A máquina fotográfica é como o pai de um hipotético bebê de Paris Hilton: só os eunucos não são suspeitos da autoria. A própria palavra “câmera” é uma relíquia da “camera obscura”, que Leonardo da Vinci descreveu nos seus abstrusos cadernos. Também meteram a colher Daguerre, Talbot, Eastman. Este lançou em 1888 a sua primeira Kodak, nome escolhido por causa do K, “uma letra incisiva e forte nas duas extremidades” (em Praga, um certo Franz, segundo o qual a vida é uma praga que alguém nos rogou, assinaria em baixo).
(HENRI CARTIER-BRESSON ATÉ DEBAIXO D’ÁGUA)
Enquanto isso, em Paris, Nadar fotografava titãs culturais como Balzac, Baudelaire, Wagner, Sarah Bernhardt. E espumava: “A fotografia é uma arte que pode ser praticada por qualquer imbecil.”
(EZRA POUND, POR HCB: “AQUILO QUE LHE É MAIS PRECIOSO, NÃO LHE SERÁ ARREBATADO/O RESTO É ESCÓRIA”)
A foto sedimentou os cacoetes modernos: o instantâneo e o múltiplo (daí que Andy Warhol pegou a máquina e a transformou em pincel). E libertou os pintores do figurativismo. O que gerou diálogos inopinados na rua: “Oh, que gracinha de nenêm, o seu!” “Ah, mas isso não é nada! Você deveria ver a fotografia dele!” E Marlene Dietrich esculachou o seu fotógrafo: “O meu, qual é a sua? Há anos você me fazia parecer maravilhosa!” “Eu sei”, respondeu o coitado, com cara de tacho, “mas nessa época eu era muito mais novo”.
(GIACOMETTI POR HCB: ESCULTURAS ANORÉXICAS)
Um dos mais belos objetos do mundo é uma máquina fotográfica: a Leica, esgrimida de Kertész a Friedlander, de Cartier-Bresson a Sebastião Salgado. Nasceu porque o seu inventor, o alemão Oskar Barnack, sofria de asma e não era capaz de carregar os trambolhos existentes de um lado para o outro, pagando mico que nem burro de carga. Quando a Leica despontou, em 1925, uns paspalhões gozaram: parecia uma coisinha de necessaire de madame!
Aliando forma e função, ela lembrava era um design da Bauhaus. Enquanto uma Nikon ou uma Canon implicam um manual de instruções tipo Velho Testamento, a Leica abana o rabinho na palma da nossa mão, como um cachorrinho suplicando para ir dar uma volta ao quarteirão para soltar os cachorros. Cartier-Bresson, que comprou a sua em 1932, em Marselha, quando vegetava ociosamente como menino mau de boas famílias, ronronou: “Ela é a extensão ótica dos nossos olhos”. Se os olhos são a janela da alma, a Leica é o seu periscópio.
(L’AMOUR POR HCB: “CES’T SI BON”. MUITA CALMA NESSA HORA.)
Por um triz não se chamou ‘Lilliput’, mas alguém sensato desaconselhou Barnack. A série M é a das Leicas clássicas, sobretudo a M3 (18 mil reais a unidade). Com o foco e o cálculo da exposição manuais, não é para mariquinhas – nada de pilotos automáticos! A rainha Elisabete II tem uma M3 desde 1958, e fez questão de posar com ela num selo postal. Coisa do passado? Uma espécie de Flintstone das câmaras? Dobrem essas línguas! Ela até aderiu ao digital e tudo (depois de um dilema hamletiano, é verdade) Este ano, o site eBay sondou os internautas: “Qual o supremo gadget de todos os tempos?” O iPad em terceiro, o iPod em segundo e – tchan, tchan, tchan! – a Leica em primeiro. Consta que Steve Jobs convocou Deus para uma reunião de urgência – e a cara dele não prometia nada de bom (a de Jobs, não a de Deus).
(HCB: COMO SEMPRE, A ETERNIDADE)
Provou-se uma verdade universal. Eis outra, também na esfera fotográfica: se você realmente se parece com a fotografia de seu passaporte, então é porque está precisando de férias rapidinho.
Para fechar a loja hoje, proponho que contrastem as fotos de Cartier-Bresson que fui semeando pelo post, com as alinhadas abaixo. Estas não são fotos “artísticas”, ou pelo menos não foram ditadas por um imperativo estético. E são antigas, todas preto e branco. Na minha opinião, são assombrosas, muitas comoventes, muitas inquietantes, algumas tenebrosas. Sem frescuras, há nelas algo completamente rarefeito, como se não pertencessem a um passado relativamente próximo, mas pulsassem fora do tempo. Ou como disse André Bréton no Manifesto Surrealista: “Quem é? Ah, muito bem, mandem o infinito entrar.”
Vão lá olhar o passarinho (pode ser um rouxinol, ou um urubu).
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As fotos de Henri Cartier-Bresson são aquela maravilha etc. e tal. Mas as outras…UAU!Passei do estranhamento ao pavor, do deslumbre ao medo em poucos instantes. Nenhuma é inocente, embora aparentem candura. Parecem nem querer mostrar todo o horror que, de repente, escancaram diante de nossos olhos. Cartier-Bresson registrou a beleza, as demais fotos mostram o oposto. Juntas formam o humano.
Eu não diria melhor – o que é o maior elogio que posso fazer a um texto. Abraço!
Nossa!!! Sem respiração!!! Que Cartier, me perdoe, adoro suas fotos, maravilhosas, mas as outras, incríveis, surreais e sedutoras, ironicas, assustadoras, hilárias.
Queria ver esse texto impresso ou numa palestra com esta imagens gigantes.
Bravo! Paulo Nogueira