O Transatlântico

O POETA FASCISTA E O CINEASTA COMUNISTA LEVAM UM LERO

Em 1967, o cineasta Pier Paolo Pasolini entrevistou em Veneza o poeta Ezra Pound (vídeo abaixo). Papearam sobre vanguarda e artes a granel – e o italiano salmodiou versos do poema poundiano The Cantos. Um era comunista e o outro, fascista. Hoje parece difícil entender como artistas proeminentes, mesmo com um acesso galopante de incúria intelectual, subscreveram ideologias totalitárias. No entanto, a verdade é que foram só uns gatos pingados os que escaparam a esse canto das sereias (que no fim eram górgonas).

(Papo cabeça destro e canhoto)

O poeta americano Ezra Pound era um daqueles literatos da cabeça aos pés – e com insaciável fome de bola. Acreditava que obras fajutas destruíram civilizações – ao passo que obras-primas poderiam salvá-las pelo gongo. E, apesar de ser um elitista (no que se refere aquilo que é realmente arte e a quem é de fato artista), considerava que a literatura amplificava em qualquer pessoa o fascínio pela vida.
E não bancava a prima-dona. Claro que caras como Eliot, James Joyce, Yeats, Robert Frost, William Carlos Williams, Hemingway, Ford Madox Ford e Marianne Moore teriam produzido troços interessantes e inovadores mesmo que nunca tivessem visto mais gordo o velho Ezra. Mas que a mãozinha deste lhes quebrou um galhão, nem se discute. Pound editou-os, resenhou-os, publicou-os em revistas, incluiu-os em antologias, apresentou-os a editores e patronos, disponibilizou-lhes o seu tempo, a sua cultura, a sua grana e até umas roupichas em segunda mão. Joyce chamou-o “um milagre de efervescência, gosto e generosidade.” Hemingway, que em Paris é Uma Festa esculhambou quase todo mundo, lambeu o chão que Ezra pisou (é verdade que talvez para contrastá-lo com Wyndham Lewis, a quem espinafrou). Só Gertrude Stein, com sua proverbial peçonha, foi sardônica: “Pound era um preceptor de aldeia – excelente se você fosse uma aldeia (mas se você não fosse, não).”


(Pound detido e fichado no fim da II Guerra, depois de puxar o saco de Mussolini)
A própria obra de Pound, porém, são outros quinhentos. Da famosa exortação poundiana “make it new”, o “it” corresponde à tradição, ao que era valioso para a cultura do passado. Grande parte da poesia dele consiste em tradução, imitação, alusão e citação. Ezra elaborou aquilo que designou por “paideuma”, uma espécie mosaico/palimpsesto (não cânone) que incluía, entre outros, John Adams, Confúcio, Flaubert, os trovadores provençais e o diabo a quatro. Se você não houvesse lido essa gente, podia tirar o cavalinho da chuva, no que concerne a poética poundiana. O que é especialmente verdade no caso do torrencial poema no qual ele ralou durante 54 anos, “The Cantos”.
Outro probleminha na obra do poeta reside no fato de ele ter sido fascista. Como realçou Orwell (a propósito: Pasolini escreveu um poema intitulado 1984), hoje em dia todo mundo xinga tanto todo mundo de “fascista” que o epíteto perdeu qualquer substância. Mas Pound, esse doce de coco de pessoa, era mesmo fascistão. Antissemita que só, caiu de quatro por Mussolini, a quem conheceu na casa deste, em 1927, durante um concerto de Olga Rudge, violinista com quem Ezra deu uns amassos. A partir de então, Pound encasquetou que o Duce era um patrono da vanguarda.
Seis anos depois, numa audiência privada com Mussolini, em Roma, Pound mimoseou o autocrata com um exemplar de “Os Cantos”, que o presenteado agradeceu arrulhando: “Ma aquesto è divertente!” (Que bacana!”). A partir daí, não teve pra ninguém: Ezra decretou que o Duce tinha uma intuição genial para a poesia. Fala sério, vate!
De 1941 a 1943, a guerra rolando solta, Pound pilotou emissões radiofônicas desde os estúdios da emissora oficial italiana, em Roma, espumando contra judeus, Roosevelt, a entrada dos EUA no conflito, e o escambau. Em 1944, ele escreveu (putz!) dois cantos propagandísticos (conhecidos como Italian Cantos e omitidos na edição completa do poema The Cantos), babando ovo para “o espírito agonístico” do Fascismo.


(Hilda, mulher do poeta: sexo que é bom, bulhufas)
Em 1945, os Aliados o prenderam sob a acusação de traição e o encareceram numa jaula em Pisa. Depois, Pound foi enviado para os EUA onde, graças ao apelo de intelectuais, escapou do xilindró. Mas não do confinamento: vegetou doze anos num hospital de Washington, mais ou menos com o rótulo de lelé da cuca. Em 1958, foi anistiado e se mandou de volta para a Itália. Assim que desembarcou em solo italiano, o tratante fez a saudação fascista. É mole?


(Túmulo de Pound na ilha de San Michelle, Veneza: em boca fechada não entra mosquito)
O Fascismo não é mero balangandã na obra de Pound – impregna todo “Os Cantos”. “The Pisan Cantos”, escritos quando estava detido pelos Aliados e na expectativa de ser executado, é uma elegia inspirada pela morte de Mussolini às mãos dos partisans (“Ben and la Clara a Milano/by the heels at Milano”) – e um libelo contra “a indiferença do mundo”. Embolsou o badalado Bollingen Prize de poesia em 1949. Confidencialmente, “The Pisan Cantos” é a coisa mais legal que Pound produziu – a sua única obra onde a erudição se funde com sentimentos pessoais genuínos. Ezra morreu em 1972, em Veneza, com 87 primaveras. Nos seus últimos anos de vida, não deu um pio (literalmente).


(Pasolini batia um bolão – os bons tempos em que o futebol europeu era prosa e o brasileiro, poesia)
Quanto a Pasolini, foi (e é) um dos mais aclamados poetas e cineastas italianos (hoje o cinema italiano – e o europeu em geral – quase pifou). A obra literária dele está suplicando de joelhos uma reavaliação de cabo a rabo, embora Harold Bloom o tenha engastado no seu espaçoso Cânone Ocidental. Pier Paolo era comunista de carteirinha – sua criação reflete uma iconoclastia tão militante que por vezes escorrega na sua antítese: a idolatria. Classificando-se como “ateu místico”, escalou sua própria mãe para interpretar a Virgem Maria em O Evangelho Segundo São Mateus.
Se Pound, que era um amante bundão, compensou pela falta de sexo sua mulher (a escritora Hilda Doolittle) com as inestimáveis dicas literárias, Pasolini foi um gay praticante. Em 1963, ele encontrou “o grande amor de sua vida”, o ator Ninetto Davoli, então com 15 verdejantes aninhos. Não sei se a cama entre os dois foi infinita enquanto durou, mas Davoli continuou vivendo com o cineasta e guarneceu sete filmes deste.
Quase todos os longas-metragens de Pasolini apresentam um veemente teor erótico. Em Teorema, o hóspede (Terence Stamp) de uma família burguesa come o pai e o filho anfitriões. Salò é uma saturnália da libido, e Os 120 Dias de Sodoma celebra um certo marquês sádico. Pasolini acabou por renegar obras como Decameron e Os Contos da Cantuária (proibidos nos EUA e só exibidos no Brasil depois da abertura política), resmungando que foram adulterados pela indústria cultural, que os classificava como pornográficos. Apesar desse “fundamentalismo erótico”, Pasolini era contra o aborto.


(O cadáver de Pasolini no local do crime: picadinho)
Foi assassinado brutalmente em 1975, no aeródromo de Óstia: atropelado várias vezes com seu próprio carro, ficou com rosto esfacelado e o resto do corpo reduzido a um quibe cru. A investigação acusou do crime um garoto de programa, que teria decidido assaltar Pasolini. Giuseppe Pelosi, de 17 anos, foi preso e confessou. Trinta anos mais tarde, retirou a confissão, alegando que sua família fora ameaçada. A polícia romana reabriu o processo, mas, por falta de novos elementos, tudo acabou em pizza.
Em “Querido Diário”, Nani Moretti (vídeo abaixo) prestou uma longa e agridoce homenagem a Pasolini.

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