O Transatlântico

A ALTA COSTURA DÁ PANO PARA MANGAS

Não confundo alta-costura com alta cultura: um trapinho sublime não equivale a um romance genial. Mas a produção de roupas é uma arte, e a mais antiga. E também a mais efêmera, como demonstra simbolicamente a sua primeira expressão, a “body painting”, anterior às pinturas rupestres. Ora, uma mulher bem vestida é quase tão irresistível como uma bem despida (claro que há quem fique bonita com tudo – e principalmente sem nada). Porém, existe uma coisa chamada gosto: violeta será uma boa cor para os cabelos no dia em que morena for uma boa cor para uma flor. Para não falar na utilidade: os saltos altos foram inventados por uma espertalhona que até então só tinha sido beijada na testa.
Dior revolucionou a moda em 1947 – e foi a estrela da exposição “The Golden Age of Couture”, no Victoria & Albert Museum, em Londres. Logo na primeira coleção, introduziu aquilo a que a editora da “Harper’s Bazaar”, Carmel Snow, ungiu como o “new look”. Com as saias em forma de sino e as cinturas de vespa, exumou o glamour e a feminilidade, depois da deprê macilenta e patibular da II Guerra Mundial.
Dior, como a maior parte dos estilistas, era bicha até à raiz dos cabelos. Quando um rapaz resistiu aos seus avanços, alegando ser hetero, o costureiro ficou boquiaberto: “Mas para quê raio você precisa de uma mulher, se já nasceu?
Já Valentino foi aquele que tornou as mulheres ainda mais tentadoras aos olhos masculinos. OK, existem feias potáveis. E é verdade que há numerosas beldades em que a coisa mais profunda é o sono. Mas a beleza é comovente, até por ser tão transitória. Como os boxers que Calvin Klein criou, com o seu logotipo em letras garrafais no elástico da cintura. Pausa para verificar se estou usando boxers CK (não, por acaso não). Certo, o marketing foi uma mão na roda. O primeiro modelo da primeira campanha CK foi o atleta olímpico Tom Hintnaus, fotografado pelo lendário Bruce Weber. A 30 euros e 60 reais o kit de 3 peças, a função da roupa interior CK não é apregoar luxo, e sim estilo. Assim como ele reciclou aquele epigrama gay de Dior: “Para o meu grande constrangimento, vim ao mundo na cama com uma mulher”.


(DIOR MEDINDO CAUTELOSAMENTE UMA PERNOCA FEMININA)

Já Gabrielle “Coco” Chanel (que ainda por cima era mais bela do que as top models de outrora e de agora) calcificou dois temas vitais da história do século XX: a capacidade de as artes aplicadas influenciarem a alta cultura, e a fraqueza da criatividade sob pressão moral. Entre muitas outras coisas, Chanel inventou o prêt-à-porter – antes dela, a alta moda era um privilégio exclusivo dos muito privilegiados. Com a fortuna que embolsou, patrocinou a melhor vanguarda, assinando cheques em branco para Diaghlev e Stravinsky, entre tantos.
Mas pisou na bola ao viajar na maionese: durante a Ocupação de Paris pelas tropas de Hitler, aceitou a “proteção” de um oficial nazista (por quem, ao que parece, estava realmente enamorada). Quando os Aliados retomaram a cidade, ela escapou por uma triz, se mandando para a Suíça.


(CHANEL: MAIS BELA DO QUE AS TOP MODELS DE ANTES E DE AGORA)

Por muito menos, a grande actriz Arletty vegetou na prateleira durante dois anos, cheios de 24 meses inteirinhos, e não podia por os pés fora de casa. Se fosse apanhada pelos comités da l’Épuration, estes tentariam abotoar-lhe o paletó. Com toda a certeza, Chanel inauguraria um novo estilo de penteado chique: a cabeça rapada (castigo aplicado a centenas, se não milhares, de francesas que dormiram com os invasores).


(DOCUMENTÁRIOZINHO SOBRE CHANEL, QUE ERA COCO MAS NÃO COCÔ)

Por fim, as autoridades concederam-lhe autorização para regressar à base. Caíra a ficha e o governo francês compreendera que a tesoura dela era um tesouro nacional. A exangue economia da França não podia dispensar a alta costura, muito menos quando o providencial Citroen DS19 ainda estava sendo desenhado. (Já na alta cultura podiam dar um pé na bunda: entre os escritores, Robert Brasilach foi fuzilado, Drieu de la Rochelle se matou e Céline só voltou muito mais tarde.) Por falar em escritores, Coco Chanel tinha sempre um poeta à tiracolo, para lhe cunhar aforismos de que ela em seguida se apropriava na maior cara de pau. Como este, que “perfilhou” de Pierre Reverdy: “O luxo é uma necessidade quando a necessidade acaba.” Voilà.
PS: o que é brega e o que é chique? Brega é perguntar o que é chique. E chique é não responder.

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