O Transatlântico

É DE PEQUENINO QUE SE TORCE O PEPINO

Nunca morri de amores pelos gênios precoces, talvez por não ter sido um (antes tarde que nunca). Subscrevia o tal epigrama: “Menino prodígio é aquele que toca piano aos 8 anos exatamente como tocará aos 80.” Aliás, na música e na poesia a precocidade parece mais razoável do que na minha praia, a prosa. São raríssimos os grandes romances assinados por dentes de leite – quem sabe devido à dimensão polifônica da estrutura e aos calos existenciais requeridos. Já na poesia do Romantismo, os poetas que não tinham a decência de morrer antes dos 30 anos (de preferência, tuberculosos) eram considerados reles charlatães.
Eis uma listinha dos raros ases literários que foram precoces – mas não prematuros…


(Entrevista de Borges ao velhinho mas esplêndido programa Fondo)


JORGE LUÍS BORGES
– Quando ainda chupava pirulito, Jorginho foi apresentado à biblioteca de seu pai, com mais de mil volumes – naquilo que o labiríntico autor descreveu como “o principal acontecimento da minha vida.” O primeiro romance que o pirralho devorou foi Huckleberry Finn, de Mark Twain. Seguiram-se Dickens, Cervantes, Lewis Carroll. Outro impacto no fedelho foram os confrades boêmios do pai, entre os quais o poeta Macedônio Fernandez. Em 1909, o menino de 10 anos tirou uma meleca do nariz, deu um piparote nela e publicou sua primeira obra, no jornal El Pais, de Buenos Aires. Era uma tradução de O Príncipe Feliz, de Oscar Wilde. Num mal-entendido precocemente borgeano, a tradução foi atribuída ao papai…


(Rimbaud na versão Leonard Di Caprio)
RIMBAUD – Escreveu suas obras completas quando não passava de um lolito. Aos 20 anos já tinha pendurado as chuteiras, desertando da literatura e se dedicando a atividades prosaicamente rocambolescas como o tráfico de armas. Classificado por Victor Hugo como “um Shakespeare em botão”, se mandou da jeca Charlesville, nos grotões franceses, aos 16 aninhos.
Pode ter participado da Comuna de Paris, em 1871, e representou-a no poema L’Orgie Parisienne. E pode também (façamos figas que não) ter sido violentado por soldados bêbados da Comuna. No mesmo ano, conheceu o poeta Paul Verlaine, que caiu de quatro (em sentido literal e figurado) por ele.
Verlaine escanteou a mulher e o filho pequeno por causa do enfant terrible. Em Londres, não tinham um tostão furado. Rimbaud vegetava no Museu Britânico, onde “calor, luz e tinta eram de graça.” Regado a absinto e haxixe, o caldo entornou em Bruxelas: Verlaine cuspiu fogo e tascou dois tiros no namorado. Felizmente, estava tão de porre que fez pontaria na alucinação, e só acertou o pulso do original (talvez por este estar desmunhecando). Verlaine, a quem Rimbaud chamava de “vierge folle” (virgem louca), amargou dois anos de prisão.
Rimbaud picou a mula, mundo afora. Esteve em Java (onde existe uma placa de mármore atestando que passou lá um dia), Chipre, Etiópia. Voltou à França para morrer em Marselha, de câncer, aos 37 anos. A literatura apaixonara-se por ele, mas não fora correspondida – apenas ficaram.


(Sontag, entreolhando)
SUSAN SONTAG – Esta entra na lista mais para encher linguiça, pois é de outro pedigree. Chamou a infância de “uma perda de tempo”, e cometeu um infanticídio passando a meninice a ler Poe, Schopenhauer e o escambau, em vez de brincar de boneca e de casinha. Como declarou em 1995 a Paris Review: “Consumi a minha infância num delírio de exaltação literária”. Aos nove, desatou a imprimir um jornal mensal, que povoava com contos, poemas e peças – e vendia aos vizinhos incautos o angu de caroço. No seu diário, anotou aos 14 anos: 1) Deus não existe, nem vida após a morte. 2) A única diferença entre os seres humanos é a inteligência. 3) A coisa mais desejável do mundo é a fidelidade a si mesmo. Camille Paglia foi sua idólatra, depois apóstata e por fim iconoclasta.
A propósito do ponto 1), prefiro a confissão de Garcia Marquez: “Deus não existe, mas tenho medo Dele.”


(Clarice: que tetéia!)
CLARICE LISPECTOR – Segundo o biógrafo Ben Moser (Why This World), ela era uma imitadora incomparável: aos 4 anos, erigira em ciência a mimese da professora do jardim de infância. Nascida Haia Pinkhasovna, veio ao mundo na Ucrânia, mas proclamava-se brasileira: “Naquela terra eu literalmente nunca pisei: fui carregada de colo.” Criativa e mandona, começou a escrever muito antes de usar sutiã. Mas suas prosas eram sempre esnobadas pelo suplemento infantil do Diário de Pernambuco, pois jamais principiavam com o protocolar “Era uma vez...” Também se identificava precocemente com a bicharada, e passava horas no quintal confraternizando com as galinhas, pois “compreendia-as muito bem”. Muito mais tarde, alinhavou um conto intitulado “O Ovo e a Galinha”, que leu no Primeiro Congresso Mundial de Bruxaria, em Cali, Colombia, do qual inopinadamente aceitou participar.
Apaixonou-se por Lúcio Cardoso, que não lhe correspondeu por que jogava em outro time, mas de quem acabou amiga íntima. Muito mais chato foi isto: Clarice se tornou uma das maiores vítimas da atribuição de frases fajutas, delicodoces e cafonas na internet (o Facebook está infestado), que obviamente nunca escreveu (basta ter lido uma vírgula dela para perceber).


(DFW: triste Tristão)

DAVID FOSTER WALLACE – Há 500 anos a Cia das Letras (que já editou Breve Encontro com Homens Hediondos) anda prometendo o suprassumo do cara, Infinite Jest. Até agora, bulhufas. O autor enforcou-se em 2008, aos 46 anos. No ano passado, foi postado na Internet um poema que ele escreveu na infância, desencadeando miríades de pitacos sobre como toda a obra adulta dele não passa de um palimpsesto daqueles versos. Um psicanalista chegou a jurar de pé junto que o tal poeminha já se imbuía do colossal futuro narcisismo do autor – tanto que era sobre ele, e NÃO sobre sua mãe. É dose! Confiram (tradução esculachada): “ Minha mãe trabalha duro/Duro e por causa do pão. Precisa de toucinho/Assa o pão e arruma/A cama. E quando ela acaba/Acha que está sonhando.
O freudiano que me desculpe, mas acho que esse poema é mesmo sobre o filho da mãe, tanto quanto aquele “uma rosa é uma rosa é uma rosa” é sobre, hã, uma rosa. Pronto, falei.


(Sylvinha na versão Gyneth Paltrow, e Tedinho no avatar Daniel Craig)
SYLVIA PLATH – No último gesto da sua curta vida, converteu sua cozinha num Auschwitz pessoal. Outra suicida – já são dois nesta listinha curta. Algo a ver com a precocidade? Bom, deixemos o psicologismo para o facultativo lá de cima. Quando Sylvia perdeu o pai aos 8 anos, mandou curto e grosso: “Nunca mais dirigirei a palavra a Deus.” Cinco minutos depois, o Boston Traveller publicou o primeiro poema dela. Até a adolescência, passou dia após dia ralando com as palavras, parágrafos, esses troços. Daí para frente, na verdade, foi sempre ladeira acima, bajulada pela crítica e pelos leitores. Mas nunca conseguiu sublimar a perda do pai (êpa, eu tinha prometido não deitá-la no divã!) – nem ficando de mal de Deus.
Em tempo: a Cia das Letras continua devendo Infinite Jest, mas acaba de lançar o imprescindível A Mulher Calada, de Janet Malcolm, sobre Sylvia Plath, Ted Hughes e todo aquele baita rolo.


(Capote e Lee, digo Toby Jones e Sandra Bullock)

TRUMAN CAPOTE E HARPER LEE – Sim, dois em um. Primeiro, por que passaram a infância juntos – quase siameses – em Montgomery, no Alabama. Depois, por que eram duas metades invertidas: Lee, uma espécie de sapatinho (tomboy, em inglês), e Capote, veadinho – ambos, literatos até dizer chega. Na pasmaceira do Sul Profundo, enquanto ela coçava o saco, ele comia mosca, todo lampeiro – e engendravam uma maneira de fazer a literatura americana plantar bananeira. Como comentou Truman, partilhavam “o isolamento”. Naturalmente, influenciaram-se a beça. Capote foi o modelo para o Dill Harris de To Kill a Mockingbird, o único e magistral romance de Lee (no Brasil, O Sol É Para Todos; em Portugal, Não Matem a Cotovia). Em contrapartida, ela fez grande parte da pesquisa para In Cold Blood, e desponta em Other Voices, Other Rooms como Idabell Thompkins. O escritor evocou a comadre: “O pai dela era advogado, e quando criança estávamos sempre no tribunal. Víamos julgamentos em vez de ir ao cinema.
Uma nota pessoal: To Kill a Mockingbird é um dos meus romances prediletos, e deu um filme estupendo de Robert Mullingan, com Gregory Peck no papel do advogado Atticus Finch, um dos personagens mais humanos e decentes da história da literatura. Esse filme é um dos dois preferidos do meu protagonista Paulo Martins, do romance Transatlântico. E, romance (de Harper Lee) e filme (de Robert Mullingan) são também duas das obras mais estimadas pelo meu amigo do peito João Gabriel de Lima – a quem este post é dedicado.

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