O Transatlântico

TORRES DE PAPEL

Só 14 anos depois da libertação dos campos de extermínio nazistas é que Auschwitz despontou na ficção dos EUA. Foi no romance Eva, de Meyer Levin, de 1959.  Confidencialmente, uma obrinha bem abobrinha,  bem mixuruca.
Já o 11 de setembro repercutiu quase instantaneamente na literatura americana. Isso apesar das proverbiais Cassandras escolásticas. Se Theodor W. Adorno tinha urubuzado que era impossível fazer poesia depois de Auschwitz (cacilda, e Paul Celan?), o scholar belga Kristiaan Versluys cometeu todo um alentado ensaio a perorar que a aniquilação das Torres Gêmeas pertence a categoria do “indizível”.

Aqui, ó! Nesses dez anos, só nos Estados Unidos foram publicados tantos romances tematizando o atentado terrorista que precisei dos dedos dos pés e das mãos para contá-los. Já constituem quase um gênero à parte. Pelos meus cálculos quadrúpedes, são mais de 30 títulos (se incluirmos o estupendo livro de Art Spielgman na categoria de romance, o que tomo a liberdade de fazer). E alguns muito meritórios.

Podemos arrumar tais obras, no maior capricho, em três categorias: 1) as que se ocupam do próprio dia dos ataques. 2) as que tratam das consequências imediatas 3) as que reciclam o tema.  A seguir, uma amostra grátis. Sempre que possível, citarei os títulos editados no Brasil. O que conta é a intenção, como falam lá no Inferno.-

OS FILHOS DO IMPERADOR, de Claire Messud. Um dos dois melhores romances inspirados pelo 11/9. Comédia de costumes sobre um espécime indefectivelmente nova-iorquino: o pseudo-intelectual (em inglês, um wannabe). Ela – que quer ser escritora mas sem disciplina nem consistência – fica encalacrada pelos atentados no apê do seu amante adúltero. A chave do livro é a calibragem entre a tragédia pública e o dissabor privado.-

DAYS OF AWE, de Hugh Nissenson. Como terá sido pular do 102º andar da Torre Norte, com as chamas queimando nossa bunda e a força da gravidade assinando a sentença de morte? A imaginação no poder.

- HOMEM EM QUEDA, de Don DeLillo – Semanas depois dos atentados, um artista performático, de terno e gravata, mergulha de outro arranha-céus de NY, mas em total segurança. Eis o dilema implícito: é possível criar arte a partir do horror, sem ser sensacionalista ou de mau gosto? DeLillo é a tal história: ame-o ou deixe-o. Tchau!

- EXTREMAMENTE ALTO E INCRIVELMENTE PERTO, de Jonathan Safran Foer. Uma criança de nove anos percorre NY para exumar emocionalmente o pai, que morreu nas Torres Gêmeas. O outro melhor romance sobre o tema. Evita o sentimentalismo mas não o sentimento.
- PELO MUNDO AFORA, de Julia Glass, de 2006. Protagonista desconcertante: uma confeiteira genial em um romance nada açucarado. Glass escreve como uma ourives. Apesar de ter embolsado o National Book Award, este livro foi subestimado.

- A BOA VIDA, de Jay McInerney. O autor continua tentando superar o seu sucesso de um quarto de século atrás, As Mil Luzes de Nova Iorque. Raymond Carver foi professor dele, mas o aluno cabulou várias aulas. O encontro de um casal de manhattanites (habitantes típicos da ilha) que solta a franga ao servir sopa no Ground Zero. Só que um grande romance não é canja (urgh!).

- A DISORDER PECULIAR TO THE COUNTRY, de Ken Kalfus. Convenhamos que é preciso ter peito: humor negro sobre o 11/9. Uma mulher acredita, não propriamente arrasada, que o marido morreu nos atentados. Depois, descobre que o desmancha-prazeres está vivinho da silva.

- RECONHECIMENTO DE PADRÕES, de William Gibson – O primeiro romance do manjado autor de ficção-científica situado no presente. Volta para o futuro, Bill!

- THE SUBMISSION, de Amy Waldman. Saiu já este ano. O enredo é inopinado: um muçulmano ganha o concurso (secreto) para o memorial no Ground Zero. E Manhattan roda a baiana. Alá, meu bom Alá.

- AS SOMBRAS DAS TORRES AUSENTES, de Art Spielgman – As memórias gráficas do autor, que testemunhou os atentados. Tão bom como Maus.

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5 Respostas para TORRES DE PAPEL

  1. Joaogabrieldelima says:

    Grande estreia! Benvindo Paulo Nogueira. Tah frio aih em Oslo?

  2. David Rego says:

    Puxa! gostei muito, vou acompanhar direto seu blog. Parabéns!

  3. Alexandre Gonçalves says:

    É o melhor blog da atualidade, não perco um post (pena que eles não são mais numerosos). Parabéns, Paulo Nogueira, pela inteligência, pelo brilhantismo e pela companhia. Abraços.

    • Alexandre Gonçalves says:

      Apenas uma correção no meu comentário, que segue de forma adequada abaixo:

      É o melhor blog da atualidade, não perco um post (pena que eles não são mais numerosos). Parabéns, Paulo Nogueira, pela inteligência e pelo brilhantismo, e muito obrigado pela sua sempre agradável companhia. Abraços.

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