
Revista BRAVO! | Agosto/2008
Thais Rivitti
Desde o dia 26 de junho, a paisagem da cidade de Nova York não é a mesma. Quatro cachoeiras artificiais, medindo entre 27 e 36 metros de altura, caem de andaimes de alumínio com base de concreto e deságuam em pontos estratégicos do East River: embaixo da ponte do Brooklyn, no píer 35, entre os píers 4 e 5, e próximo à estação de?trem Governors Island. Maior obra pública já feita pelo artista dinamarquês Olafur Eliasson, de 41 anos, as impressionantes quedas-d'água, que custaram cerca de US$ 15,5 milhões e foram bancadas principalmente pela iniciativa privada, não prejudicam nem poluem o ecossistema local. Funcionam com bombas de energia renovável e usam a própria água do rio, puxada do leito e devolvida na seqüência a seu curso. Assim, com um elemento natural, Eliasson desestabiliza um dos cenários-símbolo da urbanização.
As reações às cachoeiras têm cumprido com a expectativa de seu criador. Se na pressa do dia-a-dia os nova-iorquinos já nem enxergavam o rio que corta a cidade, depois das intervenções sua presença se impõe sem sutilezas. Os organizadores da mostra The New York City Waterfalls, em cartaz até o dia 13 de outubro, oferecem também um passeio de barco e um roteiro de bicicleta para que os visitantes observem melhor as obras. Quem topa sair por alguns minutos de seu carro, do táxi ou do metrô com toda certeza experimenta uma interação com a cidade pouco comum, para não dizer inédita. Na inauguração do trabalho, Eliasson disse: "Uso um espaço para avaliar nossa relação com ele".
Não é a primeira vez. Em 2000, Olafur Eliasson, que cumpria um programa de residência para artistas em Estocolmo, viajou para a Alemanha atrás de um pigmento vermelho. A volta à capital da Suécia deu-se entre um misto de excitação e suspense: "Colorir o rio de Estocolmo era algo que eu simplesmente tinha que fazer. Depois da viagem, eu tinha pigmento suficiente comigo para tingir toda a extensão do rio no centro da cidade. Não era um projeto oficial, então eu tive que agir bem rápido", contou o artista na época para o curador Hans Ulrich Obrist. Numa sexta-feira, a uma e meia da tarde, Eliasson subiu numa ponte com uma sacola cheia de pó vermelho. Hesitou por um momento, mas acabou esvaziando o saco pelo parapeito da ponte: "O vento fez com que surgisse uma enorme nuvem vermelha. Eu podia ver as pessoas que estavam de carro diminuindo a velocidade para observar a nuvem em cima do rio, como uma mancha de gás. Quando ela entrou em contato com a água, de repente, o rio ficou verde".
A ação em Estocolmo integra uma série, intitulada Green River, que já tingiu com corante não poluente os rios de cidades como Bremen e Los Angeles. Tudo sempre em nome da vontade do artista de tornar a cidade novamente visível para seus habitantes. Na mesma entrevista ao curador Hans Ulrich Obrist, publicada no exterior na forma de um livro, Eliasson explicou: "Muitas pessoas vêem o espaço urbano como uma imagem externa com a qual eles não têm a menor conexão, nem mesmo física". Com as cachoeiras em plena cidade ou os rios verdes, essa relação volta a acontecer.
Um iglu no Brasil
O público brasileiro pode conferir o trabalho do artista no Inhotim Centro de Arte Contemporânea, localizado nos arredores de Belo Horizonte, em Minas Gerais. By Means of a Sudden Intuitive Realization, idealizado em 1996, é parte de uma coleção particular e foi montado ao ar livre, para exposição permanente. Sua estrutura branca de fibra de vidro forma uma espécie de semicírculo, que lembra um iglu. De seu interior, um mecanismo espirra para fora um fio d'água de aproximadamente 1,70 metro de altura. Iluminado por uma luz estroboscópica, o jato causa instabilidade na visão: a água está mesmo lá ou tudo não passa de um efeito? Apresentada pela primeira vez na exposição Manifesta 1, em Roterdã, na Holanda, a obra reúne dois elementos recorrentes na produção de Eliasson: a água e a luz. Se o jato d'água iluminado mais parece um feixe de luz, a própria luz intermitente remete à chuva, em um jogo de percepção.
O envolvimento ativo do espectador é uma característica do artista que também estava presente no trabalho apresentado na 24ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1998. Na primeira vez que os brasileiros viam uma obra sua de perto, Eliasson mostrou The Very Large Ice Floor, uma pista de gelo no andar térreo do pavilhão do parque do Ibirapuera. Quem costumava freqüentar o endereço para andar de patins e skate aos poucos tomou coragem para testar a proposta do dinamarquês, colocada lá para ficar à disposição das pessoas mesmo. Sobre a pista, a curadora Marianne Jansen escreveu no catálogo da grande exposição paulistana: "A natureza é a imagem refletida da humanidade". De novo, Eliasson chamava a atenção do público para elementos naturais que estão sempre presentes na nossa rotina, mas são curiosamente esquecidos. Com obras nos acervos dos principais museus do mundo, entre eles o Guggenheim de Nova York e a Tate de Londres, o artista, que agora vive em Berlim, figura entre os principais nomes da arte contemporânea. É dele a bandeira contra essa espécie de cegueira que desenvolvemos com relação ao nosso entorno.