O jornal britânico Guardian publicou a sua lista das 10 melhores músicas inspiradas por livros. Como o protagonista do romance Alta Fidelidade, de Nick Hornby, se tem uma coisa que eu adoro é lista (bom, e a Jennifer Connolly). Faço até lista de lista. Lista de supermercado trato como se fosse iluminura. Lista é um pouco como coleção, e, segundo Freud, colecionador nunca saiu da fase anal (é retenção). Que se dane. Venero aquele aforismo do Jô Soares, em jeito de classificado de jornal: “Colecionador de coleções compra coleção de coleções”.
Se as listas são idiossincráticas? Ô, se são. Se fossem conclusivas não tinham graça. Mas chega de conversa mole. Eis a lista do Guardian.
1) Killing an Arab, The Cure – Os versos de abertura evocam de cara o romance O Estrangeiro, de Albert Camus. O protagonista Mersaul, meio pinel por causa do calor argelino que esturrica seus miolos, assassina um árabe só porque lhe dá na veneta. Devido ao sentimento anti-islâmico que brotou depois do 11/9, quando a canção é executada em shows o líder da banda, Robert Smith, passou a cantar não Killing an Arab (Matar um Árabe), mas sim Kissing an Arab (Beijar um Árabe). Vá ser politicamente correto lá em Pindamonhangaba.
2) Blood and Thunder, Mastodon – Claro que o grupo por trás de um álbum (Leviathan) cujo conceito é baseado no romance Moby Dick só podia se chamar Mastodon. Dá até pra imaginar o destrambelhado capitão Ahab brandindo seu arpão para a baleia branca (quem canta seus mares espanca). A maior história de pescador de todos os tempos.
3) The Ghost of Tom Joad, Bruce Springsteen – Tom Joad, o herói de As Vinhas da Ira, de John Steinbeck, não é o único ectoplasma que baixa no terreiro do Boss. Também Woody Guthrie e sua The Ballad of Tom Joad, assim como o lirismo de Bob Dylan, dão aqui o ar da sua graça.
4) Wuthering Heights, de Kate Bush – Um tributo ao clássico classudo de Emily Bronte (O Morro dos Ventos Uivantes), a canção foi gravada em 1978 e, 33 anos depois, continua batendo um bolão. O histrionismo vocal do gogó esganiçado de Bush, nesta serenata de Cathy para seu amado Heathcliff, pode até soar ligeiramente ridículo. Mas, como podia ter dito uma certa pessoa, todas as canções de amor são ridículas.
5) Venus in Furs, de Velvet Underground – A Venus de Peles, novela de 1870 de Leopold von Sacher-Masoch (donde deriva o termo masoquismo), é musicada com uma elegância depravada. Graças a viola abrupta de John Cage e a guitarra extravagante de Lou Reed. A letra? “Prove no amor o chicote impiedoso/E agora sangre por mim.” Tou fora.
6) White Rabbit, de Jefferson Airplane – Hino da cultura freak dos anos 60 (claro que os dionisíacos anos 60 só podiam acabar em 69). Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, em versão psicodélica. Ou de como cair na toca do coelho branco pode ser uma viagem.
7) Company, de Philip Glass – Composta para uma teatralização do texto homônimo de Samuel Beckett, reflete os proverbiais cacoetes de Glass – cordas frias e élficas, acordes recorrentes. Um conselho nas manjadas palavras de Beckett: “Tente. Erre. Não importa. Tente de novo. Erre melhor.” Bom, importa um pouquinho.
Scentless Apprentice, de Nirvana -Kurt Cobain babava na gravata (que nunca usou) pelo romance O Perfume, do alemão Patrick Suskind. A história se desenrola no século 18, protagonizada por um assassino de virgens (hoje ele estaria enxugando gelo). Um canção bem mais visceral que nirvânica.
9) Atrocity Exhibition, de Joy Division – Baseada na obra do escritor JG Ballard, uma das mais hemorrágicas carnificinas literárias (por incrível que pareça, no bom sentido). Ian Curtis leu o livro depois de compor a letra. Ainda assim, evoca fielmente os calafrios do romance. A canção que abre o álbum Closer, um dos mais memoráveis gambitos da história do rock (ou de como matar cachorro a grito). Mais pungente que Vicente Celestino.
10) A Good Man Is Hard to Find, de Sufjan Stevens – Inspirada na obra-prima da autora americana Flannery O’Connor, o conto Um Homem Bom É Difícil de Encontrar, sobre um serial-killer que ceifa três gerações de uma mesma família. Apesar do tema, o som é doce e melodioso, quase como uma harpa (mas sem auréola, que não passa de mais um troço pra empregada arear).
Paulo, não consigo fazer lista de nada, muito menos coleções. Será que tenho algum problema?
Beijos da Mari
Talvez, Mari. Pessoalmente, acho que o primeiro passo para resolvermos os nossos problemas é fazer uma lista deles.
Se bem que, quem tem um sorriso como o teu, tem tudo!
Beijos!
Paulo, você é uma coleção de adoráveis gentilezas. Beijos!
ADOREI, NUNCA HAVIA PENSADO NESSA RELAÇÃO MUSICA / LIVRO. ESTAMOS ACOSTUMADOS COM MUSICA/FILME, É UMA VISÃO BEM LEGAL