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Beckett de shortinho

quinta-feira, março 4th, 2010

Seis meses separam o último post do blog destes dias que pretendem ser os primeiros do resto de sua vida. O acaso, com uma ajudinha deste que vos digita, quis nestes dois momentos Samuel Beckett como mote ou tema – o que não é natural mas, convenhamos, faz sentido em se tratando de espera e silêncio. E, afinal, a gente escreve é para isso mesmo, empurrar um pouco de sentido numa existência que não prima pela coerência.

É um velho vício meu achar escritor tão interessante quanto obra. E mais interessante ainda quando, em suas vidas, há aqueles hiatos em que muito pouco ou quase nada acontece. Como, aliás, na maior parte do tempo da vida de todo mundo, escritor ou não.

Por isso apaixonei-me por “Beckett” (Steidl) , livrinho com que François-Marie Banier homenageia o velho Sam. Com exceção do breve posfácio do autor e de um texto de Vivianne Forrester, não há legendas comentando as eloqüentes imagens que o fotógrafo fez de seu amigo em duas situações: de férias em Tanger em 1978 e caminhando pelas ruas de Paris em 1989.

A primeira série foi feita como um inusitado paparazzo literário: Banier passava temporadas em Tanger, Beckett também e, quando se deu conta de estar diante do autor de “Esperando Godot”, passou a flagrá-lo pelas ruas. E lá vai Beckett, com uma curta bermuda, óculos escuros, caminhando quase sempre solitário, às vezes tendo a seu lado a mulher, Suzanne. Em cores estouradas, as fotos desmontam as imagens posadas do autor, o olhar penetrante e enigmático de seus retratos mais conhecidos.

12442_165149383541_128132428541_2833176_1595838_nMas a vida quis que Beckett ficasse amigo de Banier. A segunda série, em PB, se assemelha também a um olhar indiscreto mas, como se sabe, foi concedida. E lá está Beckett, alquebrado mas elegante, caminhando com uma bengala nas ruas de Paris. Sentado num banco, parece indicar o caminho a uma mulher e uma criança. Cortes inusitados mostram detalhes de seus cabelo, ou apenas a mão com a bengala, como na capa do livro. Uma única imagem denuncia explicitamente a cumplicidade entre os dois: a última, um retrato comovente registrado dois meses antes da morte do escritor.

Banier e Beckett conversavam muito – na medida em que era possível conversar extensivamente com alguém como Beckett, pelo menos a julgar por seu biógrafo, James Knowlson (“Dammed to fame”), e por diversos outros depoimentos. Mas entendia que interpretá-lo era, antes de mais nada, afrontar o seu silêncio. E aí nada melhor mesmo do que uma boa imagem.

Beckett viveu espartanamente. Saiu da penúria quando finalmente foi publicado por Jêrome Lindon, o fundador das Éditions de Minuit. Consagrado e com um Prêmio Nobel no bolso, vivia num apartamento modesto, ao lado da prisão da Santé, numa das regiões mais sem graça de Paris. Os poucos que privaram de seu cotidiano descreviam um apartamento com poucos móveis, quase árido. Numa casa de campo passava temporadas sozinho.

“Tudo se passa entre minha mão e o papel”, disse ele a Charles Juliet ao explicar seu processo de criação. Reprovava o excesso de sentido transcendente com que interpretaram seu trabalho (“uma demência acadêmica”) e buscava sempre o difícil mundo do irreparavelmente concreto. Por isso as fotos de FMBanier são uma das expressões mais beckettianas que se pode esperar do próprio Beckett.