O Transatlântico

SEMPRE TEREMOS PARIS

SAIU NO BRASIL, QUASE SIMULTANEAMENTE, UMA BACIADA DE LIVROS SOBRE PARIS, ATESTANDO QUE O CARISMA DA CIDADE LUZ CONTINUA BOMBANDO. LONDRES OLÍMPICA? SOU PARIS E MAIS DEZ.


- E FORAM TODOS PARA PARIS, DE SÉRGIO AUGUSTO. Hemingway, Picasso, Zelda e Fitzgerald, Josephine Baker, o escambau. Sérgio levantou endereços, montou mapas e itinerários, e saiu em busca de um tempo perdido, com sua Canon analógica e um caderno de notas.


- A HISTÓRIA SECRETA DE PARIS, DE ANDREW HUSSY. Como ladrões, vigaristas, cruzados, prostitutas, santas, déspostas, anarquistas , poetas e sonhadores transformaram um mixuruco povoado gaulês na capital cultural da Europa.


- PRÓXIMA ESTAÇÃO, PARIS, DE LARANT DEUTSCH – A história da cidade através das linhas do metrô parisiense. Durante a II Guerra Mundial, combatentes da Resistência escondiam-se alguns dos seus túneis, enquanto os boches construíam bunkers em outros. Vendeu 1 milhão de exemplares só na França, e virou série de TV.


- PARIS, A FESTA CONTINUOU , DE ALAN RIDING – A vida cultural durante a ocupação nazista, 1940-1944.
Falarei detalhadamente de todos, mas os últimos serão os primeiros – começo pela obra de Alan Riding, que parafraseia Paris é Uma Festa, a boca no trombone de Hemingway sobre os anos 20. A ocupação da França pelos jagunços hitleristas é um tema atraente, precisamente por pisar inevitavelmente num monte de calos ilustres. Esta monografia não tem a densidade conceitual de Passado Imperfeito, de Tony Judt, nem a abrangência macroscópica de Le Siècle Les Intelectuells, de Michel Winock. Em contrapartida, prodigaliza uma pesquisa exaustiva e calibrada, digna de um excelente jornalista cultural.
Vou me ater ao âmbito dos escritores (Riding percorre o teatro, as artes visuais, a música, o cinema, escambau). Não é que todos os literatos tenham dado mole para ocupantes (houve honrosas exceções), mas praticamente todos acabaram se resignando ao truísmo de que “a vida continua.”
Como anotou impiedosamente em seu diário o autor Jean Guéheno: “O homem de letras não está entre as espécies humanas mais nobres. Incapaz de viver na obscuridade por muito tempo, ele venderia a alma para ver seu nome grafado em letras de imprensa. Alguns meses de silêncio e de invisibilidade e ele entrega os pontos, impossibilitado de resistir. Ele só consegue lutar para defender a própria importância, o tamanho da leta em que seu nome será impresso e a posição que ele ocupará no sumário. Nem é preciso acrescentar que ele se julga cheio de boas razões. É preciso zelar pela continuidade da literatura francesa’, argumenta, acreditando que ele é a literatura francesa, o pensamento francês, e que estes não sobreviveriam sem ele.” Bidu.


(Galácticos: no estúdio de Picasso, Sartre, Simone de Beauvoir, Camus – acariciando o cachorro -, MIchel Leiris e outros menos votados)

A seção mais palpitante do livro é aquela sobre a “depuração” – o julgamento e a punição do “colaboracionismo” depois da libertação – o capítulo é sugestivamente intitulado “Vingança e Amnésia”. Proverbialmente, os mais assanhados foram o casal de pombinhos Sartre e Simone de Beauvoir. Durante a ocupação, esta publicou o seu primeiro romance. E foi suspensa do cargo de professora em junho de 1943, por “incitar um menor ao deboche” – mais especificamente, por seduzir uma de suas alunas, Nathalie Sorokine, cuja mãe prestou queixa. Em fevereiro de 1944, Beauvoir apresentou uma série de programas sobre a história do music hall na Radio Vichy. Quanto a Sartre, estreou duas peças sob a Ocupação – As Moscas e Entre Quatro Paredes. Mais tarde, vendeu seu peixe sobre a sua proeminente “resistência.”, e tanto o zarolho quanto a fulana de turbante brandiram seus indicadores de alabastro contra “colaboracionistas” – passaram a régua até dizer chega, muitas vezes ganhando no grito.
Nos processos, vira e mexe prevaleceu mais a dor de cotovelo e a rivalidade do que fatores objetivos. Assim, Jean Cocteau, que tinha as cortas quentes, passou batido (apesar de ser figurinha fácil nos saraus alemães em Paris, onde deitou e rolou), enquanto que Sacha Guitry se estrepou: foi julgado e preso. Aliás, como destacou mais tarde o embaixador alemão em Paris, Otto Abetz: “Não me recordo de casos em que um intelectual francês tenha recusado convite para uma recepção na embaixada alemã em Paris”.


(Brasillach no tribunal: “Um colete à prova de balas, por favor.“)
O caso Robert Brasillach foi o mais delicado. Escritor admirado, denunciara pessas que acabaram presas ou deportadas. Durante o seu julgamento, Paul Claudel, Paul Valéry e François Mauriac publicaram cartas de apoio a Brasillach. Albert Camus esgrimiu com Mauriac, o qual ponderava que “num mundo de crueldade implacável, a ternura e a misericórdia humanas não podiam ser descartadas.” Camus respondeu na lata: “Quanto aos expurgos, sempre que falei em justiça o ser. Mauriac falou em complacência. E a virtude da complacência é bastante singular, pois, ao exigir justiça, dei a impressão de advogar o ódio. Se ouvirmos o sr. Mauriac, teremos de fato a impressão de que, nessas cotidianas, é absolutamente essencial escolher entre o amor de Cristo e o ódio dos homens.
No último minuto, porém, Camus arregou: se juntou ao abaixo-assinado dirigido a De Gaulle, pedindo clemência e a revogação da sentença de fuzilamento. O general rejeitou o pedido e o escritor foi executado.
Camus justificou assim sua mudança de posição: “Pedimos indulgência por começarmos hoje com um fato básico: não resta a menor dúvida a respeito do expurgo do pós-guerra, que não só fracassou na França como está completamente desacreditado. A própria palavra ‘expurgo’ se tornou incômoda. A atitude atual é odiosa.” Em 1948, ele admitiu que Mauriac tinha razão desde o princípio. Camus era assim: quando via que estava errado, dava o braço a torcer. Coisa rara.


(Pierre Drieu La Rochelle: 30 anos esta noite, e de chapéu na mão)
A condição dos escritores era mesmo singular – para o bem ou para o mal. Como observou Galtier-Boissière: “Na épuration, o jornalista, faminto e miserável, serviu de bode expiatório. As pessoas se esquecem de que alguns deles contavam somente com a pena para sustentar a família, e escreveram apenas textos anódinos. Alguém condenou os operários da Renault por produzir tanques para a Wehrmacht?”. O outro lado da moeda: o autor fascista Drieu La Rochelle, que se suicidou para fugir ao processo, escreveu sobre o intelectual: “Ele tem deveres e direitos superiores aos dos outros.” O próprio De Gaulle parecia subscrever aquela distinção. Nas suas Memórias, ele perorou: “Se os colaboracionistas não serviram ao inimigo direta e entusiasticamente, por princípio comutei suas sentenças. No caso oposto – um único – não senti que teria o direito de perdoar. Pois na literatura, como em tudo, o talento exige responsabilidade.


(Trenet: douce France, bien sûr)
Em outras esferas artísticas, Maurice Chevalier e Edith Piaf passaram raspando – e Coco Chanel bateu na trave e se mandou para a Suíça. Charles Trenet puxou o carro para os EUA – mais por medo de ser dedado como gay do que como colaboracionista.


(Hôthel du Nord, de Marcel Carné, com Arletty – como sempre, não comendo mosca
).
Algumas atrizes do cinema francês foram pitorescamente acusadas de collaboration horizontale – dormir com o inimigo. A mais badalada que caiu nas garras do expurgo foi Arletty, então uma teteia do porte de uma Brigitte Bardot. Era amante de um jovem oficial alemão, bem mais novo do que ela. No tribunal, declarou ao juiz: “Na minha cama, ninguém usa uniforme.” E acrescentou memoravelmente: “O meu coração é francês, mas a minha bunda é internacional.” Cumpriu pena de prisão domiciliar… no castelo de uns amigos. Em 1956, fez parte do júri do Festival de Cannes, aos 58 anos – lampeira como sempre.
Sartre e Beauvoir deixaram Paris em meados de julho de 1944, para três semanas de férias, mas voltaram à cidade antes de a insurreição que culminou na Libertação (os Americanos permitiram que De Gaulle desfilasse primeiro na capital). Por isso, alguns espirituosos ironizaram que “Sartre entrou para a Resistência no mesmo dia da polícia francesa.
Como realça Riding: “Sartre, bem situado, pôde insistir que suas peças eram peças da resistência. Apesar do ínfimo envolvimento com a resistência intelectual, depois da libertação ele apareceu de repente como cronista do calvário francês. Enquanto outros artistas e escritores se debatiam com a épuration, ele se resguardou, reinventando a ocupação como uma espécie de romance trágico. “Nunca fomos mais livres do que sob a ocupação alemã’”, escreveu.” Traduzindo: me engana que eu gosto.
Enfim, é como cornetou o próprio Sacha Guitry: “Não se deve deixar os intelectuais brincar com fósforos.”

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