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Wong Chi (Wei Tang) e Yee (Tony Leung) em cena de Desejo e Perigo. Relação ambígua entre amantes é um atrativo do filme

 

Revista BRAVO! | Julho/2008

A VIOLAÇÃO DA HISTÓRIA

“Desejo e Perigo”, de Ang Lee, é ao mesmo tempo um thriller eletrizante e uma reflexão primorosa sobre a ocupação japonesa na China

POR ANDRÉ NIGRI

 

Há anos, o diretor Ang Lee vinha se interessando pelo recrudescimento do patriotismo chinês, alimentado pelo crescimento econômico — e, mais recentemente, pela Olimpíada de Pequim. Nascido em Taiwan, Lee, se tornou uma grife do cinema mundial e acabou se afastando de temas chineses, mas não da sua constante obsessão pela identidade do país. Depois do sucesso de Brokeback Mountain, ele finalmente retorna às origens em uma das melhores estréias do ano, Desejo e Perigo.

Para refletir sobre a euforia patriótica chinesa, Ang Lee baseou seu filme em um conto da escritora chinesa Eileen Chang, escalou uma série de atores conhecidos na Ásia e revelou uma atriz espetacular, Wei Tang. Ela dá vida à jovem estudante Wong Chia Chi, abandonada pela família depois da ocupação japonesa na China. Na Universidade de Xangai, ela se junta a um grupo de teatro que encena peças patrióticas. Mas a companhia logo dá lugar a ações de resistência visando enfraquecer o governo colaboracionista chinês. Wong ganha outra identidade, torna-se uma elegante senprecário hora e se aproxima do círculo de amizades do principal colaboracionista de Xangai, Yee, em interpretação primorosa de Tony Leung — estrela do cinema asiático e ator favorito de outro grande cineasta, Wong Kar- Wai. O objetivo é matar o traidor. Acabam fracassando. (Não se está contando o final. O filme ainda não chegou à metade.)

O grupo se desfaz para se reencontrar três anos depois, em 1942, em Hong Kong, então enclave britânico também sob ocupação japonesa. O envolvimento da jovem com o colaboracionista se estreita, e eles se tornam amantes. Nesse momento, o filme de Lee ganha uma força raramente vista no cinema hoje. A violência e a luxúria das cenas de sexo tornam-se os principais elementos do quadro, cuja moldura é a delicada fase histórica da China. A inexperiente Wong é violentada em sua primeira vez com Yee. Uma primeira leitura associaria essa violação à arbitrariedade das ações japonesas em território chinês. Poderia ser assim caso não fosse um filme de Ang Lee. Uma das marcas mais fortes de seu cinema é a ambigüidade. Wong e Yee mantêm um senprecário equilíbrio entre confiança e incerteza, ao passo que se desejam cada vez mais. A metáfora da relação ambígua entre dominador e dominado — que no filme assume um tom aparentado a uma obra prima da literatura, O Americano Tranqüilo, do inglês Graham Greene — desenha-se com sutileza, a ponto de humanizar um personagem odioso como Yee.

A ocupação japonesa na China é um dos períodos históricos mais rechaçados pela China moderna. Não à toa, Ang Lee, embora popular, é alvo de censuras do governo de Pequim. Trata de um dos maiores e mais corajosos diretores da atualidade.

O FILME
Desejo e Perigo (2007), de Ang Lee. Com Tony Leung, Joan Chen e Wei Tang, entre outros. Estréia prometida para este mês.

VEJA TAMBÉM
Brokeback Mountain, do mesmo diretor. A história de amor entre dois caubóis nos Estados Unidos.

 

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