Há dois anos ouvi Leonard Cohen cantar em Lisboa. É um canto mais declamativo do que propriamente melódico, e quase sempre com coro para dar um empurrãozinho incrementado. A voz dele é tão voluntarista e duvidosa – quase de taquara rachada – quanto as do Chico e do Tom. Há um entrevista supimpa do Leo no YouTube (vídeo abaixo): um ancião alquebrado, mas sábio e estóico.
Cohen dedicou-se à música trintão, já entronizado como autor de admiráveis romances e poesia. Como poeta, lembra Lorca, pela imagística frondosa e sensual. Na minha modesta opinião de sumidade no assunto, o maior lírico pop, incluindo Dylan. Um típico literato judeu de Montreal, como Saul Bellow.
(Going Home, do novo álbum Old Ideas: “Adoro falar com Leonard/Ele é um esportista e um pastor/Um filho da mãe preguiçoso/De terno.”)
Mas não vendia livros o suficiente (onde é que já vi isso antes? Ô, mundo hodierno!) e socorreu-se das canções. Recorda o percurso de Vinicius de Moraes, do Parnaso para a cultura de massas. Um monograma de Cohen é o lirismo amargo e pungente, por vezes depressivo, mas nunca piegas ou chorão (a minha amiga Cláudia tem razão: mulher não gosta de homem chorão; o que não significa, suponho, que gostem de casca-grossa). Outro emblema dele é o universalismo – talvez por ter vivido na ilha de Hydra, na Grécia, com a sua então mulher Marianne (sim, da obra-prima “Marianne”). E o terceiro, as mulheres propriamente ditas. É um homme aux femmes.
(Bill Prichard: homenagem a Leo)
Chegado numa birita? Claro que ele sabe que as mágoas já aprenderam a nadar. Mas também conhece a tradição dos marinheiros da Grécia clássica, que não aprendiam a nadar por que, se soubessem dar umas braçadas e o navio naufragasse, demorariam muito mais tempo a morrer, prolongando a agonia…
Aos 77 anos, ele tinha pendurado o gogó, mas levou um calote de uma ex-namorada, que era sua agente e afanou-o anos a fio, enquanto Cohen desencanava a sua alma num mosteiro budista (ex é fogo, torcida brasileira – todas periguetes, bobeou, dançou). E aí o aedo teve de voltar a ralar e vender de novo o seu peixe na ágora (esturjão, matriz do caviar).
No YouTube: “Não é possível prever o amor, pois o coração está sempre abrindo e fechando. Depois de um certo período de tempo, os fracassos serão significativos. A arena do amor é perigosa, mas ninguém vive sem ele. Podemos nos abster por covardia, julgando que será sempre um inferno – mas também nesse caso podemos estar redondamente enganados. E aí perdemos o paraíso.”
Os jovens com miolos e espírito reverenciam-no – magistral a versão de Madeleine Peyroux de “Dance me To the End of Love”
Na empolgante entrevista acima, Cohen cita Tenesse Williams: “A vida é uma peça até que bem encenada, exceto pelo terceiro ato”. É, nadamos, nadamos e morremos na praia. Sumimos do mapa do tesouro. Mas, como ele realça, “o problema não é tanto a morte, mas suas preliminares”. Mais explicitamente ainda, no seu humor sarcástico: “Agora me dói a beça nos lugares onde antes costumava ter tanto prazer…”
Com Leonard Cohen, até dá gosto estar na fossa – ele torna o masoquismo saudável e viçoso, quase sarado. Mas dar a volta por cima que ele deu – quero ver quem dava.
caro,
ótimo texto. para retribuir, um verso de going home (tradução do tárik de souza)que também vale a pena: amo falar com Leonard/ele diz o que eu lhe digo/mesmo que não seja bem-vindo/ele não tem a liberdade da recusa.
abraço