Outro dia o Telegraph pontificou sobre escritores que foram torcedores inflamados do venerando esporte bretão. Mais aí eu roubei a bola e resolvi extrapolar para um gol de placa. Escalei uma espécie de seleção da FIFA de prosadores – que, no banco, tem o melhor treinador do mundo. É mole?

(O TIME UNIVERSITÁRIO DE CAMUS – ELE É AQUELE QUE ESTÁ ALI)
- ALBERT CAMUS, o craque das letras francesas que morreu em 1960 num acidente de automóvel (se transfigurando no James Dean da pena) foi o único futebolista da história a embolsar o Nobel de Literatura (1957). Ainda dente de leite, fechava o gol do Racing Universitaire, um time universitário da Argélia que faturou a Copa dos Campeões do Norte da África. Uma certa frase de Camus sobre a modalidade reverbera até hoje, inclusive em camisetas e posters: “Tudo o que sei de mais importante sobre moral e dever devo ao futebol”. Nota-se que ele nunca frequentou a CBF.

- SIR ARTHUR CONAN DOYLE – O criador do Sherlock também foi goleiro – do Portsmouth. Jogou sob o pseudônimo de A. C. Smith, e não deixava passar nem pensamento. Como espírita praticante (escreveu livros sobre o tema), Conan Doyle sabia de cor e salteado a importância do Sobrenatural de Almeida.

(NÃO CONVIDEM O AUTOR DE VERSOS SATÂNICOS E OS TALIBÃS PARA A MESMA TORCIDA ORGANIZADA)
- SALMAN RUSHDIE bota banca de torcedor do Tottenham desde criancinha. Em 1999, escreveu um artigo de oito páginas na revista New Yorker (O Jogo do Povo – a Educação de um Fã do Futebol) que continha uma baita abobrinha: que o técnico do Manchester United tinha morrido na queda daquele avião que matou o elenco do time. Não tinha. Enfim, pisou na bola.

(PEITANDO O MUNDO MASCULINO DO FUTEBOL)
- J. K. ROWLING vai ver partidas do West Ham disfarçada (e quando o time perde ela vira um Valdemort e xinga a mãe do juiz). Esse clube aflora no primeiro volume da saga Potteriana, A Pedra Filosofal, e no quarto, O Cálice de Fogo. Quando perguntada nos EUA se realmente se referia ao time inglês, ela resmungou: “Pombas, por acaso esse troço de futebol americano tem alguma equipe chamada West Ham?”

(HORNBY NO ESTÁDIO DO ARSENAL, COM UM EX-CRAQUE DO TIME)
-NICK HORNBY – Tiete imbatível do batível Arsenal, e autor de um dos mais sumarentos livros sobre futebol: Fever Pitch. Um puta cara, um escritor divertidéssimo.

(AMIS: SOU BAMBI MAS NÃO VEADO)
- MARTIN AMIS – Tascou uma sacada bacana e penetrante: “Os intelectuais que curtem futebol vivem num mato sem cachorro – são desprezados tanto pelos intelectuais puros e duros como pelos torcedores comuns, que encaram nosso apreço pelo jogo como afetado, pseudo-proletário e até meio abichalhado.”
Numa entrevista recente em Nova Iorque (onde vive atualmente), Amis chorou as pitangas: “A coisa de que mais sinto saudades da Inglaterra é de um bom joguinho de futebol.” Ué, mas na Inglaterra onde?

- JULIAN BARNES – O vencedor do Booker Prize de 2011 é torcedor do Leicester City desde os tempos da chupeta. Já explicou que “seguir as campanhas do City é o meu jeito especial de me manter ligado ao cenário da minha infância.” Ah, então não é por que ele quer ser campeão invicto. Ah, conta outra, vai!

- IAN MCEWAN – A paixão pelo futebol fez McEwan pagar um mico daqueles. Durante a final da Liga dos Campeões de 2010, entre o Barcelona e o Manchester United, ele vendia seu peixe numa feira literária em Londres. Aí não aguentou: se esgueirou furtivamente para a tenda da Sky Television, afivelou uns óculos 3-D (parecidos com aqueles os jogadores de vôlei de praia usam) e babou ovo diante da classe daquele clássico. Não deu outra: foi filmado, fotografado, etc. e tal. Como se não bastasse, os espanhóis deram um baile nos ingleses.

- GEORGE ORWELL – Orwell era um cara tão legal que, embora tísico (morreu aos 47 anos), fazia o possível para manter o corpo são na mente sã. No quarto do sanatório em que esticou as canelas, tinha uma vara de pescar encostada à parede – para estar disponível quando ficasse bom. No entanto, como era também honesto e perspicaz, escreveu palavras amargas sobre o esporte-rei: “Se quisermos exacerbar a má vontade internacional, basta organizarmos uma série de partidas de futebol entre Judeus e Árabes, Alemães e Checos, Indianos e Britânicos, Russos e Poloneses, etc. – cada jogo assistido por umas 100 mil pessoas. O futebol não tem nada a ver com fair play. Está contaminado pelo ódio, inveja, boçalidade, desrespeito a qualquer tipo de regras e prazer sádico com a violência. Por outras palavras, é a guerra menos os canhões.” Hã, por falar em menos: menos, George, menos.

(SARTRE: MAIS FEIO QUE CARLITO TEVEZ)
JEAN PAUL SARTRE – Sim, o filósofo meteu o bedelho no futebol. E saiu-se com uma frase fenomenal, em plena Critique de La Raison Dialetique: “Em uma partida de futebol, tudo é complicado pela presença do outro time.” Ô, Sartre! Pede pra sair!

(WILDE: MAIS METROSSEXUAL QUE CRISTIANO RONALDO)
OSCAR WILDE – Parece estranho dada sua reputação de bofe, mas a verdade que o divino Oscar mandou bem sobre o esporte bretão, com a verve brilhante de sempre: “O futebol está muito bem para garotas rude, mas não é adequado para rapazes delicados.” E esta: “O rugby é um jogo para bárbaros praticado por cavalheiros. Já o futebol é um jogo para cavalheiros praticado por bárbaros.”

ENRIQUE VILA-MATAS – Macaca de auditório do Barcelona, já declarou que o futebol é a atividade mais inteligente da contemporaneidade. Por outro lado, justificou a carência de grandes romances sobre esse esporte invocando a imprevisibilidade das partidas. Numa FLIP, o catalão deu uma de Galvão Bueno: “O que nos atrai, como torcedores, é o imponderável de cada partida, algo que nenhum escritor foi capaz de captar.” Fale por você, mané.

GUARDIOLA – É, Guardiola! E daí, vai encarar? O futebol está infestado de mentecaptos, mas também tem suas massas cinzentas. Armando Nogueira flagrou Beckenbauer lendo Shakespeare na concentração da Alemanha, na Copa de 70. O argentino Jorge Valdano, campeão do mundo em 1986, escreve melhor do que muito literato emproado, e Menotti, também argentino e campeão mundial em 1978, sabe na ponta da língua parágrafos inteiros de seu autor predileto, Ernesto Sábato. Para não mencionar Tostão, que às vezes mata umas frase de canela mas é praticamente o único cara a conseguir comentar táticas de maneira inteligível e sugestiva. Enfim, todos eles (e mais alguns) refutam aquele epigrama sardônico: “Precisei fazer um transplante de cérebro e então exigi os miolos de um jornalista esportivo. Assim tinha a certeza de que nunca haviam sido usados.”
Pois bem: Josep Guardiola i Sala publicou um livro muito bacana: Mi Gente, Mi Fútbol, uma espécie de autobiografia assaz encantadora (sem falar nas crônicas que escreveu para o El País, durante a Copa de 2006).
Guardiola é tão cultivado que inúmeros escritores catalães (torcedores do Barça, por supuesto) ficaram compinchas dele. Entre eles, o indefectível Vila Matas. Foram apresentados por David Trueba (prefaciador de Mi Gente, Mi Fútbol e irmão do cineasta Fernando Trueba) e, segundo o próprio escritor, quando se encontram só papeiam “de Joyce para cima”. Joel Santana ia sentir-se em casa.