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Clarah Averbuck em São Paulo. “Blogueiro é escritor? Escritor é blogueiro? Blog é um estilo literário?”

 

Revista BRAVO! | Julho/2008

O INFERNO SÃO OS OUTROS (OU COMO OS LEITORES DE BLOGS PODEM TIRAR O SOSSEGO DE UM ESCRITOR-INTERNAUTA)

Os textos que publiquei na rede acabam de inspirar um filme. Sucesso? Talvez, mas o preço que se paga pela exposição online é alto.

POR CLARAH AVERBUCK

Nunca sonhei em ser escritora. Escrever sempre me foi natural. Eu contava histórias antes mesmo de saber escrever, ditando-as para meu pai ou minha mãe — que, por sua vez, lia histórias para mim. Posso dizer que já era uma leitora antes de aprender a ler. Sempre trocava brinquedos por livros; foi natural a preferência pelas humanas às exatas, foi natural começar a escrever e foi natural que aquilo evoluísse e me fizesse seguir o caminho das letras.

Quando era adolescente, apareceu a internet. Eu, que arriscava poeminhas e continhos na máquina de escrever elétrica do meu pai, descobri que era possível publicar. Até então eu nem pensava nisso; o barato mesmo era escrever. Em 1996, aos 17 anos, tive o primeiro texto publicado na naotil, revista digital de Porto Alegre, onde nasci. Depois veio o CardosOnline (COL), mailzine que criou/revelou novos escritores como Daniel Pellizzari e Daniel Galera. Falávamos das nossas vidas, das nossas bebedeiras, e dávamos nossas opiniões de pessoas de quase 20 anos. Publicávamos o que bem entendíamos, de poemas de amor a ficção, de resenhas a teorias mirabolantes e artigos e delírios. Cinco mil assinantes e três anos depois, estávamos todos com vontade de ir cada um para o seu lado. Fomos. O COL terminou.

Era setembro de 2001, eu já morava em São Paulo, estava escrevendo meu primeiro livro, o romance Máquina de Pinball, e queria continuar publicando textos na internet. Eis que um amigo apareceu com uma incrível novidade: o blog. Assim nasceu o brazileira!preta, um dos primeiros blogs do país. Eu não pensava em quantas pessoas teriam acesso àquilo; naquela época ainda não dava para ter noção disso, era tudo muito novo. Era, para todos os efeitos, uma espécie de diário literário, onde usava a minha vida como matéria-prima dos textos que escrevia e publicava lá. Sempre acreditei que, a partir do momento em que uma história foi escrita, não importa se é fato ou ficção, é uma história que está lá para ser lida, seja em um blog ou um livro de 1874. Inúmeros autores usam a vida como matéria-prima sem soar como diário, e era essa a linha que eu seguia, e sigo, em meus livros ou na rede,sem me preocupar com o julgamento alheio. Aliás, nunca abri espaço em meu blog para comentários dos internautas. Pela minha experiência no COL, já sabia que muitas pessoas não resistiam a dar palpites, às vezes agressivamente, às vezes confessando coisas que eu não queria saber sobre suas vidas. Eu não estava perguntando nada, estava apenas escrevendo. A facilidade de contato com um autor que publica na internet e está ao alcance de um dedinho no link torna o ato de opinar muito fácil. Fácil demais. O escritor fica tão próximo que é irresistível para algumas pessoas despejar lixo na caixa de email do pobre autor. Ainda mais com a possibilidade do anonimato, o refúgio do covarde.

Parece também difícil para alguns leitores separar o autor do personagem que ele automaticamente se torna quando expõe parte de sua vida. O leitor de blog tende a achar que sabe tudo sobre o autor e que tem o direito de responder com a mesma intimidade que sente quando lê. Sempre achei curiosas as reações exacerbadas de amor, ódio ou repulsa que ouvia sobre o brazileira!preta. Afinal, era uma página que precisava ser acessada por livre e espontânea vontade, um espaço público, mas meu, o que é diferente de abrir uma revista ou jornal e encontrar algo que não seja do seu gosto. Era preciso querer entrar lá e ler para desagradar-se. Se você entra em um lugar por escolha sua e o lugar não lhe apetece, é só dar a meia-volta e ir embora. Só que nunca foi assim. Era como se eu não tivesse o direito de escrever aquelas coisas. “Mas você não pode achar isso!” Ah, posso.

A necessidade de informar o autor sobre o que o sujeito pensou a respeito desse ou daquele post parecia ser vital para grande parte das pessoas que acessavam meu blog. Tanto para expressar identificação e comoção quanto para dizer que eu estava pensando tudo errado e era uma idiota sem metade de um cérebro no crânio. Aprendi, então, a ser mais hermética em meus posts, talvez expondo um pouco menos dos fatos, para evitar possíveis pitacos sem fundamento na minha vida. E com o hermetismo veio outra reação: cada um entendia uma coisa. A confusão aumentava.

Alguns até achavam que era uma mensagem direta a eles.
Que, friso, eu não fazia idéia de quem eram. Ou seja, quando tentei afastar a escrita dos fatos, alguns leitores sentiram-se ainda mais próximos e passaram a praticar a arte da invasão. Já fui seguida na rua, ameaçada cara a cara e assediada por gente que eu nunca tinha visto. O fascínio pela vida alheia (a minha!) e a possibilidade de tentar interferir no curso das coisas estavam saindo de controle.

Isso tudo antes de Máquina de Pinball ser publicado. Comecei a escrevê-lo antes de saber da existência dos blogs. Quando criei o meu, achei que seria uma boa idéia divulgar trechos do livro na internet para despertar a curiosidade dos leitores. Funcionou, mas criou ainda mais uma confusão: até hoje acham que o livro originou-se do blog. Em 2002, quando Máquina de Pinball saiu, o mote de todas as matérias sobre o romance era o brazileira!preta e a internet como algo fundamental na trajetória de um autor jovem. Lá estavam minha foto no jornal e resenhas e reportagens e entrevistas. Eu lidava com tudo isso da mesma forma que lidava com emails de leitores: era a opinião de alguém. Pouco me importava se era um jornalista ou um dentista. Era a minha maneira de não me deixar atingir por quem quer que fosse.

O blog e o livro eram coisas distintas, mas eu mesma estava confusa com o que ocorria, com a mistura de vida, literatura e toda a exposição. Nessa época começaram as questões: existe literatura de blog? Blog é um diário? Seu livro é um diário? Seu livro é um blog? Você é escritora ou blogueira? Blogueiro é escritor? Escritor é blogueiro? Blog é um estilo literário? etc. Eu não queria pensar naquilo. Se fosse pensar demais e responder a todas aquelas perguntas, não escreveria com a mesma espontaneidade. Respondia com muitas negativas, deixava as considerações para os outros e tentava continuar, já com uma sensação de que escrever em blog não era mais tão legal quanto antes. E foi ficando menos e menos divertido. Pela primeira vez comecei a pensar em quem estava me lendo e na expectativa que cada novo post criava. E fui perdendo a vontade de alimentar todas essas coisas. Eu tinha uma vida, afinal, tinha uma filha, tinha trabalhos para entregar e contas chegando debaixo da porta. Fui parando de postar até que um dia, após semanas de silêncio, resolvi matar o blog. Ele ainda está lá para quem quiser ler, mas simplesmente fiquei sem vontade de continuar.

A essa altura, já tinha mais dois livros publicados, Das Coisas Esquecidas atrás da Estante, de 2003 — esse sim, um livro de blog, uma coletânea dos posts do brazileira!preta —, e Vida de Gato, de 2004, meu segundo romance. Três livros em três anos. Achei que, parando de escrever no blog, teria alguma paz, mas minha caixa de e-mails era diariamente inundada por mensagens pedindo para voltar com o blog e cobrando um novo livro. Cobrando um novo livro! Não era suficiente um livro por ano de uma pessoa com 25 anos de idade?
Eu não queria escrever outro livro. Não naquela hora. A pressão me fez ter ainda menos vontade de contar qualquer história. Queria tempo para digerir o que tinha feito, para digerir a minha própria obra, contemplar o que tinha feito e ver se gostava. Nunca parei de escrever, cheguei até a ter um blog secreto, coisa que não consigo explicar. Se ninguém lia, por que eu precisava de um blog? Por que não escrever em um arquivo de Word e manter numa pastinha no meu pessoal & intransferível computador? Não sei. Só sei que era assime que só eu acessava o blog e lia meus textos e crises.

Tão logo Máquina de Pinball saiu, recebi um e-mail do cineasta Murilo Salles querendo comprar os direitos. Eu morava em um apartamento emprestado, não ganhava quase nenhum dinheiro e nem pensei em dizer não. Foi um longo processo de negociação, e ele acabou comprando também os textos do blog e um trecho do Vida de Gato. Tudo isso resultou no filme Nome Próprio, protagonizado por Leandra Leal.

É uma livre adaptação, livre demais para o meu gosto, livre inclusive de um dos pilares da minha literatura, o sarcasmo.Mas não conheço nenhum autor que tenha ficado satisfeito com uma adaptação. A Camila do Murilo é muito diferente da minha e de mim. Ela quer demais escrever, quer ser escritora, quer porque quer. E tem a epifania de juntar todos os textos de seu blog para fazer um livro. Pronto: mais confusão para o meu lado. Os textos que a Camila escreve no filme também não são meus, ou quase não são meus. São adaptações ou textos originais escritos pelos trocentos roteiristas que fizeram parte do processo do filme.

Posso até julgá-lo um bom filme, com uma grande atuação, mas, como adaptação da minha obra, muita coisa me incomoda. Ainda estou digerindo Nome Próprio. De uma coisa, no entanto, eu já sei: aquele não é “o meu filme”. Meus são os livros e os blogs. Depois de dois anos, venci a repulsa e voltei a ter um blog conhecido, o Adiós Lounge, muito diferente do primeiro — porque eu estou diferente, porque a internet está diferente, porque os blogs estão diferentes e não são mais considerados apenas diários, mas, finalmente, uma ferramenta para publicação. E, ainda assim, sei que preciso criar uma distância de tudo que faço, por mais pessoal e meu que seja. Sem essa distância ninguém sobrevive.

CLARAH AVERBUCK é autora dos romances Máquina de Pinball e Vida de Gato.

O FILME
Nome Próprio, de Murilo Salles. Com Leandra Leal e Milhem Cortaz.
Estréia prevista para 18/7.

 

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