que a mesa vá parar num clássico pé sujo e seja honrada por mãos suadas por copos de cervejas. E que cada tacada seja uma homenagem ao Aldir!
Abraços!
Belo artigo, Paulo.
Há anos morro de inveja dessa sua amizade com o Aldir. Tô até pensando em comprar a mesa e abrir um bar na Muda só pra ver se fico amiga dele.
Texto belíssimo, Paulo!
É preciso que algo seja feito. Só não compro neste segundo esta mesa porque estou – sou -duro. Se pudesse, mesmo sem ter onde colocar, arrematava-a. Enfim, vamos tentar fazer algo!
Abs.
A alma em sinuca.. Ho-o-o-o-t
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