Um dos clichês cinéfilos professa que “grandes livros dão maus filmes”. Besteira. Claro que quando um romance é genial, nada se compara em termos narrativos. Não tem pra ninguém – cinema, teatro e o escambau. No entanto, houve muitos filmes que foram melhores do que os livros nos quais se basearam, incluindo nestes últimos alguns bem legais.
Um belo dia, o diretor Howard Hawks disse ao compincha Ernest Hemingway que conseguiria rodar uma fita do cacete a partir da obra mais fajuta do escritor. Hemingway comprou a aposta, indicando Ter ou Não Ter como o seu título mais mixuruco. Hawks mandou bala. O resultado (Uma Aventura na Martinica) não foi lá essas coisas, memorável sobretudo por proporcionar o primeiro encontro entre Bogart e Bacall. Ele (que já tinha sido casado quatro vezes) chamava-a de “baby”, porque ela era 25 anos mais nova. Foram felizes pra chuchu.
Hawks povoa outro episódio divertido das relações literatura e cinema. Ele era muito amigo do romancista William Faulkner e do ator Clark Gable, que não se conheciam. Gable, um cara bacana e já um xodó planetário por O Vento Levou, não era propriamente culto. E Faulkner era um bicho do mato. Um belo dia (naquela época havia muitos belos dias), Hawks convidou os dois para uma caçada. No caminho, conversa vai conversa vem, Gable, boa gente, virou para Faulkner (já prêmio Nobel da Literatura) e perguntou: “E aí, Mr. Faulkner? O senhor escreve?” O autor engoliu em seco e resmungou: “É. E senhor, Mr. Gable, o que é que faz na vida?”
Abaixo, uma lista de 13 filmes que melhoraram os livros nos quais se inspiraram. (Leitor implicante: é só uma amostra, não precisa pegar no meu pé.)
1) Os Homens Que Não Amavam As Mulheres – Não vi a adaptação sueca do best-seller do finado Stieg Larsson, mas fonte segura me garantiu que cumpre. Porém, a versão de David Fincher arrebenta: narrativa calibradíssima (no meio do filme, eu estava louco para fazer xixi, mas optei por dar um nó nas pernas), densa como um buraco negro. Até o canastrão Daniel Craig, incapaz de uma expressão que não seja o rigor mortis, vende seu peixe direitinho. Todavia, quem açambarca o filme é a caloura Rooney Mara, na pele da hacker mais crispada, belicosa e sexy desde a invenção do chip. Confesso que ela balançou o meu coreto. Nada a ver a tradução do título, paráfrase bocó de uma obra-prima de Truffaut.
2) A Laranja Mecânica – A distopia de Anthony Burgess não dá moleza para o leitor diletante: os personagens do romance, habitantes de uma Inglaterra futurista e irreconhecível, tagarelam numa língua insólita, inspirado no Inglês arcaico e eriçado de neologismos. Edições recentes até vêm com um robusto glossário. Já o filme de Stanley Kubrick é uma comédia negra arrepiante, com sequências horrivelmente inesquecíveis – como o estupro grupal ao som de Singin’ In The Rain.
3) Drive – O livro de James Sallis é um “noir” canônico, de traição e vingança sanguinária, numa prosa espartana e desidratada, de apenas 120 páginas. O diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn pegou a bola e a metamorfoseou num conto de fadas contemporâneo: um cara meio desligado e num mato sem cachorro (o magistral Ryan Golsing) salva a pele de uma donzela coisinha fofa em perigo. Tudo banhado por uma trilha sonora fenomenal (anos 80) e rajadas de ultra-violência. Drive ficou chupando o dedo nas indicações para o Oscar. Por essa e por outras, só vou acreditar em prêmios no dia em que eu ganhar um.
4) Coração Selvagem – Caro leitor, se você é escritor e David Lynch decidir filmar o seu livro, prepare-se para ser avassalado. Pode ir pegando o boné. Mesmo quando o resultado não tem pé nem cabeça, Lynch enfeitiça. Aqui, ele transfigura uma história de amor convencional de Barry Gifford, entre a seráfica lasciva Lula (Laura Dern aos pinotes no colchão: “Estou mais quente do que o asfalto do Arizona!”) e o pastiche de Elvis Presley Sailor numa espécie de O Mágico de Oz satânico e visceral. Tesão e tensão.
5) O Último dos Moicanos – Fenimore Cooper, um dos pioneiros da literatura dos EUA, foi um José de Alencar piorado – este romance é o seu O Guarani. O subestimado Michael Mann deu uma banana para o épico, realçando a história de amor entre o bom selvagem (um soberbo e ainda gostosão Daniel Day-Lewis) e a respectiva cara-pálida (Madeleine Stowe no zênite do seu esplendor). Chora, coração!
6) O Falcão Maltês – Claro que o romance de Dashiel Hammet, um dos clássicos do policial hard-boiled, já trazia os ingredientes: um detetive impuro e duro, a “femme fatale”, um mundo corrupto e fatalista. Mas John Huston cozinhou um banquete, com Bogart (Sam Spade) como o prato principal – estava ungido o anti-herói icônico, de arma infalível e alma falível.
7) O Paciente Inglês – O romance de Michael Ondaatje é um prodígio estilístico – a descrição das modalidades de ventos do deserto, logo no início, assombra pela imagística arrebatadora mas nem um pingo maneirista. Só que Anthony Mingella turbinou o visual exótico e a química funesta entre o casal de protagonistas – e acertou na loteria. Bota romântico nisso.
Trainspotting – Irving Welsh é o ás da literatura narcotizada e pra lá de Bagdá, sempre viajando na maionese. Vira e mexe ele exagera no lixão. Mas este é seu melhor livro, dividido em várias seções com narradores alternativos, cada um com seu timbre inconfundível. A versão de Danny Boyle não fica atrás, com uma fluência de escorregador de parque aquático e um humor negro de rachar o bico.
9) Bonequinha de Luxo – Certo, Blake Edwards adoçou e pasteurizou a narrativa muito mais sombria de Truman Capote, incluindo uma baita injeção de testosterona no papel de George Peppard, no romance um gay meio enrustido. Contudo, a interpretação de Audrey Hepburn como Holly Golightly, uma dondoca receosa de compromissos românticos, confere vulnerabilidade e “gravitas” a uma personagem originalmente muito mais unidimensional. Um sortilégio.
10) Rebeca – Foi a primeira produção americana de Hitchcock, e seu único Oscar de melhor filme. O livro de Daphne Du Maurier (de quem Hitch também adaptou Os Pássaros) já era meio gótico e patibular. O diretor inglês, com sua proverbial perversidade deliciosa e sutilmente depravada, tornou-o um breu retinto. Hollywood nunca mais caçou fantasmas com tanta destreza.
11) Blade Runner – Philip K. Dick é um dos mais visionários autores de ficção científica, com uma prosa resplandecente e vívidos cenários de sociedades futuristas – uma mão na roda para a plástica cinematográfica. Esta saga noir de Ridley Scott (sobre um policial de Los Angeles que caça replicantes, incluindo uma pela qual ele cai de quatro) corresponde aquilo a que os saxônicos chamam de um “eyegasm” – um orgasmo visual. De lambuja, a ergonômica Sean Young nunca esteve tão nutritiva.
12) E o Vento Levou – Eis a quintessência dos épicos hollywoodianos, maiores-do-que-a-vida. O ciclópico romance (mais de 1000 páginas) de Margaret Mitchell não dá nem para o cheiro. Há uma Biblioteca de Alexandria sobre as filmagens – mas hoje reina o consenso de que a autoria do filme deve ser atribuída ao produtor Selznick (até F. Scott Fitzgerald deu uma mãozinha nos diálogos). Três horas e meia de tudo a que temos direito na sétima arte (e sem trambiques de computador), com Rhett e Scarlett botando pra quebrar.
13) Apocalypse Now – OK, é quase uma blasfêmia relativizar O Coração das Trevas, novela de Joseph Conrad sobre o genocídio no Congo belga, uma das obras mais complexas da história da literatura. Porém, Coppola arrasa ao mudar o contexto para a Guerra do Vietnã – e ao extrapolar a dimensão do Mal como inerente à condição humana. O clímax é a meteórica mas dantesca aparição de Marlon Brando como o Coronel Kurtz, rodeado de tribalistas lobotomizados.
14) O Poderoso Chefão – Há mil e um motivos para o filme de Coppola pontificar como uma das obras-primas do cinema: direção elegante, interpretações fenomenais, aquele cortejo quase barroco de assassinatos antológicos. O romance de Mario Puzo é muito mais balofo – o próprio Puzo e Coppola trabalharam no roteiro e operaram lipoaspirações. Daí que quando, no livro, Vito Corleone cicia: “Vou fazer uma proposta que ele não poderá recusar”, a frase pareça legal e ponto final. No filme, proferida por Marlon Brando, ela ressoa como a inexorabilidade do próprio Destino.
Adorei isto. Concordo em muitos casos e acrescentaria Homo Faber (Voyager)
Boa dica, Monica.
baita post! Não há duvidas de que o filme Bonequinha de Luxo foi muito mais consagrado do que o livro… Poderoso Chefão, nem se fala!
só uma notinha: a tradução do título Os Homens Que Não Amavam As Mulheres é absolutamente correta. The Girl With The Dragon Tattoo é que está absolutamente errado. ; )
Obrigado pela força, Clara. Mas quando você diz que o título do filme do Fincher está certo, fiquei intrigado. Ora, mesmo que o título original do livro de Stieg Larsson seja Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (confesso que o meu sueco está um pouco enferrujado), o do longa não é…
Volte sempre!
A Clara disse justamente isso: a tradução para o português seguiu a tradução do livro, que está mais do que correta (Os Homens Que Não Amavam As Mulheres). Até porque, misoginia é um tema central no livro, que, discordo do autor da postagem, é muito melhor que as duas versões cinematográficas, a sueca e a de Fincher. Aliás, Daniel Craig, pelo menos em minha opinião, foi uma escolha equivocada. Ele é 007 demais, achei que não combinou com o filme. Talvez os americanos tenham optado por esse título estranho justamente para enfatizar o papel de Lisbeth Salander (tanto no livro quanto no filme, já que a hacker vai ganhando pouco terreno e se torna a protagonista a partir da segunda parte da série).
De resto, muito bacana a lista. E listas são sempre “polêmicas”, pois nunca agradam a todo mundo – apesar de suas escolhas terem sido muito boas!
Abraços…
Mas daí pra dizer que é uma “paráfrase bocó”… É o título original do livro, ué. Dessa vez (e só dessa), não fui culpa dos tradutores.
Vim meter o meu bedelho onde nao fui chamada, mas a questao eh que o filme do Fincher so tem esse nome porque copiou o titulo do livro em ingles. E o titulo do livro em ingles nao seguiu o titulo do livro original. O livro foi lancado no Brasil com o nome “original” e nao faria sentido a distribuidora do filme lancar a adaptacao cinematografica de um livro tao popular com o titulo de “A garota com a tatuagem de dragao” so porque a editora e a produtora americana decidiram que seria um titulo melhor. O problema no seu texto porem nao foi discordar da traducao, mas falar que foi “nada a ver” e “boco”. De qualquer forma gostei da lista. E eu, que comprei os livro da trilogia “Millenium” mas ainda nao os li e estava esperando terminar a leitura para ver os filmes tenho lido criticas tao boas que estou quase passando o carro na frente dos bois e saindo correndo pra ver o primeiro filme antes que saia de cartaz.
Se o filme O Paciente Inglês é melhor que o livro já tenho um remédio pras minhas noites de insônia. Ô filme chato!
Faltou Tropa de Elite.
Blade Runner melhor do que o livro? Bebeu, foi? O livro é absolutamente superior, sem comparação com o filme (até porque o filme é praticamente outra história, levemente inspirada na obra original, e bastante funcional para um filme de ação).
Curiosa a lista. É interessante ver q ser absolutamente fiel ao livro não garante necessariamente um bom filme. Como vc disse, Apocalipse now é exemplo disso. Amo o filme e tbm adoro O coração das trevas. Não posso dizer se um é melhor que o outro. Mas se Coppola fosse totalmente fiel ao romance de Conrad, acho que o filme não teria sido a obra prima que é.
http://7em1.wordpress.com/
Um filme que ficou bem melhor que o livro, foi “o menino do pijama listrado” ( John Boyne, autor do livro ) . O filme não é nenhum clássico , mas é bem interessante, já o livro…argh!
The Godfather, para mim, é o melhor filme de todos os tempos; contudo, entendo que a obra de Mario Puzo é mais detalhada, tratando de pontos que a película não se aprofunda. A vida de Sinatra, exposta pelo “afilhado” Johnny Fontaine, passa em branco para aquele que não lê o livro.
caro,
mais um ótimo texto. você está muito bem, parabéns. vou continuar te lendo nas 700 revistas que escreve. só não sei se é correto chamar de falível uma alma que deixa a namorada fritar na cadeira elétrica, como faz o sam spade…
abraço