Querendo (a Geração Perdida) ou não (desde o pobre Ovídio, exilado no Mar Negro pelo imperador Augusto), os escritores sempre tiveram sebo nas canelas. Mas com estilo: em O Céu que Nos Protege, quando o casal de protagonistas (baseado em Paul e Jane Bowles) desembarca em Tanger e um abelhudo lhes pergunta se são turistas, a resposta é curta e fina: “Turistas é a sua avó – viajantes!” Para eles, confraternizar com pessoas que usam máquinas fotográficas como grampeadores (agrafadores) era igual abraçar uma moita de urtigas.
Para numerosos autores, o sedentarismo corresponde a uma espécie de doença. Baudelaire: “A vida é um hospital onde cada doente tem a obsessão de mudar de cama. Este quer sofrer diante dos tubos de aquecimento, e este outro pensa que melhoraria perto da janela.” E o poeta: “Creio que estaria sempre bem onde não estou.” Mas partir para onde? “Para qualquer lugar, contanto que seja fora deste mundo.” Muito anos depois, George Steiner também preconizou a errância: “Os vegetais têm raízes. Os homens e as mulheres têm pés.”
A ideia de viagem como um piquenique do espírito brotou no século 18, com o fervor pela História e por um de seus testemunhos, a Arquitetura. A difusão da litografia (cartazes e panfletos) e o nomadismo dos Românticos, que adoravam dar um rolê, fez o resto. O hotel tornou-se o caravançarai de inúmeros escritores. Eis alguns dos mais fosforescentes.

Grand Hotel La Perla, de Pamplona – No quarto 217, que ainda existe, Ernest Hemingway pernoitava depois de empurrar com a barriga seus problemas de afirmação como macho alfa, correndo atrás de touros e bebendo como um ralo. A propósito de O Sol Também se Levanta, Zelda Fitzgerald resmungou que não passava de “bullfighting, bullslinging and bullshit” (touradas, disparates e conversa fiada).

Hotel Fairmont Le Montreaux Palace, Montreaux – Depois que Lolita pintou e bordou, Vladimir Nabokov converteu esse hotel em seu lar-doce-lar – com vista para o lago de Genebra e os Alpes. Vira e mexe batia perna pelos sopés das montanhas, caçando borboletas (era assim que descolava uma grana antes de ficar famoso. Há até um espécime batizado com o nome dele). Repousa em paz num cemitério que fica a um tirico de garrucha.

Hotel Danieli, Veneza – Pertinho do Caffè Quadri, que inventou o expresso, e era frequentado por Balzac e Stendhal, entre outras figurinhas carimbadas. Dickens confessou que Veneza era a única cidade que “tinha medo de descrever” – talvez por lhe faltar adjetivos, ou mais provavelmente por recear gorgolejá-los. Em um dos quartos do suntuoso Danieli, George Sand e Alfred de Musset treparam pelas paredes (e treparam-se mutuamente). Alerta as distraídos: esse George era mulher (e para 400 talheres).

Grand Hotel de Cabourg – Marcel Proust imortalizou-o em Em Busca do Tempo Perdido, sob o nome de Grand Hotel de Balbec. O quarto em que o escritor se hospedava continua intacto – infelizmente, não tinha paredes forradas com cortiça, como o hipocondríaco autor gostava. No campo da decoração, Proust era exigente. Tanto que, quando a mãe dele (por quem nutriu um dos maiores complexos de Édipo de todos os tempos) morreu, o filho ingrato doou imediatamente toda a mobília – e para um bordel.

Grand Hotel de Milão – O tempestuoso Gabriele D’Annunzio, hoje meio esquecido mas um grande poeta, vivia batendo ponto lá, onde traçou muitas tietes. Amante insaciável, Gabriele dava uma no cravo e outra na canela.

Hotel Ritz, de Lisboa – Foi o ditador português Antonio Salazar quem, nos anos 40, patrocinou a construção deste hotel principesco, para badalar Lisboa. Um dos melhores arquitetos da história de Portugal, Cassiano Branco, projetou-o. Muitos autores passaram por lá. Descaradamente, escolho a mim. Há cinco anos, a revista Atlântico me propôs passar um dia e uma noite no Ritz, e escrever um conto sobre a experiência. Escrevi sobre uma terrorista suicida, bastante grávida, que pretende mandar o hotel pelos ares com uma bomba escondida no ventre. O título foi Baby Boom. Não sei por quê, mas a gerência do hotel não gostou nem um pouco da minha história.
Algonquin Hotel, New York – Continua firmão até hoje, na rua 44 West, cenário da mítica Mesa Redonda, autêntico tabernáculo da história cultural americana. Naquelas tertúlias gastronômico-etílicas, pontificavam feras como Bem Hetch, Harpo Marx, George Kaufman, Irving Berlin, Dorothy Parker…
Um dia, um conhecido do dramaturgo Marc Connely, precocemente careca, passou por ele na Mesa Redonda. O sujeito afagou a calva do teatrólogo e declarou: “Marc, sua careca parece a bunda da minha mulher!” Não deu outra. Connely também acariciou seu cocuruto e exclamou: “É mesmo!”
Um produtor convidou George Kaufman a examinar uma peça teatral, num quarto do hotel, e recebeu-o nu em pelo. Kaufman ciciou: “Caro senhor, sua braguilha está aberta.”
O epigrama do Algonquin de que mais gosto é de Dorothy Parker. Na fossa, ela estava sendo consolada por Harpo Marx. E acabou fungando:” Pô, tem de haver mais do que isso no meu futuro. A menos que haja menos.”

The Cadogan, Londres – Aqui, Oscar Wilde foi preso no dia 6 de abril de 1985, por “atos de grande indecência com outras pessoas do mesmo sexo”. Um inspetor da polícia comentou: “A gente treme só de pensar que essas coisas possam acontecer num hotel de primeira.” Hoje, uma das atrações é o “Quarto Oscar Wilde”, com a escrivaninha do escritor.

Hotel Concorde Lutetia, Paris – Foi onde James Joyce escreveu uma parte do Ulysses. O cosmopolita Joyce não tinha saco para monumentos. Seu tradutor Valery Larbaud disse-lhe quando passavam de taxi pelo Arco do Triunfo, com sua chama eterna: “Quanto tempo acha que ela vai arder?” Resposta do escritor: “Até que o Soldado Desconhecido se levante nauseado e vomite nela.”

Hotel Palumbo, Ravello – Naquela altura do campeonato, já tinham vivido em Ravello (Itália) Boccaccio, André Gide e E. M. Foster. Na primavera de 1953, uma trupe transdisciplinar se hospedou no Palumbo, para as filmagens de Beat the Devil, de John Huston. Olhem que elenco galático, entre cineastas, atores, escritores, fotógrafos e músicos: Humphrey Bogart, Gina Lollobrigida, Jennifer Jones, Peter Lorre, Truman Capote, Errol Flynn, Robert Capa e Stephen Sondheim.
Capote, então com 29 anos, tinha sido recomendado a Houston por Carson McCullers, para dar uma meia-sola no roteiro. Então magro como uma escultura de Giacometti, foi desafiado por Bogart para uma queda-de-braço – e ganhou. Como prêmio, levou Errol Flynn para o quarto e passou o velho pirata pela espada. E vice-versa.

Chelsea Hotel, New York – Foi a casa de autores e artistas ilustres. Foi lá que Arthur Clarke escreveu 2001, Uma Odisseia no Espaço. Em seu átrio, o poeta Dylan Thomas (de quem Bob Dylan – que também viveu no Chelsea – emprestou o nome) anunciou que iria beber até cair mortinho da silva. E cumpriu a promessa, sem sair do bar nem para ir ao banheiro verter sólidos, líquidos ou gasosos. Foi lá também que Sid Vicious, líder dos Sex Pistols, esfaqueou mortalmente sua namorada Nancy.
E onde Leonard Cohen conheceu e papou Janis Joplin, episódio memoravelmente recordado nos versos de Chelsea Hotel: “Ela disse-me que preferia homens bonitos/Mas para mim ia abrir uma exceção.” Advertência aos marias vão com as outras: hoje o Chelsea já não autoriza residentes.
Me deliciando com esses textos aqui. Não conhecia o blog.
Então volte sempre, João Ricardo. A casa é sua!
Boas histórias, daquelas que nem a vovó saberia contar. Excelente post!