Há um provérbio, se não me engano macedônio, segundo o qual Deus não põe todos os ovos no mesmo cesto. Ou seja, não gasta todos os predicados do seu repertório na mesma criatura. Porém, em certos casos parece que o Todo-Poderoso acordou com mania de grandeza, ou numa de exibicionista, e fabricou o produto com todos os extras e acessórios topo de gama, tudo do bom e do melhor. Há escritores, por exemplo, que não só escreviam que era uma beleza como ostentavam uma fuselagem das mais aerodinâmicas. A formosura é fútil? Bom, Oscar Wilde observou que só as pessoas superficiais não julgam pelas aparências. Claro que o encanto anatômico é inexoravelmente perecível, enquanto o espírito pode se tornar cada vez mais irresistível, não obstante as pelancas chocalhando. Mas este post é sobre quando a natureza, o Altíssimo ou o acaso uniram o útil ao agradável. Não recomendo experiências amadorísticas, que sempre me lembram Bernard Shaw (este estava longe de ser um pão). Um dia, uma socialite lhe propôs: “Senhor Shaw, e se fizéssemos um bebê? Já imaginou que maravilha, ele sair com a minha beleza e a sua inteligência?” O autor ruminou um pouquinho e respondeu: “Pois é. Mas já imaginou se acontecesse precisamente o contrário?”
Eis uma lista oficiosa dos escritores mais atraentes de todos os tempos, não por ordem cronológica.
1) COLETTE – A sedução não se reduz a beleza física, mas ao carisma, atitude, estilo. Esta romancista francesa era uma força da natureza – e sai de baixo (ou continua em baixo, por que ela quase sempre preferia ficar por cima). Quase provocou um motim em Paris, quando subiu ao palco do Moulin Rouge para beijar uma corista na boca – e não foi selinho, mas tipo extração das amígdalas. A polícia foi chamada. Mais que moderna, parece nossa contemporânea. Comia sushi na virada do séc 19 para o 20, fez uma plástica facial na década de 20, contratou um acupunturista. Os hermeneutas ainda divergem se ela papou mais homens ou mulheres. Um fato é indiscutível: casou mais vezes que Henrique 8º, Liz Taylor e Fábio Jr. juntos.
2) ARTHUR RIMBAUD – Aos 17 anos, parecia O Pequeno Príncipe, ou Tadzo, o efebo pelo qual o protagonista de Morte em Veneza se apaixona mortalmente. Com uma diferença, com aquela idade, já tinha escrito todas as suas obras-primas. Deu uma banana para a literatura, levou um tiro do namorado Verlaine (outro grande poeta, que deixou a família por Rimbaud), traficou armas e escravos na África, sofreu uma gangrena que lhe custou uma perna e morreu classificando seus textos como “titica de galinha”.
3) RUPERT BROOKE – Paparicado pelos seus poemas sentimentais e pela sua belezura, que levou Yeats (que não era consumidor) a descrevê-lo como “o rapaz mais bonito da Inglaterra”. Quando morreu, aos 28 anos, esfacelado numa trincheira, virou um símbolo da perda trágica de grandes talentos na I Guerra Mundial.
4) Sylvia Plath – Famosa pela depressão que a levou ao suicídio, nestas fotos ela mostra seu lado esfuziante e ensolarado, de quem está catando conchinha na vida. Dá uma dó…. Recordo-me dos versas dela: If the moon smiled, she would resemble you. Na manhã de 11 de fevereiro de 1963, Sylvia veda completamente com toalhas molhadas a porta do quarto dos filhos adormecidos, deixando antes leite e pão perto deles. Abre-lhes também a janela, embora lá fora estivesse nevando. Na cozinha, ligou o gás e enfiou a cabeça no forno. Tinha 31 anos. O pai das crianças, o admirável poeta Ted Hughes, teria dito que foi a única coisa decente que ela fez no fogão em todos os anos de casados. Há dois anos, um dos filhos de Sylvia, se enforcou em sua casa. Não é uma história bonita, ao contrário dos poemas de Plath e de quem os escreveu.
5) PAUL AUSTER – Não só o visual, mas a pose de que se exploda. Hoje está com mais olheiras e papos oftalmológicos do que o Nofesratu.
6) MARY SHELLEY – OK, neste retrato ela está fazendo das tripas coração para parecer recatada (apesar das fundamentais saboneteiras). No entanto, todos os testemunhos (incluindo o do marido, o poeta Shelley, e o insuspeito Lord Byron) juram de pé junto que, sob os vestidos tipo lona de circo, fervilhava um Vesúvio com lava e tudo. Num concurso entre os três para ver quem inventava a história mais fascinante, Mary ganhou com uma perna às costas (ops!). A narrativa dela era Frankenstein, escrita aos 18 anos (os críticos resmungam que foi escrita nas coxas – ops de novo!).
7) ERNEST HEMINGWAY – Ele era assim quando ganhou uma medalha por bravura na Itália, durante a I Guerra Mundial. Apaixonou-se pela enfermeira, claro. Depois passou o resto da vida tentando se autodestruir, para provar que era mesmo um macho alfa.
(AQUI, HEMINGWAY JÁ ESTAVA QUASE ACABANDO DE TRUCIDAR A SI MESMO)
Como as inúmeras quedas de avião, caçadas, pescarias, touradas, lutas de boxe e alambiques pelo gargalo não fizeram o serviço, acabou por decorar uma parede com os seus miolos. Mas aí já era um caco.
J.K. ROWLING – Não ia incluí-la na lista, mas aquele decote e um arzinho de Meryl Streep devassa… Haja varinha mágica (perdão, juro que nunca mais falo uma baixaria destas!). Mas que eu gostaria que ela subisse no cabo da minha vassoura e fôssemos para onde Valdemort não enchesse o saco, isso gostaria. Que Kubistcheck que nada, isto é que é JK.
9) CLARICE LISPECTOR - O tradutor americano dela, depois de encontrá-la pessoalmente disse que ela “se parecia com Marlene Dietrich e escrevia como Virginia Woolf.” Sorte de quem esteve perto daquele coração selvagem.
10) JAMES FRANCO – Esta é uma colher de chá para as ninfetas. Franco acabou de assinar um contrato com a Amazon para o lançamento de seu primeiro romance, em 2013. O convite veio depois de o ator de 127 HORAS receber uma saraivada de tapinhas nas costas pelo volume de contos PALO ALTO, lançado em 2011. Não há detalhes sobre o valor do contrato ou se o romance também sairá em formato físico. Obviamente, formato físico é a especialidade da casa.
11) ZADIE SMITH – Ex-bailarina, Zadie é certamente a primeira pessoa em que um bibliófilo pensa quando conjuga as palavras “escritora”, “talento” e “gostosura.” Bom, pelo menos é o que acontece comigo. Eu disse ex-bailarina? Ei, Zadie, estão tocando a nossa música.
E pronto. Ah, ao cair do pano uma notinha pessoal. A minha filha de dez anos acabou de me perguntar se não vou me incluir na lista. Primeiro, devaneei, com um ar enlevado: “Ah, o amor é cego como uma toupeira.” Depois caiu a ficha: ela estava sendo irônica. Afinal, tem a quem puxar.











Realmente me divertí muito com todos os seus comentários. Mais uma vez você acertou em cheio. Parabéns!
Rimbaud e Hemingway compartilharem alguma lista com J.K. Rowling? Sinceramente… nem de brincadeira…
Eduardo, vou chamar o Valdemort e vc vai ver o que é bom pra tosse. O espírito da coisa, Edu, o espírito da coisa!