O Transatlântico

eBOOKS e LIVROS

Ei, psst! Você tem acompanhado o debate sobre os livros eletrônicos versus livros impressos? Bom, eu também não. Mas só de aventar a hipótese já me deu um pretexto para um texto sobre livros. Grande novidade, grunhe o leitor, ingrato como sempre.

Pena que já não se façam livros como antigamente, diz o vovô, eventualmente pensando não no tomo tradicional, analógico, mas no Carlos Zéfiro propriamente dito (ou até na coleção de posters da borracharia). E, digo eu, pena que tampouco se façam leitores como antigamente (menos você, leitora, que é uma gracinha – aliás, qual é mesmo o seu email?). Bom, adiante, ante que a Bravo! fique brava! comigo. É que hoje estou naqueles dias, sabem? Vai ver que TPM de homem é ao contrário.

(A biblioteca de Montaigne, na torre do seu castelo perto de Bordeaux)

Bom, como dizem os ingleses, enough is enough! À pergunta acadêmica se preferia seus filhos ou sua bibilioteca, um dos meus ídolos intelectuais, Montaigne, confessou que perfilhava os volumes sem pensar duas vezes. (Isto é que é um pai filho da mãe.) Num ensaio supimpa sobre o livro, Montaigne observa que o conceito de “livro obrigatório” é uma baboseira. Confessa que, se acha a obra mais seca do que a língua do Zeca Pagodinho no dia seguinte, a chuta imediatamente para escanteio. Eu também. Claro que há títulos que exigem e merecem um esforço intelectual – ler não é como assistir televisão, uma atividade passiva, pavloviana. Implica uma operação mental introspectiva que corresponde a decifrar marquinhas pretas numa papel, atribuir-lhes um sentido e encadeá-las à próxima. Tudo automaticamente. Porém, o prazer intelectual é um fator indispensável. Claro que uma coisa é ter prazer intelectual com um Paulo Coelho. Outra coisa é ter prazer intelectual com um Paulo Nogueira (escolhi o nome que estava mais à mão, só para não perder o meu e o seu tempo, leitor).

Mas existem leitores mirabolantes. Abdul Kassem, o sábio Grão-Vizir da Pérsia, tinha uma biblioteca de 117 mil volumes. Nas viagens que fazia, como guerreiro e estadista do Islão, jamais se separava dos seus amados livros. Eram transportados por 400 camelos – treinados para marchar numa determinada sequência, para que os livros fossem mantidos em ordem albafética. Os bibliotecários que conduziam os camelos podiam encontrar imediatamente o livro requisitado pelo potentado (a menos que fosse Os Versículos Satânicos ou As Melhores Caricaturas de Maomé, que, graças a Alá, ainda não tinham sido cometidos).

(O livro Old King Cole, em cima de um palito de fósforo)

O menor livro do mundo é o que contém a história infantil Old King Cole. Publicado em março de 1985, tem as dimensões de 1mm por 1mm. Dizem que Lula já leu o prefácio inteirinho. Se você for uma pulga, será o seu livro de cabeceira.

(Redu: moça bonita não paga, mas também não leva!)

Responda rápido: onde fica a mais alta densidade de livrarias por metro quadrado? Que no Projac, que nada. Está em Redu, um povoado da Bélgica, que possui 24 livrarias para uma população de 300 habitantes. É que a localidade funciona como centro de peregrinação de bibliófilos.


(Mundo maravilhoso: enciclopedista é legal, mas amor também é bem gostoso)

Já a mais alta densidade de escritores por metro quadrado ficava em Peredelkino, uma vila a 15 km de Moscou, expressamente criada para autores paparicados pelo finado regime soviético. Foi lá que morreu Boris Pasternak, apesar de ter sido expulso da União dos Escritores Soviéticos, acusado de “fariseu, inimigo do povo e antipatriota”, por causa do romance Doutor Jivago. Outro recanto apinhado de escritores por aquelas bandas, antes da Perestroika e da Glasnot, eram umas ilhas não muito paradisíacas de um certo Arquipélago Gulag, onde estrebuchou o maior poeta russo do século passado, Ossip Mandelstam.

(Biblioteca de Alexandria: reconstituição)

Já a biblioteca mais famosa de todos os tempos era a de Alexandria, cujos livros foram queimados por ordem do Califa (este não tinha camelos, era ele próprio um camelo): “Se eles contradizem o Corão são heréticos, caso contrário são supérfluos.” O Califa, que tinha pinta de lider de torcida organizada, mandou distribuir os livros entre todas as saunas de Alexandria, para que fossem usados como combustível das estufas. O Califa, homofóbico como todos os obscurantistas, vociferou: “Essa coisa de leitura é para boiola, ao passo que sauna é pra macho!” Foram necessários seis meses para carbonizar todas aquelas páginas. Os clientes não sabiam, mas quando saíam da sauna tinham tomado um banho de cultura.

É bem verdade que grandes almas nunca escreveram uma linha. Cristo rabiscou uma única vez algumas palavras na areia (vai ver que era o jogo da velha). Pitágoras e Sócrates, nem uma vírgula. Buda também não. Em compensação, a matriz do livro é um exemplar do Corão escrito no Céu (não, não com aquelas avionetas que desenham coraçõezinhos com fumaça). E a Bíblia foi ditada pelo Espírito Santo. Quando indagado se acreditava que a Bíblia tinha sido composta em tais circunstâncias, Bernard Shaw respondeu: “Bom, todo livro que vale a pena ler foi escrito pelo espírito.”

Existe um Dia do Livro. Significativamente, é o Dia de São Judas Tadeu, o santo dos impossíveis e dos desesperados. Menos significativamente, esse santo é o padroeiro dos funcionários públicos (hum, ninguém pode negar que os funcionários público têm tempo para ler).

Atualmente lê-se pouco por várias razões. A leitura exige concentração e é um prazer solitário (aliás, como aquele outro prazer solitário que também exige concentração, a leitura igualmente pode ser feita no WC, unindo o útil ao agradável). E a concorrência aumentou muito. Em 1912, o inventor americano Thomas Alva Edison gabava-se: “Estou gastando mais do que ganho para organizar um conjunto de seis mil filmes destinados a ensinar os 19 milhões de crianças das escolas dos EUA a dispensarem completamente o livro.” É por essas e outras que os jovens de hoje não são como os de antigamente (e também por que os de antigamente cresceram e hoje são adultos).

Nos anos 70, difundiu-se a leitura dinâmica. Multiplicaram-se os cursos que ensinavam a ler um livro de 1500 páginas em 10 minutos, no caso de você estar com um pouquinho de pressa. Eu fiz um desses cursos e foi assim que li Os Sertões, de Euclides da Cunha. É sobre o Nordeste.

Um livro que nunca vingará é precisamente sobre como escrever bem. Pois escrever bem não se ensina. Apenas se aprende.

E agora, uns exemplos de bibliotecas e estantes bem idiossincráticas.

1) (Biblioteca mais circular que circulante)

2) Biblioteca àrvore – quebrando o galho

3) Biblioteca toca, para ratos de biblioteca

4) Biblioteca mesa, para os que devoram os livros

5) Biblioteca dolce far niente

6) BIBLIOTECA CAMA SUTRA

7) BIBLIOTECA PAC MAN

8) BIBLIOTECA PLANTANDO BANANEIRA

9) BIBLIOTECA DESPENCANDO (A INSUSTENTÁVEL LEVEZA ETC…)

10) BIBLIOTECA PARA OBRIGAR PREGUIÇOSOS A LER

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5 Respostas para eBOOKS e LIVROS

  1. EuvaldoXavier says:

    Não deixo de ler seus artigos mas, não tenho comentários para este. Aliás o único comentário seria sobre o que lhe deu no primeiro parágrafo mas, prefiro calar-me.

  2. Ananda Sampaio says:

    Adorei seu texto, primeiro q leio.
    Voltarei mais vezes… ri horrores!

  3. Alexandre Gonçalves says:

    Muito boa essa natural marca de bom humor que vc imprime aos textos. Deixa a leitura fluida, leve. Talvez seus textos devessem ser indicados para aqueles que não gostam de ler. Quem sabe não gerariam uma “coceirinha” nesse público. Abraços.

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