Arquivo de 4 de julho de 2010

O iPad é uma boa droga

domingo, julho 4th, 2010

Sabe aqueles livros de memórias, em que o sujeito narra sua luta contra o alcoolismo, as drogas ou a depressão? Eu estou prestes a escrever um, sobre a minha dispersão. Só que, é claro, não consigo começar de tão disperso que ando e até este blog parei de atualizar.

Anestesiado pelo senso comum, eu poderia listar dezenas de fatores estressantes que vem me impedindo a concentração em um livro (a não ser estritamente a trabalho), filme ou aula (as que assisto, não as que dou, bem entendido). Mas, desta vez, a vida atribulada, clássico bode expiatório, não é a culpada. O responsável sou mesmo eu, mais exatamente a partir do momento em que resolvi comprar um iPad.

Tenho horror ao horror de tecnologia, de quem se orgulha de não ter e-mail ou celular como distinção cool dos vulgares (e plugados) mortais. E, como já escrevi aqui, me desperta mais horror ainda o outro extremo, expresso pela industria de discussões sobre “o futuro do livro”, um subgênero (literalmente) jornalístico e acadêmico que lista gadgets e quinquilharias virtuais e intelectuais como o destino inelutável da humanidade letrada. Mas não deixo, por curiosidade e mesmo dever profissional, de experimentar as novidades.

E a boa avaliação da novidade está, pelo menos para mim, quando ela entra na vida suavemente e, sem traumas,  provoca uma mudança e encontra seu lugar. Foi o caso do Kindle: é hoje rotina para mim ler no bichinho feioso e com jeitão de Lego. E o “tac tac” dos botões que viram as páginas já é tão sinônimo de leitura quanto o barulho do papel.

Diante do iPad, o Kindle parece mesmo primitivo. Talvez porque destine-se exclusivamente à leitura, esta prática cada vez mais primitiva. É certamente imbatível a tela que não reflete a luz, é genial o dicionário (de inglês) acoplado e bate um bolão (sobretudo em viagem longa) a função, nada básica, de leitura em voz alta.

No iPad, como é de conhecimento público,  nossas várzeas tem mais flores, nossa vida mais amores: a tela é deslumbrante em sua alta definição, o You Tube roda como televisão, as fotos das férias parecem tiradas de um filme, o e-mail é facílimo de operar e os viodeopodcasts, cada vez mais numerosos na Apple Store, nasceram para o novo gadget.

No meu brinquedo, convivem hoje a edição da Wired (que é mesmo genial),  42 livros de domínio público (muitos dos quais, como a íntegra do diário dos irmãos Goncourt, são um velho sonho) e tantos outros do Kindle, inúmeros apps de notícias, dois Vooks (video-books, uma gracinha recente que mistura mini-documentários a textos cheios de hiperlinks), acessos rápidos para o Facebook e o Twitter e, ultimamente, o Touching Stories, filminhos interativos experimentais feitos para a tabuleta – além, é claro, de músicas, vídeos e um livro em italiano, chatíssimo, sobre Caravaggio, cuja motivação de compra até hoje me escapa.

É a tal da “convergência”, apito mais tocado do que a vuvuzela pelos arautos do admirável mundo novo digital. O negócio é saber o que converge para nossa cabeça e, em que medida, essa enxurrada de informações não vai criando uma ignorância informada que, para muita gente, tem se confundido com cultura. O recado está lá, discretamente, no livro de Robert Darnton, “A questão dos livros”: informação NÃO é conhecimento,  embora cada vez mais se confunda com este por motivos vários.

Pode-se argumentar que forma-se aí uma nova forma de aprender, de refletir. Não descarto absolutamente esta hipótese. Mas o que sei é que o zapping intelectual é prazeroso, vicia e anestesia. De uma hora para outra, me vi com 18 assuntos interessantes para trazer ao blog e não escrevi sobre nenhum deles. Me interessei por vários livros e não li nenhum capítulo inteiro. Vi trechos de filmes e não consegui concluir nenhum.

Eu queria mesmo era instalar um firewall intelectual para segurar o lixo que “converge”. Como este programa só existe em meu delírio, me contento em pensar numa desintoxicação, lenta e gradual, diminuindo o tempo grudado na telinha e, quem sabe, cuidando para que este blog não vire um deserto virtual.

P.S. – Hoje, na coluna do Globo, Caetano diz que ficou vontade de comprar um iPad. Eu o aconselharia, repetindo o que ele mesmo disse sobre a maconha: “Caetano, o iPad é uma boa droga!