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Geniausten!

terça-feira, 2 de março de 2010 por paulo-roberto-pires

The Divine Jane: Reflections on Austen from The Morgan Library & Museum on Vimeo.

Cecília Giannetti, ela mesma uma criatura geniausten , cunhou o trocadilho que, brincando, brincando, diz do quanto se espalha, pelos lugares mais inesperados, o culto pela autora de “Orgulho e preconceito” e “Razão e sensibilidade” – de telefilmes a inspiração para ficção, ensaio e até a hilariante parceria além-túmulo de “Pride and prejudice and Zombies”.

Por isso vale assistir o documentário aí em cima. “Divine Jane” tem 15 minutos e foi produzido especialmente para A Woman’s Wit: Jane Austen’s Life and Legacy, exposição da Morgan’s Library  que, sem grandes filas e barulho, é discretamente antológica quanto o foi discretamente genial um autora que, segundo Virginia Woolf, “de todos os grandes escritores ela é o mais difícil de flagrar em um momento de grandeza”.

A exposição é centrada no extraordinário acervo de cartas da escritora compradas pelo próprio Morgan no início de sua coleção. A Morgan’s Library tem em seu acervo um terço do que restou da correspondência de Jane. O tema das cartas, lê-se nas transcrições, é principalmente a sensaboria do cotidiano, o rame-rame que aos olhos do gênio transformou-se na delicada tapeçaria de paixões incontroláveis, leves decepções, pequenas tragédias.

“Divine Jane”, dirigido pelo fotografo Francesco Carrozzini, é assim batizado porque assim a chamava Samuel Beckett, que julgava ter “muito a aprender” com a inglesa. Reúne num eclético elenco Siri Husvedt, Colm Tóibin, Fran Lebowitz e Cornel West em depoimentos emocionados sobre a importância da autora em suas vidas.

A cereja do bolo é, no entanto, as cenas em que alguns dos convidados circulan pelo belíssimo prédio da Morgan e, nos arquivos, são flagrados manipulando as cartas originais. Particularmente tocante é a cena de Siri Husvedt, que resume um pouco o fascínio da exposição (quem for Geniasa NY, está lá até 14 de março) e deste documentário: “Quando se está diante de um manuscrito, tem-se a sensação de ver o corpo escrevendo”.

A minha nova inscrição

segunda-feira, 1 de março de 2010 por paulo-roberto-pires

Segunda-feira. Dia primeiro. Início de mês. Tudo conspira para as promessas de começar regime, beber menos, dormir mais cedo e voltar a malhar. Na minha agenda, só vou cumprir uma, a de recomeçar este blog, que para terreno baldio só faltava uma rodriguana cabra, vadia é claro, pastando num canto da tela, entre um feed morto de fome e minha foto, já velha, feita com um celular que já não está entre nós.

Na Bravo! de papel, meu chefe, João Gabriel de Lima, diz que volto como o boêmio de Adelino Moreira, que outro Nelson transformou num eterno retorno. Não mereço tanto. Nestes seis meses, concedo que deixei amigos chorando de alegria (livres do constrangimento de dizer que não, não leu o blog), mas nada dos tais rios, montes e cascatas. Boemia, então, muito pouco.

Mesmo assim, suplicante vos peço esta minha nova inscrição. E antes que essa gente falante ironize, deixo o consolo e a alegria: nunca mais um post-nariz-de-cera como este.

Na cidade sinuosa

segunda-feira, 1 de março de 2010 por paulo-roberto-pires

picture-2 A festa dos 445 anos do Rio de Janeiro acontece hoje na Cidade de Deus, estigmatizada internacionalmente pelo que a pseudice de um filme fez com o poderoso livro de Paulo Lins. Vai nisso saudável disposição política de quem organiza o show e, pelo menos para mim, incômodo populismo em sua promoção. Favela, ops, comunidade, passou a ser grife de uma cidade mais “realista” e menos burguesa. Será?

“Guia afetivo da periferia” , de Marcus Vinicius Faustini. Comprei porque, mesmo cismado, não gosto de deixar passar o que se escreve sobre esta cada vez mais estranha cidade. Três horas e algumas lágrimas depois tinha devorado esse livrinho despretensioso e poderoso do diretor de teatro que hoje é secretário de Cultura de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

Digitem no Google Maps “Cesarão” e “Ipanema”. A linha de mais de 50 quilômetros que aparece é o cenário de Faustini. Entre os dois extremos geográficos, sociais e culturais da cidade o que acontece não é exatamente um “guia afetivo” mas, como pontua Luiz Eduardo Soares no prefácio, um romance de formação – dentre muitos outros gêneros. E, insisto em contestar o título, não se trata da periferia e sua cultura banalizada e tornada pop, mas de como o sujeito diz “sim” quando tudo à sua volta diz “não”.

Faustini vivia no limite da pobreza. Andava horas de ônibus, de trem. Trabalhou na cantina do cemitério do Caju, servindo cafezinho diante do terrível espetáculo da dor alheia. Atuou no movimento estudantil mas, em sua mochila jeans, inscrevia com caneta bic citações de Trotsky e Scott Fitzgerald. A militância óbvia poderia levá-lo, por exemplo,a um curso de Ciências Sociais. Levou-o à Escola de Teatro Martins Pena – ali perto, no banco de espera do Hospital Souza Aguiar, cansou de passar a noite esperando a retomada do transporte. Curvado no ônibus tentando decorar uma cena de “Eqqus”, de Peter Schaeffer, escapou de uma pedrada que espatifou sua janela.

Não faz jus ao livro alinhavar aqui as cenas do livro em que convivem mundos teoricamente inconciliáveis. Seria repetitivo, demagógico e não faria jus à complexidade da história que ali se conta. “Nunca gostei do excesso de realidade presente na boca dos arautos que falam sobre o Rio, seja em mesa de bar, entrevista de canal a cabo ou seminário de universitárias charmosas”, escreve ele. “Na cidade, eu procuro a ficção”.

Pois eu diria que “Guia afetivo da periferia” é o elogio da curiosidade e da persistência, ambas alimentadas pelos livros, pelo que uma leitura pode mudar realmente as nossas vidas. O que se lê é combustível para seguir em frente, para querer a mudança, para escapar quando a barra pesa, para ir ao fundo do fundo quando esta disposição se apresenta – e ela se apresenta muitas vezes.

Não passei metade do aperto financeiro de Faustini. Mas vivi todos os meus anos de formação cruzando a cidade de cima a baixo em ônibus, entre a Penha, onde morava, Niterói, onde estudava, o Centro de um primeiro emprego e dos sebos, a Zona Sul dos teatros, dos festivais de cinema. Quando o Rio não era tão perigoso – e isso há pouco mais de 20 anos – as madrugadas no ônibus pela Avenida Brasil eram uma rotina. Um assalto aqui e ali era o máximo de risco. E havia a curiosidade, e havia a descoberta de todo um mundo: a Livraria Brasileira, o FestRio, o angu do Gomes, a Cinemateca do MAM.

Esta é uma das melhores crônicas da cidade recente que li. Muito da emoção vem, é claro,da identificação. Mas outro tanto está na delicadeza, esta moeda em baixa, com que se testemunha a descoberta do mundo. Uma revelação sinuosa como as formas de amar esta cidade, de dizer “sim”, insisto, quando o dia-a-dia dela grita “não”.