No século 18, o Iluminismo já quicava na zona do agrião e o doutor Johnson continuava achando justa a desigualdade entre os sexos: “Está certo que a lei dê tão pouco poder à mulher, já que a natureza lhe deu demais.” Antes que me esqueça, acho que a melhor descrição desse poder telúrico e visceral da mulher (que Simone de Beauvoir espinafrou nos comentários sobre “o eterno feminino” – mas Simone gostava de fingir que seu corpo começava e acaba debaixo dos seus indefectíveis turbantes), a melhor descrição desse sortilégio, a meu ver, foi fornecida por Camille Paglia, no arrebatador prefácio de Personas Sexuais (sim, seus chatonildos, li o resto do livro também). Qualquer homem sabe do que estou a falar (e suponho que as mulheres, se não sabem, desconfiam).
Mas o poder da natureza não dura. Embora as mulheres já vivam, há séculos, mais do que os homens, seus encantos físicos desaparecem mais rapidamente (sem mencionar outras sacanagens da Mãe Natureza, como a menstruação, os nove meses de gravidez e a menopausa). Bom, tudo bem: em contrapartida, os homens fazem a barba, o que também é assaz excruciante.
(SETE DIAS COM MARYLIN)
Na semana passada, curti duas das mulheres mais empolgantes do século 20 e é sobre elas que aqui lato o meu latim. Marylin Monroe, talvez a bípede mais desejada e mais triste do seu tempo, é o assunto do filme Uma Semana Com Marilyn, que evoca as filmagens de O Príncipe e a Corista, dirigido e co-protagonizado por Laurence Olivier, na Inglaterra. Sou um consumidor voraz de biografias, mas reticente em relação aos biopics (quase sempre, hagiografias balofas) – por este longa-metragem, porém, ponho as minhas luvas de amianto no fogo. Uma obra sensível e delicada (mas nada delicodoce), com uma compreensão persuasiva das ambiguidades da natureza humana – e divertida e despretensiosa sem ser rala ou rasa.
(O PRÍNCIPE E A CORISTA; O FILME CUJAS FILMAGENS O OUTRO FILME CONTA)
A infância de MM foi daquelas de derreter corações de titânio. Filha bastarda de um pai que nunca viu mais gordo, a mãe dela, Gladys Baker, não batia bem e vivia entrando e saindo de sanatórios. A menina (registrada como Norma Jean Mortenson), passou a infância em orfanatos e lares adotivos (em pelo menos dois dos quais sofreu abusos sexuais.). O mais perto que chegou do amor materno foi uma amiga de Gladys, Grace McKee, conhecida como “tia Grace”. Em 13 de setembro de 1935, Grace depositou a criança de nove anos na Casa de Órfãos de Los Angeles. Marylin teve de ser arrastada para dentro, se esgoelando que não era órfã. Dormia numa caminha de metal em um grande dormitório com 26 outras garotas. No escuro, avistava pela janela sem cortinas a caixa d’água dos estúdios da RKO. Tanto suplicou que foi aceita na casa da “tia”, a qual lhe deu o primeiro batom e ensinou a usá-lo, aos 10 anos. Grace acabara de se casar com o quarto marido, que bebia como um peixe e tentou estuprar aquele querubim. Resultado: cartão vermelho para a criança, despachada para outro lar adotivo. Sempre que abusavam dela, culpavam-na por ser “provocante”. Aos 15 anos, um coió chamado James Dougherty (de 21 anos) ficou doido por Marylin e pediu-a em casamento. Disseram à jovem que podia escolher: casar ou vegetar no orfanato. Três semanas depois de fazer 16 anos, Norma Jean Baker se casou. Providencialmente, Dougherty foi combater na II Guerra Mundial, e Marylin pode ser dedicar ao cinema.

(MARYLIN NA VERSÃO DE FÁBRICA; NÃO ERA LOIRA, NAÕ ERA BURRA)
O chefe do casting da Fox atribuiu-lhe um novo nome, inspirado numa então estrela da Broadway, Marylin Miller, e no ex-presidente dos EUA, James Monroe, autor da solipsista Doutrina Monroe (a América para os americanos do norte). Durante algum tempo, Marylin dividiu um apê com Shelley Winters, seis anos mais velha. As duas tinham dois bons “trajes”, que partilhavam irmãmente: um biquíni para fotos e um casaco de mink para encontros galantes. Shelley ensinou a amiga a “parecer” bonita, lançando a cabeça para trás, baixando os olhos e entreabrindo os lábios (uma receita incrustada no genoma feminino desde Eva). Elaboravam listas dos homens com os quais gostariam de casar ou ir para a cama. As de Marylin incluíam Einstein, Arthur Miller e outros intelectuais. Já Shelley preferia os atores: fez conchinha com Marlon Brando, William Holden, Burt Lancaster, Errol Flynn e muitos outros, participou de mais de 150 filmes e morreu em aprazível riqueza, aos 85 anos, depois de embolsar 2 Oscars e sobreviver a três casamentos. Marylin sonhava casar-se e ter filhos: “Sou mulher de um homem só”. Mas não foi o que lhe saiu na rifa. Quando filmava com Jane Russell (Os Homens Preferem as Loiras, que roubou como uma cleptomaníaca), esta, fundamentalista cristã, sugeriu-lhe: “Por que você não vem comigo ler a Bíblia?” Resposta: “Estou fazendo uma leitura de mim mesmo, com Freud”. Marylin esnobou o todo-poderoso Darryl Zanuck, o produtor mais tentacular da época – mas qualquer professor aloprado tinha uma chance com ela. Em “Uma Semana Com Marylin”, o abstruso romance Ulysses, de James Joyce (não exatamente um Paulo Coelho), assoma na mesinha de cabeceira da atriz. Como a foto abaixo atesta, não foi uma liberdade poética.

(LENDO O ULYSSES: TOMARAM, PAPUDOS?)
Não, o rótulo de loira burra não cabia em Marylin. Aliás, nem era loira natural: foi platinada pela RKO, engendrando a persona de diva erótica. Mas uma vamp cheia de paradoxos: de uma inocência concupiscente, devoradora e carente, libertina e ingênua, insegura e irresistível – distinguindo-se da mulher fatal (como Marlene Dietrich) ou da debochada (como Mae West).
MM foi o avatar mais consumado daquela propriedade inefável a que Edgar Morin chamou (em Les Stars) de carisma, um conceito diferente da definição de Max Weber. Trata-se, sobretudo, de uma imagem imbuída de, digamos, uma transcendência imanente. Algo como o panteão dos deuses olímpicos, impregnados de uma dupla natureza, uma divina e outra humana, aquela sedutora, esta vulnerável. As câmeras babavam por Marylin tanto como os homens. A famosa cena da saia enfunada pelo vento de um bueiro, filmada para O Pecado Mora Ao Lado, em 15 de setembro de 1954, no próprio local e testemunhada por mais de 2 mil pessoas salivantes – tornou-se um dos mais notórios ícones da história do cinema. A mesma foto fora tentada inúmeras vezes antes, com todo o tipo de atrizes, e acabava sempre em mau gosto, se não em canhestra vulgaridade. Com MM, é a quintessência da sensualidade espontânea e sem mácula.

(A PRIMEIRA CAPA DA PRIMEIRA PLAYBOY)
O encontro de MM com o Método do Actor’s Studio foi o cataclismo final. A bocó da Paula Strasberg (talvez a única personagem antipática do filme) convenceu-a a se tornar uma Sarah Bernhardt contemporânea (ou seja, uma tremenda cabotina canastrona). E o presunçoso Arthur Miller ajudou a vaca ir para o brejo. De chegar atrasada pela manhã, ela passou a atrasar-se mais do que Godot (de Beckett…). De 30 minutos para uma hora, duas, três… De se esquecer de uma fala, passou a esquecer-se de todas. A dependência de comprimidos e álcool disparou.
Otto Preminger vociferou sobre Marylin: “Dirigi-la era como dirigir a Lassie.” Billy Wilder, diretor da obra-prima Quanto Mais Quente Melhor, foi o único cineasta que teve saco para trabalhar com MM duas vezes. Até o fim dos seus dias, ele se comprazia em regalar seus ouvintes com relatos sobre como conseguiu que Marylin aparecesse no set e se lembrasse dos diálogos. Uma das falas dela (Hi, Sugar!) precisou de 41 tomadas. Tony Curtis, o par amoroso da diva no filme, se contorcia de cólera, pois quando contracenavam Wilder escolhia invariavelmente os melhores planos de Marylin, que eram os piores do ator. Curtis vingou-se resmungando: “Beijar Marylin era como beijar Hitler”.

(ELA E CLARK GABLE: COÇANDO AS COSTAS)
Ainda mais catastrófico foi o filme Os Desajustados, que MM rodou com Clark Gable, galã dos anos de ouro de Hollywood e que, segundo o mulherio, ainda dava um belo caldo (conferir foto dos dois). O casamento com Arthur Miller caía de podre, e MM rastejava na rua da amargura. As encrencas nas filmagens tornaram-na a fita preto e branco mais cara da história. Gable queixou-se da falta de profissionalismo de Marylin, embora a admirasse e estimasse. Pouco depois das filmagens, ele suspirou para um amigo: “Estou feliz por que acabou. Ela quase me matou do coração, porra.” Falou demasiado cedo. Na manhã seguinte teve um ataque cardíaco XL, e 10 dias depois estava mortinho da silva.
Na manhã de 5 de agosto de 1962, aos 36 anos, Marilyn entregava a alma ao Criador, enquanto dormia em sua casa na Califórnia. Ninguém sabe de fato que diabo aconteceu naquela noite. Ouviu-se o ruido de um helicóptero. Uma ambulância foi vista esperando fora da casa dela antes que a empregada desse o alarme. As gravações de seus telefonemas e outras evidências desapareceram. O relatório da autópsia foi perdido. Toda a documentação do FBI sobre sua morte foi suprimida e os amigos de Marilyn que tentaram investigar a coisa receberam ameaças de morte. Quem matou Marylin? Ela própria? Uma overdose, como reza a versão oficial? Os esbirros do clã Kennedy? A Máfia? A CIA? A KGB? A mula sem cabeça? O mordomo? Só Deus sabe. E o Todo-Poderoso pode ser acusado de quase tudo, menos de tagarelice.

(23 FITZROY ROAD, LONDRES – AQUI YEATS VIVEU, AQUI PLATH MORREU)
Cerca de seis meses mais tarde, fazia um frio de rachar naquela manhã londrina de 11 de fevereiro de 1963. Num apartamento em que outrora vivera o poeta William Butler Yeats (uma placa na fachada assinala o fato), a poetisa Sylvia Plath instala duas canecas de leite e um prato com fatias de pão ao pé dos seus filhos pequenos, Frieda e Nicholas, que ainda dormem. Apesar de nevar abundantemente lá fora, escancara a janela de par em par. Sai do quarto das crianças, fecha a porta cuidadosamente e veda os vãos com toalhas molhadas. Desce ao andar de baixo e penetra na cozinha. Abre a tampa do forno, estende um pano dobrado sobre a superfície, liga o gás e pousa a cabeça no interior.
(Um parêntesis – como devem ter notado. Outro dia, conversando com a Tassia, ela comentou que o suicídio parecia um dos meus temas prediletos. Expliquei que não é bem assim e, mea culpa, brandi o chavão daquela frase de Albert Camus (a única coisa que muita gente sabe sobre a obra dele, além de que foi goleiro) de que o suicídio é mais seminal das questões filosóficas. Aliás, no diário da sua viagem ao Brasil, o autor de A Peste, ainda no navio rumo ao Rio, anota lugubremente: “Por duas vezes, ideia de suicídio. Na segunda vez, sempre olhando para o mar, um terrível ardor me vem às têmporas. Acho que agora compreendo como a pessoa se mata. As águas estão pouco iluminadas na superfície, mas sente-se a sua escuridão profunda. O mar é assim, e é por isso que eu o amo. Chamamento à vida e convite à morte.” Caiu a ficha? Para um abelhudo metafísico como eu, o pingue-pongue de Eros e Tanatos é fascinante. Escrevi um romance intitulado O Suicida Feliz? Culpado. Mas não tem nada a ver o fiofó com as calças.)

(GENTE FINA É OUTRA COISA: TED HUGHES COM ELIOT, AUDEN…)
Sylvia Plath tinha 30 anos. Fora casada durante seis anos com o também poeta (e dos bons, muito bons) Ted Hughes, então com 36 anos. Há cinco meses já não viviam juntos. Surgira outra mulher, de nome Assia Wevvil e de uma beleza estonteante. Separaram-se com sons e fúrias. Como observa memoravelmente Janet Malcolm, no seu soberbo A Mulher Calada (que a Cia das Letras acaba de lançar em edição de bolso): “É uma situação vivida por muitos jovens casais – talvez a maioria -, mas que quase nunca dura muito: ou o casal se reconcilia ou então se dissolve de uma vez. A vida continua. A dor, a amargura e o horror estimulante do ciúme sexual e da culpa sexual acabam por se atenuar e desaparecer. As pessoas envelhecem. Perdoam à si próprias e umas às outras e às vezes até chegam a perceber que o que têm a perdoar em si próprias e nos outros é a juventude.”
O livro de Malcolm se ocupa, sempre com muito savoir faire, de coisas que considero importantes: a literatura, a acuidade das biografias, a invasão da privacidade, o jornalismo cultural. É uma biografia errática da poetisa, mas é também uma impiedosa biografia das biografias.

(HUGHES: PORCO CHAUVINISTA NOJENTO)
Logo após a morte de Plath, inúmeras críticas feministas elegeram Hughes como bode expiatório e saco de pancadas. Ele foi convertido em Torquemada, e Sylvia na sua Joana D’Arc particular. Tudo se passava como se o marido fosse um carrasco nazista num campo de concentração, despachando a esposa para uma câmara de gás. Floresceu aquela piadinha infame , segundo a qual Ted teria dito: “Aquele último gesto foi a única coisa boa que Sylvia fez no nosso fogão em todos os anos de casados.” O Independent publicou um depoimento de um vizinho do casal, sustentando que Ted teria dado uma festa (com batuques e tudo, gênero pagode de Ronaldinho Gaúcho) na primeira semana depois da morte da mulher, e no próprio local do suicídio. Tanto o vizinho como o jornal foram obrigados a retratar-se.

(TÚMULO DE SHYLVIA PLATH: O NOME HUGHES FOI VANDALIZADO)
O nome de Ted Hughes foi raspado mais de uma vez da lápide de Sylvia. Manifestantes interrompiam suas palestras, aos gritos de “assassino!”. Uma feminista americana iniciou um poema entrando de sola e chamando para o pau, tipo Zola: “Eu acuso/Ted Hughes.” Uma casa dele foi incendiada, e numerosos manuscritos carbonizados.
Como realça Janet Malcolm: “Como sabe todo aquele que tenha ouvido falar da vida alheia, ninguém é dono dos fatos da sua vida. Esse direito de propriedade nos escapa quando nascemos, no momento em que começamos a ser observados. Os órgãos de divulgação que proliferaram em nosso tempo são apenas uma extensão e uma amplificação da bisbilhotice fundamental e incorrigível da nossa sociedade. Basta alguém querer para a nossa vida passar a ser da conta do mundo. O conceito de privacidade nada mais é do que um biombo destinado a esconder que ela é praticamente impossível no universo social. Em todo conflito entre o direito inalienável do publico de ser divertido e um desejo individual de ser deixado em paz, o público quase sempre leva a melhor.” E olhem que quando ela escreveu isso (1994) a internet ainda usava fraldas.
A melhor poesia de Sylvia Plath (do livro Ariel) é rancorosa, ressentida, arquejante de ferocidade, banhada por imagens atrozes, viscerais e arrebatadoras. Os versos dela nunca são cheios de dedos nem pisam em ovos. De novo Malcolm: “Nos seus últimos anos, Plath olhou para a Górgona com uma firmeza enervante. Em grande parte, sua condição de heroína feminista deriva desse tom. As mulheres celebram nela sua coragem de ser desagradável. Como ela escreveu em ‘Daddy’: ‘Todas as mulheres adoram um fascista.’ [Every woman adores a Fascist]”
E o que me dizem destes versos de Lady Lazarus: “Out of the ash/ I rise with my red hair/ And I eat men like air.” Das cinzas/Ergo-me com meu cabelo ruivo/E como homens como o ar.” Ou como indicou soturnamente Robert Lowell na sua introdução a Ariel: “Esta poesia e esta vida não são uma carreira; elas nos dizem que a vida, mesmo quando disciplinada, simplesmente não vale a pena.”
Janet Malcolm põe as cartas na mesa: fica “do lado” de Ted Hughes nesta lavagem de roupa suja – o que, para uma jornalista cultural no contexto em que o livro foi escrito, denota uns colhões do tamanho de um bonde. Ted ainda estava vivo (morreu em 1998, aos 68 anos) e, para indignação de uma extensa facção, destruíra uma parte dos diários de Sylvia, alegando que era para proteger os filhos do casal (“O esquecimento é uma parte essencial da sobrevivência.”). Já no romance autobiográfico The Bell Jar (edição brasileira: A Redoma de Vidro, Record), ainda sem a truculência de Ariel, Sylvia crivara uma saraivada de farpas na sua mãe, representada de modo repulsivo e perfeitamente identificável. Numa carta ao editor, a mãe da poetisa carpiu: “Praticamente todas as personagens de A Redoma de Vidro representam – muitas vezes em caricaturas – alguém que Sylvia amava; cada uma dessas pessoas foi generosa com seu tempo, seus pensamentos, seu afeto e, num dos casos, em ajuda financeira. Apresentado isoladamente, este livro representa a mais rasteira ingratidão.” Mãe é mãe e coração de mãe não se engana?
Mesmo com aquele escrúpulo, Nicholas, o filho de Ted e Sylvia acabou por se enforcar no Alaska, em 2009, aos 47 anos. Aliás, tragédia nesta história é mato. Seis anos depois do suicídio de Sylvia Plath, Assia Wevvil, a segunda mulher de Ted, se matou do mesmíssimo jeito, revelando certa falta de imaginação. Mais funesta ainda, levou com ela a filhinha do casal, de apenas quatro anos de idade. Sim, podemos nos interrogar que tipo de homem conduz duas esposas ao suicídio. De uma coisa é certa: um tipo muitíssimo infeliz.
(COM A PALAVRA, TESTEMUNHA DE ACUSAÇÃO: A. ALVAREZ)
De acordo com A. Álvarez, proeminente crítico e editor do The Observer naquela época, amigo de Hughes e Plath, um dos primeiros a publicar poemas desta (vídeo abaixo) e autor de um livro sobre a poetisa (The Savage God, edição brasileira O Deus Selvagem, Cia das Letras), Sylvia não pretendia morrer – a morte teria ocorrido “por descuido, por engano e cedo demais. Foi um pedido de socorro fatidicamente malsucedido. Um encadeamento aziago de acontecimentos: o frio inclemente, os canos congelados, a falta de um telefone acabaram por arrancá-la de um mundo do qual ela não tinha intenção de partir.”
(SYLVIA/GWNETH PALTROW, TED HUGHES/DANIEL CRAIG)
Em seus diários, Sylvia descreve magistralmente o primeiro encontro com Ted Hughes, numa festa de uma revista literária, aonde ela já chegou de porre. (Abaixo, o fato reconstituído no filme com Gwyneth Paltrow e Daniel Craig. ) “Aquele rapaz alto, moreno e forte, o único do tamanho capaz de me satisfazer, que andava farejando as mulheres e cujo nome eu quis saber assim que entrei na sala, mas ninguém me disse, chegou perto, olhou fixo em meus olhos e era Ted Hughes. Levou-me para uma sala dos fundos e bang, a porta se fechou e ele estava despejando conhaque num copo e eu despejando conhaque no lugar onde estava a minha boca da última vez que me lembro dela. E aí eu estava batendo os pés e ele estava batendo os pés no chão e então ele me beijou diretamente na boca. E quando ele me beijou o pescoço eu mordi o seu rosto com toda a força e por muito tempo quando Ted saiu da sala o sangue escorria-lhe pelo queixo. E eu gritei dentro de mim: ah, quem me dera entregar-me com estardalhaço, resistindo, a ti.” Ufa… Macacos me mordam se não dá para sentir a voltagem radioativa.
A maioria das mulheres considerava Ted Hughes um pão. Mais até, com um magnetismo quase sobrenatural, ele fazia rodízio e passava o rodo. Como Alvarez contou a Janet Malcolm: “O problema é que Ted é um homem muitíssimo atraente. Antes do meu segundo casamento, tive uma namorada australiana que o conheceu e ela me disse que quando pôs os olhos nele pela primeira vez ficou com os joelhos bambos. E conheci outra mulher, uma psicanalista, que teve uma reação tão forte ao conhecer Ted – coisa que ela recordou muito anos depois – que foi até ao banheiro e vomitou.Ted percorreu renques de mulheres, como alguém que colhe trigo. Sylvia devia saber disso. Elas realmente o assediavam.”

Depois de décadas (35 anos, para ser preciso) sem dar um pio sobre a questão, Ted Hughes (que se casou pela terceira vez, e desta ninguém se matou) publicou em 1998, meses antes da sua morte (natural), o volume de poemas Birthday Letters (edição brasileira Cartas de Aniversário, Record) — vencedor dos prêmios Forward Poetry Prize, T. S. Eliot Prize e British Book of the Year de 1999. Em vários poemas, o autor interpela Sylvia Plath diretamente, no tempo presente, como se ela estivesse viva. O efeito é comovente.
A meu ver, a passagem mais penetrante e arguta do livro de Jane Malcolm é a seguinte, com a qual fecho a loja por hoje: “Quando escrevo a palavra fantasmagórico, sinto que cheguei mais perto de desvendar a razão misteriosa pela qual o peso da opinião pública pendeu tanto para o lado de Sylvia Plath e contra Ted Hughes – os mortos são sempre preferidos aos vivos. Preferimos os mortos devido a nossa ligação, a nossa identificação com eles. Sua impotência, sua passividade, sua vulnerabilidade são as nossas. Todos aspiramos ao estado de inanição, à condição de impotência, em que somos forçosamente frágeis e merecedores de amor. É só a custa de um grande esforço que nos obrigamos a agir, a lutar, a nos fazermos ouvir acima do som do vento, a esmagar as flores enquanto andamos. Que nos comportamos como gente viva.”
Ou como a própria Sylvia Plath salienta em seu poema Lady Lazarus (uma de suas ásperas obras-primas, citado literalmente num episódio recente de Mad Men): [“It was not/That he could not thrive, he was born/With everuthing but the will -/That can be deformed, just like a limb.”]
Não foi
Que não pudesse prosperar, nasceu
Com tudo, menos a vontade -
Que pode ser tão torta como uma asa.



Pingback: Elucidações – Sapiência
Aprendi um monte com esse post. Mto obrigado!