Quando meia dúzia de gatos-pingados e matusquelas meio ressabiados (de graça até injeção na testa) se acotovelaram no Grand Café de Paris, em 27 de abril de 1895, para espiarem uma atração algo circense cujos próprios inventores – os irmãos Lumière – menosprezavam, mal sabiam que estavam testemunhando também o nascimento de uma nova arte. A Sétima (a contar da esquerda).
Mas que diabo aconteceu exatamente, se não é indiscrição? No livro 100 Ideias That Changed Film, o crítico do Times David Parkinson (autor também de The 100 Ideas That Changed Graphic Design e de uma esplendida biografia de Saul Bass) sapeca uma arguta e concisa crônica dos episódios mais palpitantes do desenvolvimento do cinema.
Com a amplitude pedagógica de uma boa enciclopédia e o rigor conceitual de um curador museológico, o livro de Parkinson realça a vocação do cinema para exprimir emoções universais e, de quebra, saciar a nossa ânsia pungente de escapismo e entretenimento.

Como sou mais do que uma mãe para vocês (não, Medeia não, credo! – mas Jocasta tampouco….), pesquei uns tópicos bacanas como aperitivo do livro. Por falar em compêndio, convém lembrar que eu próprio, com esses dedos de pianista desafinado, traduzi para o português a obra 1001 Livros Para Ler Antes de Morrer, e escrevi os verbetes sobre autores brasileiros e portugueses. De nada.
IDEIA 1:LANTERNA MÁGICA – Conjunto de 24 slides baseados nos desenhos de sir John Tenniel para Alice no País das Maravilhas. Essas lanternas óticas continham a maior parte dos elementos mais tarde usados nos projetores. E encerrava também uma boa parte da futura sintaxe cinematográfica. Para não mencionar que, como certas geringonças de outras eras (o gramofone, os zepelins), se transfigurou numa espécie de fóssil gracinha.

IDEIA 20 –SERIADOS - Betty Hutton exuma os dias gloriosos dos seriados, quando a lendária Pearl White reinava nos folhetins do cinema mudo. Cerca de 470 seriados foram produzidos nos EUA entre 1912 e 1956. Contando histórias mirabolantes de 10 a 15 capítulos, cada um de 15 a 25 minutos, ajudaram a fazer da ida ao cinema um hábito pavloviano. Mais ou menos como as telenovelas de hoje – só que com muito mais imaginação e sinapses.

IDEIA 28: O GÊNERO – No gênero suspense, não tem para ninguém: Hitchcock foi o magister, esgrimindo os bons e velhos dualismos: livre-arbítrio versus destino, acaso versus necessidade. “Se eu filmasse ‘A Cinderela’, a plateia apostaria que havia um cadáver na carruagem.”

IDEIA 36: EXPRESSIONISMO – Cartaz de O Gabinete do Doutor Caligari. Através de representações exteriores e objetivas para expressar estados interiores e subjetivos, os silenciosos Schauerfilme (filme de terror), Kammerspielfilme (dramas de costumes) e Strassenfilme (filme de rua) mandaram tão bem que continuam influentes e bombando até hoje.

IDEIA 44 – TRILHAS SONORAS – O tum-tum-tum meio tantã de Tubarão, em que John Williams alternou as notas E e F, maximizou a truculência inexorável de uma máquina mortífera criada pela desnaturada natureza. Isso sem falar, claro, nos musicais, para os quais inúmeras das melhores canções do século 20 foram compostas. Como estas dez: “Over the Rainbow”, “Cheek to Cheek”, “How About You?”, “One For My Baby”, “Young At Heart”, “”I’m In The Mood For Love”, “I Only Have Eyes For you”. “Serenade In Blue”, “When You Whish Upon a Star”, “I”ve Got You Under My Skin” – toda essa ourivesaria nasceu como encomenda da filistina e brega Hollywood.

IDEIA 52 – FILMES B – Filmado em meteóricas três semaninhas, Lèvres de Sang (1975), de Jean Rollin, é um exemplo consumado do filme B de terror erótico produzido pelo cinema europeu nos anos 60 e 70. Bijuterias kitsch que Almodóvar reciclou em joias camp.

IDEIA 61 – A LISTA NEGRA – Manifestação de protesto dos 10 de Hollywood: Alvah Bessie, Herbert Biberman, Lester Cole, Edward Dmytryk, Ring Lardner, Jr., John Howard Lawson, Albert Maltz, Samuel Ornitz, Adrian Scott e Dalton Trumbo. O prejuízo artístico da caça às bruxas de 1947 a 1952 nunca poderá ser contabilizado, na medida em que não se pode avaliar filmes que não foram rodados e interpretações que não foram calcificadas. Especular que o estrago estético – como noutras situações de censura – afinal talvez tenha sido mixuruco, é uma conjectura infame, pelo menos do ponto de vista moral.

IDEIA 70 – OS TRAILERS – Pessoalmente, adoro trailers. Volta e meia, são muitos melhores do que as obras que apregoam. Às vezes vou ao cinema, vejo os trailers e quando o filme começa saio de fininho. Aqui, Hitchcock vendeu o peixe de Os Pássaros, numa impagável papagaiada de 5 minutos.

IDEIA 73 – CANNES – Poster da edição de 1953, mostrando o original Palais des Festivals, inaugurado na La Croisette em 1949 e demolido em 1988. Com ou sem as estrela de cinema, a cidade de Cannes é estelar.

IDEIA 86 – FILMES FEMINISTAS – Ah, pensaram que eu ia dizer que era uma ideia de jerico? Pois a pensar morreu um burro. Dorothy Arzner descreveu mulheres independentes e fortes (e nem todas bigodudas) em The Wild Party (1929), Christopher Strong (1933) e Dance, Girl, Dance (1940). A audiência de Hollywood nos anos 50 era predominantemente feminina, ainda que na indústria as chefias fossem todas ocupadas por marmanjos. Nos anos 70, a doutrina feminista bagunçou o coreto desta assimetria – mas até que ponto as coisas realmente mudaram é uma questão em aberto (não necessariamente de pernas abertas, nos famosos testes do sofá).

IDEIA 97 – CINEMA GAY – Escrito por Christa Winsloe e dirigido por Leontine Sagan, Girls in Uniform (1931) teve um elenco só de mulheres (nem todas parecidas com lançadoras de peso búlgaras) e cenas românticas homossexuais, uma raridade na época. Durante o primeiro século do cinema, a homossexualidade era ilegal na maior parte do mundo (em oito países ainda implica em pena de morte). Consequentemente, a representação de bichas e lésbicas nos filmes mainstream foi praticamente impossível, até a lambança cultural dos anos 60 (68 não se limitou aos 69), que mudaram não apenas o modo como os longas-metragens eram feitos mas também como eram interpretados. Representações caricaturais de gays – por vezes por gays na vida real – foi o preço que volta e meia se pagou para o cinema poder finalmente soltar a franga, o velcro, o calor na bacorinha, etc.


Bravo!
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Ótimo post!