Fico pensando em quanto papel e saliva sobre a origem e os desdobramentos do boom latino-americano teriam sido poupados se Carmen Balcells tivesse dado há mais tempo a entrevista que concedeu ao La Vanguardia na semana passada. Agente literária de Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes, Julio Cortázar e José Donoso, entre outros, dona Carmen decidiu em termos bem diretos o surgimento simultâneo de um grupo de escritores tão formidáveis:
“Aquilo era um lobby, que tem a ver com o poder literário com vender, entende? Vender”, diz a agente. E, tantas décadas depois, a invenção ainda funciona. Vendem milhares de exemplares”.
A dureza, célebre, de dona Carmen chama a atenção para um aspecto edulcorado das relações literárias: o dinheiro. Se as cifras precedem os vampiros e códigos da vida, em geral são deixadas pudicamente de lado quando se trata de autores literários. Mas não pela agente, que ignora olimpicamente a pergunta sobre os “finais infelizes” do grupo, uma alusão aos rompimentos célebres, como o de García Márquez e Vargas Llosa: “Os autores vivos continuam vendendo montes de livros. E os que morreram desfrutam da vida eterna. Você pode imaginar finais mais felizes?”
As delimitações do grupo, tão estudadas e discutidas, também sofrem com os petardos de Balcells, que causa estranhamento ao mencionar Isabel Allende como parte do boom. Mas ela explica: “Vendi Grahan Greene ao editor Mario Lacruz e, no mesmo pacote, incluí ‘A casa dos espíritos’ de Isabel Allende, então uma autora inédita. Lacruz me ligou em seguida, emocionado: ‘Vou publicá-la como a mulher do boom’!”
De onde saiu tudo isso, há muito mais. Aqui é possível ler a entrevista na íntegra. E refletir um pouco sobre as expressões da identidade latino-americana em Fuentes e Gabo – com as notas de pé de páginas de Carmen Balcells.
(Na foto, García Márquez e Vargas Llosa, provas de que, segundo sua agente, a invenção ainda funciona.)
