“Forever” é um documentário estranho sobre as relações nada usuais que se estabelecem em torno do Père Lachaise. O cemitério de Paris, como se sabe, reúne um número extraordinário de mortos célebres, dentre eles Proust, Jim Morrison, Yves Montand , Alan Kardec, Maria Callas, Modigliani, Chopin e Isadora Duncan. É meca de turismo artístico e funerário e uma Disneyworld para aqueles que acham a visita ao túmulo de quem se admira a consequencia natural da leitura de um livro, das lembranças de um show ou disco.
Este é, obviamente, o ponto de partida da diretora Heddy Honigmann , holandesa que nasceu no Peru e já dirigiu um doc no Brasil – “O amor natural”, dedicado aos poemas eróticos de Carlos Drummond de Andrade. Mas ela vai além ao destrinchar, em ótimos personagens, os laços emocionais mais ou menos óbvios entre os visitantes e os túmulos, os vivos e os mortos.
Há a jovem concertista japonesa que cultua Chopin mas que tem o papel de fã cuidadosamente desmontado ao descobrirmos que o compositor é o elo que se estabeleceu entre ela e a memória do pai, que perdeu ainda muito cedo. Ou a viúva que todas as semanas visita o túmulo daquele que, segundo diz, foi o único homem que amou e com quem só viveu três anos – ele morre, tragicamente, intoxicado por uma picada de abelha.
Visitando o túmulo de Proust, o desenhista Stéphane Heuet conta como apaixonou-se pelo autor até adaptá-lo para graphic novels. Um coreano, emocionado, conta, em péssimo inglês e depois em sua língua, sem legendas, como Proust foi importante para sua vida – e alguns turistas, falando francês, visitam o autor sem jamais ter lido sua obra.
Uma senhora dedica-se a manter limpas e floridas as sepulturas de Proust e Modigliani, autor que é admirado por um jovem que é maquiador de cadáveres, entrevistado em pleno exercício da função. Há também a mulher idosa, espanhola, que visita o marido todos os dias e vive de luto também pelo país que teve que abandonar por “pensar diferente” na época do franquismo.
Para um dos guias do Père Lachaise, as histórias do cemitério são sua própria razão de viver. E, dentro de suas funções, ele procura levar os visitantes, que buscam os famosos, a uma pouco conhecida cantora francesa, morta precocemente, e uma adolescente, poeta, cuja mãe fez gravar seus versos no túmulo. O tempo corroeu boa parte das palavras, mas o guia está lá, para recitar os versos que, certamente, irão desaparecer com ele. Ou melhor, ficarão registrados no filme, Heddy Honigmann transformada em um de seus personagens.
Caramba, fiquei muito curioso mesmo pra ver. O máximo que já me aproximei de um cemitério assim foi na Recoleta, Argentina.
Realmente, um passeio no pere-lachaise vale a pena!
Um abraço.
É engraçado que nosso ” São Jão”, aqui, é cheio de gente famosa, né? Mas acho que não chega a gerar um turismo. É por falta de nomes internacionalmente conhecidos ?
Bueno, eu só tenho curiosidade para saber se fizeram valer, literalmente, a vontade do Fernando Sabino e escreveram aquela história de “nasceu homem e morreu menino”…
ABS